Frederico Duarte Bartz
Doutor em História pela UFRGS

O Bürgerklub (Clube dos Cidadãos) era uma sociedade beneficente voltada para a comunidade alemã de Porto Alegre. A associação havia sido fundada nos anos 1880, mas sua sede definitiva, na Rua Comendador Azevedo, n.26 (atualmente n.444) no Arrabalde da Floresta, só foi construída na década de 1910. Apesar de ser uma sociedade beneficente de caráter étnico, o local acabou se transformando em um espaço importante de reuniões para o movimento operário, especialmente para grupos de trabalhadores de origem germânica. A presença dos alemães em Porto Alegre já era significativa desde o século XIX, quando representavam entre 7% e 15% da população da capital, mas é muito provável que ela tenha aumentado durante a Primeira República, especialmente pela chegada de um grande número de operários e operárias dessa origem étnica.

O Bürgerklub foi fundado em 1883 e suas primeiras sedes estavam localizadas na Praça Dom Feliciano e no inicio da Rua Voluntários da Pátria, no centro da cidade. Na segunda década do século XX, foi inaugurada uma sede própria no coração do Arrabalde da Floresta, que era a região da cidade para onde se expandia não apenas a industrialização, mas também as moradias da classe trabalhadora, se constituindo no primeiro bairro fabril de Porto Alegre. Além de operários industriais, a região também se caracterizava pela grande presença de imigrantes alemães. Como as organizações de classe muitas vezes não possuíam sedes próprias era comum a utilização de salões de tavernas, hotéis e sociedades beneficentes. Neste caso, a partir de 1912 o Bürgerklub passou a sediar as reuniões da Allgemeiner Arbeiter Verein (Associação Geral dos Trabalhadores), principal entidade socialdemocrata de Porto Alegre, que teve uma forte atuação como uma das principais organizações de classe na virada do século XIX para o XX, com a liderança de militantes como Wilhelm Koch e Joseph Zeller-Rethaler.

Ao longo da década de 1910, com o crescimento da hegemonia dos anarquistas no movimento operário da capital, a Algemeiner foi perdendo o caráter de resistência, até a chegada de Friedrich Kniestedt em 1917, que se tornaria uma das principais lideranças anarquistas da cidade.

Apesar de libertário, Kniestedt entrou na associação reformista e começou a modificá-la, imprimido novamente um caráter de resistência à Allgemeiner e tornando o prédio do Bürgerklub um espaço de mobilização para além da comunidade alemã. Em 1918, foi neste local em que foi instalada a União Geral dos Trabalhadores, associação criada para se contrapor à influência de figuras ligadas ao Partido Republicano Riograndense sobre o operariado e retomar a liderança anarquista na Federação Operária do Rio Grande do Sul. Mas este também era um espaço de conflito e contradições dentro da própria classe: em 1918, ainda durante a Grande Guerra, a Sociedade Polonesa Tadeusz Kosciuszko, que ficava ao lado do Bürgerklub, organizou uma homenagem aos poloneses do Rio Grande do Sul que partiriam para lutar na Europa, enquanto a Allgemeiner organizava uma conferência de protesto contra o militarismo e a guerra.

No início dos anos 1920, Friedrich Kniestedt rompe com a Allgemeiner, fundando a Sozialistischer Deutscher Arbeiter Verein (Associação dos Trabalhadores Alemães Socialistas), enquanto o Bürgerklub se tornava novamente um espaço para beneficência e convívio social, como o amparo aos sócios em caso de doença e morte, a prática esportiva do bolão e a realização de uma importante festa anual. Na década de 1940, durante a Segunda Guerra, o Bürgerklub teve de mudar seu nome para Sociedade Flórida (antiga designação da Praça Bartolomeu de Gusmão, próxima da sede do clube). Nos anos 1950 e 1960, a Sociedade Flórida se notabilizou pela formação de equipes de vôlei e de basquete, representando ainda um espaço importante de sociabilidade no bairro. Nos dias de hoje, porém, a associação encontra-se totalmente desmobilizada e seu prédio é utilizado apenas para encontros de lojas maçônicas, mas sua memória permanece entre os moradores do bairro, assim como no seu frontão permanece a imagem das duas mãos enlaçadas, símbolo da ajuda mútua.

Apesar dos anos passados e do processo de esquecimento, é necessário recordar este local como um espaço de luta, como uma referência para a classe trabalhadora da região. Isso também diz respeito a memória dos alemães em Porto Alegre, que foi construída pela burguesia, deixando de fora os aspectos de resistência, os conflitos e a importância dos teutos para a formação do movimento operário. Desta forma, recordar o Bürgerklub como um espaço apropriado pelos trabalhadores é também ajudar a construir uma memória alternativa para a cidade de Porto Alegre.











Panorama do Floresta e Navegantes em 1920

Panorama dos bairros operários Arrabalde da Floresta e Navegantes em 1920. Arquivo Central do IPHAN-ACI-RJ.


PAra saber mais:
  • AMSTADT, Theodor (Org.) Cem Anos de Germanidade no Rio Grande do Sul. São Leopoldo: Editora Unisinos, 2005 (original de 1924).
  • GANZ, Magda Roswita. Presença teuta em Porto Alegre no século XIX (1850-1889). Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2004.
  • GERTZ, René E. Operários alemães no Rio Grande do Sul (1920-1937) ou Friedrich Kniestedt também foi um imigrante alemão. Revista Brasileira de História, São Paulo: ANPUH, vol. 6, n. 11, 1885/1986.
  • KNIESTEDT, Friedrich. Memórias de um imigrante anarquista. Tradução, Introdução, Epílogo e Notas de Rodapé: René E. GERTZ. Porto Alegre: Escola Superior de Teologia e Espiritualidade Franciscana. 1989.
  • PETERSEN, Sílvia Regina Ferraz. “Que a união operária seja nossa pátria”: história das lutas dos operários gaúchos para construir suas organizações. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2001.

Crédito da imagem de capa: Fachada do antigo Bürgerklub em 2019. Fotógrafa: Laura Spritzer Galli .


Lugares de Memória dos Trabalhadores

As marcas das experiências dos trabalhadores e trabalhadoras brasileiros estão espalhadas por inúmeros lugares da cidade e do campo. Muitos desses locais não mais existem, outros estão esquecidos, pouquíssimos são celebrados. Na batalha de memórias, os mundos do trabalho e seus lugares também são negligenciados. Nossa série Lugares de Memória dos Trabalhadores procura justamente dar visibilidade para essa “geografia social do trabalho” procurando estimular uma reflexão sobre os espaços onde vivemos e como sua história e memória são tratadas. Semanalmente, um pequeno artigo com imagens, escrito por um(a) especialista, fará uma “biografia” de espaços relevantes da história dos trabalhadores de todo o Brasil. Nossa perspectiva é ampla. São lugares de atuação política e social, de lazer, de protestos, de repressão, de rituais e de criação de sociabilidades. Estátuas, praças, ruas, cemitérios, locais de trabalho, agências estatais, sedes de organizações, entre muitos outros. Todos eles, espaços que rotineiramente ou em alguns poucos episódios marcaram a história dos trabalhadores no Brasil, em alguma região ou mesmo em uma pequena comunidade.

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