CE #41: O Primeiro Sindicato? A longa trajetória de organização das trabalhadoras domésticas no Brasil



O dia 5 de junho de 2026 marcou os 92 anos da fundação do Sindicato das Empregadas em Serviços Domésticos de Santos, um marco na história da luta das domésticas brasileiras por condições dignas de trabalho. Fundado por Laudelina de Campos Mello – trabalhadora doméstica e frequentadora assídua de associações negras – o sindicato de Santos foi uma das primeiras organizações dedicadas à defesa da profissão que mais empregava mulheres no país.

Essa efeméride pouco convencional, de 92 anos, merece uma explicação. Afinal, segundo muitos historiadores, estaríamos comemorando um aniversário mais redondo, de 90 anos do sindicato, no dia 8 de julho de 2026. A origem do mal-entendido está no final da década de 1980, quando Laudelina de Campos Mello concedeu uma longa e extraordinária entrevista à pesquisadora Elisabete Aparecida Pinto. Mais de 50 anos depois dos fatos, Laudelina dizia ter fundado o sindicato no dia 8 de julho de 1936. Mas parece ter havido um pequeno lapso em sua memória. Uma nota publicada na Gazeta Popular de Santos não deixa dúvida: o sindicato iniciou suas atividades em 5 de junho de 1934.

Durante a sua breve existência, o sindicato não chegou a negociar salários ou a planejar greves. Ele funcionava mais como uma sociedade de assistência mútua: cobrava de seus membros uma ínfima mensalidade de um mil- réis (algo como R$1 nos dias de hoje), e oferecia cursos de culinária e de economia doméstica; fornecia assistência às crianças, aos idosos e aos pobres; e promovia atividades recreativas como o teatro. Para arrecadar mais dinheiro, Laudelina organizava bailes e torneios de futebol aos domingos.

Pode parecer pouco, mas não era. Havia poucas profissões mais solitárias que a de doméstica, especialmente numa época em que dormir no emprego era a regra. Era de enorme importância para essas mulheres ter um espaço de convivência e de lazer nos seus poucos momentos de folga.

Entre os sindicatos de domésticas fundados antes de 1945, o de Santos é de longe o mais conhecido, e por um bom motivo. O sindicato liderado por Laudelina foi a primeira entidade que, por toda a sua breve existência (1934–1937), foi inteiramente comandado por uma trabalhadora doméstica.

Mas o sindicato de Santos está longe de ter sido a única entidade da categoria nessa época. No Rio de Janeiro, por exemplo, já atuava desde 1922 a Sociedade Beneficente União Doméstica. A Sociedade foi fundada por um policial negro chamado Joaquim Rufino dos Santos, um sujeito com muitos amigos em associações negras, no sindicalismo carioca, no mundo do Carnaval e, especialmente, entre os políticos. Rufino dos Santos trabalhou por anos como segurança na Câmara dos Deputados, posição que usou para promover os primeiros projetos de lei de proteção às domésticas. Algumas de suas propostas eram bem questionáveis, como a obrigação de uma carteira policial para a categoria. Já outras eram indiscutivelmente louváveis: aviso prévio, folgas semanais, férias anuais, aposentadoria e a possibilidade de usar a justiça para garantir o pagamento de salários. A Sociedade também organizava bailes de 13 de Maio para suas associadas, em sua maioria mulheres negras.

Poucos anos depois, Getúlio Vargas assumia o poder, trazendo consigo uma série de decretos que ampliaram significativamente as proteções trabalhistas no país. Nos anos 1930, nenhuma dessas medidas se aplicava às domésticas – a Lei de Sindicalização de 1931, inclusive, chegava a excluí-las explicitamente de seu alcance. Mas nesse momento, a legislação trabalhista ainda era uma obra em construção. Reinava um clima de possibilidades abertas, e nesse clima, uma parcela significativa da sociedade civil passou a ver o emprego doméstico como uma profissão que, como todas as outras, merecia seu próprio sindicato e regulamentação. E muita gente começou a trabalhar para transformar essa visão em realidade.

Em 1933, o jovem Dom Hélder Câmara organizou as domésticas de Fortaleza em torno de um movimento operário católico. De acordo com o Legionário, um dos jornais católicos da cidade, em uma publicação no dia 13 de Maio: “assim como os operários fabris e os artistas têm os seus sindicatos […], as lavadeiras, engomadeiras, domésticas etc. precisam também possuir o seu órgão de defesa que é, indiscutivelmente, o sindicato”. Apesar da resistência das patroas, o esforço foi relativamente bem-sucedido: em 1934, a organização de Dom Hélder já tinha dez filiais nos arredores da cidade. Além de negociar conflitos trabalhistas, também prestava assistência e oferecia alguns cursos às interessadas.

Em 1934, Manuela Lucas e uma dúzia de outras trabalhadoras domésticas fundaram no Rio de Janeiro uma organização “de empregadas domésticas para empregadas domésticas”. Essas mulheres costumavam se reunir todas as semanas para rezar, e durante esses encontros, decidiram arrecadar fundos para criar um centro comunitário e uma casa de férias para as domésticas. No entanto, após receber uma doação de uma benfeitora rica, a organização deixou de ser uma associação de trabalhadoras e se tornou uma instituição de caridade dominada por senhoras católicas.

A própria Frente Negra Brasileira, fundada em 1931, reunia centenas de domésticas – que constituíam, afinal, a principal ocupação das mulheres negras à época. Em São Paulo, a Frente Negra criticava a discriminação racial na contratação de domésticas, ajudava mulheres a encontrarem postos de trabalho e encorajava as domésticas negras a repelirem os insultos dos brancos. Não seria um exagero dizer que, na prática, a Frente Negra agia, entre outras coisas, como uma espécie de associação de trabalhadoras domésticas.

A líder das feministas brasileiras, Bertha Lutz, também trabalhou em prol da causa das domésticas. Embora a maioria das participantes da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino nas décadas de 1920 e 30 tivessem poucos vínculos com a classe trabalhadora, Bertha Lutz tinha plena consciência da importância dos direitos trabalhistas para o avanço das mulheres em geral. Ela incentivou as poucas operárias que militavam na organização, como Almerinda Farias Gama, a organizarem sindicatos. E quando assumiu uma cadeira na Câmara dos Deputados em 1937, escreveu o Estatuto da Mulher, um grande projeto de lei que tinha como objetivo definir “os direitos e obrigações constitucionais da cidadã”. Em relação às trabalhadoras domésticas, o projeto proibia o trabalho de menores, limitava a jornada de trabalho a oito horas e, para garantir que esses direitos pudessem ser colocados em prática, dava ao governo a autoridade para supervisionar o cumprimento dessas leis pelos patrões.

Foi neste clima de mobilização que Laudelina de Campos Mello fundou, em 1934, o Sindicato das Empregadas em Serviços Domésticos de Santos. Clima este que duraria até o golpe do Estado Novo, em novembro de 1937. Então, Vargas dissolveu o Congresso, que havia sido suscetível às pressões dos defensores das domésticas, e dissolveu diversas organizações políticas e sindicais, inclusive aquelas estavam reivindicando os direitos daquelas trabalhadoras.

O retorno à democracia em 1945 trouxe um novo impulso à sindicalização das trabalhadoras domésticas. Em meio à febre de sindicalização que tomava o país, houve interesse entre os comunistas na formação de sindicatos de domésticas. Nessa época, a própria Laudelina se filiou ao PCB. Em 1946, Laudelina se aproximou de Luiz Lobato, marxista negro militante no Partido Socialista Brasileiro, e de Geraldo Campos de Oliveira, o maior colaborador de Abdias Nascimento em São Paulo. Os três, junto com a doméstica Cilia Ambrósio, fundaram uma associação de domésticas na capital paulista. Mas a associação não prosperou. A despeito de muitas tentativas, não houve nenhuma entidade de domésticas muito duradoura nem no Rio nem em São Paulo durante as décadas de 1940 e 50.

Isso começou a mudar no começo da década de 60, outro período de atividade extraordinária no sindicalismo brasileiro. Começaram a surgir uma série de associações de domésticas a partir da militância católica, como em São Paulo e no Rio de Janeiro. Já em Santos, foi refundada a Associação de Domésticas em 1963, com o apoio dos comunistas locais.

Nesse período – mais precisamente, em maio de 1961 – Laudelina de Campos Mello fundou sua terceira e última entidade de classe: a Associação dos Empregados Domésticos de Campinas. Segundo ela, a primeira assembleia “fechou o trânsito em Campinas”, com mais de 1.200 mulheres. E nesses anos, Laudelina manteve uma capacidade extraordinária de alianças. Embora nunca tenha escondido que fosse comunista, Laudelina convivia muito bem com a Igreja – que cedia espaço para reuniões da Associação – e com todo tipo de corrente política. Em 1964, enquanto a primeira onda de repressão da ditadura militar varria o Brasil, o diretório campineiro da UDN permitiu que a Associação usasse a sede do partido, para que “ninguém mexesse” com a Associação. Nas próximas décadas, associações como a de Campinas contribuíram para a aprovação da Lei 5.859 de 1972, que estendeu às domésticas o direito a férias e à Previdência Social; e para a inclusão de direitos trabalhistas fundamentais para a categoria na Constituição de 1988.

A participação de Laudelina na Associação teve idas e vindas, mas em fins da década de 1980, ela se reconciliou com a organização que havia fundado. Depois de cinco décadas de luta, Laudelina de Campos Mello faleceu em Campinas no dia 12 de maio de 1991.

Baile da Sociedade Beneficente União Doméstica no Club Carioca (Beira-Mar, 1/7/1923)


FERREIRA, Daniel T. “The Regulators of Citizenship: The Labor Law Establishment and Domestic Workers in Brazil, 1922-1972”, Trabalho de Conclusão de Curso, Stanford University, 2022.

GETIRANA, Yasmin. Na casa e na causa: a organização sindical das trabalhadoras domésticas (Rio de Janeiro, 1961-1973). Rio de Janeiro: Telha, 2023.

MARQUES, Teresa Cristina Novaes. “Anatomia de uma injustiça secular: O Estado Novo e a regulação do serviço doméstico no Brasil”, Varia Historia, vol, 36, n. 70, pp. 183-216, 2020.

PINTO, Elisabete Aparecida. “Etnicidade, gênero e educação: a trajetória de vida de Da. Laudelina de Campos Mello (1904-1991)”, Dissertação de Mestrado, Faculdade de Educação, Universidade Estadual de Campinas, 1993.

SANTANA, Bianca, ed. Vozes insurgentes de mulheres negras. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2019.

SOTERO, Edilza Correia. “Representação política negra no Brasil pós-Estado Novo”, Tese de Doutorado, Universidade de São Paulo, 2015.


Crédito da imagem de capa: Abertura do 3° Congresso Nacional da Trabalhadora Doméstica na década de 1950. Laudelina de Campos Mello é a de blusa preta. Acervo Casa Laudelina

LMT #145: A Casa Vorwärts, Viena, Áustria – Berthold Unfried




Há muitos lugares, espaços, onde as memórias da social-democracia austríaca se cristalizam. Mas, em um sentido mais amplo, os conjuntos habitacionais municipais vienenses do período entreguerras tornaram-se indubitavelmente um dos principais “monumentos”. O edifício “Vorwärts” (“Avante”), na Wienzeile, em Viena, foi a sede do movimento de 1910 a 1934, frequentado pelas grandes figuras do movimento operário internacional. Ocupado durante o período “austrofascista” e o subsequente período “nacional-socialista”, de 1934 a 1945, tornou-se a sede do jornal do partido, o Arbeiter-Zeitung, após 1945.

A história desse edifício condensa a história do movimento social-democrata, primeiro na antiga Áustria da monarquia dos Habsburgo, depois na Primeira e na Segunda Repúblicas Austríacas. Os primeiros anos do século XX trouxeram uma ascensão meteórica para o movimento operário social-democrata na Áustria. O sufrágio universal foi conquistado e, em 1907, os social-democratas ingressaram no parlamento austríaco como o partido mais votado. O número de filiados cresceu acentuadamente. Em 1909, o partido deliberou uma reforma organizacional que deveria formar a base para seu desenvolvimento como um partido de massa moderno. O ano da reforma também foi marcado pela decisão de adquirir o edifício na Rechte Wienzeile 97 e convertê-lo em sede do partido e das organizações sindicais. Os irmãos Hubert e Franz Gessner receberam a encomenda do projeto arquitetônico. Discípulo do célebre arquiteto Otto Wagner e amigo de Victor Adler, líder da social-democracia austríaca na monarquia dos Habsburgo, Hubert Gessner foi o arquiteto oficial da social-democracia até 1934. Gessner ergueu um edifício de três andares no estilo da Escola Wagner sobre a estrutura preexistente. De design de fachada simples, quase liso, levemente gradeado, enriquecido por ladrilhos vermelhos no pavimento térreo e um balcão em treliça no segundo andar, o edifício faz a transição para uma empena escalonada, coroada por um tambor metálico e ladeada por figuras de pedra sobre altos pedestais e mastros de bandeira, conferindo-lhe um caráter monumental.


As figuras em tamanho maior que o natural de um operário e uma operária, criadas pelo renomado escultor Anton Hanak — um presente do sindicato dos metalúrgicos —, erguem-se livremente em direção ao céu com mastros ao lado, expressando o pathos prometeico do movimento operário da época e conferindo ao projeto do edifício um toque de arquitetura programática.


Com suas amplas salas iluminadas e cúpulas de vidro, o edifício concluído foi considerado um modelo de arquitetura industrial moderna.

O partido, seu jornal Arbeiter-Zeitung e a comissão sindical mudaram-se para a nova sede em julho de 1910. O edifício contava com ventilação e um sistema central de aspiração — o que sublinhava seu caráter de modelo de ambiente de trabalho, no qual as condições laborais reivindicadas pelo movimento operário para a classe trabalhadora já se faziam realidade. Luz, ar, verde — a ala central do edifício gráfico dava para um pátio ajardinado —, praticidade e higiene eram as palavras de ordem utilizadas pelo Arbeiter-Zeitung para caracterizar o novo edifício. Além disso, o edifício estava idilicamente situado às margens do rio Wien. Quando o Arbeiter-Zeitung inaugurou a sede do partido com esse ardoroso apelo, o movimento operário, embora abalado pelas mesmas querelas nacionais que também despedaçavam a monarquia dos Habsburgo — 1910 foi também o ano da ruptura definitiva entre a social-democracia alemã e a tcheca na Áustria —, ainda não havia sofrido retrocessos sérios após anos de crescimento, e sua autopercepção otimista como vanguarda na linha do progresso permanecia inabalada. A construção do edifício — o “castelo do movimento operário” — parecia antecipar a construção de um futuro socialista – tão prático e, ao mesmo tempo, heroico e belo.

A casa na Wienzeile não era apenas a sede do movimento operário austríaco, mas também um ponto fixo na topografia do socialismo internacional. As grandes figuras do movimento operário frequentavam esse lugar. Primeiro, havia os líderes da “Pequena Internacional” dos diversos partidos social-democratas nacionais dos muitos povos da monarquia. Essa Internacional estava em processo de desintegração em 1910: os líderes do partido tcheco Antonín Němec e Bohumír Šmeral, o líder do partido polonês Daszyński, os húngaros Garami e Szabó. Os líderes do SPD, os da “Segunda Internacional”, cujo congresso deveria realizar-se em Viena em agosto de 1914. Victor Adler, um dos grandes Sêniores da “Segunda Internacional”, estava em contato com quase todos eles. Após a guerra, que, poucos anos depois da “Pequena Internacional”, destruiu a “grande” Internacional, esta foi a sede da Internacional de “Viena” ou “Dois-e-Meio”, que nos anos 1919–1923 tentou mais uma vez superar a divisão no movimento operário internacional. Após o fracasso dessa tentativa, Fritz Adler mudou-se para Londres em 1924 como secretário da “Internacional dos Trabalhadores Socialistas” (SAI).

A casa na Wienzeile foi sempre um lar e ponto de trânsito para emigrantes: antes de 1914, Viena era um importante polo da emigração social-democrata russa. Os bolcheviques estavam proeminentemente representados por Lenin, Trotsky (que ainda não era bolchevique na época), Bukharin, Yoffe e Ryazanov. Stalin também passou a mais longa estadia no exterior de sua vida (quase dois meses) em 1913, próximo ao castelo imperial de Schönbrunn, a um quarto de hora da Wienzeile. Os emigrantes estavam em contato com os líderes do partido austríaco, cuja ajuda frequentemente precisavam solicitar. Quando a guerra eclodiu em 1914, Victor Adler interveio diretamente junto ao Ministro do Interior em nome de Trotsky e Lenin. Este último havia sido preso perto de Cracóvia e foi libertado graças à intervenção de Adler. Na manhã de 3 de agosto, Trotsky, junto com Ryazanov e (o menchevique) Abramovič, foi à casa Vorwärts para discutir o que os emigrantes russos deveriam fazer. Victor Adler levou Trotsky ao chefe da polícia política, que lhe deu uma dica para deixar a Áustria-Hungria imediatamente a fim de evitar a prisão. No mês seguinte, após sua libertação, Lenin visitou Victor Adler em seu escritório no edifício Vorwärts para agradecê-lo por sua intervenção.

Os anos 1920 foram o apogeu da social-democracia na Áustria. A república foi fundada em 1918 sob sua liderança. Sua sede era agora um importante local para as decisões sobre a política do país. Dois homens moldaram o funcionamento interno do edifício, que era a parte mais importante de suas vidas. Friedrich Austerlitz, o mestre incontestável do jornal Arbeiter-Zeitung por quase quatro décadas, residia no segundo andar. Como líder da social-democracia no novo e pequeno estado-nação da Áustria, Otto Bauer residiu na sede do partido de 1918 a 1934. Ele não era apenas o líder político do partido, mas também seu teórico.

Na manhã de 12 de fevereiro de 1934, eclodiram combates na cidade de Linz entre a milícia armada do Partido Social-Democrata, o Schutzbund, e a polícia. Quando a notícia do início dos combates em Linz já havia chegado, apenas dois policiais guardavam a entrada do edifício na Wienzeile. O jornalista inglês G.E.R. Gedye, que simpatizava com os social-democratas, chegou ao meio-dia, quando os bondes em Viena já haviam parado de circular, e entrou na sede do partido sem ser importunado. Às onze e meia, quando um corte de energia deveria sinalizar o início da greve geral, as prensas tipográficas também pararam. Os funcionários do Vorwärts foram informados dos acontecimentos apenas por rumores – um sintoma da confusão em que a guerra civil de fevereiro de 1934 começou. No início da tarde, o edifício foi ocupado pela polícia e pela milícia austrofascista. As organizações social-democratas ali sediadas foram dissolvidas e seus bens confiscados. No entanto, o confisco rendeu resultados relativamente magros, como observa o relatório sobre a apreensão dos bens do partido social-democrata: “o partido estava em uma espiral descendente constante…” O edifício foi apreendido, mas a editora Vorwärts permaneceu no local como estrutura de produção de propaganda para o estado autoritário. Jornais operários continuaram a ser impressos no edifício em conformidade com a agenda do regime. Mesmo após 1938, a gráfica continuou a produzir títulos antigos com conteúdo adaptado aos novos tempos. Os arquivos do Partido Social-Democrata também foram confiscados. O administrador provisório mandou transportá-los a uma fábrica de papel para serem destruídos. Lá, no último momento, foram salvaguardados por funcionários do Arquivo do Estado. Em 1991, após cinquenta anos no exílio, esses arquivos retornaram ao edifício. A extensa biblioteca da secretaria do partido, a última relíquia reminiscente do antigo partido, permaneceu no prédio, surpreendentemente até mesmo ao longo de todo o período nazista. Tudo o que restou da sede do partido foi sua casca física – pois sua alma foi para outro lugar, para a resistência interna, cuja primeira liderança em 1934 foi formada por ex-editores do Arbeiter-Zeitung, e para o exílio, que a partir de 1938 tornou-se o último recurso para muitos.

Após 1945, o partido não voltou a se instalar no edifício Vorwärts. O edifício havia sobrevivido intacto aos maciços bombardeios de Viena. Ele entrou em sua era final como sede da redação e da gráfica do Arbeiter-Zeitung. Durante o período de ocupação (1945-1955) e a primeira década da Segunda República Austríaca, o órgão do recém-fundado Partido Socialista da Áustria (SPÖ) era um jornal de grande circulação e importância nacional com amplo alcance. Com o surgimento da imprensa popular, iniciou-se um período de declínio para os jornais partidários, do qual nem mesmo o tradicional jornal social-democrata conseguiu escapar. Um século após sua fundação, o Arbeiter-Zeitung teve de encerrar suas atividades. Partes do complexo, incluindo a antiga gráfica e estruturas adjacentes, foram demolidas. Surgiu então a questão de como utilizar o edifício principal tombado.

Um grande ciclo histórico do movimento social-democrata havia visivelmente chegado ao fim. No entanto, isso não significava apenas morte. Pelo contrário, o próprio movimento havia se tornado história, agora estudada no edifício, transformado em um Centro de Pesquisa e Documentação do movimento operário austríaco. Havia uma certa lógica em dedicar o edifício – outrora o centro vivo do movimento – à preservação e à pesquisa de seu passado. Ele contém agora o arquivo do partido, documentos pessoais de destacadas figuras social-democratas e uma grande biblioteca de pesquisa baseada na antiga biblioteca do Vorwärts. Desde o início, uma sala do edifício havia sido reservada para um arquivo do movimento; o partido sempre se preocupou em documentar sua história. Isso era uma incumbência dos secretários do partido. Fritz Adler, em particular, desenvolveu um amor pela profissão de arquivista, que viria a preencher seus anos crepusculares. Os arquivos do partido tiveram uma história bastante agitada desde então. Em 1934, a maior parte dos arquivos do partido no edifício foi confiscada. Funcionários conscienciosos dos arquivos do estado os salvaram da destruição no último momento. Foi somente em 1989 que as partes individuais da memória arquivística do partido foram reunidas sob o teto do edifício Vorwärts. Assim, a função do edifício migrou de centro de luta política ativa e de publicação para um lugar de pesquisa acadêmica e de memória. O que outrora foi uma vibrante sede política transformou-se em um monumento histórico. Assim, enquanto uma época chegava ao fim, um novo capítulo começava: a transformação da sede de um movimento político centenário em um centro de pesquisa histórica. A “Casa do Partido” tornou-se uma “Casa da História”. As duas figuras de pedra no topo do edifício ainda voltam seu olhar resoluto, talvez não mais em direção a um futuro radiante do socialismo, mas em direção a uma sociedade profundamente transformada por quase um século e meio de atividade social-democrata.

Fachada do edifício Vorwärts (Vorwärts-Gebäude), antiga sede da editora Vorwärts-Verlag, Rechte Wienzeile 97, Viena, Áustria. Fotografia de Thomas Ledl, 27 abr. 2014. (Fonte: https://de.wikipedia.org/wiki/Vorw%C3%A4rts-Geb%C3%A4ude#/media/Datei:Wienzeile_Vorw%C3%A4rts_Verlag.jpg)



Berthold Unfried. “Vorwärts”. Das Haus an der Wienzeile”, VGA Dokumentation 4/95

Gedye G.E.R., Die Bastionen fielen. Wie der Faschismus Wien und Prag überrannte, Wien (1948)

Krupskaja Nadežda, Erinnerungen in: Kutos Paul, Russische Revolutionäre in Wien 1900-1917, Wien 1993

Trotzki Leo, Mein Leben. Versuch einer Autobiographie, Berlin 1930


Crédito da imagem: Associação para a História do Movimento Operário, Viena.


Lugares de Memória dos Trabalhadores

As marcas das experiências dos trabalhadores e trabalhadoras brasileiros estão espalhadas por inúmeros lugares da cidade e do campo. Muitos desses locais não mais existem, outros estão esquecidos, pouquíssimos são celebrados. Na batalha de memórias, os mundos do trabalho e seus lugares também são negligenciados. Nossa série Lugares de Memória dos Trabalhadores procura justamente dar visibilidade para essa “geografia social do trabalho” procurando estimular uma reflexão sobre os espaços onde vivemos e como sua história e memória são tratadas. Mensalmente, um pequeno artigo com imagens, escrito por um(a) especialista, fará uma “biografia” de espaços relevantes da história dos trabalhadores de todo o Brasil. Nossa perspectiva é ampla. São lugares de atuação política e social, de lazer, de protestos, de repressão, de rituais e de criação de sociabilidades. Estátuas, praças, ruas, cemitérios, locais de trabalho, agências estatais, sedes de organizações, entre muitos outros. Todos eles, espaços que rotineiramente ou em alguns poucos episódios marcaram a história dos trabalhadores no Brasil, em alguma região ou mesmo em uma pequena comunidade.

A seção Lugares de Memória dos Trabalhadores é coordenada por Larissa Farias, Paulo Fontes, Vinicius Rosalvo e Yasmin Getirana.


LMT #144: Alameda D. Afonso Henriques, Lisboa, Portugal – Elísio Estanque




A  Alameda D. Afonso Henriques é um dos centros mais icónicos da cidade de Lisboa, no que se refere aos principais pontos de efervescência sociopolítica, desde a chamada Revolução dos Cravos em Portugal, em 25 de Abril de 1974. Localizada na região central da capital, o arruamento e jardins que compõem a Alameda D. Afonso Henriques foram inaugurados na década de 1940, em homenagem ao primeiro rei de Portugal. O espaço é de grandes dimensões e sua configuração é em forma de um gigantesco arco cujo fundo mais baixo coincide com a zona onde é atravessado pela Avenida Almirante Reis, situando-se nos extremos mais elevados, de um lado, a Oeste, o Instituto Superior Técnico (IST) e na vertente oposta, a Este, a Fonte Luminosa (de onde jorra a água em cascata). Este monumento, que sobressai no topo desse imenso tapete verde, acolhe zonas de animação e de lazer, para adultos e crianças. É um campo aberto que marcou ruturas políticas decisivas em momentos de profunda viragem política no Portugal democrático.

É costume dizer-se que as revoluções começam num beco sem saída. Sem dúvida que a metáfora se aplica ao caso português, visto que o regime de Estado Novo se encontrava num beco sem saída, desde a década de sessenta. E por isso os militares do Movimento das Forças Armadas (MFA) conceberam e realizaram a ação militar de 25 de Abril de 1974, um ato heroico revolucionário, a derrocada desse muro decrépito e obsoleto que foi o regime de Salazar-Caetano. Houve, no entanto, condicionantes a montante desse momento apoteótico que acionaram e expandiram uma consciência social disposta para aplaudir (e construir) a democracia. É desse processo menos conhecido que gostaria de começar por referir, antes de culminar no clamor coletivo da classe trabalhadora que ganhou expressão nas diversas praças e avenidas da capital portuguesa, onde a Fonte Luminosa se tornou um ícone de festa e liberdade.

Tal como os grandes rios são veículos de um caudal que se alimenta dos seus pequenos afluentes, a capilaridade de uma revolução obedece a processos idênticos, ou seja, é oriunda de múltiplas fontes que brotam dos interstícios da sociedade. No caso de Portugal, os sonhos revolucionários e a dinâmica social irromperam após o 25 de Abril, das esquinas mais recônditas dos bairros operários, das fábricas industriais, dos amontoados de favelas (bairros de barracas) onde os esgotos eram ainda a céu aberto. Todavia, antes que esse caudal ganhasse expressão em praças como a Alameda D. Afonso Henriques que se tornou um pivô propulsor de uma cadeia de ações emancipatórias, foi necessário muito trabalho organizativo e muita dedicação militante em luta por um horizonte de liberdade. Se é verdade que a “queda do muro” do fascismo português surgiu num dia primaveril luminoso, não podemos ignorar que as sementes de uma cultura de dissidência, começaram a germinar muito antes desse dia decisivo que ocorreu há 52 anos atrás.


A emergência da classe trabalhadora portuguesa tem raízes longínquas que importa recordar. Entre a queda da monarquia e o fim da Primeira República (1910-1926), a consciência classista e a combatividade do movimento operário vinham crescendo ao ritmo de duas forças; em primeiro lugar as que acompanham o próprio processo de industrialização do país e, em segundo lugar, os ecos das lutas internacionalistas desde finais do século XIX. A classe operária portuguesa, apesar de todas as particularidades de um longo período de ditadura, que se seguiu à queda da república, não deixou de ser contaminada por vários desses acontecimentos.


Logo no ano seguinte à implantação do Estado Novo (o regime político de matriz corporativista e fascista liderado por Salazar), a greve geral dos vidreiros da Marinha Grande (1934) abalou o regime e vislumbrou até a possibilidade de abater o próprio ditador. Ao longo das décadas seguintes, vividas sob forte repressão, os polos industriais do país, tais como a indústria naval a sul de Lisboa e península de Setúbal, os vidreiros da Marinha Grande, os lanifícios da Covilhã ou a produção de calçado no norte, tornaram-se focos onde a classe trabalhadora emergiu como ator coletivo e foi resistindo como pôde ao salazarismo e em diversos momentos mostrou o seu potencial. Não foram apenas as ações grevistas, a identidade forjada no chão de fábrica e o papel das estruturas sindicais na clandestinidade, mas também as sociabilidades no plano da vida quotidiana, nos bairros operários da periferia da cidade tiveram papel central na formação da classe trabalhadora portuguesa.

No início da década de 1970, em plena ditadura, a Alameda D. Afonso Henrique era um ponto de encontro da juventude da classe trabalhadora que vinha dos bairros proletários. Tornou-se um dos principais espaços de lazer da cidade, onde localizava-se o cinema «Mundial», concertos de rock, um ambiente de paqueras e namoros ao redor da Fonte Luminosa, que marcava todo o ambiente envolvente. Sendo também um local de passagem, a Alameda foi, tal como o Rossio e outras ruas da baixa lisboeta, alegremente colorida na manhã do dia 25 de Abril de 1974 com as flores – cravos brancos e vermelhos – que as vendedeiras ambulantes traziam para comércio de rua, mas que, levadas pela vertigem da libertação repentina, ofereceram espontaneamente aos militares do MFA, desse modo gravando na memória coletiva o principal símbolo que define até hoje a Revolução dos Cravos. Todavia, a sua principal marca foi-se fortalecendo com as inúmeras concentrações, como ponto de encontro ou de passagem das grandes manifestações populares, com destaque para o Dia do Trabalhador.

O “primeiro ato” desse processo ocorreu logo no 1 de maio de 1974, como momento de maior impacto que foi o êxtase coletivo de celebração da conquista da democracia pelos militares do MFA uma semana antes. Com a participação de todos os partidos políticos do campo democrático, assim como das estruturas sindicais que então já existiam (como a CGTP-IN, Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses – Intersindical Nacional), esse «momentum» foi uma explosão espontânea de todos os setores sociais que celebravam a conquista da liberdade e da democracia política. Em Lisboa, a praça do Rossio, a avenida da Liberdade, a avenida Almirante Reis, a Alameda D. Afonso Henriques foram afluentes de um júbilo coletivo impressionante, numa comunhão de vontades que se exprimia na frase «O Povo Unido Jamais será Vencido». Foram rios de gente que, com passagem pela Alameda, desaguaram no estádio (que foi anteriormente o campo desportivo do Casa Pia Atlético Clube) desde então batizado como Estádio 1º de Maio em homenagem ao dia do Trabalhador e justamente por ter sido o principal palco dessa grande manifestação. O simbolismo desse local deve-se não só à sua centralidade, às suas enormes dimensões, mas também por se localizar em frente a um dos principais polos universitários de Lisboa (o Instituto Superior Técnico) que na década anterior tinha sido o principal pivô das manifestações estudantis contra o regime.

Em suma, a Alameda D. Afonso Henriques foi e continua sendo um espaço de expressividade do movimento operário e sindical desde o 25 de Abril de 1974, mas exprime ao mesmo tempo um campo em disputa onde as grandes tensões e ruturas sociopolíticas do período revolucionário se confrontaram. Mas, ainda no culminar do processo revolucionário (Agosto de 1975), seria aí o principal palco onde largos milhares de portugueses responderam ao apelo de Mário Soares (o então líder do Partido Socialista) numa das maiores manifestações da época – ainda hoje conhecida como a concentração da Fonte Luminosa –, em protesto contra a hegemonia do Partido Comunista Português no seio das Forças Armadas e contra o alegado perigo de uma “democracia popular”, sob chancela da ex-URSS. Após esse momento de viragem criaram-se as condições para a neutralização dos setores comunista e de esquerda (e da corrente do exército que os apoiava, sob influência de Otelo Saraiva de Carvalho, o comandante operacional do 25 de Abril) e abriu-se o caminho para a opção europeísta que viria a confirmar-se em 25 de novembro de 1975.

Cinquenta e dois anos depois da Revolução dos Cravos, ainda hoje a sua celebração é fonte de polémica, devido ao confronto ideológico que esses momentos de tensão evidenciaram. A liberdade política, apesar do inquestionável desenvolvimento que o país experimentou, visível em setores como a educação, as políticas sociais, a ciência ou a economia, não chegou para resolver todos os problemas e frustrou muitas expectativas. Os salários continuam baixos, o sistema de saúde revela inúmeras lacunas, fortes assimetrias entre o interior e o litoral, desigualdades económicas e de género chocantes, as condições de trabalho vêm-se degradando nas últimas décadas, enfim, o fenómeno migratório ganhou grande expressão, favorecendo novos e velhos ressentimentos, frustrações de muitos setores sociais, os quais se deixam seduzir pelas novas narrativas populistas e de extrema-direita, fazendo crescer forças políticas que ameaçam a própria democracia. Como um dos principais espaços de protestos e manifestações (como as do Primeiro de Maio), a Alameda D. Afonso Henriques em Lisboa continua a ser um palco onde muitas dessas lutas continuam a ocorrer.

Manifestação pelo direito à habitação em Lisboa, reunindo milhares de pessoas na Alameda Dom Afonso Henriques, em 28 de setembro de 2024. (Fonte: https://observador.pt/2024/09/28/milhares-de-pessoas-manifestam-se-em-lisboa-pelo-direito-a-habitacao-protesto-estende-se-a-todo-o-pais/)


Aldo Casas e António Louçã. O PREC e o Relógio das Revoluções. Lisboa, Parsifal, 2023.

Elísio Estanque; Agnaldo Barbosa e Fabrício Maciel (Orgs.). Re-Trabalhando as Classes no Diálogo Norte-Sul: trabalho e desigualdades no capitalismo pós-Covid.  S. Paulo: Editora da Unesp, 2024;

Elísio Estanque. Ressonâncias e Sociologia Pública: ensaio sociológico sobre a sociedade portuguesa. Porto: Editora VidaEconómica, 2023;

Irene Flunser Pimentel. Do 25 de Abril de 1974 ao 25 de Novembro de 1975. Lisboa: Temas&Debates, 2024.

Yves Léonard. Breve História do 25 de Abril. Lisboa: Ed. 70, 2024.


Crédito da imagem: Milhares de pessoas reunidas no antigo Estádio da FNAT para celebrar o primeiro 1º de Maio em democracia, em 1974 (Arquivo Diário de Notícias).


Lugares de Memória dos Trabalhadores

As marcas das experiências dos trabalhadores e trabalhadoras brasileiros estão espalhadas por inúmeros lugares da cidade e do campo. Muitos desses locais não mais existem, outros estão esquecidos, pouquíssimos são celebrados. Na batalha de memórias, os mundos do trabalho e seus lugares também são negligenciados. Nossa série Lugares de Memória dos Trabalhadores procura justamente dar visibilidade para essa “geografia social do trabalho” procurando estimular uma reflexão sobre os espaços onde vivemos e como sua história e memória são tratadas. Mensalmente, um pequeno artigo com imagens, escrito por um(a) especialista, fará uma “biografia” de espaços relevantes da história dos trabalhadores de todo o Brasil. Nossa perspectiva é ampla. São lugares de atuação política e social, de lazer, de protestos, de repressão, de rituais e de criação de sociabilidades. Estátuas, praças, ruas, cemitérios, locais de trabalho, agências estatais, sedes de organizações, entre muitos outros. Todos eles, espaços que rotineiramente ou em alguns poucos episódios marcaram a história dos trabalhadores no Brasil, em alguma região ou mesmo em uma pequena comunidade.

A seção Lugares de Memória dos Trabalhadores é coordenada por Larissa Farias, Paulo Fontes, Vinicius Rosalvo e Yasmin Getirana.