Patricia Pamplona
Pesquisadora de imagem e mestranda na Escola de Comunicações da UFRJ

No início do século XVIII, os clérigos da igreja de São Sebastião, no morro do Castelo, no Rio de Janeiro, começaram a contestar a permanência em suas instalações da imagem de São Domingos de Gusmão, santo bastante venerado pelos negros. Em 1706, a Câmara atendeu a um pedido da irmandade de São Domingos e concedeu um terreno para a construção de uma igreja. O espaço ficava fora dos limites da cidade, em um descampado pantanoso, na atual confluência das avenidas Presidente Vargas e Passos.

Durante algumas décadas, a igreja de São Domingos sediou pelo menos três irmandades além da dominicana: a de Santana, a do Menino Jesus e a de Santo Elesbão e Santa Efigênia, estes últimos, santos africanos venerados em conjunto. Essas agremiações religiosas, reunidas em torno da devoção a um santo católico, funcionavam como uma sociedade de ajuda mútua, cujos agregados, muitas vezes escravos e negros libertos, contribuíam com taxas anuais em troca de assistência.

As informações sobre a igreja de São Domingos durante o século XVIII são escassas, mas sabemos que se encontrava em precário estado de conservação em meados do século XIX. Nesse período, a cidade se expandia em direção ao norte, e, aos poucos, a igreja, antes solitária na paisagem, foi sendo incorporada ao centro urbano. No largo em frente, que levou o seu nome, foi instalado um pequeno chafariz de ferro, que atraía moradores, vendedores ambulantes e lavadeiras.

Sem manutenção, a igreja entrou no século XX a ponto de desabar, enquanto o largo reunia trabalhadores, um pequeno comércio e moradias populares. A praça tinha gafieira, botequim, casa de pasto, restaurantes, alfaiataria, casa de banho, fábrica de fogões, casa de charutos e cigarros, loja de roupas, e casas de cômodos.

Nesse mesmo período, o largo de São Domingos foi se configurando como um dos principais espaços para um novo tipo de organização operária, as sociedades de resistência. Essas associações de trabalhadores tinham um caráter eminentemente sindical, pleiteando salários, jornada e condição de trabalho mais dignos, ainda que mantivessem algumas características das sociedades de ajuda mútua populares no século anterior. As duas primeiras décadas da República foram de intensa mobilização popular. Entre 1890 e 1920, mais de trezentas greves foram realizadas no Rio de Janeiro e explosões sociais, como a Revolta da Vacina, em 1904, foram relativamente comuns.

Naquele contexto, o largo de São Domingos tornou-se um lugar de frequentes encontros e assembleias de trabalhadores. As associações de sapateiros, canteiros, pintores e costureiras, por exemplo, convocavam reuniões periódicas no largo. Comícios e comemorações do Dia Primeiro de Maio lotavam a praça.

No início do século XX, a cidade era um grande canteiro de obras graças às reformas urbanas do prefeito Pereira Passos. Em 1904, o “Bota-Abaixo” derrubou parte das construções do largo. O projeto do prefeito previa a abertura de uma nova avenida ligando a rua Larga de São Joaquim (avenida Marechal Floriano) ao Rocio (praça Tiradentes). A avenida, cuja construção pôs abaixo espaços importantes na luta operária, recebeu o nome do prefeito e foi a primeira via inaugurada no governo de Pereira Passos a rasgar o tecido urbano da cidade.

Em 1905, a prefeitura retirou o antigo chafariz do centro do largo de São Domingos, e em seu lugar colocou a estátua em bronze do jurista Teixeira de Freitas, obra de Rodolfo Bernardelli. A prefeitura alterou, inutilmente, o nome do largo para praça Teixeira de Freitas. Mas a estátua servia apenas de descanso para os pombos e palanque para os comícios. Teixeira de Freitas nunca foi um nome usado pela população, e quatro anos depois, em 1909, a escultura foi retirada e o largo voltou a ter oficialmente o seu nome original.

Uma nota no Jornal do Brasil, em 1919, nos dá medida da importância do largo de São Domingos para a luta operária. Em frente à fábrica de tecidos Aliança, em Laranjeiras, um comício “promovido por elementos agitadores” foi impedido de ser realizado “conforme resolução do dr. chefe de polícia de só permitir tais reuniões no largo de São Domingos”. Enquanto o largo continuava local de reuniões políticas, a igrejinha encontrava-se em estado calamitoso.

No final dos anos 1920, a sorte da igreja de São Domingos mudou. Foi reformada na prefeitura de Prado Júnior (1926-1930) e retomou as suas atividades religiosas com missas, batizados e catecismo.

Em 1941, o projeto de abertura da avenida Presidente Vargas derrubou os primeiros sobrados próximos à praça Onze. O largo e a igreja de São Domingos também ficavam no traçado da avenida, e logo as desapropriações chegaram até ali. A última festa na igreja de São Domingos foi realizada em 2 de agosto de 1942, já que, ironicamente, as chaves deveriam ser entregues à prefeitura no dia 4, dia do padroeiro. Depois de arrasados largo e igrejinha, as obras para construção da rede pluvial localizaram diversas ossadas humanas, que hoje sabemos ser daqueles que integravam a irmandade de São Domingos. Em 1970, a nova e definitiva paróquia de São Domingos de Gusmão foi inaugurada na rua José Higino, 120, no bairro da Tijuca.

Largo de São Domingos. Augusto Malta, 1913. Coleção Augusto Malta. Museu da Imagem e do Som – RJ.

PAra saber mais
  • ABREU, Maurício de Almeida. Evolução urbana do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, IPP, 2008.
  • ANDREATTA, Verena. Cidades quadradas, paraísos circulares. Rio de Janeiro: Mauad X, 2006.
  • BATALHA, Claudio. Dicionário do movimento operário – Rio de Janeiro do século XIX aos anos 1920, militantes e organizações. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2009.
  • MOTA, Isabela e PAMPLONA, Patricia. Vestígios da paisagem carioca: 50 lugares desaparecidos do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Mauad X, 2019.

Crédito da imagem de capa: Comício operário no largo de São Domingos. O Malho, 9 de maio de 1908. Divisão de Periódicos, Fundação Biblioteca Nacional.


Lugares de Memória dos Trabalhadores

As marcas das experiências dos trabalhadores e trabalhadoras brasileiros estão espalhadas por inúmeros lugares da cidade e do campo. Muitos desses locais não mais existem, outros estão esquecidos, pouquíssimos são celebrados. Na batalha de memórias, os mundos do trabalho e seus lugares também são negligenciados. Nossa série Lugares de Memória dos Trabalhadores procura justamente dar visibilidade para essa “geografia social do trabalho” procurando estimular uma reflexão sobre os espaços onde vivemos e como sua história e memória são tratadas. Semanalmente, um pequeno artigo com imagens, escrito por um(a) especialista, fará uma “biografia” de espaços relevantes da história dos trabalhadores de todo o Brasil. Nossa perspectiva é ampla. São lugares de atuação política e social, de lazer, de protestos, de repressão, de rituais e de criação de sociabilidades. Estátuas, praças, ruas, cemitérios, locais de trabalho, agências estatais, sedes de organizações, entre muitos outros. Todos eles, espaços que rotineiramente ou em alguns poucos episódios marcaram a história dos trabalhadores no Brasil, em alguma região ou mesmo em uma pequena comunidade.

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