Contribuição especial de Felipe Ribeiro¹

“Aqui, da trincheira da produção, da nossa trincheira sindical, tudo faremos, a fim de apressar o dia da vitória final”.

Foi com esse entusiasmo que dirigentes sindicais do Rio Grande do Norte se dirigiram às tropas da Força Expedicionária Brasileira (FEB), em 22 de janeiro de 1945. A expressão “trincheira da produção”, também utilizada em outras regiões do país, não se referia apenas ao apoio dos trabalhadores à luta contra o nazifascismo durante a Segunda Guerra Mundial, mas também às suas privações cotidianas durante o conflito. Enquanto a FEB lutava na Itália, os “soldados da produção” trabalhavam intensamente nas fábricas, convocados ao sacrifício em prol da pátria. Esse discurso nacionalista adquiriu enorme força, mexeu com o país e potencializou uma dinâmica incontrolável de mobilização popular, com evidente protagonismo da classe trabalhadora.

Quando submarinos alemães abateram navios brasileiros, em agosto de 1942, no litoral nordestino, causando a morte de centenas de pessoas, houve manifestações em diversos pontos do país exigindo que o governo declarasse guerra ao Eixo. Desde então, inúmeras campanhas foram iniciadas, com apoio de trabalhadores, sindicatos, clubes esportivos e jornais, buscando angariar fundos para o Brasil frente ao conflito. Operários das cinco fábricas da Companhia América Fabril, por exemplo, ofereceram uma boa quantia em dinheiro para a Campanha Nacional de Aviação, que pretendia doar aviões ao Território do Acre. O Sindicato dos Metalúrgicos de Porto Alegre, em parceria com o Sindicato dos Ferroviários e a Rádio Farroupilha, promoveu a campanha “Asas para o Brasil”, com doação de recursos para ofertar um avião à Força Aérea. Uma campanha semelhante foi organizada pelo clube de futebol Vasco da Gama. Em Belo Horizonte, uma campanha previa doar navios à Marinha. Todas essas mobilizações tinham como propósito “vigiar e patrulhar as costas do Brasil” contra os “corsários do mal”.

Com a repercussão do afundamento dos navios brasileiros, o governo Getúlio Vargas declarou guerra aos países do Eixo. Além de organizar a FEB e enviar tropas para o front, com o reforço de muitos “pracinhas operários”, foi estabelecido no país o “esforço de guerra”, que combinava incremento da produção nacional com suspensão de direitos trabalhistas. Em certos casos, operários eram tratados como reservistas militares, passíveis de punições equivalentes à falta ou deserção ao serviço. Convém ainda lembrar que a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), promulgada em 1º de maio de 1943, não pôde ser aplicada plenamente nas empresas incluídas no esforço de guerra. O desabastecimento também foi um grave problema enfrentado pelo Brasil durante a guerra, sobretudo em relação aos alimentos de primeira necessidade. A falta de trigo, por exemplo, levou a busca de outros ingredientes para a preparação de pães. Os que eram feitos de milho, foram batizados como “pão da guerra”. Já a escassez de açúcar levava famílias pobres a  preparar seu café com caldo de cana para adoçar a bebida.

Todo este cenário de sacrifício à classe trabalhadora também se estabeleceu em escala global. Porém, os efeitos colaterais desse engajamento só seriam sentidos ao final da guerra. No Brasil, com a rendição das tropas alemãs, em 8 de maio de 1945, houve um carnaval fora de época. Foi até decretado feriado nacional em comemoração ao Dia da Vitória ou “Dia V”, como divulgou a imprensa. Ruas e praças pelo país afora eram tomadas de gente, sambas, frevos e marchinhas. Havia muita sátira aos nazistas, fascistas e integralistas, além de alegorias exaltando os expedicionários brasileiros. Com grande adesão popular, trabalhadora e sindical, muitos ostentavam nesses festejos estandartes em forma de “V” ou posavam para fotografias fazendo com as mãos o sinal de vitória. Também eram frequentes a exposição de bandeiras de países aliados, bem como cartazes e jornais com fotos de lideranças políticas mundiais que se uniram contra o nazifascismo, como Churchill, Roosevelt e Stalin. Algumas vezes, os festejos extravasaram para revanches. Foi o que ocorreu, por exemplo, no bairro industrial de São Miguel Paulista, em São Paulo, onde os trabalhadores da Nitro Química chegaram a subir e amassar carros de alguns chefes integralistas e partidários do Eixo.

Passada a euforia do final da guerra, uma nova era parecia se abrir aos trabalhadores em todo o mundo. No caso brasileiro, especialmente, o “Dia V” já concorria com os preparativos da primeira eleição presidencial após anos de ditadura do Estado Novo, com maior participação eleitoral de trabalhadora(e)s. Ela foi realizada junto à eleição de senadores e deputados federais para a Assembleia Nacional Constituinte, em dezembro de 1945. Além da formação de novas legendas partidárias, como a União Democrática Nacional (UDN), o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) e o Partido Social Democrático (PSD), uma antiga sigla, fundada em 1922, reconquistava sua legalidade: o Partido Comunista do Brasil (PCB). Seu principal líder, Luís Carlos Prestes, após 9 anos como preso político, foi libertado do cárcere logo após o “Dia V”. A popularidade do “Cavaleiro da Esperança” e a ação decisiva da União Soviética na derrota do nazifascismo empolgavam multidões, em particular os trabalhadores de cidades industriais e portuárias. Para a Constituinte, os comunistas elegeram Prestes como senador e catorze deputados federais.

As demandas represadas pelos trabalhadores por maior protagonismo político e social, bem como pelas não atendidas compensações pelos sacrifícios do período da guerra, eclodiram com força entre os anos de 1945 e 1946, quando a derrota do nazi-fascismo foi entendida como a vitória da classe trabalhadora. Elas podem ser resumidas na expressão “descontar o cheque patriótico”, utilizada pelo historiador britânico Geoff Eley.

Este cenário acabou desencadeando uma série de manifestações e greves de trabalhadora(e)s, lutando por reajuste salarial, abono de natal (atual décimo terceiro), aplicação e fiscalização das leis trabalhistas, além de melhores condições de trabalho. Assustados, setores conservadores do mundo político, empresarial e religioso reagiriam com força, buscando disputar corações e mentes da classe trabalhadora nos sindicatos, locais de trabalho, bairros periféricos e favelas. A emergência da Guerra Fria e a ascensão do anticomunismo como uma linguagem compartilhada por diversos setores dominantes no Brasil marcariam decisivamente os embates políticos e a visão sobre as lutas dos trabalhadores nos anos seguintes.

Desta forma, o contexto decisivo do final da Segunda Guerra Mundial provocou uma reconfiguração das relações de trabalho no Brasil ou a “prática de relações de classe de novo tipo”, como definiu um operário têxtil de Magé (RJ) em discurso no sindicato. Desde então, trabalhadoras e trabalhadores do Brasil se consolidaram como protagonistas da política brasileira, exigindo ações do Estado, dos partidos e das diversas instituições do país em atendimento às suas demandas, pois tinham a exata noção de sua importância para a sociedade, principalmente nos momentos mais difíceis. Ao mesmo tempo, essa classe trabalhadora, ao enfrentar uma reação hostil de setores do Estado e das classes dominantes, também experimentava novas formas de organização, com ações mais autônomas, se apropriando e ressignificando a legislação trabalhista, visando “apressar o dia da vitória final” que prometia chegar ao fim da guerra.

¹ Professor da Universidade Estadual do Piauí (UESPI) e pesquisador do LEHMT.

Referências

ALCÂNTARA, Patrícia Costa de. Os Conflitos de um Conflito: processos trabalhistas ajuizados nas Juntas de Conciliação e Julgamento de Belo Horizonte durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Seropédica: Dissertação em História, Relações de Poder, Trabalho e Práticas Culturais, Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, 2018.
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Crédito da imagem de capa: Comemoração de Trabalhadores em São Paulo sobre a Vitória na Guerra. Fonte: https://tokdehistoria.com.br/

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