Anderson Vieira Moura
Professor do Centro Educacional SESC-AM

Um dos principais logradouros do centro de Maceió, a Avenida Moreira Lima é ponto de referência na cidade. Boa parte dos moradores sabe indicar sua localização precisa, no território das ruas mais movimentadas da região, que cortam a avenida ou estão nos seus arredores. Esta característica é algo que não vem de hoje, sendo possível encontrar menções à sua importância em jornais que circulavam no início do século passado. Adentrando a Moreira Lima, vamos em busca da junção de três grandes bairros históricos de moradia da classe trabalhadora: Prado, Levada e Ponta Grossa. Em seu final, a avenida faz uma curva em direção à área onde a rua Formosa se transforma em rua do Livramento – outro ponto afamado do centro. É ali que encontramos o Palácio do Trabalhador.

Hoje o prédio abriga apenas seis sindicatos e o único busto do ex-presidente Getúlio Vargas em Maceió. A escultura fixada bem à frente e voltada para a rua é um importante símbolo da política trabalhista de Vargas, concebida durante a ditadura do Estado Novo (1937-1945). Curiosamente, o Palácio é uma obra posterior, inaugurada em 1950, no apagar das luzes do governo Silvestre Péricles, irmão do general Góis Monteiro, influente militar que ajudou a colocar e a tirar Vargas do poder. Antes de Péricles, seu irmão, Ismar Góis Monteiro, atuou como interventor em Alagoas, entre 1941 e 1945.

Ismar foi escolhido por Vargas e Silvestre Péricles pelo povo, nas eleições de 1947. Seja em uma ditadura, seja na precária democracia, um mesmo sujeito atuou em Alagoas com a missão de auxiliar os dois governantes a implementar a legislação trabalhista no estado: o delegado do Trabalho Muniz Falcão – que, posteriormente, elegeu-se deputado federal por dois mandatos consecutivos até tornar-se governador entre 1955 e 1961. Silvestre Péricles e Muniz Falcão conceberam e, em 1950, inauguraram o Palácio do Trabalhador. Há poucas informações disponíveis acerca de sua construção, concluída em setembro daquele ano.

O intuito da obra era claro: reunir, em um mesmo local, todos os sindicatos de Maceió, com amplo espaço para reuniões e assembleias unificadas, incluindo ambientes para atividades de cunho assistencial (serviços médicos e odontológicos e assessoria jurídica), bem no centro da capital e próximo ao local de moradia dos associados. A administração e direção do Palácio ficou a cargo da Federação dos Trabalhadores nas Indústrias de Alagoas, órgão ligado à Confederação Nacional dos Trabalhadores na Indústria.

No ápice do movimento operário, antes do golpe militar-civil de 1964, o Palácio serviu para diversas assembleias sindicais, local de reuniões de pautas unificadoras, comícios, diversos cursos, ponto de encontro e de referência, com comitês de candidatos situados em suas imediações.

Em sua passagem pela cidade, em 1953, o então ministro do Trabalho João Goulart visitou o prédio (passou apenas um dia em Maceió); em 1957, três anos após o suicídio de Vargas, os trabalhadores se reuniram no Palácio, hastearam a bandeira e leram a carta-testamento; as comemorações do 1º de Maio incluíam em sua programação o Palácio como local de encontro e início das festividades.

Além disso, o Palácio servia como ponto de apoio para aqueles sindicatos menores, que não possuíam condições financeiras de manter uma sede própria. Em resumo, a política dos trabalhadores e para os trabalhadores acontecia naquele prédio. Após o golpe militar de 1964, ao longo dos anos 1970 e 1980, o edifício abrigou um número significativo de sindicatos e serviu, principalmente, para atendimentos médicos. No final de 1998, foi tombado pelo Governo do Estado.

Hoje, o Palácio do Trabalhador vive dias de completo esquecimento. Cercado pelo comércio ambulante – ironicamente, trabalhadores que nunca foram amparados pelo local e pela política que o inspirou –, sua estrutura carece de reparos e sua história de um estudo mais aprofundado. Uma boa amostra de como a memória do trabalho ainda é carente em Alagoas.


Diário de Alagoas, jornal ligado ao PTB, destaca evento de homenagem a Getulio Vargas no Palácio do Trabalhador, 24 de agosto de 1957.


PAra saber mais:
  • Palácio hoje: “Getúlio Vargas e seu palácio esquecido em Maceió”. Gazeta de Alagoas. Maceió, 8 de jul. 2017. http://gazetaweb.globo.com/gazetadealagoas/noticia.php?c=308918
  • Inauguração: “PALÁCIO DO TRABALHADOR”. Gazeta de Alagoas. Maceió, 15 set. 1950, p. 1
  • MOURA, Anderson Vieira. Trabalhadores, populismo e comunistas: os operários têxteis de Maceió/AL durante o governo Muniz Falcão (1956-1961). 2017. 366 f. Tese (Doutorado em História) – Programa de Pós-Graduação em História Social, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2017.
  • “Fundação oferece serviços médicos gratuitos em Maceió”. TV Gazeta, AL TV, Maceió, 1 de out. 2013. https://globoplay.globo.com/v/2859931/

Crédito da imagem de capa: Palácio do Trabalhador, julho de 2019. Fotógrafo: Joel Morais.


Lugares de Memória dos Trabalhadores

As marcas das experiências dos trabalhadores e trabalhadoras brasileiros estão espalhadas por inúmeros lugares da cidade e do campo. Muitos desses locais não mais existem, outros estão esquecidos, pouquíssimos são celebrados. Na batalha de memórias, os mundos do trabalho e seus lugares também são negligenciados. Nossa série Lugares de Memória dos Trabalhadores procura justamente dar visibilidade para essa “geografia social do trabalho” procurando estimular uma reflexão sobre os espaços onde vivemos e como sua história e memória são tratadas. Semanalmente, um pequeno artigo com imagens, escrito por um(a) especialista, fará uma “biografia” de espaços relevantes da história dos trabalhadores de todo o Brasil. Nossa perspectiva é ampla. São lugares de atuação política e social, de lazer, de protestos, de repressão, de rituais e de criação de sociabilidades. Estátuas, praças, ruas, cemitérios, locais de trabalho, agências estatais, sedes de organizações, entre muitos outros. Todos eles, espaços que rotineiramente ou em alguns poucos episódios marcaram a história dos trabalhadores no Brasil, em alguma região ou mesmo em uma pequena comunidade.

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