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LMT#143 O Ateneu Popular do Sindicato Único da Agulha, Montevidéu, Uruguai – Rodolfo Porrini

10 DE ABRIL DE 2026




Entre os lugares de memória da classe trabalhadora no Uruguai existem exemplos interessantes de como organizações sociais construíram, mantiveram e transformaram os espaços materiais nos quais seus projetos políticos, sociais, intelectuais e culturais se desenvolveram.

Um dos espaços de referência do movimento operário no Uruguai e sua capital, Montevidéu, é o antigo local do Centro Internacional de Estudos Sociais (CIES). O CIES foi estabelecido no centro da cidade a partir do final de 1897 ou início de 1898, por um grupo de trabalhadores alfaiates de diversas nacionalidades – em sua maioria italianos, mas também espanhóis e locais. Além dos trabalhadores alfaiates, participou também um amplo grupo de intelectuais e artistas. Do ponto de vista ideológico, o CIES era plural. Ali transitavam socialistas, livres-pensadores e liberais radicais, embora predominasse um tom anarquista. Foi o espaço operário mais conhecido de Montevidéu e teve longa duração, chegando até 1924, sendo posteriormente continuado por outras experiências e múltiplas atividades.

Ali desde o início do século XX aconteciam debates, cursos e conferências, leituras individuais e “comentadas”, sustentadas por uma importante biblioteca e periódicos de todo o mundo. O espaço servia para o funcionamento de organizações sindicais e assembleias, centro de apoio a conflitos operários e sede de publicações sindicais e políticas, de caráter predominantemente libertário. Foi também cenário de multifacetadas veladas (noites) culturais e artísticas.

Desde o início, o CIES esteve vinculado aos alfaiates, reunidos desde 1901 na Sociedade de Resistência de Operários Alfaiates. Ali funcionavam ainda outras sociedades de resistência e iniciativas mais ambiciosas que buscaram construir instrumentos de luta e de cultura alternativa, operária e socialista. O amplo local ficava na rua Río Negro 274, que, após mudanças na numeração, em 1913, passou a ser 1180, endereço mantido até hoje.

O Centro Internacional foi palco de múltiplas assembleias operárias de sociedades de resistência – continuadoras das sociedades mutuais que antecederam os sindicatos – e onde se fundou, em agosto de 1905, a primeira organização federal com relevante continuidade no século XX: a Federação Operária Regional Uruguaia (FORU), de orientação anarquista. Dali partiam manifestações internacionalistas, como a que protestou contra o assassinato de Francisco Ferrer em 1909, ou em apoio à Primeira Greve Geral no Uruguai, em maio de 1911. Em suas instalações realizavam-se conferências e cursos, debates e “controvérsias” entre oradores de diversas ideias e nacionalidades, predominantemente anarquistas, mas também socialistas e livres-pensadores.

As noites artísticas eram um fator de sociabilidade e de arrecadação de recursos para sustentar a imprensa e as famílias dos “presos sociais”. Incluíam música, poesia, danças, cantos e representações teatrais, além de conferências sobre temas ideológicos, filosóficos ou internacionalistas. Em seu grupo “filodramático” atuou o célebre dramaturgo Florencio Sánchez, militante anarquista durante um período, tendo estreado ali peças de teatro social como Puertas adentro em 1899 e Ladrones em 1901.

Foi sede da redação de várias publicações, como o jornal El Trabajo, primeiro diário anarquista no Uruguai (setembro de 1901 – março de 1902), e o semanário Tribuna Libertaria (1900–1902), ambos órgãos do CIES.

A Revolução Russa de outubro de 1917 atuou como divisor de águas no movimento operário da época. Por volta de 1920, impulsionou no Partido Socialista, fundado em 1910, sua transformação em Partido Comunista (abril de 1921) e a reconstrução de um novo PS em 1922. Para o anarquismo, gerou tensões nos múltiplos círculos sociais, nas sociedades de resistência e na FORU. Entre 1921 e 1923 ocorreu a divisão da FORU, criando-se em outubro de 1923 a União Sindical Uruguaia (USU), definida como anarco-sindicalista, também com presença de uma minoria comunista.

Em 1920 foi formado o importante Sindicato de Artes Gráficas (SAG). Em 25 de novembro de 1921, categorias ocupacionais tradicionais do setor de confecção, como alfaiates, camiseiras, costureiras de coletes e calças e cortadores, fundaram o Sindicato Único da Agulha (SUA). Ambos foram importantes referências da USU, funcionando todos no local do CIES.


Em 1924 trabalhadores do setor criaram o Ateneu Popular do Sindicato Único da Agulha, com o objetivo de “contribuir para a elevação cultural da classe operária”. Pode-se considerá-lo uma continuação do Centro Internacional. Nessa iniciativa, além de anarquistas, participaram alguns socialistas.


Em dezembro, o Ateneu propôs comprar o antigo casarão. Organizaram-se atividades para arrecadar fundos e obteve-se o apoio financeiro do órgão legislativo municipal – com gestão de vereadores socialistas – concretizando-se a compra em 1925. O sindicato planejou ampliar e reformar o local, em um projeto que, após receber subsídio estatal, foi finalizado em 1928. O resultado foi um edifício em estilo art déco de três andares: no térreo havia um espaço para sala teatral, e nos outros dois andares, espaços para biblioteca e distintas atividades sociais e sindicais. Nesses anos, vários sindicatos funcionavam ali.

A partir dos anos 1940, a sociedade, as classes trabalhadoras e o sindicalismo passaram por importantes mudanças. No âmbito dessas transformações, formou-se a União Geral de Trabalhadores (UGT) em 1942. Militantes comunistas dirigiam a UGT, enquanto vários sindicatos permaneceram como “autônomos” e formaram coordenações próprias. Paralelamente, em 1951, criou-se a Confederação Sindical do Uruguai.

Em 1944, estabeleceu-se uma tensão entre um grupo oriundo da matriz inicial anarquista do Ateneu Popular e a direção do Sindicato Único da Agulha, vinculada à UGT comunista. Isso motivou um enfrentamento que resultou na permanência do local nas mãos de uma comissão do antigo Ateneu Popular e obrigou o SUA a se transferir. Período complexo para o Ateneu, para o próprio SUA e para o movimento sindical da época.

A partir do final dos anos 1950 e meados dos 1960, impulsionado pela crise econômica e estrutural do país, avançou no Uruguai o processo de unificação sindical, criando-se entre 1964 e 1966 a Convenção Nacional de Trabalhadores (CNT), unificando a maioria das correntes sindicais classistas do país. Vieram então tempos mais duros: o autoritarismo de Estado (1968–1973) e a instalação da ditadura civil-militar a partir de 27 de junho de 1973.

Por sua vez, após o fim da ditadura, o SUA continuou lutando para retornar ao que considerava seu local. Isso só se concretizou em 2004. Recuperado o espaço, o sindicato decidiu homenagear um de seus militantes, de orientação comunista, dando seu nome ao novo Ateneu Popular “Bernardo Groisman”, falecido em 2003.

Desde então, além de suas tarefas sindicais, o Sindicato se propôs a desenvolver atividades culturais, sociais e solidárias, retomando as motivações e práticas dos operários e intelectuais de suas origens. Foi sede de atos culturais, festas, lançamentos de livros e de veículos jornalísticos, e durante a pandemia realizou tarefas solidárias: confecção de máscaras e apoio a projetos de alimentação popular diante da difícil situação econômica e social.

Ainda hoje, apesar de certa precariedade do edifício, o SUA tem conseguido manter o prédio e realizar tarefas sindicais, solidárias e culturais. Sua existência constitui uma marca indelével do patrimônio cultural e material do movimento operário e social de Montevidéu e do Uruguai. Um espaço para a cultura alternativa.

Fachada do Ateneu da SUA Bernardo Groisman, antiga sede do Centro Internacional, na Rua Río Negro, 1180, Montevidéu, Uruguai. Fonte: fotografia tirada por Rodolfo Porrini, 9/10/2025.


MOREIRA, “El Sindicato Único de la Aguja y su Ateneo popular”, en Ana Frega (coordinación), Montevideo 300 años, Montevideo, Intendencia de Montevideo, 2024, pp.408-413.

MUÑOZ, Pascual, La primera huelga general en el Uruguay. 23 de mayo de 1911, Montevideo, La Turba Ediciones, 2011.

PORRINI, Rodolfo, Montevideo, ciudad obrera. El ‘tiempo libre desde las izquierdas (1920-1950), Montevideo, Ediciones Universitarias, 2023 [2019].

VIDAL, Daniel, “Centros de estudios Sociales. Conferencias y controversias”, en letra chica. Revista de ramos generales, número 3, diciembre 2009 (internet)

ZUBILLAGA, Carlos, BALBIS, Jorge, Historia del movimiento sindical uruguayo, tomos II, IV, Montevideo, Banda Oriental, 1986, 1992.


Crédito da imagem: Reunião de trabalhadores no saguão do Centro Internacional, 1901. Fonte: Carlos M. Rama, Obreros y anarquistas, Montevidéu, Editores Reunidos/Arca, 1969, p. 24.


Lugares de Memória dos Trabalhadores

As marcas das experiências dos trabalhadores e trabalhadoras brasileiros estão espalhadas por inúmeros lugares da cidade e do campo. Muitos desses locais não mais existem, outros estão esquecidos, pouquíssimos são celebrados. Na batalha de memórias, os mundos do trabalho e seus lugares também são negligenciados. Nossa série Lugares de Memória dos Trabalhadores procura justamente dar visibilidade para essa “geografia social do trabalho” procurando estimular uma reflexão sobre os espaços onde vivemos e como sua história e memória são tratadas. Mensalmente, um pequeno artigo com imagens, escrito por um(a) especialista, fará uma “biografia” de espaços relevantes da história dos trabalhadores de todo o Brasil. Nossa perspectiva é ampla. São lugares de atuação política e social, de lazer, de protestos, de repressão, de rituais e de criação de sociabilidades. Estátuas, praças, ruas, cemitérios, locais de trabalho, agências estatais, sedes de organizações, entre muitos outros. Todos eles, espaços que rotineiramente ou em alguns poucos episódios marcaram a história dos trabalhadores no Brasil, em alguma região ou mesmo em uma pequena comunidade.

A seção Lugares de Memória dos Trabalhadores é coordenada por Larissa Farias, Paulo Fontes, Vinicius Rosalvo e Yasmin Getirana.


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