Frederico de Castro Neves
Professor do Departamento de História da Universidade Federal do Ceará

Originalmente, as edificações que formaram o que ficaria conhecido como Campo de Concentração da cidade de Senador Pompeu, no Ceará, faziam parte da estrutura criada por uma empresa inglesa que iria construir um açude. No entanto, em 1923, a obra foi interrompida e os prédios abandonados. Em 1932, com mais uma grande seca no estado, foram incorporados à estrutura administrativa do campo de concentração, como parte de uma ampla intervenção governamental para controlar as migrações dos trabalhadores sertanejos pobres.

O Campo de Senador Pompeu, que chegou a reunir mais de 18 mil pessoas em maio de 1932, foi inicialmente planejado para a retomada das obras de construção do açude Patu, de forma a incorporar a mão-de-obra “disponível” durante a seca, quando milhares de camponeses ficaram sem trabalho. No entanto, a direção da IFOCS (Inspetoria Federal de Obras contra as Secas) decidiu priorizar outros açudes e outras barragens de menor porte. Os trabalhadores alistados nas obras saíam do campo somente para o trabalho nas obras públicas; as famílias (idosos, crianças e mulheres) deveriam permanecer no interior da cerca de arame farpado, realizando tarefas relacionadas à alimentação e manutenção das moradias. Camponeses, portanto, eram concentrados em espaços reduzidos, em barracas improvisadas, compartilhando espaços de descanso, alimentação e trabalho com desconhecidos, submetidos a regras despóticas inexistentes na agricultura familiar que, em sua maioria, praticavam.

Únicas construções de alvenaria, os prédios sediavam atividades de controle de alistamento nas obras, distribuição e armazenamento de alimentos, constituindo-se, por isso mesmo, em locais de conflitos e reinvindicação dos trabalhadores. Em torno desses prédios, os trabalhadores dividiam seus sofrimentos, disputavam alimentos e remédios, exigiam vagas nas obras públicas, reclamavam da qualidade da comida ou do atendimento médico, experimentavam novas formas de luta coletiva e de enfrentamento com o poder do Estado.

Grupos de retirantes ameaçavam os mercados e as cidades vizinhas e manifestações de protesto reuniam centenas de trabalhadores, no interior e nos arredores do campo.

As condições de vida eram as piores possíveis e a mortalidade (especialmente entre as crianças) muito alta, principalmente com a eclosão de uma epidemia de cólera, que fez com que um cemitério fosse apressadamente construído ao lado da barragem, com os corpos amontoados em valas comuns, contrariando os preceitos religiosos praticados costumeiramente pelos camponeses.

O Campo de Senador Pompeu não foi o único. Foram criados outros seis por todo o estado: Urubu e Matadouro (em Fortaleza), Burity (em Crato), Cariús, Ipu e Quixeramobim. Destes, Matadouro e Quixeramobim foram fechados poucas semanas depois de abertos. Os outros funcionaram como centros de recepção, assistência, controle e trabalho dos retirantes entre março de 1932 e fevereiro de 1933, acolhendo milhares de camponeses deslocados de suas terras em função da destruição da produção local pela ausência de chuvas regulares e mecanismos de proteção social. O maior de todos os campos, o Burity, chegou a receber cerca de 60 mil retirantes.

A criação dos Campos, em 1932, obedecia a uma política oficial de controle dos pobres durante o Governo Provisório de Getúlio Vargas (1930-1934), que reunia o Ministério de Viação e Obras Públicas (MVOP), a Inspetoria de Obras Contra as Secas (IFOCS) e a Interventoria Federal do Ceará, que chegou a criar uma secretaria especial (o Departamento das Secas) para administrar os campos e todas as iniciativas governamentais de assistência aos retirantes. Não era a primeira vez que a expressão “campo de concentração” era utilizada em documentos oficiais ou na imprensa para designar esses mecanismos de isolamento social dos retirantes. Em 1915, o Campo de Concentração do Alagadiço, em Fortaleza, reuniu cerca de 8 mil pessoas. Era uma iniciativa do governo estadual para evitar que multidões de retirantes famintos ocupassem o espaço público da cidade.

Com exceção do campo de Senador Pompeu, poucos vestígios materiais restaram dos campos de concentração cearenses e das experiências daquelas famílias de trabalhadores. Os prédios daquele campo permaneceram na memória dos camponeses retirantes como referência de um tempo de dor e sofrimento, de trabalho exaustivo e compulsório, de tarefas repetitivas e muitas vezes inócuas. Logo após o fechamento do campo foi se constituindo um ambiente em que uma crença popular nos milagres atribuídos às “almas da barragem” foi desenvolvida entre os camponeses pobres da região, que passaram a se dirigir em romaria aos pontos de referência dos eventos ligados à seca de 1932. Em 1982, sob influência do cristianismo de libertação, a paróquia local passou a organizar a Caminhada da Seca, que, uma vez por ano, refaz os caminhos da retirada dos camponeses pobres, entre os locais de moradia, a periferia da cidade, as estradas de terra, o cemitério e os prédios remanescentes do campo de concentração, levantando bandeiras de luta contra o latifúndio, a injustiça e a miséria.

Em 2019, a prefeitura local tombou, como patrimônio municipal, os prédios do Campo de Concentração de Senador Pompeu. O lançamento do filme Currais sobre a seca de 1932 e os campos, além de uma série de matérias na mídia deram, enfim, alguma visibilidade nacional para esse fundamental lugar de memória dos trabalhadores e trabalhadoras cearenses.

Casarão que foi utilizado como parte da administração do Campo de Concentração de Senador Pompeu
em 1932. Fotografia: Ted Calango Cinematográfica Ltda.

PAra saber mais
  • MARTINS, Aterlane. Das Santas Almas da Barragem à Caminhada da Seca: Projetos de Patrimonialização da Memória no Sertão Central Cearense (1982-2008). Fortaleza: Museu do Ceará, 2018.
  • NEVES, Frederico de C. Currais dos Bárbaros: os campos de concentração no Ceará (1915 e 1932). Revista Brasileira de História. São Paulo: ANPUH, v. 15, n.29, 1995.
  • RIOS, Kênia Sousa. Isolamento e Poder: Fortaleza e os campos de concentração na Seca de 1932. Fortaleza: Imprensa Universitária UFC/Museu do Ceará, 2014.
  • SILVA, Karoline Queiroz e. “Viva as almas da barragem!”: a construção da Caminhada da Seca, Senador Pompeu-CE. Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Federal do Ceará, 2017.
  • Filme: Currais. Direção de Sabina Colares e David Aguiar, 2019. (trailer em https://vimeo.com/310779563)

Crédito da imagem de capa: Canteiro de obras de construção do Açude Lima Campos, em 1932. Fotografia: Amílcar Pellon (acervo da família).


Lugares de Memória dos Trabalhadores

As marcas das experiências dos trabalhadores e trabalhadoras brasileiros estão espalhadas por inúmeros lugares da cidade e do campo. Muitos desses locais não mais existem, outros estão esquecidos, pouquíssimos são celebrados. Na batalha de memórias, os mundos do trabalho e seus lugares também são negligenciados. Nossa série Lugares de Memória dos Trabalhadores procura justamente dar visibilidade para essa “geografia social do trabalho” procurando estimular uma reflexão sobre os espaços onde vivemos e como sua história e memória são tratadas. Semanalmente, um pequeno artigo com imagens, escrito por um(a) especialista, fará uma “biografia” de espaços relevantes da história dos trabalhadores de todo o Brasil. Nossa perspectiva é ampla. São lugares de atuação política e social, de lazer, de protestos, de repressão, de rituais e de criação de sociabilidades. Estátuas, praças, ruas, cemitérios, locais de trabalho, agências estatais, sedes de organizações, entre muitos outros. Todos eles, espaços que rotineiramente ou em alguns poucos episódios marcaram a história dos trabalhadores no Brasil, em alguma região ou mesmo em uma pequena comunidade.

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