No final do século XIX, o militante católico e engenheiro Carlos Alberto de Menezes, carioca radicado em Recife, partiu para a Europa em uma viagem que marcaria sua vida. Sua tarefa era conhecer plantas das modernas indústrias têxteis europeias e comprar maquinário para a Fábrica de Tecidos de Camaragibe, que seria fundada em 1895 e que ele dirigiria até sua morte, em 1904. A viagem, contudo, serviu para que Menezes renovasse seu repertório de estratégias de ação católica. Na França, Menezes conheceu Léon Harmel, empresário que havia construído em Val-des-Bois um verdadeiro laboratório de ação social católica. Em sua fábrica de tecidos, Harmel criou uma corporação cristã, na qual operários e patrão tomavam conjuntamente decisões sobre o trabalho na fábrica e, especialmente, sobre a vida fora da fábrica. A corporação cristã francesa criou clubes de lazer, bandas de música, cooperativas de alimentação e, finalmente, deu origem um sindicato cristão para os operários. Tudo isso aconteceu no século XIX, antes mesmo da Igreja Católica assumir oficialmente a questão social, em 1891, com a publicação da encíclica Rerum Novarum.

Após conhecer essa experiência, Menezes voltou ao Brasil e, além de trazer consigo o maquinário para a Fábrica de Tecidos de Camaragibe, trouxe também um modelo de gestão da fábrica e dos operários baseado na corporação cristã de Léon Harmel. Menezes seguiu o modelo e criou sua própria corporação cristã, a Corporação Operária de Camaragibe. Contudo, foi além ao transformar sua militância católica em um projeto ampliado, que fez surgir a Federação Operária Cristã, influente também fora de Pernambuco, e em atuar politicamente pela causa operária pautado pelos princípios católicos da ação social. Transformou-se rapidamente em um dos católicos militantes mais influentes de sua época, sendo o organizador o 1º Congresso Católico Brasileiro, realizado em Salvador, em 1900. Além disso, foi o propositor da primeira lei sindical brasileira, que seria aprovada após sua morte, o Decreto-Lei 1.637, de 1907.

O artigo analisa as interações entre Menezes e Harmel e suas implicações para a ação social católica no Brasil, na virada do século XIX para ao século XX. É uma história de conexão transnacional entre militantes católicos que resultou na adaptação no Brasil de um modelo de paternalismo cristão, mas também de ação social católica.

O artigo A corporação cristã em perspectiva transnacional: interações e transferências entre as organizações católicas para trabalhadores de Camaragibe (Brasil) e Val-des-Bois (França) foi publicado na Revista Mundos do Trabalho, volume 11, de 2019.

O autor, Deivison Amaral, é doutor em História Social pela Unicamp e professor da PUC-Rio.

Link para o artigo:

https://periodicos.ufsc.br/index.php/mundosdotrabalho/article/view/1984-9222.2019.e67231/41044

Imagem de capa: Vila Operária de Camaragibe no início do século XX – s/d – Acervo: Fundação Joaquim Nabuco.

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