Andrej Slivnik
Doutorando em História Social na Unicamp

“Nasceu uma cidade, com praças e jardins, onde há três anos só havia pântanos e desertos”. Assim o jornal O Radical anunciava a inauguração do ambicioso projeto do Conjunto Residencial do Realengo, bairro da zona oeste carioca, em junho de 1943. “Antecipando para o Brasil de nossos dias as conquistas sociais do mundo de amanhã!”

As 1.400 casas iniciais, assim como as primeiras obras de urbanismo, foram edificadas segundo projeto de Carlos Frederico Ferreira, engenheiro-arquiteto que ajudaria a instituir a equipe de profissionais do Instituto de Aposentadorias e Pensões dos Industriários (IAPI), órgão responsável pela obra. O IAPI era o maior dos institutos previdenciários criados nos anos de 1930, que tinham como finalidade oferecer aposentadorias, pensões e assistência médica, além de facilitar o acesso de trabalhadores à habitação.    

O conjunto contava com residências para trabalhadores da indústria e fora construído na região de Realengo, em terreno próximo à linha férrea que ligava o centro do Rio de Janeiro à parte oeste da cidade. O local facilitava o acesso de seus moradores à importante zona industrial de Bangu. Às casas entregues na primeira inauguração se juntariam outros edifícios, além de centros comerciais, clubes recreativos, postos de assistência médica e uma escola, nomeada segundo o espírito do período: “Presidente Roosevelt”. 

A questão da habitação esteve desde cedo no centro das demandas e expectativas de trabalhadores com a Previdência Social. Não à toa, sua memória está materializada em construções e bairros inteiros, que ainda hoje reconhecemos pelo nome dos IAPs e que seguem povoando lembranças afetivas de seus novos e antigos habitantes. É o caso, por exemplo, dos “Bancários”, na Praça São Salvador, no Rio de Janeiro, da “Vila do IAPI”, bairro da capital gaúcha, e do “Condomínio Conjunto do IAPI”, na Várzea do Carmo, região central de São Paulo.

Evidentemente, o potencial das ações habitacionais dos IAPs na mobilização de apoio popular foi desde sempre percebido por lideranças de variados campos políticos. Inaugurações de conjuntos habitacionais por presidentes da República foram parte fundamental da propaganda política de lideranças à direita e à esquerda. A inauguração da segunda expansão do IAPI do Realengo, em outubro de 1948, contou com a presença do Presidente Eurico Dutra, em evento que demonstra, como poucos, o papel mobilizador de entregas públicas de benefícios concretos aos “trabalhadores brasileiros”.

No entanto, tão logo se encerravam as celebrações, os problemas surgiam e se avolumavam as reivindicações. Na imprensa, as queixas dos moradores pipocavam. O preço da carne no único açougue do bairro: “uma fortuna”. A creche prometida no anúncio do governo: “jamais construída”. Além das viúvas de operários que eram despejadas com seus filhos.

Muitas vezes apareciam em forma de galhofa. Foi o caso da nota publicada em março de 1953, no jornal Última Hora: “Gozado para sopa de vesgo tá mesmo é no conjunto do IAPI. Iluminação tipo disco-voador, invisível. Polícia tipo água, ausente! Com isso sai cada uma. Ih!. De noite tudo muito escuro, sabem? Um ele vai entrando e esbarra numa ela e pergunta: Você é minha mulher? E ela: Sei lá! Não tô vendo nada!”.

Episódios do quotidiano familiar e comunitário, vividos entre as ruas e paredes do conjunto, que iam se materializando em demandas concretas, encaminhadas ou entregues pessoalmente a autoridades. Ou, então, que ensejavam a organização de grupos políticos, como o Centro Cultural Feminino, o Centro Cultural do Realengo, além de células locais do Partido Comunista do Brasil (PCB), que chegou a lançar uma moradora do conjunto como candidata à Constituinte, em 1945. A efervescência de organizações de trabalhadores e seus familiares chegou a ser tão significativa que o conjunto ficou conhecido como “Moscouzinho” e recebeu a visita do líder comunista Luiz Carlos Prestes.

Não foram poucos os encontros dos trabalhadores-moradores do IAPI do Realengo com figuras políticas de maior relevo na história brasileira. Aplaudiam e agradeciam a construção de novas casas, mas também reivindicavam melhores condições, reclamavam contra a subtração de serviços que atendiam a suas necessidades e lutavam para se apropriar daquele espaço, tão marcado pela presença de um Estado que procurava impor seus próprios ideais, enquanto deixava para um futuro cada vez mais distante, as “conquistas sociais do mundo de amanhã”.

Com o golpe militar de 1964 e a unificação dos IAPs, a política habitacional foi separada da previdenciária, passando a ser coordenada pelo Banco Nacional da Habitação (BNH), com recursos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS). Os precários conjuntos residenciais financiados nesse modelo foram uma das marcas da política social da ditadura, enquanto os antigos conjuntos construídos pelos IAPs seguiam destinos variados. No caso de Realengo, inserido num contexto local de crescente pobreza e violência, as características arquitetônicas e urbanísticas foram diluídas pelo crescimento desordenado das comunidades vizinhas. Mas o conjunto ainda mantém sua marca proletária e as memórias das lutas sociais ainda estão vivas em seu cotidiano.

Faixa celebra a visita do presidente Eurico Gaspar Dutra ao Conjunto do IAPI no Realengo em outubro de 1948. Arquivo Nacional, Sistema de Informações do Arquivo Nacional (SIAN).
Código de referência: BR RJANRIO EH.0.FOT, PRP.4280.

PAra saber mais
  • ARAVECCHIA-BOTAS, Nilce. Estado, Arquitetura e Desenvolvimento: a ação habitacional do IAPI. São Paulo, Editora Unifesp: 2016.
  • MANGABEIRA, Wilma. “Lembranças de Moscouzinho (1943-1964): Estudo de um conjunto residencial operário”. In: Revista de Ciência Sociais, Rio de Janeiro, vol. 32, n. 2, 1989.
  • SLIVNIK, Andrej. A Previdência Social no Brasil: uma abordagem histórica (1923-1945). Dissertação (Mestrado em História). Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2018.

Crédito da imagem de capa: Conjunto do IAPI de Realengo no Rio de Janeiro, década de 1940. Fonte: https://www.facebook.com/memorias.bangu.padremiguel.realengo/.


Lugares de Memória dos Trabalhadores

As marcas das experiências dos trabalhadores e trabalhadoras brasileiros estão espalhadas por inúmeros lugares da cidade e do campo. Muitos desses locais não mais existem, outros estão esquecidos, pouquíssimos são celebrados. Na batalha de memórias, os mundos do trabalho e seus lugares também são negligenciados. Nossa série Lugares de Memória dos Trabalhadores procura justamente dar visibilidade para essa “geografia social do trabalho” procurando estimular uma reflexão sobre os espaços onde vivemos e como sua história e memória são tratadas. Semanalmente, um pequeno artigo com imagens, escrito por um(a) especialista, fará uma “biografia” de espaços relevantes da história dos trabalhadores de todo o Brasil. Nossa perspectiva é ampla. São lugares de atuação política e social, de lazer, de protestos, de repressão, de rituais e de criação de sociabilidades. Estátuas, praças, ruas, cemitérios, locais de trabalho, agências estatais, sedes de organizações, entre muitos outros. Todos eles, espaços que rotineiramente ou em alguns poucos episódios marcaram a história dos trabalhadores no Brasil, em alguma região ou mesmo em uma pequena comunidade.

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