Isabel Bilhão
Professora do Programa de Pós-Graduação em Educação da UNISINOS

O Primeiro de Maio viveu, desde o seu surgimento, divergências em torno de seu significado e formas de representação. Para alguns, era dia de festejar, protestar contra as injustiças sociais e homenagear os trabalhadores, ressaltando sua importância para o progresso econômico e social. Para outros, era dia de greve geral pela conquista da jornada diária de oito horas de trabalho e momento de lembrar os mártires operários. Mas, tanto como festividade, quanto como greve, observava-se a necessidade de marcar publicamente a data e torná-la um momento-chave de identificação internacional do operariado.

No final do século XIX, Porto Alegre começava a se industrializar. As primeiras oficinas e fábricas da cidade eram dos ramos alimentício, metalúrgico e de móveis. Portugueses, afrodescendentes, espanhóis, italianos, alemães e poloneses compunham uma nascente e diversificada classe operária. Fundada em 1892 por trabalhadores alemães inspirados na socialdemocracia, a Allgemeiner Arbeiter Verein (União Geral de Trabalhadores) foi a primeira e mais influente organização operária porto-alegrense naquele período.

Foi a Allgemeiner que, em 1897, iniciou as comemorações do Primeiro de Maio na cidade, congregando, a exemplo de suas congêneres internacionais, o caráter festivo, de confraternização e de protesto. Os relatos encontrados na imprensa apresentam um roteiro de comemorações que parece ter sido seguido na virada do século XIX para o XX.

Conhecida como Praça da Conceição, devido à localização da Igreja da Conceição, a Praça Dom Sebastião (nomenclatura oficializada em 1884) ocupou um papel primordial no roteiro de celebrações do Primeiro de Maio realizadas até pelo menos 1906. A Praça se tornou um ponto de encontro privilegiado para os grupos de trabalhadores que vinham dos variados arrabaldes da cidade, reunindo bandas musicais e associações operárias e populares em geral. Ali, nas primeiras horas da manhã do dia primeiro de maio, se concentravam para ouvir discursos alusivos à data e entoar hinos operários. Também era da praça que saia o desfile que percorreria as ruas centrais da cidade.

Esse cortejo geralmente seguia uma ordem: a comissão organizadora fazia a frente, seguida por uma banda musical formada por trabalhadores e por senhoritas trajando vestes alusivas às aspirações operárias – liberdade, solidariedade e redução da jornada diária de trabalho.

Na sequência, apresentavam-se as organizações operárias e os distintos grupos de trabalhadores, muitas vezes acompanhados de suas famílias. As mais assíduas eram a Liga Operária Internacional, os operários da Companhia Industrial, com sua respectiva banda de música e a mencionada Allgemeiner Arbeitervein. Após percorrer as principais ruas do centro e adjacências – Independência, Ramiro Barcellos, Voluntários da Pátria, Marechal Floriano, Andradas – retornavam à Praça da Conceição para o encerramento das atividades da parte da manhã.

As comemorações do Primeiro de Maio, entretanto, se prolongavam ao longo do dia. No início da tarde, os trabalhadores voltavam a se reunir na Praça da Conceição para rumarem à Chácara Mostardeiro, no bairro Moinhos de Vento. Ali prosseguiam as atividades. Dentre elas: a audição de poesias, apresentações musicais e piquenique. Ao entardecer, regressavam novamente à Praça da Conceição, onde ocorria o encerramento das atividades e a dissolução do préstito.

Observa-se, assim, o visível cuidado do operariado da época para se apresentar publicamente e demarcar espaços simbólicos e geográficos diante das outras classes sociais no dia que lhe era consagrado. Esses desfiles possuíam um forte apelo, não apenas por sua aproximação aos rituais consagrados pela tradição católica, mas também pelo fato de congregarem operários de diversos ofícios, homens e mulheres que, vestindo suas melhores roupas e portando estandartes e bandeiras de suas associações, marchavam lado a lado, reforçando as noções de coesão e unidade, bem como a de honorabilidade operária.

Em outubro de 1906, Porto Alegre viveu, durante 21 dias, sua primeira greve geral. Um dos resultados desse movimento foi a fundação da Federação Operária do Rio Grande do Sul (FORGS). A partir do ano seguinte o ponto de encontro para as comemorações e desfiles do Primeiro de Maio transferiu-se para a sede da Federação, localizada na Rua Comendador Azevedo, no bairro operário chamado Floresta. A Praça da Conceição, situada a aproximadamente três quilômetros, tornou-se paulatinamente o ambiente de um novo público na reorganização urbana da cidade, passando a receber as famílias mais abastadas que tinham suas chácaras nos arredores.   

O local segue sendo um importante ponto de encontro e de circulação de uma significativa parcela da população porto-alegrense. Em suas imediações, além da Igreja da Conceição, localizam-se alguns dos prédios que fazem parte do patrimônio histórico e arquitetônico da capital gaúcha, como o do Hospital Beneficência Portuguesa e o do Colégio Marista Rosário. No entanto, houve certo apagamento de sua importância como espaço pioneiro de celebração da data mais importante do movimento operário. Trata-se de um lugar fundamental para a memória dos trabalhadores porto-alegrenses que merece destaque na geografia histórica da cidade.

Praça da Conceição atualmente, vista da Rua Irmão José Otão. Fonte: Porto Imagens.
PAra saber mais
  • BILHÃO, Isabel. Identidade e Trabalho: uma história do operariado porto-alegrense (1898 a 1920). Londrina/PR: EDUEL, 2008. 
  • FRANCO, Sérgio da Costa. Guia Histórico de Porto Alegre (edição revista e ampliada). Porto Alegre: Edigal, 2018.
  • PETERSEN, Silvia. Que a União Operária Seja Nossa Pátria! História das lutas dos operários gaúchos para construir suas organizações. Santa Maria: Editora UFSM; Porto Alegre: Ed. Universidade/UFRGS, 2001.

Crédito da imagem de capa: Cartão postal retratando a Praça da Conceição no início do séc. XX. Fonte: Site Porto Alegre Antiga.


Lugares de Memória dos Trabalhadores

As marcas das experiências dos trabalhadores e trabalhadoras brasileiros estão espalhadas por inúmeros lugares da cidade e do campo. Muitos desses locais não mais existem, outros estão esquecidos, pouquíssimos são celebrados. Na batalha de memórias, os mundos do trabalho e seus lugares também são negligenciados. Nossa série Lugares de Memória dos Trabalhadores procura justamente dar visibilidade para essa “geografia social do trabalho” procurando estimular uma reflexão sobre os espaços onde vivemos e como sua história e memória são tratadas. Semanalmente, um pequeno artigo com imagens, escrito por um(a) especialista, fará uma “biografia” de espaços relevantes da história dos trabalhadores de todo o Brasil. Nossa perspectiva é ampla. São lugares de atuação política e social, de lazer, de protestos, de repressão, de rituais e de criação de sociabilidades. Estátuas, praças, ruas, cemitérios, locais de trabalho, agências estatais, sedes de organizações, entre muitos outros. Todos eles, espaços que rotineiramente ou em alguns poucos episódios marcaram a história dos trabalhadores no Brasil, em alguma região ou mesmo em uma pequena comunidade.

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