LMT #148: Museu dos Trabalhadores, Joanesburgo, África do Sul – Alex Lichtenstein

Alex Lichtenstein
Professor de História da Universidade de Indiana (EUA)
Construído em 1913 como um complexo para trabalhadores africanos do setor elétrico municipal, o “Museu dos Trabalhadores” de Joanesburgo fica no lado sul da histórica Praça Mary Fitzgerald, famosa por ter sido um local de mobilização operária no bairro de Newtown, na região central da cidade, que passa por um processo de gentrificação, mas ainda mantém seu caráter autêntico. As origens do museu remontam a uma “biblioteca dos trabalhadores” fundada por sindicalistas e ativistas antiapartheid no final da década de 1980, intimamente associada aos esforços de professores universitários de esquerda para trabalhar em estreita colaboração com os sindicatos por meio de programas de educação dos trabalhadores. O espaço persistiu como um centro cultural para trabalhadores negros e seus aliados no período pós-apartheid, após 1994, embora enfrentasse dificuldades financeiras. Em 2010, como parte de um esforço conjunto da cidade de Joanesburgo para revitalizar o bairro de Newtown, historiadores, arquitetos e curadores ajudaram a transformar o complexo no museu que hoje ocupa o local. Tanto a estrutura original do complexo quanto o material interpretativo agora ali abrigado examinam, em conjunto, a história dos trabalhadores migrantes cujo trabalho impulsionou a área urbana mais rica da África Austral.
Embora pequeno e um tanto degradado — o apoio da cidade às instituições culturais tem diminuído ao longo dos anos —, o museu faz um excelente trabalho ao contar a história das centenas de milhares de “trabalhadores migrantes desconhecidos de toda a África Austral” que construíram a cidade e sua enorme riqueza. Como destaca o texto do museu, em 1936, por exemplo, somente as minas ao redor de Joanesburgo empregavam 300 mil trabalhadores africanos, provenientes de Moçambique (25%), Lesoto (15%) e das regiões sul-africanas distantes de Transkei e Ciskei (40%). As gerações de trabalhadores municipais que permaneceram nesse complexo até a década de 1980 ajudaram a atender à metrópole em crescimento, o motor da economia da África do Sul. Quando o complexo foi criado, 90% dos africanos que residiam em Joanesburgo eram migrantes do sexo masculino; no entanto, mesmo 60 anos depois, sob o apartheid, metade da força de trabalho africana permanecia na mesma situação precária.
O complexo restaurado foi reorganizado da mesma forma que se apresentava em 1913, com blocos de alojamento para trabalhadores africanos, a casa do gerente do complexo, uma sala para um Induna (um supervisor africano) e casas para os trabalhadores brancos qualificados. O museu em si é composto por três salas, além de uma grande plataforma elevada dentro das habitações relativamente espaçosas dos funcionários, que apresenta uma cronologia completa do sistema de mão de obra migrante da África do Sul, do século XIX até os dias atuais. As duas primeiras salas foram dispostas como dormitórios para cerca de duas dúzias de homens (o alojamento era exclusivamente masculino), com duas fileiras de beliches de concreto — na verdade, lajes — sobre as quais os trabalhadores podiam estender um cobertor. Os invernos em Joanesburgo podem ser frios, e só podemos imaginar o quanto essas acomodações para dormir devem ter sido desconfortáveis.
No primeiro quarto, os beliches estão intercalados com palavras extraídas de histórias orais contadas pelos próprios migrantes africanos, bem como com expressões do racismo mal disfarçado dos gerentes brancos do complexo que supervisionavam a vida cotidiana no albergue. Fotografias da vida dos migrantes, especialmente das condições dentro dos albergues que outrora pontilhavam toda a paisagem urbana de Joanesburgo, fornecem o contraponto visual para algumas das citações mais comoventes. “Vivíamos como prisioneiros”, lembra um migrante. Outro destaca a diversidade étnica em um único quarto, “de Limpopo, KwaZulu-Natal, Cabo Oriental”, uma política deliberada que “dificultava a convivência entre nós”. Uma parede reproduz um panfleto da década de 1940 que expõe as condições dentro dos complexos municipais de Joanesburgo, escrito pela única membra do Partido Comunista na Câmara Municipal, Hilda Watts. Outras ilustram as atividades de lazer que marcavam as horas em que os trabalhadores, trancados quando não estavam no trabalho, costumavam passar o tempo.
O segundo quarto tem praticamente a mesma disposição, embora, neste caso, cada beliche seja marcado por uma das muitas regras que regulavam a vida cotidiana no complexo: “nenhum africano deve ter alimentos em seu quarto”; “nenhum africano deve trazer bebidas alcoólicas para o complexo sem autorização”; “nenhum africano deve triturar, com martelo, quaisquer raízes, tabaco, muti etc., a não ser no local designado”. Essa última regra sugere a importância da medicina tradicional como parte da vida cotidiana no complexo.
Tendo em mente essas condições restritivas, os visitantes seguem então para uma sala maior que exibe a cultura material que sustentava a vida dos migrantes, tanto na longa jornada do interior rural até eGoli — a Cidade do Ouro — quanto dentro do próprio albergue. Isso inclui garrafas de cerveja, botas de borracha e a onipresente carteira de identidade — a chamada “dompass” — que subordinava a vida e o trabalho dos trabalhadores africanos aos caprichos de funcionários públicos, da polícia e da autoridade branca na África do Sul do século XX. Os trabalhadores africanos que faziam a viagem para a cidade precisavam portar esse passaporte interno o tempo todo e não tinham o direito de permanecer em Joanesburgo, a menos que pudessem apresentar comprovante registrado de emprego sempre que solicitado. Isso, aliás, já acontecia muito antes da imposição do apartheid após 1948, quando os nacionalistas afrikaners chegaram ao poder com uma plataforma de supremacia branca linha-dura. Embora o apartheid certamente tenha regularizado e endurecido o sistema de mão de obra migrante, quase todos os brancos já concordavam há muito tempo que, como visitantes temporários na cidade destinados apenas a fornecer sua mão de obra, os trabalhadores africanos deveriam portar um passe e não tinham direito à residência permanente. Outro artefato marcante é um vestido, algo que um migrante do sexo masculino poderia comprar na cidade para levar de volta à esposa ou à filha durante o mês que passaria em sua casa nas reservas africanas, ou “Bantustans”, onde as famílias africanas permaneciam.
Se o andar inferior do complexo oferece uma cronologia envolvente, embora bastante sincrônica e indiferenciada, da vida dos moradores do complexo, a plataforma elevada apresenta um breve panorama da história da África do Sul, desde a descoberta do ouro na década de 1880 até a eleição de Mandela em 1994, com os trabalhadores no centro da narrativa. No final, porém, a história se torna um pouco mais difusa, pois ocasionalmente abandona seu foco nos trabalhadores migrantes para apresentar um relato mais geral do movimento antiapartheid. Assim, embora o emergente movimento sindical negro das décadas de 1970 e 1980 receba alguma atenção, o foco muda para o Congresso Nacional Africano (ANC) e eventos como o Massacre de Sharpeville (1960), a prisão de Mandela (1964) e sua libertação (1990), a formação do Movimento da Consciência Negra (décadas de 1960 e 1970) e a Revolta de Soweto (1976). No entanto, os visitantes podem encontrar muitos dos marcos fundamentais da história da classe trabalhadora sul-africana, incluindo as pressões coloniais que levaram os africanos despossuídos a buscar trabalho assalariado, a introdução da mão de obra chinesa contratada nas minas em 1902, as inúmeras greves de mineiros (1919, 1920, 1922, 1946), o status privilegiado dos trabalhadores brancos, a formação do Sindicato dos Trabalhadores Industriais e Comerciais (1919) e do Partido Comunista da África do Sul (1921), as greves de Durban de 1973 e o eventual surgimento do Congresso dos Sindicatos da África do Sul (COSATU), alinhado ao ANC, em meados da década de 1980, entre outros.
A narrativa histórica conclui com um painel que descreve o “legado da mão de obra migrante”, observando que esse aspecto marcante da economia política do apartheid deixou resquícios de pobreza extrema, divisões sociais entre a cidade e o campo, assentamentos informais urbanos que abrigam milhões de pessoas em busca de trabalho, xenofobia, violência de gênero e as cicatrizes duradouras da epidemia de HIV/AIDS, tão facilmente disseminada pela migração de longa distância. Todos esses males sociais continuam a atormentar a vida sul-africana três décadas após a conquista da democracia, da mesma forma que os resíduos tóxicos das minas que cercam a cidade continuam a definir a ecologia de Joanesburgo.
A maioria dos visitantes de Joanesburgo provavelmente visitará o Museu do Apartheid, Soweto e, talvez, Constitution Hill — todos locais importantes para refletir sobre o difícil passado racial da África do Sul e o inspirador triunfo de seu povo sobre o apartheid. No entanto, é uma pena que esse importante, mas negligenciado, local histórico e a história que ele conta não tenham um papel de maior destaque no vibrante panorama da memória de Joanesburgo.

Museu dos Trabalhadores em Joanesburgo. Fonte: website do museu.
Tradução: Bianca Amarantes
PARA SABER MAIS
Luli Callinicos, Gold and Workers (1981), Working Life: Factories, Townships and Popular Culture (1987), and A Place in the City: the Rand on the Eve of Apartheid (1993), all by Ravan Press.
Gay Seidman, Manufacturing Militance: Workers’ Movements in Brazil and South Africa, 1970-1985 (University of California Press, 1994).
Charles van Onselen, The Night Trains: Moving Mozambican Workers to and from the Witwatersrand Mines, 1902-1955 (Oxford University Press, 2021).
Crédito da imagem: Alojamento de trabalhadores mineiros migrantes em Joanesburgo. Foto de Margaret Bourke-White. Fonte: https://bourkewhite.wordpress.com/galleries/on-the-mines/migrant-workers/
Lugares de Memória dos Trabalhadores
As marcas das experiências dos trabalhadores e trabalhadoras brasileiros estão espalhadas por inúmeros lugares da cidade e do campo. Muitos desses locais não mais existem, outros estão esquecidos, pouquíssimos são celebrados. Na batalha de memórias, os mundos do trabalho e seus lugares também são negligenciados. Nossa série Lugares de Memória dos Trabalhadores procura justamente dar visibilidade para essa “geografia social do trabalho” procurando estimular uma reflexão sobre os espaços onde vivemos e como sua história e memória são tratadas. Mensalmente, um pequeno artigo com imagens, escrito por um(a) especialista, fará uma “biografia” de espaços relevantes da história dos trabalhadores de todo o Brasil. Nossa perspectiva é ampla. São lugares de atuação política e social, de lazer, de protestos, de repressão, de rituais e de criação de sociabilidades. Estátuas, praças, ruas, cemitérios, locais de trabalho, agências estatais, sedes de organizações, entre muitos outros. Todos eles, espaços que rotineiramente ou em alguns poucos episódios marcaram a história dos trabalhadores no Brasil, em alguma região ou mesmo em uma pequena comunidade.
A seção Lugares de Memória dos Trabalhadores é coordenada por Larissa Farias, Paulo Fontes, Vinicius Rosalvo e Yasmin Getirana.