LMT# 96: Casa da Cajá, São Félix (BA)- Walter Fraga



Walter Fraga
Professor da Universidade Federal do Recôncavo Baiano



A cerca de seis quilômetros do centro da cidade de São Félix, no Recôncavo Baiano, na margem direita do rio Capivari, encontra-se um dos mais antigos terreiros de candomblé da Bahia. A casa de oração foi construída às margens do rio e por isso ficou conhecida como Candomblé do Capivari. O cenário impressiona pela beleza, o rio, as árvores que envolvem a casa de culto e as montanhas. A árvore sagrada, uma centenária cajazeira, brota de dentro do próprio terreiro, daí que o lugar é também conhecido como a Casa da Cajá.

Não muito longe do terreiro, a cerca de trezentos metros, podemos ainda avistar as ruínas do aqueduto que movia a moenda do antigo Engenho Natividade. Segundo a tradição oral, um escravo chamado Anacleto Urbano da Natividade foi o fundador da casa de culto a Obaluaiê, o orixá da cura e das doenças.

A conquista do território sagrado teria acontecido durante uma grande epidemia ocorrida na região. Na ocasião, Anacleto Urbano teria curado centenas de pessoas, inclusive membros da família dos seus senhores. Em retribuição, teria sido concedido ao curandeiro a permissão para construir a casa de oração e cura em terras do engenho. A fama de curandeiro correu por toda região e mesmo depois da grande epidemia, pessoas de várias partes da província continuaram a procurá-lo. E realmente até o início do século XX, anualmente, no dia de São Roque, romeiros de várias localidades da Bahia ainda recorriam ao terreiro de Anacleto, mesmo após sua morte. Possivelmente a tradição oral se refira a epidemia de varíola que grassou na Bahia em 1889.

O engenho era propriedade da influente família Tosta, que além da riqueza em terras e escravos era intensamente envolvida com a política no Segundo Império. Em 1856, quando se fez o inventário da proprietária Joana Maria da Natividade Tosta apurou-se que o engenho possuía cerca de 4 mil tarefas de terras, parte delas dedicadas ao plantio de cana-de-açúcar. Foram inventariados 137 escravos, 68 homens e 69 mulheres. Destes, 42 cativos eram africanos, os demais crioulos e mestiços, ou seja, nascidos no Brasil.

A propriedade tinha várias construções, entre as quais uma casa de engenho de fabricar açúcar, casa de purgar e de alambique, casa de bagaço e tanque de mel. O conjunto se completava com seis casas de telha arruinadas, provavelmente servindo de senzalas. Próximo a estas construções, erguia-se a casa-grande, um sobrado com pavimento térreo e andar superior onde residiam os proprietários. Segundo os antigos moradores, dentro do sobrado havia um oratório onde os senhores realizavam cerimônias religiosas católicas, casamentos e batismos dos filhos dos escravos.

Na lista dos escravos anexa ao inventário localizamos o famoso curandeiro, o mesmo que aparece na memória e ainda é venerado pelas famílias de santo das cidades de São Félix e Cachoeira. Na lista ele aparece registrado como Anacleto, crioulo, dezesseis anos, “aprendiz de ferreiro”. Esta evidência contradiz a tradição oral que afirma que Anacleto Urbano era africano. Mas havia entre os escravos listados um africano chamado Urbano, maior de quarenta anos, trabalhador na lavoura e com ofício de fornalheiro, “afetado de cansaço”, ou seja, sofrendo de alguma doença respiratória. Provavelmente Urbano era pai de Anacleto.

Pela tradição oral pode-se perceber que ele atuava como elo de ligação entre a casa grande e a comunidade da senzala. Conta-se que tinha grande capacidade de negociar e influenciar as decisões dos Tosta no sentido de modificar a sorte dos parceiros escravos, especialmente dos que fugiam ou dos que não desejavam que seus filhos e filhas fossem transferidos ou vendidos para outros engenhos.


Após a abolição da escravidão no Brasil, em 1888, muitos ex-escravos permaneceram nas propriedades em que nasceram ou viveram cativos. Mas não ficaram por submissão ou dependência. As motivações para permanecerem nos locais eram outras e seguiam uma lógica que os próprios libertos traçaram para as suas vidas. Muitas vezes a permanência nos locais estava ligada à defesa do direito que haviam adquirido durante o cativeiro de continuarem a ter acesso às roças. Para a família de Anacleto a permanência foi também ditada por obrigações religiosas com o lugar.


No Engenho Natividade, muitos continuaram cultivando pequenos lotes de terras mediante o pagamento de arrendamento. Trabalhadores libertos trabalhavam alguns dias da semana para a família Tosta e em compensação recebiam pequenos lotes para cultivar mandioca e outros gêneros que eram comercializados nas feiras de São Félix e Cachoeira. Muitas famílias de ex-escravos continuaram vivendo da renda de pequenos lotes de terras e foi assim que emergiram do cativeiro.

No início do século XX, a comunidade em volta do terreiro formada por remanescentes das famílias de antigos trabalhadores escravizados foi se diversificando e agregando pequenos lavradores, pescadores e ferroviários. Uma escola primária acolhia crianças de toda a redondeza. Ao longo do século, o terreiro da Casa da Cajá foi o território de uma comunidade que resistiu às investidas dos antigos senhores de reaverem aquela parcela da fazenda e também às diversas investidas da polícia contra o terreiro de candomblé.  Ainda hoje, é celebrada a festa católica de São Roque, que acontece paralelamente ao culto de obaluayê, o orixá da cura.  

O terreiro da Casa da Cajá simboliza tanto a luta pela terra como pela liberdade religiosa e é um fundamental lugar de memória da cultura negra e dos/as trabalhadores/as da Bahia.

Casa grande do  Engenho Natividade, onde residiam os proprietários (cerca de 1950).
Acervo de Walter Fraga.


Para saber mais:

  • Edilece Souza Couto, Marco Antônio Nunes da Silva e Grayce Mayre Bonfim Souza (org.). Práticas e vivências religiosas. Temas de história colonial à contemporaneidade luso-brasileira. Salvador: Edufba/Vitória da Conquista: Edições Uesb, 2016.
  • Edmar Ferreira Santos. O poder dos candomblés: perseguição e resistência no Recôncavo da Bahia. Salvador: Edufba, 2009.
  • Luís Nicolau Parès. A formação do candomblé: história e ritual de nação jeje na Bahia. São Paulo: Editora da Unicamp, 2006.
  • Onildo Reis David. O inimigo invisível. A epidemia na Bahia no século XIX. Salvador: Edufba, 1996.
  • Walter Fraga. Encruzilhadas da liberdade: histórias de escravos e libertos na Bahia (1870-1910). Campinas: Editora da Unicamp, 2006.

Crédito da imagem de capa:  Fotografia da Casa da Cajá. A árvore brota de dentro do terreiro. Fotografia de Walter Fraga, 2008.


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