Isabelle Pires
Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em História Social da UFRJ
Estranho é pensar que o bairro das Laranjeiras satisfeito sorri quando chego ali.

Os versos de All Star, canção de Nando Reis, popularizada na voz de Cassia Eller, deu projeção nacional a Laranjeiras, bairro da zona sul do Rio de Janeiro. Conhecido, atualmente, por atrair intelectuais e boêmios, o bairro também é lembrado por seus elegantes edifícios antigos, como o Palácio Laranjeiras, residência do governador que abriga o Parque Guinle. Mas um imponente símbolo da localidade, entre o final do século XIX e as primeiras décadas do XX, deixou poucas marcas físicas.

A Fábrica de Tecidos Aliança, criada em 1880, interferiu na configuração do bairro e escancarou contradições sociais, como destacou o militante anarquista Albino Moreira em um artigo no jornal A Voz do Trabalhador em junho de 1913. Albino ressaltava que além de “popularizar” o bairro, a companhia têxtil também tornou vizinha dos burgueses as precárias condições de vida e trabalho da classe operária.

Entre o final do século XIX e o início do XX, a então capital federal era o maior centro manufatureiro do país, tendo como principal setor a indústria têxtil. Segundo o censo de 1920, por exemplo, as 73 tecelagens cariocas empregavam 20.054 trabalhadores, sendo 11.779 homens e 8.275 mulheres. Bairros como Jardim Botânico, Gávea, Vila Isabel e Bangu constituíram-se, naquele período, como importante núcleos fabris.

Localizada na Rua Aliança (atual General Glicério), a Fábrica Aliança foi a maior indústria de tecidos do país, no final do século XIX. Em uma elogiosa reportagem publicada no jornal O Paiz em 1913, o empreendimento era descrito como “uma cidade erguida dentro do Rio de Janeiro”. A tecelagem contava com dois mil operários, entre homens, mulheres e crianças, que enfrentavam extenuantes jornadas de trabalho. Em seus poucos momentos de lazer, o jornal destacava que os/as operários/as saíam da fábrica e se dirigiam para “os cinemas, o theatro, as salas das sociedades recreativas, os salões de musica…” que a companhia oferecia.

Mas tal estrutura de entretenimento, que visava à disciplinarização dos/as trabalhadores/as, não atrofiava a mobilização operária, que tomava as ruas de Laranjeiras em momentos de luta, como greves, protestos, manifestações de solidariedade e em participações em meetings e comícios.

Em 7 de agosto de 1903, por exemplo, mais de 500 operárias vestidas de branco e mil operários com roupas de trabalho paralisaram suas atividades na fábrica e caminharam pelas ruas do bairro para acompanhar o cortejo fúnebre de Antonio José Ferreira, vítima de acidente de trabalho no estabelecimento.

Dias depois, em meio a uma greve que havia se dado, entre outros motivos, pela readmissão da operária Ludovica, que havia sido demitida após retornar do parto, alguns grevistas estavam apagando os combustores da iluminação pública na Rua das Laranjeiras para atrair atenção para o movimento paredista. Além desta rua, a própria Rua Aliança e a Rua Cardoso Júnior também foram espaços constantes de mobilização no bairro. É possível encontrar na imprensa diversas referências a reuniões contra a carestia de vida, meetings operários promovidos pela União dos Operários em Fábricas de Tecidos e comícios políticos.

Circula na memória local que o pai do compositor Cartola trabalhou na Fábrica Aliança e que a família residia nas encostas de Laranjeiras antes de se mudar para a Mangueira. Também está presente na lembrança a centenária tradição carnavalesca do bairro, pois desde as primeiras décadas do século XX já contava com dois ranchos carnavalescos criados pelos operários da fábrica, Os Arrepiados e a União da Aliança. Um dos destaques de Os Arrepiados era o mestre-sala Camarão, o tecelão João Pereira Subtil, que ganhara o apelido ainda garoto por ficar vermelho por conta do calor da tecelagem da Fábrica Aliança, onde trabalhava junto com seu pai.

Na década de 1930, a zona sul do Rio de Janeiro estava deixando de ser uma região fabril. Após enfrentar períodos de crise, a fábrica foi vendida, em 1935, para o empresário pernambucano Severino Pereira da Silva, que encerrou as atividades da empresa em 1937. Pereira da Silva aproveitou o maquinário da Aliança em outros empreendimentos de tecelagem menores. No lugar da fábrica iniciou um empreendimento imobiliário chamado Cidade-Jardim Laranjeiras, inaugurado nos anos 1940. Do antigo complexo fabril restam apenas algumas casas da antiga vila operária, na Rua Cardoso Júnior. O fechamento da tecelagem, além de ter acarretado uma considerável queda na economia do bairro na década de 1930, também gerou consequências para a vida de seus operários, pois muitos tiveram que sair a contragosto das Laranjeiras.

Décadas depois de sua demolição, as memórias da Fábrica Aliança ressaltam um espaço de labuta, de lazer e de lutas por melhores condições de vida e trabalho, que tomavam as ruas de Laranjeiras e marcaram a história do Rio de Janeiro.

Anúncio publicitário do empreendimento imobiliário que foi edificado no local da Fábrica de Tecidos Aliança, após sua demolição (O Globo, 15/01/1945)


PAra saber mais:
  • GERSON, Brasil. Histórias das Ruas do Rio. Rio de Janeiro: Lacerda Editora. 5ª Edição, 2000.
  • GOLDMACHER, Marcela. A “Greve Geral” de 1903: O Rio de Janeiro nas décadas de 1890 e 1910. Tese de doutorado. Programa de Pós-Graduação em História, Universidade Federal Fluminense, 2009.
  • GOMES, Ângela Maria de Castro; FERREIRA, Marieta de Moraes. Industrialização e classe trabalhadora no Rio de Janeiro: novas perspectivas de análise. Rio de Janeiro: Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil, 1988.
  • LOBO, Eulalia; CARVALHO, Lia A.; STANLEY, Myrian. Questão habitacional e o movimento operário. Rio de Janeiro: UFRJ, 1989.
  • PIRES, Isabelle Cristina da Silva. Entre teares e lutas:relações de gênero e questões etárias nas principais fábricas de tecidos do Distrito Federal (1891-1932). Dissertação de mestrado. Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil – CPDOC/FGV, Rio de Janeiro, 2018.

Crédito da imagem de capa: Fábrica Aliança em Laranjeiras, Rio de Janeiro, 1907.
Acervo: Arquivo Nacional. Fundo Correio da Manhã. BR_RJANRIO_PH_0_FOT_04463_007


Lugares de Memória dos Trabalhadores

As marcas das experiências dos trabalhadores e trabalhadoras brasileiros estão espalhadas por inúmeros lugares da cidade e do campo. Muitos desses locais não mais existem, outros estão esquecidos, pouquíssimos são celebrados. Na batalha de memórias, os mundos do trabalho e seus lugares também são negligenciados. Nossa série Lugares de Memória dos Trabalhadores procura justamente dar visibilidade para essa “geografia social do trabalho” procurando estimular uma reflexão sobre os espaços onde vivemos e como sua história e memória são tratadas. Semanalmente, um pequeno artigo com imagens, escrito por um(a) especialista, fará uma “biografia” de espaços relevantes da história dos trabalhadores de todo o Brasil. Nossa perspectiva é ampla. São lugares de atuação política e social, de lazer, de protestos, de repressão, de rituais e de criação de sociabilidades. Estátuas, praças, ruas, cemitérios, locais de trabalho, agências estatais, sedes de organizações, entre muitos outros. Todos eles, espaços que rotineiramente ou em alguns poucos episódios marcaram a história dos trabalhadores no Brasil, em alguma região ou mesmo em uma pequena comunidade.

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