Anaclara Volpi Antonini
Mestre em Geografia Humana pela Universidade de São Paulo

O pedestre que caminha hoje pela pequena rua Quararibeia, na zona sul de São Paulo, pode se surpreender ao notar a tinta vermelha que marca o asfalto com os dizeres “Aqui foi assassinado o operário Santo Dias da Silva no dia 30-10-1979 pela polícia militar”. Apesar do desgaste provocado pelos carros que passam diariamente, a mensagem carregada com a tinta provoca reflexão. Quem foi esse operário? Por que foi assassinado? Em que contexto?

O terreno onde hoje há um conjunto de edifícios residenciais era ocupado por uma fábrica de tubos para televisores e lâmpadas de capital estadunidense chamada Sylvania. A fábrica, parte do eixo industrial que se desenvolveu na região sul da cidade, foi inaugurada em 1961 e funcionou na mesma localidade até 2007. Nesse período, a zona sul de São Paulo concentrou grandes contingentes de trabalhadores e se tornou um importante polo da mobilização operária.

Em 1964, com o golpe militar, a diretoria do sindicato dos metalúrgicos de São Paulo, assim como de outros sindicatos por todo o Brasil, sofreu intervenção do Ministério do Trabalho. Com a perseguição e banimento de militantes e sindicalistas comunistas e trabalhistas, o grupo político ligado aos interventores controlou o sindicato por todo o período ditatorial. Nesse contexto, a organização dos trabalhadores para resistir às perdas de direitos, à compressão dos salários e às condições precárias de trabalho se desenvolveu principalmente por meio das oposições sindicais.

Santo Dias da Silva foi um dos líderes da Oposição Sindical Metalúrgica de São Paulo (OSMSP), a mais famosa oposição sindical do país. Ainda adolescente, envolveu-se nas lutas por melhores condições de trabalho e salários para os trabalhadores rurais em Terra Roxa, município paulista onde nasceu. Sua família acabou expulsa da colônia em que morava. Migrante na cidade de São Paulo, Santo Dias empregou-se na Metal Leve, fábrica de equipamentos automobilísticos. Católico, foi bastante influenciado pela Teologia da Libertação e tornou-se um líder muito importante nas comunidades eclesiais de base da Igreja Católica e nos movimentos populares atuantes nos bairros periféricos da zona sul de São Paulo.

Em 1978, paralelamente à onda grevista nas indústrias automobilísticas da região do ABC paulista, uma grande mobilização se espalhou pelo parque industrial da capital paulista graças ao forte trabalho de base realizado pelos militantes da OSMSP nas comissões de fábrica que emergiram nesse período. Na campanha salarial do ano seguinte, a força dessa mobilização levou o Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo a decretar greve. Logo no início da paralisação, em outubro de 1979, houve forte repressão policial e dezenas de prisões. Nas ruas dos bairros industriais da zona sul, viaturas policiais mantinham a vigilância e a perseguição aos grevistas. No dia 30 de outubro, às 14h, Santo Dias e mais alguns operários estavam em frente à fábrica Sylvania no horário da troca de turno dos trabalhadores para convencê-los a parar e participar da assembleia que ocorreria mais tarde. Subitamente, viaturas chegaram causando tumulto e o líder metalúrgico foi assassinado por um policial militar com um tiro a queima roupa.

O assassinato de Santo Dias provocou uma grande revolta popular e um cortejo fúnebre com milhares de pessoas acompanhou o corpo do operário da Igreja da Consolação à Catedral da Sé, onde uma comovente missa foi celebrada pelo Cardeal Dom Paulo Evaristo Arns.

Naquele dia, o espaço público da cidade foi reocupado pelos trabalhadores em sua denúncia contra a violência policial e a defesa do direito de greve. Desde então, Santo Dias tornou-se um poderoso símbolo da luta operária e da oposição à ditadura.

A mobilização por justiça em relação ao crime de Estado representado pelo assassinato de Santo Dias, a defesa de sua luta e de sua memória impulsionaram a formação do Comitê Santo Dias. Ao longo dos anos, diferentes ações foram realizadas pelo Comitê, como atividades políticas e culturais, publicações, nomeações de ruas, praças, escolas, entre outras. Uma dessas atividades se mantém todos os anos desde 1980. No dia e horário de seu assassinato, familiares, amigos e companheiros se encontram para um ato em frente à antiga fábrica da Sylvania, que depois segue em passeata até o Cemitério do Campo Grande onde o operário está enterrado. A denúncia do assassinato é feita em tinta vermelha no asfalto. Nos alto falantes, se rememora a luta de Santo Dias e se denunciam as violações que os trabalhadores continuam enfrentando nos dias atuais.

É possível dizer que a fábrica Sylvania e a rua onde ela se situava são lugares transformados pela memória e pela ação dos trabalhadores e trabalhadoras de São Paulo. A carga simbólica motiva o ato e coloca o lugar do assassinato como um marco importante para os sujeitos dessa ação que se repete todos os anos, contrariando o apagamento simbólico e físico das violações e dos lugares relacionados à ditadura militar. Por isso, podemos nos referir a ele como um lugar de memória. Ao mesmo tempo, a sinalização e o ato periódico abrem uma nova camada de sentido nesse lugar, que pode ser apropriada por pessoas e grupos que não viveram diretamente aquelas violações, mas que podem dar novos sentidos a elas.

Foto1: Primeira sinalização do lugar onde o operário Santo Dias da Silva foi assassinado, em 1980. Crédito: Autor desconhecido. Acervo: Luigi Giuliani (acervo pessoal).
Foto 2: Ato em frente ao local onde se localizava a fábrica Sylvania pelo 40º aniversário de morte de Santo Dias, em 30 de outubro de 2019. Crédito: José Ignacio Aliaga García.

PAra saber mais
  • ANTONINI, Anaclara Volpi. Lugares de memória da ditadura militar em São Paulo e as homenagens ao operário Santo Dias da Silva. 2016. Dissertação (Mestrado) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, São Paulo, 2016.
  • DIAS, Luciana; AZEVEDO, Jô; BENEDICTO, Nair. Santo Dias: quando o passado se transforma em história. 2. ed. Fundação Perseu Abramo e Expressão Popular: São Paulo, 2019.
  • NETO, Sebastião. Investigação Operária: Empresários, Militares e Pelegos Contra os Trabalhadores. IIEP: São Paulo, 2015.
  • PROGRAMA Lugares da Memória. Fábrica Sylvania. Memorial da Resistência de São Paulo, São Paulo, 2015.
  • Documentário: Braços cruzados, máquinas paradas. Dir.: Roberto Gervitz, Sérgio Toledo. São Paulo: Cooperativa Cinematográfica Brasileira, 1979. 76 min.

Crédito da imagem de capa: Trabalhadores mobilizados durante a missa de sétimo dia de Santo Dias em frente à Catedral da Sé, em novembro de 1979. Crédito: Nair Benedicto. Acervo: Fundo Santo Dias – CEDEM/UNESP.


Lugares de Memória dos Trabalhadores

As marcas das experiências dos trabalhadores e trabalhadoras brasileiros estão espalhadas por inúmeros lugares da cidade e do campo. Muitos desses locais não mais existem, outros estão esquecidos, pouquíssimos são celebrados. Na batalha de memórias, os mundos do trabalho e seus lugares também são negligenciados. Nossa série Lugares de Memória dos Trabalhadores procura justamente dar visibilidade para essa “geografia social do trabalho” procurando estimular uma reflexão sobre os espaços onde vivemos e como sua história e memória são tratadas. Semanalmente, um pequeno artigo com imagens, escrito por um(a) especialista, fará uma “biografia” de espaços relevantes da história dos trabalhadores de todo o Brasil. Nossa perspectiva é ampla. São lugares de atuação política e social, de lazer, de protestos, de repressão, de rituais e de criação de sociabilidades. Estátuas, praças, ruas, cemitérios, locais de trabalho, agências estatais, sedes de organizações, entre muitos outros. Todos eles, espaços que rotineiramente ou em alguns poucos episódios marcaram a história dos trabalhadores no Brasil, em alguma região ou mesmo em uma pequena comunidade.

2 comentários em “Lugares de Memória dos Trabalhadores #57: Fábrica Sylvania, São Paulo (SP) – Anaclara Volpi Antonini

  1. Muito importante saber de mais essa história e elucidar os locais de memória da cidade. Adorei a cadência do texto e fico chocada como ele soa atual. Silenciar pessoas que escancaram a incoerência e a injustiça do sistema continua sendo a prática vigente. Até quando?

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