João José Reis
Professor do Programa de Pós-Graduação em História da UFBA

O porto de Salvador destacou-se, desde o final do século XVII até meados do século XIX, entre os mais movimentados da bacia atlântica. No início do século XVIII figurava como o mais movimentado da orla ocidental do oceano. Tome-se, por exemplo, o tráfico de escravos, um dos mais importantes negócios do mundo ao longo dos quatro séculos desde a fundação da cidade, em 1549, até meados do século XIX. Pois bem, a Bahia foi responsável pela importação, principalmente através do porto de sua capital, de cerca de 15% dos cerca de 11 milhões de africanos traficados para as Américas, e de 33% dos quase cinco milhões embarcados para o Brasil. No caso das exportações, do porto de Salvador  partiam o açúcar produzido nos seus engenhos, além de outros produtos de como fumo, algodão, couros, entre outros. Além disso, recebia por mar passageiros e a produção de alimentos vindos das numerosas localidades do litoral baiano e de outras partes do Brasil.

Salvador era, então, uma cidade-porto e sua economia girava em torno de seu ancoradouro. Até a reforma do porto, na segunda década do século XX, os navios de grande calado não chegavam até o cais. Eles ancoravam ao largo e as mercadorias eram embarcadas e desembarcadas por meio de barcos menores manejados por marinheiros negros, na sua maioria africanos escravizados e libertos.

Esses barcos, ao alcançarem o ancoradouro, tinham suas cargas retiradas por carregadores igualmente negros, que as levavam para os diversos destinos na cidade. Esses trabalhadores eram chamados de ganhadores porque viviam do ganho, o trabalho urbano de rua.

Quando escravizados, dividiam a remuneração do ganho com seus senhores a uma taxa combinada que deveria ser paga a cada semana. Quando libertos ou livres, os ganhadores mantinham para si todo o valor auferido do seu trabalho.

Os ganhadores eram, até meados do século XIX, africanos na sua quase totalidade. Eles se reuniam em grupos chamados cantos, espalhados por toda a cidade, para oferecer serviços como carregadores de todo tipo e volume de objetos, além de transportar passageiros nas chamadas cadeiras de arruar, que eram conduzidas por dois ganhadores. Os cantos tinham uma liderança própria, os capitães do canto, responsáveis por negociar os fretes e manter os seus liderados em ordem. Cada grupo reunia os de sua própria nação africana (nagôs, jejes, angolas etc.), embora alguma mistura se desse, sobretudo a adesão de membros de nações menos numerosas. E estas, aliás, contavam com um grande número de cantos.

Na sua maioria os cantos de trabalho estavam localizados no bairro portuário de Salvador, que equivalia à freguesia da Conceição da Praia, onde se encontra a igreja com o mesmo nome. O local é também conhecido como Cidade Baixa, cujo marco maior é hoje o elevador Lacerda. Um grande número de cantos se reunia precisamente no cais do porto, e em torno das diversas escadas existentes no embarcadouro. Essas escadas podem ser consideradas o mais importante marco territorial desses grupos de trabalhadores na região portuária. Assim como os cantos, elas podiam ser identificadas pelos nomes dos cais a que serviam: Cais do Sodré, Cais Dourado, Cais de Cachoeira, Cais do Comércio,  e assim por diante. Vale salientar que, em muitos casos, cada cais (ou cada escada) abrigava diversos cantos de ganhadores, que provavelmente se revezavam no serviço do carrego. É possível observar em fotografias da época a grande atividade que girava em torno dessas escadas, sugerindo a intensa vida social dos cantos de ganhadores no porto de Salvador.

A relevância dos ganhadores para o funcionamento da capital baiana foi dramaticamente exposta quando eles resolveram suspender os trabalhos por mais de uma semana em junho de 1857. Organizada pelos cantos, a paralização foi motivada por uma lei municipal que obrigaria os ganhadores a se matricular junto à Câmara Municipal, pagar um pequeno imposto de serviço, usar uma placa de ferro ao pescoço com o número da inscrição municipal, e os libertos seriam compelidos a encontrarem cidadãos idôneos que afiançassem  sua conduta passada e futura.

O movimento parou a cidade. Nenhuma mercadoria era desembarcada, nenhum volume transportado nas costas de negros do porto para os armazéns e lojas, nenhum passageiro carregado em cadeiras de arruar. O ancoradouro da cidade foi sem dúvida o epicentro da parede grevista, uma vez que a maior parte do abastecimento da população passava por lá.  Apesar de sugerida pela imprensa, a greve não pôde ser reprimida porque o governo não se dispôs a invadir casas para obrigar os ganhadores a retornarem ao trabalho, manobra que seria complicada no caso dos escravos, maioria entre eles, pois implicaria na invasão de casas senhoriais. A paralisação logrou abolir temporariamente o imposto e suspendeu a obrigatoriedade de os libertos apresentarem fiança, bastando agora uma declaração de nada consta emitida por uma autoridade policial. Foi mantida a chapa, mas, antes paga, seria agora gratuita. Esta medida fora a que mais ultrajou os ganhadores, que a consideravam um ultraje à sua dignidade, motivo aliás pelo prolongamento da paralisação.

Fica assim explicado porque o velho ancoradouro de Salvador, sobretudo suas escadas, hoje soterradas pela construção do novo porto, entre 1911 e 1913, representa um importante lugar de memória dos trabalhadores na capital da Bahia. Antes e depois das obras, o porto se manteria, já no período republicano, como o local mais relevante de mobilização operária, pois marítimos, doqueiros, estivadores e carregadores figuram como os trabalhadores que mais greves fizeram entre 1890 e 1930.












Na década de 1880, a reunião de ganhadores africanos e brasileiros já era a norma nos cantos do cais do porto de Salvador

Fotógrafo desconhecido. New York Public Library, Brazil Collection, 1860-1900.


PAra saber mais:
  • ANDRADE, Maria José de Souza. A mão de obra escrava em Salvador, 1811-1860. São Paulo: Corrupio, 1988.
  • COSTA, Ana de Lourdes Ribeiro da. “Espaços negros: ‘cantos’ e ‘lojas’em Salvador no século XIX”. Cantos e toques: Suplemento do Caderno CRH (1991), pp. 23-37.
  • MATTOS, Wilson Roberto de. Negros contra a ordem: astúcias, resistências e liberdades possíveis (Salvador -BA, 1850-1888). Salvador: Eduneb; Edufba, 2008.
  • REIS, João José. Ganhadores: a greve negra de 1857 na Bahia. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
  • SAMPAIO, Consuelo Novais. 50 anos de urbanização: Salvador da Bahia no século XIX. Rio de Janeiro: Versal, 2005.

Crédito da imagem de capa: Cais das Amarras, Porto de Salvador, por volta de 1885. Fotógrafo: Rodolpho Lindemann.


Lugares de Memória dos Trabalhadores

As marcas das experiências dos trabalhadores e trabalhadoras brasileiros estão espalhadas por inúmeros lugares da cidade e do campo. Muitos desses locais não mais existem, outros estão esquecidos, pouquíssimos são celebrados. Na batalha de memórias, os mundos do trabalho e seus lugares também são negligenciados. Nossa série Lugares de Memória dos Trabalhadores procura justamente dar visibilidade para essa “geografia social do trabalho” procurando estimular uma reflexão sobre os espaços onde vivemos e como sua história e memória são tratadas. Semanalmente, um pequeno artigo com imagens, escrito por um(a) especialista, fará uma “biografia” de espaços relevantes da história dos trabalhadores de todo o Brasil. Nossa perspectiva é ampla. São lugares de atuação política e social, de lazer, de protestos, de repressão, de rituais e de criação de sociabilidades. Estátuas, praças, ruas, cemitérios, locais de trabalho, agências estatais, sedes de organizações, entre muitos outros. Todos eles, espaços que rotineiramente ou em alguns poucos episódios marcaram a história dos trabalhadores no Brasil, em alguma região ou mesmo em uma pequena comunidade.

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