Glaucia Vieira Ramos Konrad
Professora da Universidade Federal de Santa Maria

Santa Maria é considerada o centro geográfico do estado do Rio Grande do Sul. A localização estratégica da cidade possibilitou a construção daquele que seria o principal entroncamento ferroviário do estado e que impulsionou o desenvolvimento de toda a região. A ferrovia mudou o traçado urbano da cidade e criou uma rede de serviços, comércio, escolas e instituições. Em torno da Estação formou-se bairro de Itararé, formado majoritariamente por ferroviários. O Monumento ao Ferroviário, erguido na década de 1930, marca o cenário da cidade até os dias de hoje. Clubes e associações como o Clube Treze de Maio (formado por ferroviários negros), o Riograndense Futebol Clube (fundado em 1912) e o Círculo Operário Ferroviário (criado nos anos 1920), entre outros, foram vitais na vida comunitária local. Não à toa, durante grande parte de sua história, Santa Maria foi conhecida como a Cidade Ferroviária. 

Em 1905, através de uma concessão federal, a empresa belga Compagnie Auxiliare de Chemins de Fér au Brésil tornou-se arrendatária da Viação Férrea do Rio Grande do Sul (VFRGS), quando Santa Maria passou a ser a sede da rede ferroviária do estado. Ao longo do século XX, a rede ferroviária passou por diversas administrações. Em 1913, a Brasil Railway assumiu o controle da rede férrea no estado. Sete anos depois, o governo do Estado encampou a VFRGS. Em 1957, foi criada a Rede Ferroviária Federal (RFFSA), absorvendo todas as empresas da VFRGS em uma só.

Os ferroviários de Santa Maria formavam uma categoria bastante diversificada, com a presença de trabalhadores negros, alemães, italianos, portugueses, judeus, entre outros. Em que pesem suas diferenças internas, os ferroviários logo se destacariam por sua capacidade de organização e poder de barganha. Os baixos salários, as constantes demissões e os acidentes de trabalho foram respondidos com frequentes greves e com a criação de uma forte cultura de solidariedade de classe e apoio mútuo

Seus movimentos reivindicatórios frequentemente contavam com o apoio da comunidade local. Durante as greves as famílias dos ferroviários ajudavam a impedir que os trens saíssem e procuravam convencer os fura-greves a aderir aos movimentos. As mulheres tinham uma ação destacada nesses momentos, criando uma rede de apoio para manter a subsistência das famílias nos períodos de paralisação e também tomando à frente das barricadas para impedir o avanço das forças policiais.

Foi no contexto da grande greve ferroviária de 1906 que surgiu a ideia da criação de uma entidade que proporcionasse aos ferroviários acesso aos produtos de consumo mais baratos. Mas seria apenas em 1913 que, por iniciativa do Sindicato dos Ferroviários da VFRGS, foi fundada a Cooperativa de Consumo dos Empregados da Viação Férrea do Rio Grande do Sul (COOPFER) em Santa Maria. Sua sede era na Vila Belga, um conjunto habitacional construído pela Viação em 1907.

O objetivo da Cooperativa era o de fornecer gêneros alimentícios, vestuário, calçados, medicamentos e assistência hospitalar aos ferroviários associados. Ao longo do tempo a COOPFER criou quinze armazéns e dezesseis farmácias em todo o Rio Grande do Sul, além de um hospital, a Casa de Saúde de Santa Maria. A Cooperativa também foi responsável pela instalação de duas escolas na cidade, voltadas para o ensino profissional e para as mulheres da comunidade ferroviária. Além destas escolas, ao longo das linhas férreas, foram criadas as Escolas Turmeiras com o objetivo de alfabetizar adultos nas pedreiras. Entre as décadas de 1950 e 1960, chegou a ser considerada umas das maiores cooperativas da América do Sul, chegando a ter cerca de 23 mil associados.

Com importante atuação de socialistas em suas origens e, posteriormente, de ativistas comunistas e trabalhistas, a COOPFER também se tornou um importante espaço para o movimento operário. Para além dos próprios ferroviários, tornou-se uma referência para diversas categorias de trabalhadores que, em momentos de greves e protestos, uniam-se para reivindicar direitos e melhores condições de trabalho. A ação da Cooperativa, apesar de muitas vezes permeada por tensões e disputas, foi fundamental para manter os trabalhadores em momentos de ação coletiva e nos períodos de grande carestia econômica, vendendo produtos a preços mais baixos.

Após o golpe civil-militar de 1964, a COOPFFER sofreu intervenção militar, acusada de promoção de “atividades comunistas” e de ser a base física e econômica da “subversão” no meio ferroviário do Rio Grande do Sul. Muitos trabalhadores da cidade foram denunciados, demitidos e perseguidos, sendo que alguns figuram na lista de mortos (como Onofre Ilha Dornelles), torturados (como Baltazar Mello) pela violenta perseguição aos trabalhadores ferroviários. 

A falta de investimentos, sucateamento e a adoção de uma política em favor do transporte rodoviário, levou ao declínio da RFFSA e a sua privatização na metade da década de 1990. Após um longo período de decadência, a COOPFER encerrou suas atividades. O Sítio Ferroviário de Santa Maria, incluindo a antiga sede da Cooperativa, foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado (IPHAE) no ano 2000. A história dos trabalhadores ferroviários ainda resiste e seus lugares de memória continuam a ser reivindicados e revisitados em Santa Maria.

Secção da Caldeiraria da Oficina de Santa Maria em 1928. Fonte: FLÔRES, João Rodolpho Amaral. Os trabalhadores da V.F.R.G.S. – profissão, mutualismo, cooperativismo. Santa Maria/RS: Pallotti, 2008.

PAra saber mais
  • FLÔRES, João Rodolpho Amaral. Fragmentos da história ferroviária brasileira e riograndense: fontes documentais, principais ferrovias, Viação Férrea do Rio Grande do Sul (VFRGS), Santa Maria, a “Cidade Ferroviária”. Santa Maria: Palotti, 2007.
  • FLÔRES, João Rodolpho Amaral. Os trabalhadores da V.F.R.G.S. – profissão, mutualismo, cooperativismo. Santa Maria/RS: Pallotti, 2008.
  • KONRAD, Glaucia Vieira Ramos. Mundos do Trabalho em Santa Maria e a Greve dos Ferroviários no Estado Novo. In: WEBER, Beatriz Teixeira; RIBEIRO, José Iran. (Org.). Nova História de Santa Maria: Contribuições Recentes. Santa Maria: Palotti, 2010.
  • IPHAE (INSTITUTO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO DO ESTADO). Patrimônio ferroviário no Rio Grande do Sul: Inventário das estações; 1874-1959. Porto Alegre: Palotti, 2002.
  • MELLO, Luiz Fernando da Silva. O pensamento utópico e a produção do espaço social: a Cooperativa de Consumo dos Empregados da Viação Férrea do Rio Grande do Sul. Tese (Programa de Pós-graduação em Planejamento Urbano e Regional) Universidade Federal do Rio Grande do Sul. 2010.

Crédito da imagem de capa: Prédio da Cooperativa dos Ferroviários e do Armazem Central em Santa Maria, década de 1940. Fonte: FLÔRES, João Rodolpho Amaral. Os trabalhadores da V.F.R.G.S. – profissão, mutualismo, cooperativismo. Santa Maria/RS: Pallotti, 2008.


Lugares de Memória dos Trabalhadores

As marcas das experiências dos trabalhadores e trabalhadoras brasileiros estão espalhadas por inúmeros lugares da cidade e do campo. Muitos desses locais não mais existem, outros estão esquecidos, pouquíssimos são celebrados. Na batalha de memórias, os mundos do trabalho e seus lugares também são negligenciados. Nossa série Lugares de Memória dos Trabalhadores procura justamente dar visibilidade para essa “geografia social do trabalho” procurando estimular uma reflexão sobre os espaços onde vivemos e como sua história e memória são tratadas. Semanalmente, um pequeno artigo com imagens, escrito por um(a) especialista, fará uma “biografia” de espaços relevantes da história dos trabalhadores de todo o Brasil. Nossa perspectiva é ampla. São lugares de atuação política e social, de lazer, de protestos, de repressão, de rituais e de criação de sociabilidades. Estátuas, praças, ruas, cemitérios, locais de trabalho, agências estatais, sedes de organizações, entre muitos outros. Todos eles, espaços que rotineiramente ou em alguns poucos episódios marcaram a história dos trabalhadores no Brasil, em alguma região ou mesmo em uma pequena comunidade.

4 comentários em “Lugares de Memória dos Trabalhadores #42: Cooperativa dos Ferroviários, Santa Maria (RS) – Glaucia Vieira Ramos Konrad

  1. Parabéns Glaucia! Os “ferrinhos” de Santa Maria mereciam este lugar na memória dos trabalhadores brasileiros. Parabéns pelo projeto Paulinho Fontes!

    Curtir

  2. As escolas destaques criada pelos ferroviario em Santa Maria: Escola Santa Terezinha, junto ao prédio do Colégio Estadual Manoel Ribas que anos mais tarde foi criado, tornando Colégio Padrão, nome de Manoel Ribas homenagem ao Mentor da criação da Cooper. Também mantido pela cooperativa o Colégio de Artes e Ofício Hugo Taylor, e a Escola Primária Rui Barbosa. O Bairro Itararé foi desenvolvido pelos ferroviários que acompanharam a construção da ferrovia que iniciou em São Paulo no Entroncamento Ferroviário de Itararé a Santa Maria construída pela empresas Francesa Auxiliaire, a Vila Belga foi a primeira sede da Ferrovia, teve como Diretor o Dr. Vautier., A contrução desta Ferrovia foi a causa da Guerra do Contestado em Santa Catarina, tenho posse de Documentos da tese de Doutorado do Dr. Vilmar Rubenique a respeito do tema.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.