Luigi Biondi
Professor do Departamento de História da Unifesp

Na manhã do chuvoso dia 11 de julho de 1917, uma multidão de trabalhadores se reuniu em frente ao número 91 da Rua Caetano Pinto, no bairro paulistano do Brás, aguardando a saída do féretro de José Gimenez Martinez, um operário de origem espanhola de 21 anos e membro do grupo  anarquista “Jovens Incansáveis”, que ali morava. Martinez havia sido assassinado dois dias antes num embate entre grevistas e a força pública em frente à Tecelagem Mariangela do grupo Matarazzo. O cortejo, com cerca de 10.000 pessoas, levou o corpo ao cemitério do Araçá encabeçado por duas bandeiras vermelhas listradas de preto. Uma simples rua de trabalhadores simbolicamente se alongou naquele dia por toda a cidade, apropriando-se do espaço das elites da capital paulista. Aquele foi um momento marcante de uma greve que se generalizaria nos dias seguintes por diversas categorias profissionais e outras cidades do Estado de São Paulo e marcaria as relações de trabalho no país. 

A greve de 1917 foi a mais importante mobilização operária em São Paulo na Primeira República. A paralisação chegou a bloquear toda a cidade por vários dias e teve nos embates de rua e na ocupação de fábricas em bairros como Brás e Mooca algumas de suas principais características. A sociabilidade operária de ruas como a Caetano Pinto, pontuada por fábricas, moradias populares, associações e grupos políticos, certamente possibilitou a intensidade do movimento.O envolvimento comunitário, com particular papel das mulheres, assemelha a greve de 1917 às dinâmicas sociais de outras grandes mobilizações urbanas naquele período.

A Rua Caetano Pinto, cujo nome homenageia um antigo proprietário de terras na região, localiza-se no coração do Brás, principal e pioneiro bairro operário de São Paulo no início do século XX. Trata-se de uma transversal que corre da esquina com a Rua Visconde de Parnaíba até a Rangel Pestana, avenida que corta o bairro em duas partes e que, durante décadas, conectou a cidade operária ao então centro burguês. Ainda hoje essa região marca o início da Zona Leste, a ZL trabalhadora dos paulistanos. A rua, que ainda era um descampado no mapa de 1881, já aparecia urbanizada em 1895. Ficava no meio de um conjunto de quadras densamente povoadas, onde se alternavam oficinas e grandes estabelecimentos fabris, galpões, armazéns, depósitos, sobrados modestos e diversos cortiços, entre eles o Quintalão, o maior do Brás. Era uma das muitas ruas do bairro que sempre concentrou migrantes, inicialmente estrangeiros e, a partir das décadas de 1930 e 1940, brasileiros: feição característica da formação da classe trabalhadora paulistana, uma riqueza multicultural unificada e ressignificada na condição operária.

Martinez, símbolo da luta sangrenta dos dias da greve geral de 1917, havia chegado em São Paulo com a família da Espanha no começo daquele ano. Ao olharmos os nomes dos seus companheiros na pequena fábrica de calçados Bebé, onde trabalhava, reconhecemos uma grande maioria de espanhóis e italianos. A Caetano Pinto fica a três quadras da Hospedaria dos Imigrantes (hoje Museu da Imigração), por onde passaram milhares de trabalhadores estrangeiros e brasileiros, sobretudo de Minas Gerais e dos estados do Nordeste.

Naquele período, a Caetano Pinto era a “rua dos napolitanos”. Muitos imigrantes da região italiana da Campânia ali se empregavam em oficinas, fábricas e no pequeno comércio. Em 1900, foi construída uma pequena igreja dedicada à Nossa Senhora de Casaluce, popular na região de Nápoles e, desde então, uma das principais festas populares do Brás, dedicada à santa, é ali realizada. Os empresários Matarazzo, também de origem campana, tentaram desfrutar das fidelidades étnicas apoiando as atividades da igreja e suas festas.

As fábricas dos Matarazzo estavam espalhadas pelo bairro. O Moinho e a Tecelagem Mariangela, situavam-se algumas quadras mais ao norte da Caetano Pinto. Em 1933, a Metalúrgica Matarazzo, uma das primeiras grandes fábricas do setor em São Paulo, transferiu-se exatamente para a Rua Caetano Pinto, bem em frente à igreja. Apesar do paternalismo patronal praticado pelos empresários, greves seriam comuns na Metalúrgica e nas demais fábricas do grupo.

A dinâmica demográfica e social do Brás, que se realizava de forma exemplar na Rua Caetano Pinto, articulava fortemente a experiência da migração à de classe, o que ficava ainda mais evidente em momentos críticos de conflito social. Apesar do gradual processo de desindustrialização do Brás a partir dos anos 1970, ainda hoje existem na rua uma fábrica têxtil e unidades manufatureiras menores, depósitos de maquinários, comércio popular e conjuntos residenciais modestos. Próximos à velha igreja católica, cultos neopentecostais prosperam. A rua continua a manter seu perfil popular e o aspecto do trabalho fabril não se perdeu totalmente.

Em 1995, a Central Única dos Trabalhadores (CUT) transferiu sua sede nacional para o prédio da Metalúrgica Matarazzo, desativada há alguns anos.  A ocupação por uma central sindical da antiga fábrica de um dos mais famosos grupos industriais do país, representou uma apropriação simbólica icônica. O elo com a história operária paulistana foi celebrado por ocasião dos 100 anos da greve geral de 1917, quando uma série de atividades  promovidas pela CUT e pela Fundação Perseu Abramo foram realizadas no Brás. A Rua Caetano Pinto é o lugar de memória que conecta mais de 100 anos de lutas dos trabalhadores e trabalhadoras brasileiros.

Sede nacional da CUT no antigo prédio da antiga Metalúrgica Matarazzo à Rua Caetano Pinto. Fonte: CUT.


PAra saber mais
  • BIONDI, Luigi e TOLEDO, Edilene. Uma revolta urbana. São Paulo: Perseu Abramo, 2018.
  • CACCAVELLI, Bruno. Lazer e sociabilidade de trabalhadores do bairro paulistano da Mooca, 1900-1920. Dissertação de Mestrado em História, EFLCH-Unifesp, 2015.
  • DUARTE, Adriano Luiz. O direito à cidade. Trabalhadores e cidadãos em São Paulo, 1942-53. São Paulo: Alameda, 2018.
  • HALL, Michael M. “O movimento operário na cidade de São Paulo: 1880-1954”. In: PORTA, Paula. História da cidade de São Paulo, v. 3. São Paulo: Paz e Terra, 2004, pp. 259-289.
  • RIBEIRO, Suzana Barreto. Italianos no Brás. Imagens e memórias. São Paulo: Brasiliense, 1994.

Crédito da imagem de capa: Cortejo do funeral de José Martinez, 11 de julho de 1917. Fonte: Arquivo Edgard Leuenroth, Unicamp.


Lugares de Memória dos Trabalhadores

As marcas das experiências dos trabalhadores e trabalhadoras brasileiros estão espalhadas por inúmeros lugares da cidade e do campo. Muitos desses locais não mais existem, outros estão esquecidos, pouquíssimos são celebrados. Na batalha de memórias, os mundos do trabalho e seus lugares também são negligenciados. Nossa série Lugares de Memória dos Trabalhadores procura justamente dar visibilidade para essa “geografia social do trabalho” procurando estimular uma reflexão sobre os espaços onde vivemos e como sua história e memória são tratadas. Semanalmente, um pequeno artigo com imagens, escrito por um(a) especialista, fará uma “biografia” de espaços relevantes da história dos trabalhadores de todo o Brasil. Nossa perspectiva é ampla. São lugares de atuação política e social, de lazer, de protestos, de repressão, de rituais e de criação de sociabilidades. Estátuas, praças, ruas, cemitérios, locais de trabalho, agências estatais, sedes de organizações, entre muitos outros. Todos eles, espaços que rotineiramente ou em alguns poucos episódios marcaram a história dos trabalhadores no Brasil, em alguma região ou mesmo em uma pequena comunidade.

2 comentários em “Lugares de Memória dos Trabalhadores #41: Rua Caetano Pinto, Brás, São Paulo (SP) – Luigi Biondi

  1. Parabéns pelo texto, Biondi! O trabalho de resgate da memória realizado pelo LEHMT é muito importante!
    Como paulistana – criada em meio ao [torpe] ovacionismo ao 9 de julho de 32 – considero imprescindível ressignificar a data celebrada com feriado a partir da Greve geral de 9 de julho de 1917, quinze anos antes do levante “bandeirante”.
    Penso que a escolha do dia para o levante teve como interesse disputar a data de luta das/os trabalhadoras/es, como ato de apropriação simbólica. Isso a partir de impressões sobre os interesses das elites paulistas em dois tempos: os anti-getulistas que promoveram o levante armado em 1932; e os interesses representados pelo deputado pemedebista que encaminhou o projeto de lei – aprovado pelo governador tucano – para celebração da data como feriado da “Revolução Constitucionalista”.
    No mais, sugiro que, em uma outra oportunidade, tratem sobre a greve geral de 9/07/1917 trazendo informações sobre as bandeiras de luta e as/os personagens, assim como o desenrolar da disputa das pautas até a promulgação da CLT, quando diversas delas foram contempladas.
    Obrigada!

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