John French
Professor do Departamento de História da duke university

As famosas greves dos metalúrgicos de São Bernardo do Campo entre 1978 e 1980 constituíram uma história incrível, recheada de apostas audaciosas. Quando o Sindicato dos Metalúrgicos convocou a primeira greve geral da categoria em 1979, a forte adesão dos trabalhadores pode ser creditada, em grande medida, a uma excêntrica ideia que ocorreu a Lula, então presidente da entidade, e a alguns outros dirigentes sindicais, enquanto assistiam a um jogo do Corinthians no estádio do Morumbi, em São Paulo. Lula teria dito que “quando pudermos convocar uma assembleia com metade do tamanho dessa multidão poderemos virar o mundo de cabeça para baixo” e mudar o país “de cima abaixo!”. Encarando o desafio, os sindicalistas agendaram a assembleia inaugural da campanha salarial daquele ano em um estádio de futebol no bairro de Vila Euclides, em 13 de março de 1979.

Naquele dia, segundo um relatório da polícia política, o DOPS, 20.000 trabalhadores compareceram à reunião, apesar da chuva, entusiasmando as lideranças sindicais. Um precário palanque foi improvisado apressadamente, de onde Lula se dirigiu à multidão. Na ausência de um sistema de som, ele falava para os que estavam à sua frente que, por sua vez, repetiam o que estava sendo dito para os detrás.

No início, como Lula recordaria anos depois, “a peãozada”, que lotou aquele campo de futebol encharcado, não parecia muito interessada, mas logo lhe dirigiriam palavras encorajadoras: “Fique calmo. Ninguém está com pressa. Vá devagar, Lula. Não fique nervoso”. A experiência teve um impacto muito forte para os líderes dos trabalhadores. “Era muita confiança. Muita fé!”.

O Estádio de Vila Euclides se tornaria o icônico marco zero onde os metalúrgicos do ABC Paulista fizeram história ao paralisar o coração industrial do país e mudar os rumos políticos da nação. Daquele momento em diante, os olhos e a imaginação da sociedade seriam repetidamente atraídos para aquele provinciano estádio municipal. Pelo menos 18 assembleias foram realizadas em Vila Euclides durante as greves de 1979 e 80. De 12 delas, de acordo com relatórios do DOPS, participaram entre 40 e 70 mil grevistas, familiares e expectadores em geral. As outras 6 teriam atraído entre 15 e 35 mil pessoas. Na avaliação do sindicato, as maiores assembleias contaram com a participação de 80 a 100 mil trabalhadores. De qualquer forma, aquelas multidões de operários surpreenderam o país. A fama de Lula e a construção de sua impressionante liderança ficariam inextricavelmente ligadas às suas performances naquele estádio onde foi rotineiramente aclamado com gritos de apoio, aplausos e carregado nos ombros de entusiasmados metalúrgicos anônimos.

Construído nos anos 1950, o campo de futebol pertencia originalmente à Fiação e Tecelagem Elni. Com o fechamento dessa fábrica, as instalações foram incorporadas como Estádio Distrital de Vila Euclides pela Prefeitura de São Bernardo. Após reforma que incluiu a construção de arquibancadas e de sistema de iluminação, o estádio foi oficialmente inaugurado em agosto de 1968 com o nome de Arthur da Costa e Silva, em homenagem ao general ditador do período. O nome, no entanto, nunca “pegou” de fato e foi como Estádio de Vila Euclides que o lugar se tornaria mundialmente famoso com as paralisações dos metalúrgicos do final dos anos 1970. Após a greve de 1980, o então prefeito da cidade, Antônio Tito Costa, alterou o nome oficial do estádio para Primeiro de Maio.

As imagens sem precedentes das assembleias em Vila Euclides rodaram o mundo, divulgadas por uma imprensa que acabava de escapar da censura como parte de um processo de liberalização do regime. À medida que as notícias circulavam, mais e mais pessoas ficavam simpáticas ao movimento e fascinadas com o que consideravam um verdadeiro “espetáculo de democracia”. Quanto mais ouviam, mais convencidos estavam de que os metalúrgicos do ABC, liderados por Lula, sintetizavam seu desejo de participação política e o fim da tutela militar. “A República de São Bernardo”, como a denominou o jornalista Ricardo Kotscho, era um território livre em um país governado por uma ditadura sufocante que já havia durado demais. No calor da hora, cineastas como Leon Hirszman, João Batista de Andrade e Renato Tapajós perceberam a novidade e o potencial histórico daquelas cenas impressionantes, que registaram em filmes antológicos.  As greves dos metalúrgicos do ABC e suas históricas assembleias representaram um momento fundamental para a crescente oposição popular em sua luta por democracia e direitos sociais. E foi no Estádio de Vila Euclides que os trabalhadores começaram a mudar o Brasil “de cima abaixo”.










Assembleia que abriu a Campanha Salarial de 1979 dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema no Estádio de Vila Euclides.

Fotógrafo Fernando Pereira. Acervo CPdoc JB.


PAra saber mais:
  • BARGAS, Osvaldo Martines; RAINHO, Luis Flavio. As lutas operárias e sindicais dos metalúrgicos em São Bernardo: (1977-1979). São Bernardo do Campo: Associação Beneficente e Cultural dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema, 1983.
  • FRENCH, John. Lula’s Politics of Cunning: From Trade Unionism to the Brazilian Presidency and Beyond. Chapel Hill: UNC Press (no prelo)
  • MEDICI, Ademir. O 1º de Maio. Um estádio. Patrimônio nacional. Diário do Grande ABC. 21 dez. 2008. Disponível em: https://www.dgabc.com.br/Noticia/362208/o-1-demaio-um-estadio-patrimonio-nacional
  • PARANÁ, Denise. Lula, o filho do Brasil. São Paulo: Fundação Perseu Abramo. 2003.
  •  Filme: ABC da greve. Direção de Leon Hirszman. 1979. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=2hhFk0cml6Y

Crédito da imagem de capa: Assembleia do Metalúrgicos no Estádio de Vila Euclides, São Bernardo do Campo, 1979. Foto: Juca Martins. Acervo Olhar Imagens.


Lugares de Memória dos Trabalhadores

As marcas das experiências dos trabalhadores e trabalhadoras brasileiros estão espalhadas por inúmeros lugares da cidade e do campo. Muitos desses locais não mais existem, outros estão esquecidos, pouquíssimos são celebrados. Na batalha de memórias, os mundos do trabalho e seus lugares também são negligenciados. Nossa série Lugares de Memória dos Trabalhadores procura justamente dar visibilidade para essa “geografia social do trabalho” procurando estimular uma reflexão sobre os espaços onde vivemos e como sua história e memória são tratadas. Semanalmente, um pequeno artigo com imagens, escrito por um(a) especialista, fará uma “biografia” de espaços relevantes da história dos trabalhadores de todo o Brasil. Nossa perspectiva é ampla. São lugares de atuação política e social, de lazer, de protestos, de repressão, de rituais e de criação de sociabilidades. Estátuas, praças, ruas, cemitérios, locais de trabalho, agências estatais, sedes de organizações, entre muitos outros. Todos eles, espaços que rotineiramente ou em alguns poucos episódios marcaram a história dos trabalhadores no Brasil, em alguma região ou mesmo em uma pequena comunidade.

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