Luciana Pucu e Claudiane Torres entrevistam Renata Moraes

O curso de extensão “Reflexões e novas abordagens sobre o lugar dos negros e negras no Ensino de História”, ministrado pela professora Renata Moraes, buscou refletir sobre os obstáculos enfrentados pelos docentes para aplicação das leis n.º 10.639 (2003) e n.º 11.645 (2008), que tornou obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileira e indígena nas escolas. A historiadora falou sobre a importância de se abordar a questão racial nas escolas para além de datas comemorativas e enfatizou que o protagonismo dos homens e mulheres negras na configuração dos mundos do trabalho e na experiência dos trabalhadores e trabalhadoras antes e após a Abolição. Renata enfatizou ainda a importância de se combater o racismo estrutural através de um educação antirracista que deve ser construída coletivamente entre escolas, universidades, Estado e sociedade como um todo.


Nos fale um pouco sobre o curso de sete semanas que você ofereceu pela plataforma Google Meets: “Reflexões e novas abordagens sobre o lugar dos negros e negras no Ensino de História”.

Desde 2017 eu coordeno um projeto de extensão no Departamento de História da UERJ onde investigamos a aplicação das leis 10639 (2003) e 11645 (2008) no ensino de história, tanto na parte didática quanto nos conteúdos dos livros utilizados na rede pública do Rio de Janeiro. Com a pandemia, tivemos que adaptar a ideia de promover um curso para os professores da rede básica de ensino. Ao mesmo tempo, a possibilidade do remoto nos permitiu ampliar o alcance das aulas fazendo com que tivéssemos alunos de diferentes partes do Brasil. Nossa preocupação era o público que alcançaríamos. Desejávamos que fossem professores da rede pública e com um tempo de atividade na educação, por entendermos que poderiam ser os mais carentes em determinados conteúdos. Ao se inscrever, o professor deveria preencher um formulário explicando seus interesses no curso. Tivemos mais de 300 inscritos e selecionar 200 foi uma tarefa árdua e complexa e que contou com os bolsistas de Iniciação à docência (Jonatas) e a bolsista de extensão (Marina). Ao final, cerca de 115 pessoas concluíram o curso que foi ministrado por mim e por outros 5 professores convidados, que trataram de temáticas que relacionaram a história do homem negro e da mulher negra na história do Brasil. Esse curso terá como grande produto um material com planos de aula elaborado pelos alunos cursistas, e que será disponibilizado a todos que fizeram o curso.

Qual o balanço que você faz da obrigatoriedade do ensino de História da África e da Cultura Afro-Brasileira nas escolas, obtida com a aprovação da Lei 10.639 de 2003?

Através desse curso pude perceber que há uma forte demanda por parte dos professores em acessar conteúdos relacionado à obrigatoriedade da lei. Por outro lado, percebi que muitas escolas ainda reservam o mês de novembro como momento para refletir sobre consciência negra, por conta do dia 20 de novembro, dia da morte de zumbi. No entanto, é importante ressaltar que estudar o homem negro e a mulher negra deve ser em todo o conteúdo da disciplina história (as demais disciplinas também tem obrigação em administrar esse conteúdo) e não apenas em temáticas ligadas à escravidão e resistência. Nesse caso, vejo que muitos professores ainda colocam a questão racial em alguns períodos da história, como por exemplo no que consideramos o período colonial e imperial. Porém, esses conteúdos desaparecem da história da república. Além disso, se discute pouco sobre os egressos da escravidão no mundo do trabalho no Brasil República. Quando se trata da história dos trabalhadores e da sua resistência, muitos esquecem que esses trabalhadores são homens e mulheres negros e negras que ou resistiram à escravidão ou são descendentes daqueles que foram escravizados. Logo, a experiência da escravidão influenciou a resistência dos trabalhadores e suas formas de luta. Desta forma, precisamos inserir essa reflexão quando pensamos nos conteúdos obrigatórios da lei. É preciso ver a história republicana brasileira como crucial para a construção de cidadania e um campo de luta de homens e mulheres negros e negras. Deste modo, avançamos muito desde 2003 e agora é ampliar e avançar nas abordagens, dando protagonismo e voz a homens e mulheres negros e negras que fizeram a história do Brasil.   

O debate em torno da interseccionalidade, ou seja, das interfaces existentes entre o racismo, o patriarcado e o capitalismo, vêm ganhando destaque nos debates acadêmicos nos últimos anos. Você poderia falar um pouco mais sobre esse conceito e sobre quais desafios esses novos debates colocam para o Ensino de História?

Há muito tempo tratamos fatos da história, principalmente a do Brasil, como uma ação feita por homens, principalmente homens brancos. A história do Brasil tem uma origem e ela é branca e masculina. No entanto, é preciso ver essa história por outro olhar, que não exclui homens brancos mas que agrega às suas ações a mobilização de homens negros, mulheres, brancas e negras. O olhar interseccional é fundamental para enxergarmos as inúmeras possibilidades de entender fatos históricos e pensar na indeterminação dos sujeitos, uma vez que suas ações políticas podem ser influenciadas por sua origem social, seu passado e o momento histórico. Um exemplo que gosto de citar é sobre a resistência escrava, que é tratada também como uma ação mais masculina do que feita por mulheres. O estudo dessa resistência tem que ver nas mulheres um ponto crucial de planejamento de ações contra a escravidão e de luta pelas suas vidas e dos seus filhos. Durante muito tempo focamos nossa análise na ideia de um escravizado guerreiro e em fuga, num estilo zumbi dos Palmares, mas quantas mulheres escravizadas não tiveram que promover estratégias de fugas e de sobrevivência sem a ajuda de homens? As cidades escravizadas eram o local de trabalho de muitas dessas mulheres, que viveram a escravidão e resistiram a ela no cotidiano das ruas e do trabalho. Deste modo, ao ensinarmos a história do Brasil temos que pensar nas inúmeras possibilidades que esses sujeitos históricos tiveram a partir da sua origem, classe, gênero e outros fatores.

Como as recentes manifestações antirracistas em todo o mundo e as polêmicas sobre a derrubadas de estátuas de escravocratas e colonialistas podem ser utilizadas em sala de aula em tempos em de negacionismo histórico?

Mais importante que derrubar estátuas é entender o porquê elas estão ali. Sem dúvida que 2020 nos deixará muitas lições e uma delas é a urgência em combatermos o negacionismo, tanto na história quanto na ciência. Os movimentos antirracistas ocorridos em todo mundo precisam provocar mudanças estruturais. Derrubar estátuas é simbólico, nos alerta sobre a quantidade de homenagens feitas a escravocratas, mas essas estátuas precisam ser derrubadas também no nosso cotidiano. O racismo tem uma estrutura que também precisa ser derrubada, tal como uma grande estátua. Os movimentos antirracistas precisam chegar na educação e na política. A respeito da educação, a obrigatoriedade de ensinar determinados conteúdos não é suficiente. As secretarias de educação e as universidades precisam trabalhar juntas para fazer uma educação antirracista e não deixar apenas essa obrigação para iniciativas pontuais de alguns professores. É preciso uma política de estado. A mídia também tem um papel crucial e precisa se ver como racista a fim de que possa fazer uma virada. De nada vai adiantar tratarmos de diversidade e ensinarmos um Brasil negro se a criança e o jovem ligarem a TV e ver em novelas e filmes apenas um Brasil branco, elitizado e longe da sua realidade. Desta forma, a história pública também se torna fundamental para pensarmos nesses conteúdos que tratam da história do Brasil e que estão ao alcance de todos. No campo da política, em 2020 temos uma incrível oportunidade de elegermos candidaturas comprometidas com o combate ao racismo e a desigualdade social e que neguem o avanço das pautas conservadoras. Ou seja, só a ação de alguns professores e a derrubada de estátuas não muda a estrutura de séculos.


Renata Moraes é professora de História do Brasil da UERJ, do Mestrado Profissional em Ensino de História (Profhistória) e pesquisadora do LEHMT. Dentre os temas de pesquisa, destaca os trabalhadores no século XIX, movimentos grevistas e associativismo. No campo do ensino, tem pesquisado o impacto das leis de 2003 e 2008 através de projetos de extensão e pesquisa em livros didáticos.


Crédito da imagem de capa: Foto de Juca Martins/Olhar Imagem. “Manifestação durante a reunião da SBPC, Salvador, BA, 1981”. Arquivo Edgard Leurenroth/Unicamp. Notação: vu_esc_pasta_080_foto_02390.


Chão de Escola

Nos últimos anos, novos estudos acadêmicos têm ampliado significativamente o escopo e interesses da História Social do Trabalho. De um lado, temas clássicos desse campo de estudos como sindicatos, greves e a relação dos trabalhadores com a política e o Estado ganharam novos olhares e perspectivas. De outro, os novos estudos alargaram as temáticas, a cronologia e a geografia da história do trabalho, incorporando questões de gênero, raça, trabalho não remunerado, trabalhadores e trabalhadoras de diferentes categorias e até mesmo desempregados no centro da análise e discussão sobre a trajetória dos mundos do trabalho no Brasil.
Esses avanços de pesquisa, no entanto, raramente têm sido incorporados aos livros didáticos e à rotina das professoras e professores em sala de aula. A proposta da seção Chão de Escola é justamente aproximar as pesquisas acadêmicas do campo da história social do trabalho com as práticas e discussões do ensino de História. A cada nova edição, publicaremos uma proposta de atividade didática tendo como eixo norteador algum tema relacionado às novas pesquisas da História Social do Trabalho para ser desenvolvida com estudantes da educação básica. Junto a cada atividade, indicaremos textos, vídeos, imagens e links que aprofundem o tema e auxiliem ao docente a programar a sua aula. Além disso, a seção trará divulgação de artigos, entrevistas, teses e outros materiais que dialoguem com o ensino de história e mundos do trabalho.

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