Alejandra Estevez
Professora de Sociologia da Universidade Federal Fluminense – Volta Redonda

O Memorial 9 de Novembro foi inaugurado no dia 1° de maio de 1989 com o intuito de homenagear os três operários assassinados pelas forças repressivas do Exército no interior da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), em Volta Redonda, durante a histórica greve de novembro de 1988. Esta paralisação foi a maior de uma série de greves operárias ocorridas na cidade ao longo dos anos 1980, capitaneadas pelo Sindicato dos Metalúrgicos de Volta Redonda e com forte apoio dos setores progressistas da Igreja Católica. Foi, sem dúvida, a mais significativa delas, não apenas pelas proporções que assumiu, mas porque extrapolou o espaço fabril para ocupar e envolver toda a cidade.

Volta Redonda, a chamada cidade do aço, que cresceu e se desenvolveu umbilicalmente vinculada à empresa siderúrgica, agora se mobilizava na defesa de seus direitos. A paralisação teve início no dia 7 de novembro e, dois dias depois, mesmo diante da manutenção do alto-forno da siderúrgica em funcionamento pelos grevistas, soldados do Exército e do Batalhão de Choques da Polícia Militar do Rio de Janeiro invadiram a usina, sob a alegação de proteção das máquinas, após terem dispersado violentamente uma manifestação em frente ao Escritório Central da Companhia. Este dia foi marcado pela trágica morte dos três operários metalúrgicos, William Fernandes Leite, de 22 anos, morto com tiro de metralhadora no pescoço; Valmir Freitas Monteiro, de 27 anos, morto com tiro de metralhadora nas costas; e Carlos Augusto Barroso, de 19 anos, morto por esmagamento de crânio.

A ferocidade das mortes chocou o país e dava mostras de que, na cidade metalúrgica, a ditadura militar e sua brutalidade ainda não haviam acabado. Apesar do assassinato dos operários, da intensa repressão e da ocupação da CSN pelos militares, a greve duraria 17 dias em clima de impressionante mobilização. Acabou encerrada com um acordo que evitou a punição dos grevistas, garantiu a readmissão dos dispensados em greves anteriores e previu a adoção do turno de 6 horas, além de um um abono salarial

Encomendado pela prefeitura de Volta Redonda, o Memorial 9 de Novembro foi projetado pelo arquiteto Oscar Niemeyer para inscrever na memória local a força operária e para que a população nunca se esquecesse das arbitrariedades cometidas contra os trabalhadores. A homenagem era prestada aos três operários mortos, William, Valmir e Barroso, ícones da resistência operária na cidade.

O prefeito era Juarez Antunes, antigo presidente do Sindicato dos Metalúrgicos, de tradição trabalhista e apoiado pelas forças do novo sindicalismo. A praça onde foi instalado o monumento foi rebatizada com o nome do prefeito sindicalista, em substituição ao nome de Edmundo de Macedo Soares, militar e engenheiro responsável pela instalação da CSN, nos anos 1940. Juarez Antunes havia falecido em março de 1989, dois meses após sua posse, num acidente de carro em circunstâncias até hoje não esclarecidas, causando grande comoção e indignação no meio operário.

O evento de inauguração do Memorial contou com a presença de milhares de pessoas. Naquele Primeiro de Maio, a Central Única dos Trabalhadores definiu que Volta Redonda seria o epicentro das mobilizações e manifestações sindicais. Além de milhares de ativistas de todo o país, o evento contou com a presença de figuras importantes do sindicalismo e da política nacional, como o então presidente nacional da CUT, Jair Meneguelli, e de Luis Carlos Prestes, histórico líder comunista.

Algumas horas depois da inauguração, contudo, o monumento sofreu um atentado terrorista, com bombas produzidas pela IMBEL, fábrica de material bélico do Exército, conforme comprovou o laudo do Instituto de Criminalística Carlos Éboli. Três bombas, colocadas na base do monumento recém-inaugurado, foram detonadas, deixando-o destroçado e causando estragos até mesmo no edifício do Escritório Central da CSN e em construções próximas ao local. O atentado até hoje não foi esclarecido e ainda envolve uma morte suspeita, a do cabo Charles Fabiano, que estava de vigia naquela madrugada e iria depor como testemunha no inquérito que investigava o caso.

Niemeyer foi convidado a projetar a reconstrução do monumento destruído, mas sugeriu que, ao invés de reformada, a obra fosse preservada tal como estava, em memória de mais um ato do autoritarismo de Estado. Atualmente, o monumento aos operários mortos permanece como um lugar de memória, na medida em que fornece sentido simbólico à cidade, protege-a do esquecimento e funciona como documento historicamente construído. Ainda que atualmente este monumento fique um pouco perdido em meio à correria de pessoas e edifícios construídos ao redor, a praça permanece viva para os movimentos sociais da região, que costumam fazer desse lugar, palco de suas manifestações políticas, atualizando seus sentidos e produzindo novas experiências coletivas.


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Crédito da imagem de capa: Tropas militares ocupam a Companha Siderúrgica Nacional durante a greve dos metalúrgicos de 1988. Acervo: FolhaPress. Fotógrafo: Homero Sérgio.


Lugares de Memória dos Trabalhadores

As marcas das experiências dos trabalhadores e trabalhadoras brasileiros estão espalhadas por inúmeros lugares da cidade e do campo. Muitos desses locais não mais existem, outros estão esquecidos, pouquíssimos são celebrados. Na batalha de memórias, os mundos do trabalho e seus lugares também são negligenciados. Nossa série Lugares de Memória dos Trabalhadores procura justamente dar visibilidade para essa “geografia social do trabalho” procurando estimular uma reflexão sobre os espaços onde vivemos e como sua história e memória são tratadas. Semanalmente, um pequeno artigo com imagens, escrito por um(a) especialista, fará uma “biografia” de espaços relevantes da história dos trabalhadores de todo o Brasil. Nossa perspectiva é ampla. São lugares de atuação política e social, de lazer, de protestos, de repressão, de rituais e de criação de sociabilidades. Estátuas, praças, ruas, cemitérios, locais de trabalho, agências estatais, sedes de organizações, entre muitos outros. Todos eles, espaços que rotineiramente ou em alguns poucos episódios marcaram a história dos trabalhadores no Brasil, em alguma região ou mesmo em uma pequena comunidade.

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