Walter Barelli foi o intelectual mais importante vinculado ao movimento sindical brasileiro durante a ditadura militar. Nascido em 25 de julho de 1938 em São Paulo, Barelli vinha de uma típica família operária de origem italiana. Sua mãe foi tecelã e seu pai, mecânico de manutenção da Nitro Química, grande indústria do bairro de São Miguel Paulista, onde Barelli viveu sua infância. Os laços com a classe trabalhadora permaneceriam por toda sua vida.

Ainda adolescente, tornou-se funcionário do Banco do Brasil o que acabou estimulando-o a prestar vestibular para Economia na Universidade de São Paulo. Na USP, no início dos anos 1960, Barelli começou a militar na Juventude Universitária Católica (JUC) e aproximou-se da Ação Popular (AP).

O golpe militar de 1964 atingiu violentamente as organizações dos trabalhadores, dentre elas o DIEESE, o Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Sócio-Econômicos. Fundado em 1955 por sindicalistas paulistas, o DIEESE logo firmou-se como o mais importante órgão de assessoria econômica do sindicalismo. Não por acaso, o órgão seria quase desativado logo após o golpe. Aos poucos foi retomando suas atividades e ainda se encontrava em situação bastante precária, quando em 1966, a convite da socióloga Heloísa de Souza Martins, o jovem economista Walter Barelli lá começou a trabalhar. Pelas duas décadas seguintes, Barelli seria a alma do DIEESE e o principal responsável por torná-lo a mais respeitada instituição do sindicalismo brasileiro. 

Competente, humanitário e conciliador, Barelli navegava com habilidade pelas várias correntes políticas que povoavam o movimento sindical durante a ditadura. Conseguia, por exemplo, ser ao mesmo tempo amigo pessoal de Joaquinzão, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo, tido como “pelego”, e muito respeitado pelos aguerridos dirigentes da Oposição Metalúrgica paulistana.

Alçado ao cargo de diretor-técnico do DIEESE, Barelli investiu fortemente na relação direta com os principais sindicatos paulistas. O DIEESE passou a ter um papel chave no assessoramento, formação sindical e, principalmente nos processos de negociação coletiva com os empresários. Nas assembleias sindicais ao longo da década de 1970, não era incomum encontrar o alto e corpulento técnico do DIEESE explicando diretamente aos trabalhadores os cálculos de reajuste salarial e sobre  a inflação. Tal ativismo não passou despercebido pela repressão ditatorial. O DOPS monitorava cotidianamente as atividades de Barelli e do DIEESE. Em 1979, já nacionalmente conhecido e respeitado, chegou a ser preso pela polícia política, o que causou protestos generalizados e indignados, obrigando o DOPS a um constrangedor pedidos de desculpas pelo “lamentável engano”.

No auge da tecnocracia econômica ditatorial, Barelli foi uma poderosa voz em favor de uma “economia para os trabalhadores”. Teve um papel fundamental na denúncia do caráter concentrador de renda do “milagre econômico”. Sua revelação da manipulação pelo governo dos índices inflacionários de 1973, reconhecida pelo Banco Mundial em 1977, traria notoriedade e angariaria respeito acadêmico e político. Mais importante ainda, o ataque à manipulação dos índices da inflação foi um dos motores das campanhas salariais de 1977 e 1978, que deram início ao ciclo de greves e lutas sociais que mudaram o sindicalismo brasileiro e recolocaram os trabalhadores no centro do processo de redemocratização do país.

A proeminência sindical no final dos anos 1970 e na década de 1980 alçou o DIEESE à condição de instituição reconhecida e respeitada no cenário político brasileiro. Walter Barelli tornou-se renomada figura pública, cuja opinião reverberava na mídia e nos meios políticos e empresariais.  O DIEESE cresceu e nacionalizou-se. Criou seções em quase todos os estados e nos principais sindicatos do país. Consolidou metodologias de medição de índices inflacionários, de desemprego, de valor do salário mínimo, entre outras, que se tornaram referência e rivalizavam, muitas vezes superando em qualidade, os cálculos de instituições consolidadas como o IBGE e a FGV. Durante o processo constituinte, o DIEESE teve papel importantíssimo, assessorando as centrais sindicais e outras organizações na construção de políticas trabalhistas e sociais que forjariam muito do que há de melhor em termos de direitos para os trabalhadores na Constituição de 1988.

Barelli deixaria a coordenação técnica do DIEESE no início dos anos 1990. Passou a lecionar no Departamento de Economia da Unicamp, onde anos depois, ajudaria a consolidar o CESIT (Centro de Estudos Sindicais de Economia do Trabalho). Simultaneamente, foi um dos coordenadores na área de economia do “governo paralelo” criado por Lula após as eleições de 1989.

Quando Itamar Franco assumiu a presidência, após o impeachment de Fernando Collor em 1992, Barelli foi indicado para o Ministério do Trabalho. Durante dois anos, abriu amplas negociações com entidades de trabalhadores e empresários na tentativa, ao final frustradas, de construir um novo sistema de contrato coletivo de trabalho nas relações trabalhistas. Também capacitou o Ministério em ações de combate ao trabalho escravo que se tornariam uma importante política pública nos anos vindouros. No processo de formulação do Plano Real teve numerosos atritos com Fernando Henrique Cardoso, como a defesa de um salário mínimo de US$100, repudiada pelo então ministro da Fazenda.

Com a eleição de Mario Covas como governador de São Paulo, Barelli foi, por duas gestões, Secretario de Emprego e Relações de Trabalho. Também foi suplente de deputado federal pelo PSDB, assumindo o mandato entre 2005 e 2007. Apesar da filiação tucana, manteve relações de proximidade, amizade e respeito com o movimento sindical e com diversos setores do PT, inclusive com o ex-presidente Lula. No final daquela década, voltou a lecionar na Unicamp, onde se aposentou.

Em abril deste ano, Barelli sofreu um acidente ao cair numa escada no Instituo Tomie Ohtake em São Paulo. Seriamente ferido, ficou internado durante três meses, vindo a falecer no último dia 18 de julho. Certa vez, numa crítica à ditadura, afirmou “A classe operária é muito mais digna do que os governantes”. Poucos intelectuais foram tão dignos na defesa da classe trabalhadora quanto Walter Barelli.

Paulo Fontes
Professor do Instituto de História da UFRJ e Coordenador do LEHMT

Crédito da imagem de capa: Jonne Roriz/AE/VEJA




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