Antonio Torres Montenegro
Professor do Departamento de História da UFPE

Um grupo de trabalhadores constituído por 140 famílias que moravam no Engenho Galileia, no município de Vitória de Santo Antão, a 50 km do Recife, criou a Sociedade Agrícola e Pecuária dos Plantadores de Pernambuco (SAPPP) no final de 1954. Procuravam assim resolver coletivamente os problemas do aluguel da terra (foro), do analfabetismo e do enterro dos seus mortos. Era, de fato, uma associação de ajuda mútua. Para evitar conflitos com Oscar Beltrão, proprietário do Engenho, o convidaram para presidente honorário da SAPPP. Entretanto, passado um breve período, Beltrão alertado de que esse tipo de organização era “coisa de comunista” proibiu a existência da Sociedade.

Esta interdição não paralisou os trabalhadores que, após buscarem apoio entre diversos parlamentares, bateram à porta do deputado do Partido Socialista, Francisco Julião. Este encontro redundou numa parceria que se ampliou com os anos. A assistência jurídica que Julião passou a oferecer aos associados da SAPPP adquiriu visibilidade e se propagou entre os camponeses, produzindo uma surpreendente mobilização. A SAPPP, denominada pela imprensa e pelos órgãos policiais de Ligas Camponesas, possibilitou ao camponês fazer uso dos meios legais para combater o arbítrio e as formas perversas de exploração praticadas pelo patronato rural.

A mobilização dos camponeses de Galileia gerou uma ação de expulsão por atraso no pagamento do foro e por pertencerem às Ligas Camponesas. Como resposta à ameaça de expulsão, Julião apresentou um Projeto de desapropriação do engenho à Assembleia Legislativa de Pernambuco. Após dois anos de forte mobilização, a desapropriação foi aprovada em 1959.

Esta vitória dos camponeses de Galileia fortaleceu a luta por direitos trabalhistas e sociais em Pernambuco e em outros estados do Nordeste, transformando as Ligas Camponesas num verdadeiro símbolo nacional da resistência e da luta pela reforma agrária e pelo fim do latifúndio improdutivo.

Entretanto, a desapropriação de Galileia  também provocou uma enorme reação dos latifundiários, de parlamentares conservadores e da grande imprensa. Para estes setores a Reforma Agrária e as Ligas Camponesas estariam associadas ao Partido Comunista e ameaçavam a “Paz Agrária”. Dois breves registros documentais ajudam a compreender o significado da denominada “paz”. Em uma cena do documentário Brazil: the trouble land, filmado em Pernambuco pela televisão americana ABC em 1961, aparece o deputado e senhor do engenho Constâncio Maranhão, exibindo um revolver como a garantia da lei e da ordem no trato com seus empregados. Um segundo registro, noticiado pela imprensa em janeiro de 1963, apresenta cinco trabalhadores assassinados no pátio da Usina Estreliana, localizada no município de Ribeirão. Estes se dirigiam ao escritório da Usina para entregar um ofício do Delegacia Regional do Trabalho (DRT) para a empresa efetivar o pagamento do 13º salário.

No final dos anos 1950 e início dos 60, diversas forças políticas se digladiavam pela hegemonia da condução das lutas dos trabalhadores rurais brasileiros: o Partido Comunista Brasileiro (PCB), o Movimento dos Agricultores Sem Terras (Master), as Ligas Camponesas, além de vários setores da Igreja Católica. Todos eles entraram em rota de colisão no 1o Congresso de Lavradores e Trabalhadores Rurais realizado na cidade de Belo Horizonte, em novembro de 1961. A disputa se dava fundamentalmente em torno da consigna defendida pelas Ligas Camponesas “Reforma Agrária: na lei ou na marra”.

As lutas pela Reforma Agrária e pelos direitos dos trabalhadores rurais dominavam a imaginação política brasileira naquele período de grandes esperanças de transformação social. Para muitos, o papel central dos camponeses e a política de distribuição de terras realizada pela Revolução Cubana eram forte fonte de inspiração. Foi naquele contexto que, em 1963, o Presidente João Goulart sancionou o Estatuto do Trabalhador Rural que possibilitava a sindicalização e outros direitos aos trabalhadores do campo.

O golpe militar com apoio civil em 1964 interrompeu de forma violenta toda essa mobilização de luta por direitos de trabalhadores rurais e urbanos. No entanto, diversas formas de resistência foram sendo lentamente recriadas. Quando um novo ciclo de mobilizações emergiu no final dos anos 1970 e na década de 1980, os trabalhadores canavieiros de Pernambuco, agora organizados em sindicatos rurais, estiveram à frente de greves e lutas sociais.

Hoje muitos moradores de Galileia ainda vivem e cultivam a terra. Mas uma parcela trabalha nas cidades próximas. Zito da Galileia, neto de Zezé da Galileia, um dos fundadores da SAPPP, tornou-se um “guardião da memória” destas lutas. Escreveu o livro A história das ligas camponesas. Testemunho de quem a viveu, fundou uma biblioteca, construiu uma pequena lápide em memória de Francisco Julião, entre outras iniciativas. Galileia se transformou num local de visitas daqueles interessados em conhecer um dos locais  que se tornaram um símbolo da luta pela reforma agrária e pelos  direitos dos trabalhadores rurais.

Sede da Liga Camponesa do Engenho da Galileia, 1961. Acervo: Arquivo Público do Estado de São Paulo. Fundo: O Movimento.


PAra saber mais
  • AZEVEDO, Fernando de. As Ligas Camponesas. São Paulo: Paz e Terra, 1982.
  • CARNEIRO, Ana; CIOCCARI, Marta. Retrato da Repressão no Campo – Brasil 1962 – 1985 – Camponeses torturados, mortos e desaparecidos. Brasília: MDA, 2010.
  • MONTENEGRO, Antonio Torres. História, Metodologia, Memória. São Paulo. Editora Contexto, 2010.
  • PORFÍRIO, Pablo Francisco de Andrade. Francisco Julião: em luta com seu mito, golpe de Estado, exílio e redemocratização do Brasil. Jundiaí, SP. Paco Editorial, 2016.

Crédito da imagem de capa: Manifestação das Ligas Camponesas, Recife, 1963. Acervo: Cia. da Memória.


Lugares de Memória dos Trabalhadores

As marcas das experiências dos trabalhadores e trabalhadoras brasileiros estão espalhadas por inúmeros lugares da cidade e do campo. Muitos desses locais não mais existem, outros estão esquecidos, pouquíssimos são celebrados. Na batalha de memórias, os mundos do trabalho e seus lugares também são negligenciados. Nossa série Lugares de Memória dos Trabalhadores procura justamente dar visibilidade para essa “geografia social do trabalho” procurando estimular uma reflexão sobre os espaços onde vivemos e como sua história e memória são tratadas. Semanalmente, um pequeno artigo com imagens, escrito por um(a) especialista, fará uma “biografia” de espaços relevantes da história dos trabalhadores de todo o Brasil. Nossa perspectiva é ampla. São lugares de atuação política e social, de lazer, de protestos, de repressão, de rituais e de criação de sociabilidades. Estátuas, praças, ruas, cemitérios, locais de trabalho, agências estatais, sedes de organizações, entre muitos outros. Todos eles, espaços que rotineiramente ou em alguns poucos episódios marcaram a história dos trabalhadores no Brasil, em alguma região ou mesmo em uma pequena comunidade. Toda quinta-feira, no fim da tarde, um artigo novo sobre algum Lugar de Memória dos Trabalhadores no Brasil vai ao ar no site do LEHMT-UFRJ.

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