Geral
🇺🇸

LMT #147: As Casas Baratas, Barcelona, Espanha – José Luis Oyón

08 DE OUTUBRO DE 2026




Única intervenção municipal na questão da habitação operária, as Casas Baratas del Patronato Municipal de la Habitación tiveram como objetivo realojar os moradores de barracas de Montjuïc, local de celebração da Exposição Internacional de 1929. A rápida construção de 2.335 moradias em quatro grupos extremamente periféricos constituiu, no entanto, mais um problema do que uma solução autêntica. As famílias foram despejadas pela Guarda Civil apenas uma semana antes da inauguração do evento. Os aluguéis não eram baratos. Os novos bairros também não reuniam as condições urbanísticas adequadas, com extrema distância e falta de acessibilidade ao centro da cidade.

As Casas Baratas tinham um caráter homogeneamente operário. Tanto o grupo Milans del Bosch quanto o Eduardo Aunós apresentavam percentuais de chefes de família de trabalhadores sem qualificação superiores a 80%. Guetos proletários também eram guetos de imigrantes recentes. Grupos regionais da onda imigratória mais recente, como os murcianos e andaluzes, superavam claramente a população catalã. Era muito marcante a presença de lares onde conviviam duas ou mais unidades familiares, fossem famílias com relação de parentesco direto ou sem nenhuma relação aparente. Isso levou a um altíssimo nível de superlotação, com 6,7 pessoas por moradia.

Carentes de linhas de bonde ou ônibus, os deslocamentos ao trabalho dos habitantes das Casas Baratas eram a pé e geralmente custosos em tempo e dinheiro. Os bairros onde se situavam funcionavam como dormitórios, onde a população trabalhadora se recolhia em casa em horas tardias. Ali os esperava um local quase sem locais de lazer. As redes de parentesco e de conterrâneos e a vida na rua vinham compensar essa falta de núcleos de encontro. Entre os bairros operários barceloneses, o grupo Eduardo Aunós era um dos que mais se caracterizava pela presença de parentes em primeiro grau próximos, às vezes vivendo dentro da própria moradia, outras na esquina ao lado (cerca de 60% tinha um familiar direto vivendo no bairro). Essas relações, articuladas principalmente por mulheres, podiam se ampliar aos familiares menos próximos, os primos ou simples conterrâneos do povoado ou comarca. A grande maioria da população andaluza residente no grupo Eduardo Aunós procedia de Cuevas de Vera, na província de Almería.


A rua foi o lugar principal de desdobramento de todo esse conjunto de redes de parentes, de conterrâneos, de vizinhos e amigos. Uma “cidade horizontal” onde a rua era o lugar de relação social por excelência.


O pequeno tamanho da moradia (38m² em sua maioria), a alta taxa de ocupação doméstica, o elevado número de filhos e filhas, a proximidade física e falta de filtros entre as casinhas térreas e a rua faziam com que a moradia transbordasse literalmente para o exterior, convertendo a rua na principal esfera de coesão comunitária. As próprias tarefas domésticas, como o abastecimento de água na fonte e a secagem da roupa ao sol, realizavam-se na rua.

A estrutura laboral da imigração recente pouco qualificada acarretou graves consequências durante a crise dos anos trinta em setores como a construção civil, formada na maioria por peões-de-obra imigrantes. O impacto do desemprego na construção significou literalmente fome, doença e conflitos. Como em outros bairros periféricos, baixa qualificação e imigração estavam claramente associadas ao cenetismo (movimento ligado ao radicalizado sindicato majoritário anarquista, a Confederación Nacional del Trabajo, CNT). As Casas Baratas foram um dos espaços mais marcantes da expansão da CNT dos anos 1930. Com 64% de todos os operários da construção em suas fileiras, o combativo Sindicato Único da Construção era um foco permanente de conflitos, capacidade mobilizadora e radicalismo. Nas Casas Baratas da zona de Sant Andreu, a filiação estava esmagadoramente voltada para os peões, que formavam 93% do total de cenetistas. Essa taxa de filiação dobrava a do restante das segundas periferias da zona e quadruplicava a do núcleo histórico, algo que se observava também ao analisar o Sindicato metalúrgico, com uma marcada tendência à concentração em alguns espaços periféricos. Nas Casas Baratas de Ramón Albó, no final de 1938, a CNT dominava absolutamente o grupo dos jornaleiros (trabalhadores braçais, diaristas), e nove em cada dez desse extenso grupo haviam nascido fora da Catalunha. O Sindicato Único de Transportes da CNT era ali o de maior filiação, e mais da metade eram trabalhadores de bondes que trabalhavam na então coletivizada Tranvías de Barcelona.

A análise da militância da CNT nos descreve o mesmo panorama. Uma parte substancial dos militantes residia nos novos bairros operários periféricos que formavam as segundas periferias, as chamadas barriadas. Era o caso de La Torrassa e Santa Eulalia em l’Hospitalet, dos dois grupos de Casas Baratas e das barriadas surgidas nos anos de entreguerras em Santa Coloma, Sant Adrià ou Badalona. 86% dos 300 militantes confederais identificados em Santa Coloma procediam dos bairros periféricos surgidos no entreguerras. A abstenção constante nas distintas eleições republicanas foi, em meios confederais, sinônimo de militantismo radical. Os quatro grupos de Casas Baratas figuraram entre as barriadas mais abstencionistas da cidade. Ao menos três dos quatro bairros tiveram núcleos das Juventudes Libertarias. O do grupo Ramón Albó se situava no local do Sindicato de la Construcción do bairro, O do grupo Ramón Albó se situava no local do Sindicato de la Construcción do bairro, e o do grupo Milans del Bosch funcionou em um local que começou a funcionar no bairro vizinho de Sanchís no final de 1932.

O desenrolar da greve de aluguéis nos quatro grupos de Casas Baratas mostra que a CNT teve ali sua base de apoio mais fiel e radicalizada. Antes que a Comisión de Defensa Económica do Sindicato de la Construcción iniciasse a grande greve de aluguéis do verão de 1931, a ação direta na forma de inadimplência dos aluguéis já havia explodido nos quatro grupos. Em abril de 1930, o Patronato obteve uma ordem judicial de expulsão de 60 famílias dos grupos Eduardo Aunós e Milans del Bosch. Em fevereiro de 1931, é possível que mais da metade das casas do primeiro grupo estivessem inadimplentes, e no início de maio a vizinhança concordava em suspender totalmente o pagamento de aluguéis. No mês de junho, quando a Comisión de Defensa Económica estava a ponto de iniciar a greve, já existia uma coordenação dos quatro grupos de Casas Baratas e a maioria dos inquilinos não pagava o aluguel a cerca de quatro meses. Segundo Rider, “o movimento de inquilinos das Casas Baratas se converteu de maneira imediata e inevitável em parte integral da CNT e do Sindicato de la Construcción em particular”. Na noite de 31 de outubro, o grupo Aunós foi invadido por guardas civis e de assalto, e cada casa foi revistada. Em 23 de novembro chegou-se a um acordo com o Patronato para pagar 20 pesetas por mês, mais uma taxa de 12 pesetas por luz e água, com suspensão dos processos de despejo, isenção de aluguel para os desempregados e obras de reforma, mas com a condição de excluir os ativistas mais radicais. O acordo inicial foi rompido e a greve mais uma vez foi geral nos quatro grupos. Ela continuou firme nos quatro grupos de Casas Baratas e parece que assim se manteve, mais ou menos intermitentemente, até a Guerra Civil.

Durante 1936 funcionavam em Barcelona não menos de 41 ateneus libertários de bairro. Na distribuição espacial da rede de ateneus e de escolas racionalistas é relevante a presença nas segundas periferias, entre elas as Casas Baratas. Em um levantamento de todos os comitês revolucionários de bairro extraídos dos jornais Solidaridad Obrera e Tierra y Libertad ao final de 1936, aprecia-se também a maior presença do conjunto de barriadas periféricas. Os quatro núcleos de Casas Baratas tiveram um comitê (ou subcomitê) revolucionário. As notícias das milícias da CNT ligadas a esses comitês são por vezes explícitas, não apenas no que se refere ao abastecimento de alimentos e agasalhos aos voluntários e à celebração de sorteios, festivais e atos para arrecadar fundos, mas também em relação à partida de milicianos para o front. Em 11 de setembro, um longo artigo nos recorda a saída da bateria “Sacco y Vanzetti” desde as Casas Baratas de Horta e seu percurso em um ambiente de entusiasmo até a estação de la Sagrera.

Ao estudar a distribuição urbana de milicianos voluntários anarquistas que partiram para o front após as triunfais jornadas de julho de 1936, fica muito explícita a especial relevância do cinturão operário periférico na geografia do radicalismo cenetista. As barriadas que mais forneceram milicianos anarquistas em proporção à sua população, os bastiões do radicalismo da CNT, situavam-se sem discussão na periferia. Em um primeiro pelotão de frente estavam as Casas Baratas. Nesse cinturão, o número de milicianos era no mínimo o triplo do que se esperaria pela sua população.

Essa geografia periférica e esse perfil de trabalhador braçal e imigrante do mundo cenetista radical se confirma ao analisar os anarquistas mortos e presos em represália aos Fets de Maig (confrontos armados que eclodiram em Barcelona entre 3 e 8 de maio de 1937). As barriadas mais afastadas do centro continuavam concentrando grande parte dos radicais atingidos pela repressão. Cerca de 30% de todos os presos vinham desses bairros, destacando-se de maneira especial as Casas Baratas Eduardo Aunós. Pere López estudou o ambiente do cenetismo radical desse bairro. Seriam duramente julgados em conselhos de guerra uma vez consumada a derrota. Alguns entre os jovens anarcossindicalistas foram duramente reprimidos, e alguns foram condenados à pena capital. Outros partiram para o exílio rumo à França após a invasão das tropas fascistas em janeiro de 1939. Ao final de 1940, era notável que muitas famílias haviam mudado de bairro e não apareciam mais nos censos.

O legado de luta e participação dos anos trinta e seu papel principal nas atividades relacionadas com a guerra e a revolução foram caindo pouco a pouco no esquecimento. Três dos quatro grupos de Casas Baratas desapareceram. Hoje, só resta de pé e habitado o grupo Ramón Albó (Can Peguera). Após um longuíssimo processo de esquecimento da memória operária e anarquista desses bairros, duas quadras de casas do grupo Milans del Bosch (Bon Pastor) foram restauradas pelo Museu d’Història de Barcelona (MUHBA) para serem usadas como salas de conferências e exposição permanente sobre a evolução da habitação popular na cidade desde 1859. A notável musealização de quatro moradias explica com minúcia e riquíssima documentação os distintos períodos de evolução dos interiores domésticos.

Fotografia aérea do grupo de Casas Baratas Baró de Viver (fotografia de Josep Gaspar Serra, Arxiu Fotogràfic de Barcelona)


López Sánchez, Pere, Rastros de rostros en un prado rojo (y negro). Las Casas Baratas de Can Tunis en la revolución social de los años treinta, Barcelona: Virus, 2013.

Stefano Portelli, La ciudad horizontal, Urbanismo y resistencia en un barrio de Casas Baratas de Barcelona, Barcelona: Edicions Bellaterra, 2015.

Oyón, José Luis, La quiebra de la ciudad popular. Espacio urbano, inmigración y anarquismo en la Barcelona de entreguerras, 1914-1936, Barcelona: Ediciones del Serbal, 2008.

Gallardo Romero, Juan José, Los orígenes del movimiento obrero en Santa Coloma de Gramenet (1923-1936), Barcelona: Grupo de Historia “José Berruezo”, 2004.

Rider, Nick, La práctica de la acción directa: la huelga de alquileres de Barcelona de 1931, 1989 https://libertamen.wordpress.com/2025/04/20/


Crédito da imagem: fotografía aérea del grupo de Casas Baratas Baró de Viver (fotografía de Josep Gaspar Serra, Arxiu Fotogràfic de Barcelona)


Lugares de Memória dos Trabalhadores

As marcas das experiências dos trabalhadores e trabalhadoras brasileiros estão espalhadas por inúmeros lugares da cidade e do campo. Muitos desses locais não mais existem, outros estão esquecidos, pouquíssimos são celebrados. Na batalha de memórias, os mundos do trabalho e seus lugares também são negligenciados. Nossa série Lugares de Memória dos Trabalhadores procura justamente dar visibilidade para essa “geografia social do trabalho” procurando estimular uma reflexão sobre os espaços onde vivemos e como sua história e memória são tratadas. Mensalmente, um pequeno artigo com imagens, escrito por um(a) especialista, fará uma “biografia” de espaços relevantes da história dos trabalhadores de todo o Brasil. Nossa perspectiva é ampla. São lugares de atuação política e social, de lazer, de protestos, de repressão, de rituais e de criação de sociabilidades. Estátuas, praças, ruas, cemitérios, locais de trabalho, agências estatais, sedes de organizações, entre muitos outros. Todos eles, espaços que rotineiramente ou em alguns poucos episódios marcaram a história dos trabalhadores no Brasil, em alguma região ou mesmo em uma pequena comunidade.

A seção Lugares de Memória dos Trabalhadores é coordenada por Larissa Farias, Paulo Fontes, Vinicius Rosalvo e Yasmin Getirana.


Mariana Alves

Compartilhar