Marcio Romerito da Silva Arcoverde
Professor do Colégio Agrícola Dom Agostinho Ikas da UFRPE

A Praça da Bandeira foi construída no centro da cidade operária de Moreno simultaneamente à construção da fábrica e de outras edificações no início do século XX. Fica localizada entre a fábrica têxtil, parte da vila operária e o clube Societé. A cidade de Moreno foi planejada pela Societé Cotonière Belge Bresilienne S. A., empresa belga que montou todo o aparato urbano nas terras do outrora engenho açucareiro Catende.  Além de uma fábrica com vila operária e outros espaços públicos e privados, a Societé construiu a praça, que até hoje é o maior centro de sociabilidade da cidade.

Localizada estrategicamente em frente ao portão principal da fábrica, a praça reunia centenas de operários e operárias diariamente esperando a abertura dos portões para trabalhar. Nas horas de lazer, entre conversas e festividades diversas, era um ponto de encontro dos jovens operários. Nas memórias de alguns antigos trabalhadores ela aparece como um importante espaço de sociabilidade. Como se lembra Zita Brito, na praça “tinha retreta. Sabe o que é retreta? Retreta era assim; porque Moreno tinha uma banda musical. E então tinha semanas que se fazia retreta.” As retretas musicais embalavam diversões dos jovens que “ficavam passeando ali, em volta da praça, e a banda lá, tocando. Era um dos divertimentos também da época”.                                        

As retretas realizadas pela banda da fábrica atraíam centenas de trabalhadores que, em suas horas de lazer, buscavam divertimento ao som empolgante da banda operária. Ao seu embalo, os operários confraternizavam-se nos fins de semana, nas festividades carnavalescas e após as festas no clube Societé. Em muitos momentos, festas no clube eram animadas ao som da Jazz Band e na praça pelo frevo do bloco operário. “No auge da alegria, os invejados tricolores [referência aos que compunham o clube Societé] improvisaram assaltos à Praça da Bandeira, ao som do magnífico conjunto de Neco Pedrosa, onde se fez apreciar gigantesco desfile dos foliões que faziam o acrobático passo pernambucano”, noticiava o jornal Correio de Moreno em março de 1950.         

Era também na praça onde se realizavam os festejos e comícios políticos, as mobilizações dos trabalhadores e a distribuição dos boletins e jornais operários, como os da ação grevista contra as mudanças administrativas de 1952. Foi na Praça da Bandeira que muitos operários foram presos pela polícia política da DOPS, tidos como “comunistas que levam seus boletins subversivos” para a agitação do operariado.

Era também nela que se comemoravam as vitórias dos movimentos grevistas ou ocorriam comícios. Foi o que ocorreu, por exemplo, em agosto de 1954, quando o  deputado João Cleofas e o ex-ministro do trabalho João Goulart foram recebidos pelo prefeito Ney Maranhão, assim como seus convidados, membros do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB).                        

O espaço público da Praça da Bandeira foi componente no fazer-se da classe trabalhadora local com suas sociabilidades, reivindicações, atuações e interlocuções políticas. Era um espaço de encontro para articular as reivindicações nascidas no chão da fábrica, um ponto de sociabilidade, de divertimento, um lugar de trocas de ideias e de mobilização de classe.

Hoje a praça não conta mais com a presença dos operários a caminho do trabalho. A Societé Cotonière Belge Bresilienne encerrou suas atividades na década de 1960. Porém, a Praça da Bandeira ainda concentra os principais acontecimentos culturais e políticos da cidade. Em frente aos portões cerrados da antiga fábrica se reúnem, diariamente, dezenas de ex-operários nas suas conversas e rodas de jogos. A configuração econômica e social do município mudou, mas podemos afirmar que muito da tradição cultural e política de Moreno foi forjada pelos operários e operárias de tecido em suas atividades e cotidiano na Praça da Bandeira.

Bloco operário nos anos 1950 em Moreno. Arquivo pessoal Vera Lopes.

PAra saber mais:
  • ARCOVERDE, Márcio Romerito da Silva. Lutas operárias num espaço semirrural: Trabalho e conflitos sociais em Moreno- PE. (1946-1964) Dissertação (Mestrado em história social da cultura regional) – Universidade Federal Rural de Pernambuco, Departamento de História, Recife,  2014.
  • ABREU e LIMA, Maria do Socorro. Construindo o sindicalismo rural: lutas, partidos, projetos. 2 ed. – Recife: Ed. Universitária da UFPE, 2012.
  • LOPES, José Sergio Leite. A tecelagem dos conflitos de classe na cidade das chaminés. São Paulo/ Brasília, Marco Zero/ Editora da UnB, 1988.

Crédito da imagem de capa: Praça da Bandeira em Moreno (PE) nos anos 1950, com a Fábrica Societé Cotonière Belge Bresilienne S. A. ao fundo.


Lugares de Memória dos Trabalhadores

As marcas das experiências dos trabalhadores e trabalhadoras brasileiros estão espalhadas por inúmeros lugares da cidade e do campo. Muitos desses locais não mais existem, outros estão esquecidos, pouquíssimos são celebrados. Na batalha de memórias, os mundos do trabalho e seus lugares também são negligenciados. Nossa série Lugares de Memória dos Trabalhadores procura justamente dar visibilidade para essa “geografia social do trabalho” procurando estimular uma reflexão sobre os espaços onde vivemos e como sua história e memória são tratadas. Semanalmente, um pequeno artigo com imagens, escrito por um(a) especialista, fará uma “biografia” de espaços relevantes da história dos trabalhadores de todo o Brasil. Nossa perspectiva é ampla. São lugares de atuação política e social, de lazer, de protestos, de repressão, de rituais e de criação de sociabilidades. Estátuas, praças, ruas, cemitérios, locais de trabalho, agências estatais, sedes de organizações, entre muitos outros. Todos eles, espaços que rotineiramente ou em alguns poucos episódios marcaram a história dos trabalhadores no Brasil, em alguma região ou mesmo em uma pequena comunidade.

Um comentário em “Lugares de Memória dos Trabalhadores #22: Praça da Bandeira, Moreno (PE) – Marcio Romerito da Silva Arcoverde

  1. Lendo este escrito do desvendados da história, o Prof. Romerito, consegue nos transcender aos tempos de outrora da cidade de Moreno,PE, e viver uma época social diversa em que a sociedade tinha um conceito concebido na estrutura oligarca em que se inseria um modelo conservador de trabalho entre patrão e classe operária, no formato mandatário, aonde o patronal ditava as regras econômicas da cidade. Mas, mesmo assim, e devido a isto, já se tinha o movimento de reação e de luta dessa classe tão sofrida. Sua forma de escrever nos leva, também, a um desfrutar do ambiente social, marcado por belas e verdadeiras relações sociais, quer na calmaria de uma praça central, quer nos embates políticos de movimentos trabalhistas e quer nas festividades populares culturais…assim, ele descreve esse enredo de forma “amena” e nos leva a vivenciar e rememorar as outras tantas cidades da região, com seus tantos e quantos costumes. Parabéns Romerito!

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