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Chão de Escola #59: Os ferroviários da Central do Brasil em Três Rios/RJ – Memória, trabalho e identidade, por Célio César de Aguiar Lima.

27 DE AGOSTO DE 2026

             Célio César de Aguiar Lima.
(Professor e historiador, com Doutorado em História pela UERJ, com tese dedicada à História Social do Trabalho)

            

Apresentação da atividade

Segmento: Ensino Médio – 2º ou 3º Ano

Unidade temática: O Brasil Republicano

Objeto de conhecimento: As condições de vida e de trabalho das populações negras no pós-abolição e durante a Primeira República.

Objetivos gerais:

– Relacionar a história das ferrovias e o processo de urbanização e industrialização no Brasil.

Objetivos específicos:

– Analisar o cotidiano e as memórias dos trabalhadores ferroviários;

– Relacionar experiências individuais com transformações históricas;

– Desenvolver a leitura crítica de fontes iconográficas e testemunhais;

– Estimular a valorização da memória local e do patrimônio cultural dos municípios fluminenses, especificamente Três Rios (RJ)

Duração da atividade: 5 aulas de 50 min

AulasPlanejamento
1 e 2Etapa 1
3 e 4Etapa 2

Conhecimento prévio:

– Compreender, de forma básica, a história da industrialização e do trabalho dos operários no Brasil durante a Primeira República.

Habilidades a serem desenvolvidas (BNCC):

(EM13CHS103) Analisar os processos históricos de urbanização e industrialização e seus impactos.

– (EM13CHS104) Compreender o papel dos sujeitos sociais na construção do espaço urbano.

– (EM13CHS202) Reconhecer diferentes formas de registro e preservação da memória e da cultura.

– (EM13CHS303) Avaliar as transformações nas relações de trabalho ao longo do tempo.

Atividade

Recursos: Data Show; Quadro Branco; Pincel.

Atividade 1
Solicite que os alunos realizem a atividade abaixo:

1. Qual a relação entre a cidade de Três Rios, município do Rio de Janeiro, com o desenvolvimento das ferrovias?
2. Explique como o pós-abolição influenciou o mundo do trabalho nas oficinas das ferrovias em Três Rios?
3. Quais foram as formas de resistência e luta dos trabalhadores?
4. Escreva uma frase para cada conceito, relacionando com as imagens e o texto lido em sala.

TrabalhoFerroviaMemória de Três RiosIdentidade dos ferroviários


Aula – 2: Vozes dos ferroviários: leitura e interpretação de relatos

Leitura dos testemunhos

Explique aos estudantes que também podemos conhecer a história por meio de relatos orais. Nesta aula, serão lidos trechos de entrevistas com ferroviários e pessoas ligadas à ferrovia em Três Rios (RJ).

Esses relatos mostram experiências de vida, dificuldades, alegrias, relações familiares e a maneira como essas pessoas viam o trabalho e a cidade.

Faça uma leitura coletiva e converse com a turma sobre o cotidiano dos trabalhadores ferroviários e sobre como a ferrovia fazia parte da vida da cidade.

Leia os documentos e analise-os

TESTEMUNHO 1 – Ataíde Neves

Com 10 anos de idade minha mãe me colocou para fora de casa, disse que eu já era homem suficiente para cuidar da minha vida. Eu passei a dormir na estação, trabalhava de tudo para ganhar o almoço. Naquela época trabalhar na Central do Brasil era um sonho, todos queriam trabalhar lá, pagava em dia, relativamente bem, te dava segurança.”
(Ataíde Neves – 86 anos – militar reformado – servidor público. Entrevista Concedida em 24/12/2023 das 15:00 as 16:30h.)

O relato de Ataíde mostra que a ferrovia fazia parte da vida de muitas pessoas, inclusive de quem não era funcionário. Ele conta que passou por dificuldades na infância e que via o trabalho na Central do Brasil como uma oportunidade de ter segurança e respeito. Sua história mostra como a ferrovia influenciava também a vida das pessoas que moravam ou trabalhavam perto dela.

TESTEMUNHO 2 – Ledemar Mendes Franco

“Entre-Rios era a ferrovia e a ferrovia era Entre-Rios. Quando passo por lá [antiga estação] é como um filme que me vem à cabeça.”
(Ledemar Mendes Franco, 89 anos, teatrólogo envolvido na formação e construção do GATVIC – Grupo de Amadores Teatrais Viriato Correa; Entrevista concedida em 25/11/2023 das 10:00 às 11:30h.)

Ledemar cresceu em uma cidade muito ligada à ferrovia. Mesmo não sendo ferroviário, viveu em um ambiente marcado pelos trilhos e pela presença dos trabalhadores. Suas lembranças mostram carinho pela antiga estação e pelo passado da cidade. Sua família trabalhava no comércio, mas os ferroviários eram uma presença importante no dia a dia. Seu relato mostra como a ferrovia ajudou a formar a história e a identidade de Três Rios.

TESTEMUNHO 3 – Ângela Maria Duarte de Brito

“Quase todos [os músicos] eram ferroviários. Nem sei se existiria a Banda sem os ferroviários. O pessoal entrar para a banda e ir para a Central era comum.”
(Angela Maria Duarte de Brito – 76 anos, filha do Maestro Geraldo Duarte do Grêmio Musical Primeiro de Maio por 50 anos. Entrevista Concedida em 24/10/2023 das 10:00 as 12:00 hs.)

Ângela cresceu em uma família muito ligada à cultura ferroviária. Seu relato mostra como a ferrovia estava presente na música, na vida familiar e na convivência entre as pessoas. Ela valoriza a história de seu pai e mostra que a ferrovia também podia abrir oportunidades de trabalho e participação na vida da cidade. Mesmo sem ter trabalhado na ferrovia, sua infância e suas lembranças foram marcadas por esse ambiente.

TESTEMUNHO 4 –  Geraldo Duarte

“Meu ingresso na Banda 1º de Maio proporcionou a mim e a meu pai a oportunidade de ingressarmos na antiga Central do Brasil. O povo gostava muito da Banda 1º de Maio […] a Banda de Música era a festa da cidade.”
(Depoimento/entrevista realizada pela sua filha Ângela Maria Duarte de Brito, que cedeu os manuscritos originais para esse trabalho permitindo o uso e publicação dele. Angela Maria Duarte de Brito – 76 anos, filha do Maestro Geraldo Duarte do Gremio Musical Primeiro de Maio por 50 anos. Entrevista Concedida em 24/10/2023 das 10:00 as 12:00 hs.”

Geraldo reúne duas experiências importantes: o trabalho na ferrovia e a música. Trabalhou no 3º Depósito e foi maestro durante muitos anos. Para ele, a ferrovia não era apenas um emprego; também fazia parte da vida cultural e das relações entre as pessoas. A música ajudava a aproximar a comunidade, e o trabalho na ferrovia podia trazer oportunidades, orgulho e o sentimento de fazer parte da cidade.

TESTEMUNHO 5 – Hermínio Ferreira de Almeida

“Nosso serviço era pesado, judiado. […] Não tinha comida, hotel, dava quase 30 horas direto de trabalho. Mesmo vindo gente de todo lado […] a ferrovia unia as pessoas como se fossem uma família.”
 (Herminio Ferreira de Almeida, ferroviário aposentado. 91 anos. Entrevista Concedida em 12/12/2023 das 14:30 às 16:30 h.)

Hermínio lembra o trabalho ferroviário como um trabalho pesado e difícil, mas também destaca a amizade entre os trabalhadores. Ao falar das condições ruins de trabalho como guarda-freio e auxiliar de maquinista, mostra que o crescimento da ferrovia também exigia muito esforço das pessoas. Ao mesmo tempo, ele lembra a união entre os trabalhadores, que muitas vezes se apoiavam como uma família.

TESTEMUNHO 6- Sebastião Cassiano da Silva

“Não me deram oportunidade na oficina, sempre colocavam outros e eu fui ficando na ‘soca’ até aposentar. A gente se reunia e tudo terminava em música, a música está no sangue.”
(Sebastião Cassiano da Silva – 93 anos, Ferroviário, Músico do Grêmio Musical 1º de Maio. Entrevista Concedida em 12/12/2023 das 14:30 às 16:30 h.)

Sebastião fala sobre as diferenças de oportunidades dentro da ferrovia. Negro e filho de pessoas que haviam sido escravizadas, ele conta que não teve as mesmas oportunidades que outros trabalhadores. Ao mesmo tempo, destaca a amizade e a música como formas de união e de enfrentamento das dificuldades. Seu relato ajuda a discutir desigualdade, trabalho e participação da população negra na história da ferrovia.

TESTEMUNHO 7 –  Luiz Augusto Rocha Dias (Guti)

“Era uma barulhada de tamanco para lá, tamanco para cá. O pessoal da ferrovia, do 3º Depósito usava e era muita gente. Quase todo mundo aqui era ferroviário.”
(Luiz Augusto da Rocha Dias, 92 anos, ex-presidente do Entrerriense Futebol Clube, do Grêmio Musical 1º de Maio, e do GATVIC – Grupo de Amadores Teatrais Viriato Correa; Entrevista concedida em 29/11/2023 das 14:00 às 15:30h.)

Luiz Augusto não trabalhou diretamente na ferrovia, mas viveu em uma cidade muito influenciada por ela. Como participou do Grêmio Musical e do Entrerriense, percebeu como a ferrovia estava ligada à música, ao esporte e à convivência entre as pessoas. Seu relato mostra que a ferrovia teve um papel importante na organização e na vida social da cidade.

TESTEMUNHO 8 – Aroldo Chistovan de Lima

“Eu não fui ferroviário, mas fui engraxate na Estação Ferroviária Leopoldina na década de 1950. Os alunos da Escola Profissional Jorge Franco almoçavam no 3º Depósito […] depois iam para a oficina.”
(Aroldo Chistovam de Lima, 88 anos, político local; Entrevista concedida em 02/12/2023 das 10:00 às 11:30h.)

Aroldo mostra que a ferrovia também era importante para quem não tinha o cargo de ferroviário. Desde jovem, ele acompanhou a rotina da estação e conheceu a Escola Profissional. Seu relato mostra a importância do ensino técnico e do trabalho para criar novas oportunidades. Seu pai também trabalhava perto da estação, mostrando como muitas famílias tinham alguma relação com a ferrovia.

Atividade II:

Considerando a leitura dos testemunhos, responda as questões abaixo.

1) O que os relatos revelam sobre o dia a dia, as relações, as dificuldades e os sentimentos das pessoas ligadas à ferrovia? Construa um quadro mostrando essas características.

2) Escreva um texto destacando trechos importantes dos relatos e contando o que eles revelam sobre a história dos ferroviários de Três Rios.

Reforma e ampliação da Estação de Entre Rios/RJ
Vagão construído nas Oficinas Ferroviárias de Entre Rios/RJ
Trabalhadores dentro das oficinas do 3º Deposito Ferroviário em Entre Rios/RJ
Primeira Maria Fumaça da Central do Brasil na Estação de Entre Rios/RJ
Recorte de Jornal anunciando a fabricação de Vagões em Entre Rios/RJ
Escola Profissional Ferroviária em Entre Rios/RJ
Queima de Café no Governo de Getulio Vargas próximo a Estação de Entre Rios/RJ

Bibliografia e material de apoio:

Créditos da imagem de capa: Arquivo Pessoal de Atayde Tavares (ex-ferroviário);

Marcio Romerito

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