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LMT #146: Cordón Industrial Cerrillos-Maipú, Santiago, Chile – Marco Lagos Catalán

11 DE SETEMBRO DE 2026




O governo da Unidade Popular (1970-1973) representou um momento de imensa intensidade política e social. A chegada de Salvador Allende à presidência permitiu que amplos setores populares considerassem a possibilidade de transformar a ordem existente. Processos como a reforma agrária e as ocupações de terra se aceleraram, ao mesmo tempo em que surgiam novas formas de organização populares. Entre elas, se destacaram as Juntas de Abastecimento e Controle de Preços (JAP) e os Cordones Industriais, que, em meio à ofensiva empresarial, coordenaram a defesa da produção e promoveram formas de controle operário. Nessas experiências se expressou o que o historiador Peter Winn denominou uma “revolução desde baixo”.

Uma de suas expressões mais significativas desse processo revolucionário “desde baixo” teve lugar no sudoeste da Grande Santiago. O Cordón Cerrillos-Maipú compreendia crescimento industrial, organização sindical e fortes carências urbanas. No início dos anos 1970, estimava-se que cerca de 46 mil trabalhadores estavam distribuídos em aproximadamente 250 indústrias, entre elas a Perlak, FENSA, CIC, Fantuzzi e Polycron. A organização sindical também crescia com rapidez: cerca de um quinto dos sindicatos da zona havia se formado entre 1971 e 1972. O Cordón se estendia, além disso, sobre um território onde cidade e campo ainda se misturavam, e das zonas rurais próximas vinham trabalhadores e produtos que abasteciam Santiago.

Em 1972, essas mobilizações passaram a se articular de forma mais ampla no território. No primeiro semestre aumentaram os protestos por melhorias em transporte, saúde, moradia e outros problemas urbanos. Marchas e bloqueios confluíram em um Cabildo Abierto (uma assembleia aberta) que congregou entre 300 e 400 pessoas de sindicatos, acampamentos, organizações camponesas e juntas de vizinhos. Ali surgiu a ideia de criar um Comando Comunal para coordenar as organizações do território, aproximando o mundo das fábricas de pobladores (moradores de bairros populares) e camponeses. A mobilização também crescia nos locais de trabalho. Durante 1972 foram registradas 63 greves na região: 55 industriais e 8 rurais.

Em junho, as mobilizações na Perlak, Polycron e Aluminios El Mono, entre outras indústrias, marcaram um novo momento. Várias greves e ocupações começaram a coincidir, enquanto aumentavam as reuniões entre trabalhadores de diferentes empresas. Desse processo surgiu o Comando Coordenador das Lutas dos Trabalhadores de Cerrillos-Maipú, que em poucas semanas juntou mais de vinte indústrias. Parte dos conflitos se vinculava à demanda de incorporar fábricas à Área de Propriedade Social (APS), um setor da economia que o governo buscava colocar sob controle estatal. No final de junho, parte dos trabalhadores fechou os acessos à comuna, o que levou o ministro da Economia a decretar a intervenção em algumas indústrias em conflito. A pressão exercida conseguia, assim, incidir sobre as decisões do governo, e os conflitos começavam a encontrar respostas em escala nacional.

Essas dinâmicas antecipavam várias características dos Cordones industriais: a coordenação entre fábricas, as assembleias de delegados e ações que iam além dos conflitos trabalhistas. Cada fábrica conservava certa autonomia, embora existissem espaços comuns de coordenação, circulação de boletins e discussão política. Essa articulação permitia vincular a defesa da produção a problemas cotidianos como o abastecimento e o transporte.


No entanto, não existia uma visão única sobre como agir: militantes comunistas, socialistas e integrantes do Movimento de Esquerda Revolucionária (Movimiento de Izquierda Revolucionaria, MIR) conviviam nesses espaços e discutiam sobre os métodos, os tempos e os objetivos da mobilização.


Um dos principais problemas encontrados nesse processo foi o de distribuição. Embora diversas fábricas tenham conseguido manter a produção em meio ao boicote e às paralisações, os trabalhadores continuavam tendo pouco controle sobre boa parte do circuito comercial. Na Perlak, por exemplo, os operários denunciavam que todo mês saíam da fábrica mais de um milhão de unidades de molho de tomate e dezenas de milhares de sopas, enquanto esses mesmos produtos faltavam nas poblaciones ou reapareciam apenas no mercado negro. O problema estava também na estrutura de distribuição: mesmo com uma presença estatal maior, o setor público controlava apenas uma parte desse sistema, em torno de 25 ou 30%, deixando amplo espaço para a especulação. Diante dessa questão, começaram a se organizar feiras populares, vendas diretas e formas de coordenação com as JAP, organizações de bairro e camponeses próximos.

A paralisação empresarial e de caminhoneiros em outubro de 1972 escalonou essa situação a um novo patamar. A paralisação do transporte e do comércio agravou o desabastecimento e pôs à prova as formas de organização construídas. Em Cerrillos-Maipú, numerosas fábricas foram ocupadas e organizaram turnos para manter a produção. A “Batalha pela Produção” passou assim a fazer parte da vida cotidiana das fábricas. Também surgiram respostas para a escassez, como a distribuição de alimentos, a produção de caldos e as vendas diretas. Mas a paralisação mostrou também os limites dessas iniciativas: sem controlar o transporte, nem tampouco boa parte das redes comerciais, manter as fábricas operando não bastava para garantir que os produtos chegassem até a população.

Após a paralisação, um dos conflitos mais persistentes foi o destino das empresas que haviam sido objeto de intervenção ou ocupadas. Muitos trabalhadores esperavam que estas companhias passassem à APS, enquanto o governo buscava limitar o processo e devolver algumas a seus proprietários ou enquadrá-las dentro do programa da Unidade Popular. Essa tensão dividiu as próprias organizações de trabalhadores. Um dos principais pontos de atrito surgiu com a Central Única de Trabalhadores, cuja direção defendia uma estratégia mais próxima ao programa governamental e observava com cautela organizações que podiam escapar ao seu controle. Dentro do Cordón coexistiam distintas posições sobre até onde avançar e como se relacionar com o governo. Nesse sentido, Cerrillos-Maipú expressou as disputas sobre o rumo da via chilena ao socialismo e a tensão entre uma revolução “desde cima” e outra “desde baixo”.

Durante 1973, a coordenação territorial buscou estreitar vínculos com outras zonas industriais. No entanto, o golpe de Estado de 11 de setembro pôs violentamente fim a essa experiência. Desde as primeiras horas do dia, forças militares ocuparam o setor industrial de Cerrillos-Maipú e controlaram os acessos e vias de circulação. Segundo o testemunho de Guillermo Rodríguez, houve tentativas de resistência na Perlak e na Fensa. Nesta última, carros blindados participaram da operação e, no dia seguinte, efetivos militares abriram caminho até a fábrica com explosivos antes de retirar do recinto, com as mãos na nuca, 109 trabalhadores. Buscas, detenções e ocupações militares se repetiram em outras indústrias. A Feira Internacional de Santiago (FISA), em Cerrillos, funcionou como centro de detenção durante setembro e outubro de 1973. Também foram utilizados outros recintos, como a Medialuna (a arena de rodeio) e o Ginásio Municipal de Maipú. Assim, a repressão ocupou o mesmo território que havia dado vida ao Cordón industrial, transformando espaços de encontro cotidianos em lugares de detenção e interrogatório.

A destruição dessas redes não significou o fim de toda organização territorial entre os trabalhadores. Durante a ditadura surgiram em Maipú tentativas de reconstruir vínculos sindicais, entre elas, a Federação Sindical de Maipú (FESIMA). Nesse mesmo local, em 1979, o Sindicato Industrial N.º 1 da Goodyear protagonizou uma das primeiras greves que enfrentaram o novo Plano Trabalhista da ditadura de Pinochet.

Nas décadas seguintes, a experiência dos Cordones foi recuperada por meio de pesquisas, comemorações e expressões culturais. A obra Cordones Industriais, da companhia Tarea Urgente, é uma das iniciativas que levaram essa história outra vez ao espaço público por meio do teatro. Seu nome também voltou a aparecer em ciclos recentes de mobilização. Durante a Revolução Pinguim, organizada por estudantes secundaristas em 2006, surgiram “Cordones estudantis” para coordenar estabelecimentos de ensino por comunas e zonas de Santiago. Em outubro de 2019, distintas assembleias territoriais articularam “Cordones de assembleias” ou “Cordones de cabildos”. Não se tratava de uma continuidade direta com os Cordones industriais dos anos setenta. No entanto, essas experiências voltaram a pôr em circulação uma forma de organização levantada a partir dos territórios. Mais de meio século depois, essa experiência segue gerando perguntas sobre as formas de organização popular, sua relação com o território e, sobretudo, até onde podia chegar aquela revolução construída “desde baixo”.

Robert Moss, O experimento marxista chileno, 1974. Santiago de Chile : Gabriela Mistral.

Salgado, Xaviera (2019). “Organización política y sociabilidad popular: Cordón Industrial Cerrillos‑Maipú y el paro de octubre de 1972”. En Se levanta el clamor popular. Experiencias del pueblo organizado durante el gobierno de los mil días 1970‑1973. Concepción: Talleres Sartaña, pp. 125‑157.


Henríquez, Renzo (2014). “Industria Perlak ‘Dirigida y controlada por los Trabajadores’. Desalienación obrera en los tiempos de la Unidad Popular, 1970–1973”. Revista Izquierdas, n.º 20, pp. 52–77.

Castillo, Sandra (2010). “Sociabilidad y organización política popular: Cordón Industrial Cerrillos-Maipú”. Cuadernos de Historia, n.º 32.

Gaudichaud, Franck (2016). Chile 1970–1973: mil días que estremecieron al mundo. Poder popular, cordones industriales y socialismo durante el gobierno de Salvador Allende. LOM Ediciones.

Cordero, M. C.; Sader, E.; Threlfall, M. (1973). Consejo comunal de trabajadores y cordón Cerrillos-Maipú: Balance y perspectivas de un embrión de poder popular. Documento CIDU.

Silva, Miguel (1990). Los cordones industriales y el socialismo desde abajo. Ediciones Documento ILIDE.

Documentário: La Batalla de Chile (Parte II). Dir. Patricio Guzmán, 1976.


Crédito da imagem: Trabalhadores do Cobre Cerrillos marcham carregando cartazes do Cordão Cerrillos e de “Cobre Cerrillos Intervenida Presente”. Santiago, 1973. Fonte: Armindo Cardoso, Cordão Cerrillos, 1973. Negativo monocromático, gelatina sobre acetato de celulose, 6 × 6 cm.


Lugares de Memória dos Trabalhadores

As marcas das experiências dos trabalhadores e trabalhadoras brasileiros estão espalhadas por inúmeros lugares da cidade e do campo. Muitos desses locais não mais existem, outros estão esquecidos, pouquíssimos são celebrados. Na batalha de memórias, os mundos do trabalho e seus lugares também são negligenciados. Nossa série Lugares de Memória dos Trabalhadores procura justamente dar visibilidade para essa “geografia social do trabalho” procurando estimular uma reflexão sobre os espaços onde vivemos e como sua história e memória são tratadas. Mensalmente, um pequeno artigo com imagens, escrito por um(a) especialista, fará uma “biografia” de espaços relevantes da história dos trabalhadores de todo o Brasil. Nossa perspectiva é ampla. São lugares de atuação política e social, de lazer, de protestos, de repressão, de rituais e de criação de sociabilidades. Estátuas, praças, ruas, cemitérios, locais de trabalho, agências estatais, sedes de organizações, entre muitos outros. Todos eles, espaços que rotineiramente ou em alguns poucos episódios marcaram a história dos trabalhadores no Brasil, em alguma região ou mesmo em uma pequena comunidade.

A seção Lugares de Memória dos Trabalhadores é coordenada por Larissa Farias, Paulo Fontes, Vinicius Rosalvo e Yasmin Getirana.


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