Marcelo Mac Cord
Professor da Faculdade de Educação da UFF

No Recife, em 1735, um grupo de artesãos fundou uma irmandade para fortalecer sua fé e sua autoproteção. Eles escolheram São José como patrono, pois, em sua maior parte, eram profissionais que lidavam com a madeira: carpinteiros, tanoeiros e calafates. Entre os carpinteiros existiam carpinas, especializados na feitura de escadas, janelas, pisos e telhados. Por causa desses últimos artífices, que trabalhavam em canteiros de obras, alguns pedreiros também foram convidados para fundar a entidade católica e leiga.

Na segunda metade do século XVIII, a Igreja de São José foi construída pelos devotos do santo padroeiro. Localizada na região central do Recife, a sede da Irmandade de São José foi edificada na parte mais pobre e negra da cidade, beirando o mar da ilha de Santo Antônio. Por causa de sua posição geográfica, o templo ganhou o nome de Igreja de São José do Ribamar. A própria Irmandade foi assim rebatizada. Em 1844, a localidade se transformou no bairro de São José. Contudo, devido aos aterros feitos, o edifício religioso ficou mais distante das águas.  

Mestres, oficiais e aprendizes daqueles ofícios podiam se matricular na Irmandade de São José do Ribamar, fossem eles nacionais ou estrangeiros. Mulheres e escravos também, mas somente os mestres, homens livres e libertos, podiam participar de sua direção. A partir dos anos 1770, com a autorização da Câmara Municipal, a Irmandade de São José do Ribamar conquistou alguns privilégios usufruídos pelas corporações de ofício: diplomar novos mestres, controlar o mercado de trabalho e monopolizar o ensino profissional.   

A Constituição de 1824 extinguiu as corporações de ofício, exigindo que a Irmandade de São José do Ribamar se reinventasse. Tal necessidade se aprofundou no final dos anos 1830, devido às reformas urbanas iniciadas pelo barão da Boa Vista, presidente da província. Marcadas pela “civilização” e pelo “progresso”, a “modernização” do Recife deveria prescindir de “arcaicas” formas de organização do trabalho. Nesse período de intensas transformações, a Irmandade aprovou novas regras. Para que seus artífices fossem mais respeitados e conquistassem mais serviços, o grupo deixou de matricular escravos e reconstruiu relações com a municipalidade.     

Neste contexto, alguns membros pretos e pardos da Irmandade de São José do Ribamar, todos livres e mestres pedreiros e carpinas, idealizavam uma sociedade de auxílios mútuos e de instrução. Fundada em 1841, a Sociedade das Artes Mecânicas oferecia uma caixa social e aulas noturnas aos seus filiados.

Por ser formada fundamentalmente por devotos do santo carpinteiro, uma dependência do templo foi cedida para suas atividades. A entidade recifense foi criada para lutar contra históricos estigmas que recaiam sobre os ombros dos trabalhadores de cor, como “preguiça” e “incapacidade”. E também para combater o “defeito mecânico”, que pressupunha a incapacidade intelectual dos trabalhadores manuais.

No início dos anos 1840, a Igreja de São José do Ribamar passava a abrigar dois grupos que possuíam membros em comum, especificidades organizacionais próprias e o desejo de orientar os artífices recifenses em tempos de “modernização”. Em 1866, contudo, após uma série de conflitos irreconciliáveis, a Irmandade de São José do Ribamar expulsou a rebatizada Sociedade dos Artistas Mecânicos e Liberais do templo, pois não aceitava ser coadjuvante em sua própria casa. O grupo de auxilio mutuo e de instrução crescia em número de sócios, ganhava visibilidade pública e exigia cada vez mais autonomia política e espacial na Igreja de São José do Ribamar.

Na década de 1870, enquanto a Sociedade dos Artistas Mecânicos e Liberais administrava o Liceu de Artes e Ofícios do Recife no bairro de Santo Antônio, a Igreja de São José do Ribamar perdia um pouco mais de sua centralidade na vida dos artesãos. Naquele momento a Igreja Católica procurava livrar os espaços sagrados das chamadas experiências “mundanas” e tornar o culto mais “piedoso” e “disciplinado”. Em 1872, interventores indicados pelas autoridades religiosas pernambucanas decidiram que a Irmandade de São José do Ribamar deveria aceitar qualquer católico em seus quadros, sem distinção. Essa forte ruptura com as tradições ligadas ao mundo do trabalho artesanal descaracterizou a entidade leiga dos trabalhadores. Como irmandade estritamente religiosa, suas atividades seguiram até os anos 1980, segundo seus livros de registro.   

Hoje, quando andamos pelas ruas do Recife, e passamos pela Igreja de São José do Ribamar, não conseguimos imaginar sua importância para a formação da classe trabalhadora pernambucana. Até as últimas décadas do Império do Brasil, nela conviveram artífices que sobreviviam do suor do próprio rosto e possuíam expectativas comuns. Gente que queria fortalecer sua inserção social por meio de organizações que valorizassem o trabalho bem feito e as experiências forjadas em oficinas e canteiros de obras. A maior parte desses homens era negra e mestiça. Eles precisam ser lembrados, sempre, como a base do nosso mundo do trabalho.

Notícia sobre evento da Sociedade dos Artistas Mecânicos e Liberais na Igreja de São José do Ribamar; Echo Pernambucano, 23 de outubro de 1853. Acervo: Setor de periódicos do Arquivo Público Estadual Jordão Emerenciano, Recife (PE).

PAra saber mais:
  • GUERRA, Flávio. Velhas igrejas e subúrbios históricos. 2. ed. Recife: Fundação Guararapes, 1970.
  • MAC CORD, Marcelo. Artífices da cidadania: mutualismo, educação e trabalho no Recife oitocentista. Campinas, SP: Editora da Unicamp/Fapesp, 2012.
  • SILVA, Henrique Nelson da. Trabalhadores de São José: artesãos do Recife no século XVIII. Dissertação de Mestrado em História: UFPE, 2010.
  • SILVA, Henrique Nelson da. O paradoxo do trabalho: o corporativismo artesanal e as trajetórias de vida dos oficiais mecânicos, século XVIII. Tese de Doutorado em História: UFPE, 2018.

Crédito da imagem de capa: Panorama da freguesia de São José em Recife, com a Igreja de São José do Ribamar em destaque; Frederick Hagedorn (1856). Acervo da Fundação Joaquim Nabuco.


Lugares de Memória dos Trabalhadores

As marcas das experiências dos trabalhadores e trabalhadoras brasileiros estão espalhadas por inúmeros lugares da cidade e do campo. Muitos desses locais não mais existem, outros estão esquecidos, pouquíssimos são celebrados. Na batalha de memórias, os mundos do trabalho e seus lugares também são negligenciados. Nossa série Lugares de Memória dos Trabalhadores procura justamente dar visibilidade para essa “geografia social do trabalho” procurando estimular uma reflexão sobre os espaços onde vivemos e como sua história e memória são tratadas. Semanalmente, um pequeno artigo com imagens, escrito por um(a) especialista, fará uma “biografia” de espaços relevantes da história dos trabalhadores de todo o Brasil. Nossa perspectiva é ampla. São lugares de atuação política e social, de lazer, de protestos, de repressão, de rituais e de criação de sociabilidades. Estátuas, praças, ruas, cemitérios, locais de trabalho, agências estatais, sedes de organizações, entre muitos outros. Todos eles, espaços que rotineiramente ou em alguns poucos episódios marcaram a história dos trabalhadores no Brasil, em alguma região ou mesmo em uma pequena comunidade.

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