Paulo Pinheiro Machado
Professor do Departamento de História da UFSC

Na madrugada do dia 22 de outubro de 1912 um contingente de 55 soldados da polícia do Paraná investiu sobre um grupo de sertanejos, composto por um conjunto diverso de trabalhadores rurais que incluía lavradores pobres, ervateiros, tropeiros e pequenos criadores, que acompanhava o monge José Maria. A refrega foi rápida e a luta se deu em confronto corpo-a-corpo, sendo escutada a fala de um caboclo que se aproximou com seu grupo do comandante policial, apontou ao Coronel e bradou: “Piquem este desgraçado, que ele é o único culpado!” No combate morreram 11 sertanejos e 10 soldados, entre eles o Coronel João Gualberto Gomes de Sá, comandante do Regimento de Segurança do Paraná e o monge José Maria, líder dos sertanejos pobres que se encontravam na região do Irani.

Este combate marca o início da Guerra do Contestado, um longo conflito que se desenrolou no oeste dos atuais Estados de Santa Catarina e Paraná entre 1912 e 1916. A Guerra do Contestado é o ponto de intersecção de diferentes conflitos. A luta tem origem na perseguição das autoridades a um grupo de trabalhadores rurais que se reuniu em torno das curas praticadas pelo monge José Maria, na localidade de Taquaruçu. Dois meses antes do combate do Irani, José Maria e mais de 40 sertanejos abandonaram Taquaruçu para não se confrontar com uma força da polícia de Santa Catarina, chamada pelo chefe político local. Por isso, decidiram migrar mais a oeste, para Irani.

A ação de José Maria já era parte de uma tradição de monges penitentes que circularam pelo planalto meridional desde meados do século XIX. O profetismo popular destes monges que reproduziam um discurso católico tradicional, mas não eram membros oficiais do clero, tinha grande recepção pelas populações pobres do território. Esta tradição religiosa ajudou a criar o repertório discursivo e deu suporte sócio religioso para a formação do projeto rebelde.

A localidade de Irani pertencia ao município de Palmas, região entre os rios Uruguai e Iguaçu, que era disputado entre os estados de Paraná e Santa Catarina, daí a denominação de território Contestado. Santa Catarina ganhou esta região por três ações no STF, mas o Paraná não admitia sua derrota nos tribunais e pugnava por uma solução política para a questão, mantendo a administração efetiva sobre o Contestado. Quando o monge José Maria e os sertanejos que o acompanhavam internaram-se no Irani, a polícia paranaense interpretou este ato como uma “invasão catarinense” ao território em disputa e por isso sua ação foi rápida, violenta e justificada como “preventiva”.

No ano de 1912 havia várias crises que potencializaram estes conflitos. Desde 1908 se construíram na região dois longos ramais da estrada de ferro São Paulo – Rio Grande. Ao longo destes cursos da estrada, o governo federal concedeu as terras devolutas, até 15 km de cada margem da estrada, para a empresa ferroviária norte-americana, a Brazil Railway Company, para a organização de colônias com imigrantes europeus. Ocorre que nestas terras devolutas viviam milhares de lavradores pobres que passaram a ser objeto de expropriação de seus locais de trabalho e moradia. O grupo inicialmente pequeno de seguidores do monge foi agregando um crescente número de trabalhadores rurais despejados, o que potencializou a crise social e ofereceu milhares de habitantes para os futuros redutos organizados pelos sertanejos depois do combate do Irani, conhecidos como “cidades santas”.

Nas “Cidades Santas” os sertanejos, além de resistir aos ataques de latifundiários, policiais e numerosas tropas do exército; inventaram formas comunitárias e solidárias de subsistência. Apesar da derrota definitiva do movimento em 1916, os trabalhadores rurais do Contestado, construíram uma utopia camponesa que até hoje anima a memória de movimentos sociais no Brasil.

Criado em 1984,  o sítio histórico do Irani, localiza-se a 7 km da cidadã de Irani, à beira da BR 153. Trata-se do local onde ocorreu o combate do Irani, dando início à Guerra do Contestado. No sítio está sinalizada a colina onde ocorreu a batalha, o túmulo do monge José Maria e a “cova dos 21” local onde foram sepultados os 21 soldados e sertanejos mortos no combate (com exceção do corpo do Cel. João Gualberto). A poucos metros dali localiza-se o Museu do Contestado e um monumento em forma de cruz com as mãos abertas, com 5 metros de altura, de autoria do artista plástico José Alvim (Mano) inaugurado em 1984. O sítio histórico é local de visitação de turistas e escolares da região e de outros estados do país.

Entre os diferentes locais de memória do Contestado, o sítio histórico do Irani é um marco da luta camponesa pela terra e por uma vida melhor, sendo homenageado e alvo de eventos de muitos movimentos sindicais e sociais, como o MST, o Movimento das Mulheres Camponesas, o Movimento dos Atingidos pelas Barragens, o Movimento dos Pequenos Agricultores, a Comissão Pastoral da Terra e outras entidades populares e de trabalhadores rurais.

Monumento em homenagem aos sertanejos revoltosos do Contestado, Sítio Histórico do Irani. Fotógrafo: Paulo Pinheiro Machado. Acervo pessoal do autor.


PAra saber mais
  • MACHADO, Paulo Pinheiro. Lideranças do Contestado: a formação e a atuação das chefias caboclas. Campinas: Ed. UNICAMP, 2004.
  • MONTEIRO, Duglas Teixeira. Os Errantes do Novo Século: um estudo do surto milenarista do Contestado. São Paulo: Duas Cidades, 1974.
  • VINHAS DE QUEIROZ, Maurício. Messianismo e Conflito Social: A guerra sertaneja do Contestado (1912-1916).
  • Portal do Sítio Histórico e Arqueológico do Contestado:  https://turismo.irani.sc.gov.br/equipamento/index/codEquipamento/6861
  • Filme: Terra Cabocla (1984). Direção de Márcia Paraíso.

Crédito da imagem de capa: Trabalhadores rurais sertanejos (sentados) rendidos às forças do Exército, janeiro de 1915. Foto de Claro Jansson. Acervo do Arquivo Histórico do Exército (Álbum de fotografias da Campanha do Contestado).


Lugares de Memória dos Trabalhadores

As marcas das experiências dos trabalhadores e trabalhadoras brasileiros estão espalhadas por inúmeros lugares da cidade e do campo. Muitos desses locais não mais existem, outros estão esquecidos, pouquíssimos são celebrados. Na batalha de memórias, os mundos do trabalho e seus lugares também são negligenciados. Nossa série Lugares de Memória dos Trabalhadores procura justamente dar visibilidade para essa “geografia social do trabalho” procurando estimular uma reflexão sobre os espaços onde vivemos e como sua história e memória são tratadas. Semanalmente, um pequeno artigo com imagens, escrito por um(a) especialista, fará uma “biografia” de espaços relevantes da história dos trabalhadores de todo o Brasil. Nossa perspectiva é ampla. São lugares de atuação política e social, de lazer, de protestos, de repressão, de rituais e de criação de sociabilidades. Estátuas, praças, ruas, cemitérios, locais de trabalho, agências estatais, sedes de organizações, entre muitos outros. Todos eles, espaços que rotineiramente ou em alguns poucos episódios marcaram a história dos trabalhadores no Brasil, em alguma região ou mesmo em uma pequena comunidade.

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