
Didice Godinho Delgado
Presidenta do Sindicato de Assistentes Sociais do Estado de São Paulo entre 1985 e 1992 e coordenadora da Comissão Nacional da Mulher Trabalhadora da CUT entre 1987 e 1993
Há 40 anos, a Central Única dos Trabalhadores (CUT) aprovou uma política de defesa das mulheres trabalhadoras e de luta contra as desigualdades entre homens e mulheres nos mundos do trabalho e na sociedade. Foi no 2° Congresso Nacional da CUT (2º Concut), realizado entre julho e agosto de 1986, no Rio de Janeiro, com a presença de 5.564 sindicalistas, dos quais se estima que cerca de 25% eram mulheres. Foi um marco histórico para o sindicalismo brasileiro. A CUT foi pioneira e avançada em muitos aspectos, entre eles a política sindical de igualdade de gênero.
Muitas companheiras fizeram e fazem parte desta longa trajetória, tanto sindicalistas como apoiadoras: foi sempre uma construção coletiva. Na linha do tempo de quatro décadas, oito sindicalistas estivemos à frente da organização das trabalhadoras na CUT, primeiro como Comissão Nacional da Questão da Mulher Trabalhadora e, a partir do 8° Concut, em 2003, como Secretaria Nacional da Mulher Trabalhadora: depois de mim, vieram as companheiras Sandra Cabral, Luci Paulino, Ednalva Bezerra (que foi também a primeira dirigente da Secretaria), Carmen Foro, Rosane Silva, Juneia Batista e, atualmente, Amanda Corcino. Lembro às companheiras que integraram a Comissão Nacional e já se foram, entre elas as sindicalistas Ednalva, Luci, Marlene Furtado, Maria Isabel Nascimento, Zênia Chaves e Maria da Penha Nascimento Silva, e nossas apoiadoras de primeira hora, Elisabeth Souza-Lobo e Nalu Faria.
A organização das mulheres trabalhadoras na CUT se inseriu no ambiente de enorme efervescência social, política, sindical e feminista que tivemos no Brasil entre as metades dos anos 1970 e dos anos 1980. O país vivia um intenso processo de luta contra a ditadura, por redemocratização, e o “novo sindicalismo”, desde as primeiras greves metalúrgicas lideradas por Lula, era a grande novidade no contexto sindical. Simultaneamente, eclodiram movimentos populares com forte participação das mulheres nos bairros, como a luta contra a carestia e por creches. O movimento feminista se visibilizava nos congressos de mulheres e jornais feministas, e a crítica ao trabalho doméstico, à divisão sexual do trabalho, à sexualidade tradicional e à violência contra as mulheres entrou na pauta dos grupos autônomos e dos estudos acadêmicos. O marcante crescimento da participação das mulheres no mercado de trabalho, inclusive em áreas até então quase exclusivamente masculinas, tornou-se um fenômeno irreversível e interpelou os sindicatos. Além do movimento feminista e dos movimentos populares, os sindicatos também eram um espaço importante de atuação para as mulheres, e sua presença desafiava uma longa tradição de exclusão das trabalhadoras no sindicalismo.
A CUT foi fundada nesse contexto, em 28 de agosto de 1983, como uma central sindical classista, autônoma e democrática. Uma central progressista, atenta a novos temas que se mostravam na sociedade, entre eles, certamente, a presença ativa das mulheres e as reivindicações das trabalhadoras (embora ainda não de forma explícita: basta uma olhada rápida nas fotos do palco do congresso de fundação!).
Desde o final dos anos 1970 e início dos anos 1980 ocorreram diversos congressos e encontros de trabalhadoras de sindicatos urbanos, como metalúrgicos, químicos, vestuários e outros. As trabalhadoras domésticas também se organizavam em busca de direitos. As trabalhadoras rurais se mobilizavam pelo direito à sindicalização e seu reconhecimento como trabalhadoras, já que seu trabalho era considerado ajuda à família e excluído de direitos. Margarida Maria Alves, presidenta do Sindicato de Trabalhadores Rurais de Alagoa Grande, na Paraíba, foi assassinada 16 dias antes da fundação da CUT.
As demandas pelos direitos das trabalhadoras urbanas e rurais estiveram presentes desde o primeiro congresso da CUT. Alguns sindicatos que se filiaram à central já contavam com comissões ou grupos de mulheres. Entre 1985 e 1986, algumas instâncias da CUT realizaram encontros de trabalhadoras, como as CUTs estaduais de São Paulo, Minas Gerais e Paraíba e a CUT regional (instância depois extinta) do ABC paulista. Em 1985, o congresso estadual da CUT da Paraíba aprovou a criação da Secretaria da Mulher Trabalhadora, proposta impulsionada pelas trabalhadoras rurais e as professoras. A expectativa de uma política para as trabalhadoras e de sua maior representação na CUT vinha germinando gradativamente.
Em entrevista concedida a mim, em 1995, Nalu Faria, militante feminista, lembrava que, em 1986, em São Paulo, na atividade do Dia Internacional da Mulher, 8 de Março, promovida pelo movimento feminista, o grupo de discussão sobre mulher e trabalho, no qual participaram sindicalistas, levantou a necessidade de se pensar uma iniciativa em relação ao congresso da CUT daquele ano, “porque as pessoas que estavam nos sindicatos já tinham esse desejo de que a CUT tivesse uma discussão mais organizada sobre a questão das mulheres”. Resultou daí uma rápida e eficiente articulação para formular uma proposta ao congresso, que foi fechada em um encontro em junho, em São Paulo, com sindicalistas urbanas (entre elas, químicas, coureiras, da indústria de plásticos, assistentes sociais, professoras, médicas e outras) e rurais de 10 estados. O encontro foi apoiado pela então secretária nacional de Formação da CUT, Ana Lúcia da Silva, a única mulher na direção executiva de 15 integrantes, e militantes feministas que apoiavam as lutas das trabalhadoras. Foi nesse encontro que me juntei ao projeto.
Elaboramos uma tese que argumentava por que a CUT tinha que organizar e representar as trabalhadoras e explicitava a relação intrínseca entre a luta das mulheres e a luta de classes; propunha a criação da Comissão da Questão da Mulher Trabalhadora (tanto em âmbito nacional quanto nos estados), vinculada à Secretaria de Política Sindical, e a reivindicação de creches como bandeira de luta. Por que uma comissão e não uma secretaria? Porque estamos falando de 40 anos atrás, do início da CUT e da nossa inserção organizada nela, de relações de poder: impossível conquistar naquele estágio uma secretaria nacional! Estar na secretaria de Política Sindical era um bom começo, pois estávamos propondo uma política sindical.
E por que a “questão” da mulher trabalhadora? Foi uma saída para evitar o que era comum em sindicatos: gerar um espaço de mulheres deslocado da política geral. Nossa reivindicação era de que a CUT inserisse a exploração do trabalho das mulheres no debate sobre os mundos do trabalho e na ação sindical, e que essa política fosse assumida pela CUT toda, não só pelas mulheres. Estávamos propondo uma política transversal (terminologia que não tínhamos na época). Caberia à Comissão coordenar a organização das trabalhadoras e infiltrar-se em todas as áreas/secretarias para levar a política de igualdade de gênero (terminologia que também não tínhamos na época) a toda a Central.
Quanto à creche, era uma bandeira de luta bem concreta: era reivindicação das trabalhadoras nos encontros e congressos de trabalhadoras e nos movimentos populares desde meados dos anos 1970. Propúnhamos que essa demanda fosse inserida nas pautas de reivindicações e negociações coletivas, e esperávamos que envolvesse os homens por tratar-se do cuidado de suas filhas e seus filhos.
Como estratégia para chegar ao 2° Concut, a prioridade era aprovar a tese nos congressos estaduais para que alcançasse o nacional. Fazer trabalho de convencimento, ganhar adesões de mulheres e homens nos estados. Conseguimos que fosse aprovada em alguns congressos. Mas, antes disso, solicitamos uma reunião com a direção executiva nacional para apresentar a proposta e buscar seu apoio. Ao contrário do que se possa pensar, conquistamos o apoio, o que mostrou que a CUT estava atenta às mobilizações das mulheres dentro e fora do sindicalismo. Houve, no entanto, uma ressalva: a proposição de que a CUT defendesse a legalização do aborto, que estava incluída no texto que formulamos, ia longe demais. Não nos surpreendeu naquele momento e a excluímos da redação final levada aos congressos. Mas não demoraríamos a voltar ao assunto. O 1° Encontro Nacional sobre a Questão da Mulher Trabalhadora, realizado em 1988, aprovou a necessidade do posicionamento da CUT favorável à legalização do aborto, cuja proibição penaliza as mulheres, sobretudo as mulheres pobres e negras. Foi um consenso construído com base numa discussão intensa entre as sindicalistas. O tema foi posto em discussão na Central e levado ao 4° Concut, em 1991, para deliberação. Defendi a proposta em plenário, que foi aprovada com algumas abstenções, mas sem votos contrários. Foi uma vitória contundente e uma experiência inesquecível. A partir de então, a CUT se incorporou à luta feminista pela descriminalização do aborto, feito inédito entre as centrais sindicais da época.
Na reunião com a direção executiva nacional, um dirigente levantou a dúvida que esperávamos: a organização das mulheres não iria dividir a classe trabalhadora? Era um argumento recorrente no pensamento de esquerda da época. Tínhamos a resposta na ponta da língua, além de ela estar na tese: “a organização das mulheres no movimento sindical, com a incorporação de suas lutas e reivindicações, deve ser assumida pelo conjunto da classe e representará não uma divisão, mas o fortalecimento e unificação da classe contra a dominação burguesa”. Ao final, a executiva da CUT estadual de São Paulo assumiu a tese, o que lhe deu mais peso político no congresso nacional.
Chegamos ao 2° Congresso Nacional da CUT com grandes expectativas. Uma de nossas companheiras teve a feliz ideia de fazermos um broche, que foi nosso “crachá” e, ao mesmo tempo, despertou curiosidade e conquistou adesões entre muitas delegadas. A tese precisava ser aprovada pelo menos em alguns grupos de trabalho para ser levada ao plenário: foi! Porém, um grupo de mulheres apresentou uma contraproposta que jogava para a frente a definição da forma de organização a ser adotada, sugerindo que a Comissão Nacional fosse implementada após encontros estaduais de trabalhadoras que elegeriam suas representantes, o que adiaria, portanto, a concretização da política. Não foi surpresa que a divergência tenha provocado os habituais comentários machistas do tipo “as mulheres não se entendem”, “as mulheres já começam brigando”. Para nós, defensoras da tese original, tal adiamento jogaria para as calendas a política da CUT, mas a decisão era, obviamente, do plenário. Houve defesa de uma e outra proposta. Venceu a nossa, defendida com brilho por Marlise Fernandes, trabalhadora rural do Rio Grande do Sul. Antes da votação, reivindicamos à coordenação da mesa que lesse a tese para o plenário, o que, embora contrariasse a rotina do congresso, foi aceito. Quisemos dar o máximo de visibilidade à decisão a ser tomada.
Após o congresso, o desafio era transformar a resolução em realidade. A vitória não significava que toda a direção nacional e as direções das CUTs estaduais estariam automaticamente comprometidas com colocá-la em prática. Ou que tivessem a mesma urgência que nós. Foi somente em março de 1987 que a Secretaria Nacional de Política Sindical convocou uma reunião para implementar a decisão congressual e instalar a Comissão. Participaram representantes de seis estados. Fiquei coordenadora entre dezembro de 1987 e março de 1993, sendo muito bem substituída por Sandra Cabral, presidenta da CUT Estadual de Goiás. Quando saí, estávamos em campanha pela adoção da cota mínima de 30% de mulheres nas direções, reivindicação que o 2° Encontro Nacional sobre a Questão da Mulher Trabalhadora, realizado em 1991, decidiu apresentar à CUT. Entre 1991 e 1993, fizemos campanha pela cota em todo o país, desencadeando um intenso debate sobre as relações de poder e a exclusão das mulheres dos espaços de decisão. Na 6ª. Plenária Nacional, em agosto de 1993, a cota foi aprovada. Foi outro pioneirismo da CUT. Em 2012, o 11° Concut aprovou a paridade entre mulheres e homens nas direções, proposta pela Secretaria Nacional da Mulher Trabalhadora, decisão também pioneira no sindicalismo brasileiro.
Referi-me no início a uma construção coletiva. Éramos sindicalistas da cidade e do campo e de várias regiões do país que decidimos atuar de forma unificada, construindo consensos quando tínhamos eventuais divergências na compreensão dos temas da pauta das mulheres e em função de nossa inserção em diferentes correntes políticas presentes na CUT. Todas estávamos convencidas da importância de implantar esta política na CUT. No âmbito nacional e nos estados, e cada uma em sua organização por ramo ou seu sindicato, atuamos com a energia, o tempo e a dedicação que pudemos dar à tarefa, muitas vezes sob condições adversas.
Com o apoio das aliadas feministas, fizemos as conexões entre a luta das mulheres trabalhadoras e a luta feminista, as intersecções entre gênero, classe e raça nas relações de dominação, entre mundo público e mundo privado. Entrou na CUT uma perspectiva que buscava integrar sindicalismo e feminismo.
Na Comissão Nacional, contamos com o impulso dado por organizações sindicais e não sindicais estrangeiras que apoiavam a CUT e já tinham incorporado a questão da mulher trabalhadora em suas agendas, fazendo pressão para a Central avançar na consolidação desta política. Entre elas, centrais sindicais de países como a Itália, a Dinamarca e o Canadá, a confederação precursora da Confederação Sindical Internacional (CSI) e organizações de cooperação internacional atuantes no Brasil, como a alemã Fundação Friedrich Ebert. A vitória no 2° Concut (assim como em conquistas posteriores) também teve o apoio de muitos homens, do contrário, não haveria maioria.
As relações de gênero são relações de poder: conflituosas, contraditórias, em permanente movimento, avançam e recuam, às vezes até simultaneamente. Nas interações sindicais cotidianas e em discussões sobre nossas pautas, naquela época, vivemos alianças e estranhamentos; apoios e recusas; somas e divisões. Seguimos construindo!
No 2° Concut, a disputa política sobre a concepção sindical e a estrutura da CUT dominou o clima do congresso. Na memória coletiva ou individual sobre ele, a decisão sobre a política de igualdade de gênero costuma estar invisibilizada. Obviamente, as sindicalistas que vivemos aquele período não o esquecemos. E a história da organização das mulheres e da política de gênero sempre foi resgatada e valorizada pelas dirigentes da Comissão Nacional e comissões estaduais e, mais tarde, da Secretaria Nacional e secretarias estaduais.
Em 40 anos, a organização das mulheres e a política de igualdade de gênero nunca foram interrompidas: dificuldades, contradições e crises ao longo do caminho jamais levaram à desistência. É uma trajetória de debates e mudanças relevantes nas relações de gênero internas, de atuação marcante em defesa dos direitos das mulheres trabalhadoras e de comprometimento com as lutas feministas na sociedade. Recordar o início desta história é motivo de orgulho para mim por ser parte dela. E por saber que ela continua movendo a luta das mulheres no presente.
Didice Delgado discursa na abertura do 1° Encontro Nacional da Questão da Mulher Trabalhadora em 1988. Ao seu lado, a sindicalista Marlise Fernandes e o então presidente da CUT, Jair Meneguelli.
PARA SABER MAIS
Bezerra de Lima, M.E. et al. Mulheres na CUT: uma história de muitas faces. CUT/Secretaria Nacional da Mulher Trabalhadora, São Paulo, 2006. Disponível em: https://cedoc.cut.org.br/cedoc/livros-e-folhetos/1152
Central Única dos Trabalhadores. Mulher trabalhadora. Não é blá, blá, blá… Cadernos da CUT. CUT/Comissão Nacional da Questão da Mulher Trabalhadora, São Paulo, 1988. Disponível em: https://cedoc.cut.org.br/cedoc/livros-e-folhetos/951.
Giulliani, P.C. “Silenciosas e combativas: as contribuições das mulheres na estrutura sindical no Nordeste 1976/1986”. In: Costa, A. de O. e Bruschini, C. (orgs.). Rebeldia e submissão. Estudos sobre condição feminina. Fundação Carlos Chagas/Vértice, São Paulo, 1989.
Godinho Delgado, M.B. “Mulheres na CUT: um novo olhar sobre o sindicalismo”. In: Borba, A., Faria, N. e Godinho, T. (orgs.). Mulher e política: gênero e feminismo no Partido dos Trabalhadores. Ed. Fundação Perseu Abramo, São Paulo, 1998. Disponível em: https://fpabramo.org.br/livro/mulher-e-politica-genero-e-feminismo-no-partido-dos-trabalhadores/
Godinho Delgado, M.B. A organização das mulheres na Central Única dos Trabalhadores. A Comissão Nacional sobre a Mulher Trabalhadora. Dissertação de mestrado em Serviço Social. PUC-São Paulo, 1996. Disponível em: https://tede2.pucsp.br/handle/handle/20244
Neves, M. de A. “Relações de gênero nos espaços público e privado: a experiência das trabalhadoras na CUT”. Revista Brasileira de Estudos de População, 10(1/2), 89–98, 1993. Disponível em: https://rebep.org.br/revista/article/view/494
Souza-Lobo, E. A classe operária tem dois sexos. Trabalho, dominação e resistência. Ed. Fundação Perseu Abramo, 2ª. ed., São Paulo, 2011 . https://fpabramo.org.br/livro/a-classe-operaria-tem-dois-sexos/
Crédito da imagem de capa: Trabalhadoras durante a greve geral convocada pela CUT em março de 1989″. Fonte: CEDOC/CUT.