Tiago Bernardon de Oliveira
Professor do Departamento de História da Universidade Federal da Paraíba

Na altura do km 70 da BR-230, no início da rodovia Transamazônica, uma das pretendidas obras-símbolo da ditadura militar, chega-se ao acesso à PB-073. As proximidades deste entroncamento, no município de Sobrado, são conhecidas por Café do Vento. Ali o líder camponês João Pedro Teixeira foi assassinado em 2 de abril de 1962.

Ele voltava de João Pessoa com livros e material escolar para alguns de seus 11 filhos. Após desembarcar do ônibus, foi alvejado por 2 policiais e 1 vaqueiro. Apesar da instauração do inquérito pelo próprio governador, das pressões populares e da repercussão na imprensa, os atiradores foram condenados e, em 1965, absolvidos; já os mandantes, integrantes do Grupo da Várzea – latifundiários da região da várzea do Rio Paraíba –, passaram ilesos. O principal acusado, Aguinaldo Veloso Borges, recebeu imunidade parlamentar após o titular e outros 5 suplentes estarem licenciados ou renunciarem a seus cargos para que tomasse assento pela UDN como deputado estadual.

João Pedro Teixeira, camponês de 44 anos, negro, batista, sabia que era homem visado. Depois de conhecer a vida sindical quando trabalhava em uma pedreira em Pernambuco, voltou à Paraíba. A exemplo da experiência do Engenho Galileia, ajudou a erguer em 1958 a Associação dos Lavradores e Trabalhadores Agrícolas de Sapé, a Liga Camponesa de Sapé, que viria a se constituir a maior do Brasil. Diferentes estimativas apontam entre 7.000 e 13.000 seu número de filiados.

Na década de 1950, com o aumento do preço do açúcar, trabalhadores começaram a perder, sem indenização, seus roçados e outras benfeitorias erigidas até então sob tradicionais acordos com os proprietários nas beiras dos canaviais. Macaxeira, inhame, feijão, batata-doce davam lugar à cana a ser moída pelas insaciáveis usinas. Em sintonia com seus companheiros de Pernambuco, os paraibanos organizaram-se contra o cambão (dia de trabalho não remunerado nas terras do proprietário) e o aumento do foro (aluguel pelo uso da terra) e em defesa de direitos sociais e da Reforma Agrária. As mobilizações ultrapassaram as cercas dos municípios e chamaram a atenção de políticos e intelectuais do Brasil e do exterior.

Ao contrário do que esperavam os autores da emboscada, o assassinato de João Pedro não calou o campo. A Liga de Sapé cresceu, agora com a liderança da viúva Elizabeth. As lutas pela Reforma Agrária ocuparam debates nacionais e a questão integrou a proposta das Reformas de Base do governo João Goulart. Ameaças e episódios sangrentos persistiam, como em janeiro de 1964, quando 11 pessoas, entre capangas e camponeses, morreram em um conflito no município vizinho de Mari.

Sapé tornou-se um forte símbolo da luta pela Reforma Agrária. No início de 1964, o jovem cineasta carioca Eduardo Coutinho deslocou-se para o Engenho Galiléia, em Pernambuco, a fim de gravar um filme sobre as organizações e reivindicações camponesas, com Elizabeth Teixeira e sua família como atores e personagens do drama.

O golpe interrompeu as filmagens. Retomado 17 anos depois, Cabra Marcado para Morrer tornou-se documentário, o principal da história do cinema brasileiro, ao tratar da vida de Elizabeth e as disputas de memória em torno da Liga de Sapé.

O golpe de 1964, arquitetado em grande medida para destruir as lutas por direitos e pela Reforma Agrária no país, reprimiu fortemente as Ligas Camponesas. Enquanto Elizabeth foi jogada à clandestinidade longe de seus filhos, centenas de militantes foram perseguidos e silenciados. Pedro Inácio de Araújo, o Pedro Fazendeiro, e João Alfredo Dias, o Nêgo Fuba, também fundadores da Liga de Sapé, foram desaparecidos após serem torturados pelo Exército.

A ditadura procurou apagar qualquer vestígio de memória da resistência camponesa. No entanto, as causas da luta pela terra não foram eliminadas. A modernização conservadora do campo intensificou ainda mais a concentração fundiária, a pobreza e o êxodo rural. No início dos anos 1980, os trabalhadores rurais da Paraíba, com o apoio de setores progressistas da Igreja Católica, voltaram a se mobilizar pela conquista de direitos e da Reforma Agrária em meio a esforços e expectativas pela construção de um país democrático. As memórias das experiências do passado foram retomadas. Mas o sangue provocado pela violência do latifúndio continuava a verter: em agosto de 1983, Margarida Maria Alves, do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Alagoa Grande (a 70 km de Sapé), foi assassinada na porta de sua casa. Este crime não abalou a organização em sindicatos e em novos movimentos sociais do campo, como a Comissão Pastoral da Terra e o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra.

Em 2006, militantes da região formaram a ONG Memorial das Ligas Camponesas. Fruto das mobilizações populares das décadas anteriores, o governo do estado da Paraíba, eleito em 2010, atendeu a demanda de desapropriar a área ao redor da casa onde João Pedro e Elizabeth viveram, nas imediações do povoado de Barra das Antas, zona rural de Sapé.

A partir de 2012, a casa tornou-se o Memorial das Ligas e Lutas Camponesas. Suas paredes abrigam painéis expostos com fotos e recortes de jornais da época, em esforço ainda incipiente, porém fundamental. O Memorial também procura criar vínculos entre a história das lutas sociais na região com as do presente. Assim, a antiga casa tornou-se um lugar de memória das lutas da classe trabalhadora, que insiste em não esquecer de seu passado para não esmorecer na luta do presente por um mundo diferente no futuro.

Aspecto da casa de João Pedro Teixeira, Elizabeth e seus filho, onde hoje abriga o Memorial das Ligas e Lutas Camponesas em Barra das Antas, zona rural de Sapé. Créditos: Weverton Elias Santos Rodrigues.

PAra saber mais
  • ALVES, Janicleide Martins de Morais. Memorial das Ligas Camponesas: preservação da memória e promoção dos direitos humanos. João Pessoa: Dissertação de Mestrado em Direitos Humanos, Cidadania e Políticas Públicas – Universidade Federal da Paraíba, 2014.
  • BANDEIRA, Lourdes Maria; MIELE, Neide; SILVEIRA, Rosa Maria Godoy. Eu marcharei na tua luta! – A vida de Elizabeth Teixeira. 2.ed. Campina Grande: EDUEPB, 2012.
  • RANGEL, Maria do Socorro. Medo da morte e esperança de vida: uma história das Ligas Camponesas. Campinas: Dissertação de Mestrado em História – Universidade Estadual de Campinas, 2000.
  • Website do Memorial das Ligas e Lutas Camponesas: https://www.ligascamponesas.org.br/
  • Documentário: Cabra marcado para morrer. Dir. Eduardo Coutinho. Brasil, 1984.

Crédito da imagem de capa: Comício da Liga Camponesa de Sapé pela reforma agrária. Reprodução de Correio da Manhã, 27 de maio de 1962.


Lugares de Memória dos Trabalhadores

As marcas das experiências dos trabalhadores e trabalhadoras brasileiros estão espalhadas por inúmeros lugares da cidade e do campo. Muitos desses locais não mais existem, outros estão esquecidos, pouquíssimos são celebrados. Na batalha de memórias, os mundos do trabalho e seus lugares também são negligenciados. Nossa série Lugares de Memória dos Trabalhadores procura justamente dar visibilidade para essa “geografia social do trabalho” procurando estimular uma reflexão sobre os espaços onde vivemos e como sua história e memória são tratadas. Semanalmente, um pequeno artigo com imagens, escrito por um(a) especialista, fará uma “biografia” de espaços relevantes da história dos trabalhadores de todo o Brasil. Nossa perspectiva é ampla. São lugares de atuação política e social, de lazer, de protestos, de repressão, de rituais e de criação de sociabilidades. Estátuas, praças, ruas, cemitérios, locais de trabalho, agências estatais, sedes de organizações, entre muitos outros. Todos eles, espaços que rotineiramente ou em alguns poucos episódios marcaram a história dos trabalhadores no Brasil, em alguma região ou mesmo em uma pequena comunidade.

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