Louisa Acciari
Pós-Doutoranda em Sociologia na UFRJ

Apesar de ser uma das categorias mais importantes no mercado do trabalho (cerca de 6 milhões, dos quais 93% são mulheres), as trabalhadoras domésticas sempre foram colocadas à margem dos direitos do trabalho e da cidadania. O trabalho reprodutivo, doméstico e de cuidado segue sendo percebido como a tarefa natural das mulheres e das mulheres negras em particular. A própria CLT e a lei complementar 150 de 2015, que estende direitos trabalhistas à categoria, perpetuam uma visão naturalizada da divisão social e sexual do trabalho ao definir o serviço doméstico como atividade “não lucrativa”. Assim, a luta dessa categoria, antes mesmo de conquistar qualquer direito, começa por poder se pensar e reivindicar o status de trabalhador. O espaço do Sindicato de Trabalhadoras Domésticas de Campinas teve um papel fundamental nesse processo.

A Associação Profissional Beneficente das Empregadas Domésticas de Campinas foi fundada em 1961 por Laudelina de Campos Mello, a mesma militante que havia criado a primeira associação de trabalhadoras domésticas do Brasil em 1936, na cidade de Santos. Sediada nas dependências do Sindicato da Construção Civil, no centro de Campinas, as demandas principais da Associação eram o direito à sindicalização e a equiparação dos direitos com os demais trabalhadores.

A Associação funcionava também como lugar de lazer, onde as trabalhadoras organizavam bailes, festas de aniversário e bingos. O fato de poder se reunir e compartilhar momentos festivos foi, e continua sendo, um ato essencial para uma categoria tão fragmentada. De fato, a maioria das domésticas trabalham sozinhas em casas particulares, e nos anos 1960, muitas moravam no emprego. Esses momentos de sociabilidade eram os únicos que elas tinham para encontrar suas colegas e confraternizar, se reconhecendo dessa forma como uma categoria com problemas e interesses comuns.

A Associação de Campinas não foi fechada durante a ditadura militar mas passou a funcionar como entidade beneficente, tendo uma atuação mais educativa do que abertamente reivindicativa. Após um período de paralisação nos anos 1970, retomou oficialmente suas atividades em 1983, sob o impulso de Anunciação Marquesa dos Santos Adão, militante da Pastoral Operária, e se tornou oficialmente sindicato em outubro de 1989, uma vez que esse direito foi conquistado na Constituição Federal de 1988. Dona Laudelina viu assim um dos sonhos mais antigos se realizar pouco antes de falecer, em 1991. Antes de morrer, ela doou uma casa na Rua Ataulfo Alves, 396, no bairro de Castelo Branco, que havia herdado de sua patroa para que o sindicato tivesse uma sede fixa. É lá que as militantes atendem as trabalhadoras, realizam suas reuniões mensais, cursos de formação, festas e bingos, e a tradicional feijoada do sindicato todo ano no mês de julho.

O sindicato de Campinas foi ainda um ator essencial na fundação da Federação Nacional das Trabalhadoras Domésticas (FENATRAD), criada em 1997 e sediada em Campinas durante seu primeiro mandato. A primeira presidenta da FENATRAD, Anna Semião, também atuou para fortalecer os encontros estaduais de São Paulo (nos anos 1990 havia 12 sindicatos ativos no estado), além de ser uma militante do movimento negro, do Partido dos Trabalhadores e da Central Única dos Trabalhadores. O sindicato de Campinas contribuiu para o desenvolvimento de um discurso sobre a exploração racial ao nível da federação e tornou essa questão uma pauta central do movimento. Como explicado por Anna: “quando entrei no sindicato, eu já estava no movimento de mulheres negras. Já sabia que a causa de muitas dificuldades na nossa vida, não era por conta de ser doméstica, era por conta de ser negra. Era por conta de ser negra que a gente era doméstica”.

O Sindicato das Trabalhadoras Domésticas de Campinas e sua sede continuam sendo uma referência em nível nacional. Representam um lugar onde foi possível organizar as “inorganizáveis”, essas mulheres que nem eram reconhecidas como trabalhadoras e que conseguiram, apesar de tudo, criar sindicatos, uma federação nacional e obter uma reforma constitucional em 2013.

Tradicional feijoada na Sede do Sindicato de Trabalhadoras Domésticas de Campinas, 2015. Acervo do Sindicato de Trabalhadoras Domésticas de Campinas.


PAra saber mais:
  • ACCIARI, Louisa. Paradoxes of Subaltern Politics: Brazilian Domestic Workers’ Mobilisations to Become Workers and Decolonise Labour. Tese de Doutorado. Londres: London School of Economics and Political Science, 2018. Disponível em: http://etheses.lse.ac.uk/3839/
  • BERNARDINO-COSTA, Joaze. Saberes Subalternos e Decolonialidade: os sindicatos das trabalhadoras domésticas no Brasil. Brasília: UnB, 2015.
  • KOFES, Sueli. Mulher, mulheres: identidade, diferença e desigualdades na relação entre patroas e empregadas domésticas. Campinas: UNICAMP, 2001.
  • PINTO, Elisabete Aparecida. Etnicidade, Gênero, e Educação: Trajetória de Vida de Laudelina de Campos Mello. São Paulo: Anita Garibaldi, 2015.
  • Site do Sindicato de Trabalhadoras Domésticas de Campinas: https://sinddomcampinas.wordpress.com

Crédito da imagem de capa: Laudelina de Campos Mello (ao centro) em reunião com empregadas domésticas de Campinas nos anos 1960. Fonte: Blog Casa de Laudelina.


Lugares de Memória dos Trabalhadores

As marcas das experiências dos trabalhadores e trabalhadoras brasileiros estão espalhadas por inúmeros lugares da cidade e do campo. Muitos desses locais não mais existem, outros estão esquecidos, pouquíssimos são celebrados. Na batalha de memórias, os mundos do trabalho e seus lugares também são negligenciados. Nossa série Lugares de Memória dos Trabalhadores procura justamente dar visibilidade para essa “geografia social do trabalho” procurando estimular uma reflexão sobre os espaços onde vivemos e como sua história e memória são tratadas. Semanalmente, um pequeno artigo com imagens, escrito por um(a) especialista, fará uma “biografia” de espaços relevantes da história dos trabalhadores de todo o Brasil. Nossa perspectiva é ampla. São lugares de atuação política e social, de lazer, de protestos, de repressão, de rituais e de criação de sociabilidades. Estátuas, praças, ruas, cemitérios, locais de trabalho, agências estatais, sedes de organizações, entre muitos outros. Todos eles, espaços que rotineiramente ou em alguns poucos episódios marcaram a história dos trabalhadores no Brasil, em alguma região ou mesmo em uma pequena comunidade.

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