Laboratório de Estudos da História dos Mundos do Trabalho

CE#43: Tovaritch Sacchetta: um trabalhador da memória operária – Dainis Karepovs




Por ocasião de seu desaparecimento, ocorrido no último dia 15 de maio, a infinidade de belos e comoventes textos, inclusive do Presidente Lula, dedicados a rememorar a vida e a trajetória de Vladimir Sacchetta (1950-2026), foram unânimes no reconhecimento de sua importância para a memória e a história de nosso país, em especial a dos trabalhadores. O Movimento dos Trabalhadores Sem Terra, a quem Vladimir sempre deu imenso apoio, assim a ele se referiu: “Um trabalhador da memória, dedicou a vida à documentação, organização e publicação dos registros das lutas da classe trabalhadora, tarefa fundamental para a compreensão do presente e construção de uma nova sociedade”. Um significativo complemento foi o dado pela antropóloga e historiadora Lilia Schwarcz: “Sacchetta foi daqueles intelectuais que trabalharam menos para aparecer e mais para fazer aparecer: documentos, imagens, cartazes, arquivos, histórias silenciadas e personagens esquecidos”.

Filho de militantes políticos, a tradutora Ceres de Abreu e o jornalista Herminio, e irmão de Lia, desde criança, jovem Vladimir conviveu com os intelectuais, jornalistas e escritores que frequentavam a casa de seus pais em São Paulo, além de acompanhar seu pai às redações de jornais e rádios por ele dirigidas. Desde cedo Vladimir aprendeu a importância das imagens como uma forma de resistência aos regimes autoritários. Seu pai, Herminio, militou no Partido Comunista do Brasil (PCB) de 1932 a 1937, onde ocupou diversas funções dirigentes, ocupando, também, entre 1935 e 1937, as funções de editor de seu órgão nacional, A Classe Operária. Uma das histórias que Herminio contava ao seu filho foi a da edição de fevereiro de 1937, que publicou uma imagem, obtida por meio de um fotógrafo próximo ao PCB – e aqui reproduzida –, retratando “o Estado-Maior dos tiras da Ordem Política e Social de S. Paulo”. Não é difícil imaginar como os “tiras” ficaram furiosos com a publicação dos comunistas. A polícia política não descansou até prendê-lo em junho de 1938.

Embora houvesse esboçado se encaminhar pelo percurso profissional mais usual aos jovens da classe média de seu tempo – ele cursou a tradicional Faculdade de Direito da USP, no Largo São Francisco, entre 1971 e 1975 (não sem uma fina ironia, Vladimir observava ter feito “Direito”, “quando o pau comia feio na ditadura”) – imediatamente após ter-se formado, fez um teste para entrar na Editora Abril e ali foi trabalhar como redator de fascículos e livros. Em 1978 foi ali criado o projeto de fascículos “Nosso Século”, uma história do Brasil fortemente calcada em iconografia, cobrindo o período do final do século XIX até 1982, em que Vladimir foi chefe de pesquisa. Esta coleção de fascículos serviu para que ele pudesse também realizar um mapeamento de fontes iconográficas e documentais país afora. Mas, mais do que isso, no campo das referências relativas à história dos trabalhadores brasileiros com a qual Vladimir conviveu desde sua infância, ele pôde esquadrinhá-las minuciosamente. Tomado pela paixão da pesquisa histórica, Vladimir dela não mais abriu mão.

A partir de 1985, passou a atuar independentemente como jornalista, pesquisador iconográfico, escritor e editor. Ao mesmo tempo, nesta sua atividade profissional, Vladimir envolveu-se em uma série de projetos, refletindo a variedade de seus interesses, mas não pondo de lado em qualquer momento seu compromisso com a história dos despossuídos. Assim foi, por exemplo, seu envolvimento com o projeto comemorativo do sexagésimo aniversário de fundação do PCB, concretizado em PCB, 1922-1982: Memória Fotográfica. Nele, aliás, Vladimir inseriu uma fotografia de seu pai e a dos “tiras” da polícia política de São Paulo, entre uma infinidade de outras imagens que “garimpou” em arquivos nos quais pesquisou. Anos depois, Vladimir também integrou a equipe de pesquisa de Cem Anos de Amor e Coragem pelo Brasil: Imagens da Centenária História do Partido Comunista do Brasil (1922-2022).

Aqui é importante chamar a atenção para algo muito importante. Nos textos e depoimentos sobre Vladimir, há uma unanimidade: a sua generosidade. Não apenas em disponibilizar itens de seu acervo formado ao longo de décadas, como também jamais deixar de indicar àqueles que o buscavam onde poderiam encontrar o que pesquisavam. Nesse sentido, deixo aqui um testemunho do jornalista e escritor Fernando Morais. Quando pesquisava para seu livro Olga, Morais tentava, sem sucesso, encontrar o processo n.º 1 do Tribunal de Segurança Nacional contra Luiz Carlos Prestes e os líderes das revoltas comunistas de novembro de 1935. Sabendo dessa busca, foi aconselhado pelo seu amigo Perseu Abramo a procurar Vladimir: “Se ainda existe, só ele sabe onde encontrá-lo”. De fato, Vladimir descobrira que o processo estava encaixotado no Superior Tribunal Militar (STM), então presidido pelo almirante de esquadra Júlio de Sá Bierrenbach, que, recorde-se, foi o único dos membros do STM a votar contra o arquivamento do processo do atentado do Riocentro. “Vou mandar um fax ao Bierrenbach para me dar acesso ao processo”, disse Vladimir a Morais. Este, temeroso, disse-lhe que o almirante podia prendê-los, ao que Vladimir retrucou: “Não vai ser a primeira vez e vai ser engraçado ser preso por estar procurando documento”. Enfim, o almirante autorizou a ida ao STM e colocou à disposição de Vladimir um taifeiro para abrir as caixas e reproduzir o que fosse de seu interesse. Vladimir foi a primeira pessoa a consultar esse acervo após décadas. “E o Sacchetta foi lá e trouxe ouro, ouro, ouro, ouro puro”, contou Morais. Na sua apresentação à primeira edição de seu Olga (1985), Morais já sentenciava: “Vladimir Sacchetta, indiscutivelmente uma das maiores autoridades no estudo do movimento operário brasileiro”.

O Estado Maior dos Tiras da Ordem Política e Social de S. Paulo (Acervo Vladimir Sacchetta)

Mais recentemente, Sacchetta aproximou-se do Instituto Vladimir Herzog, onde coordenou o trabalho de recuperação de acervos da chamada imprensa alternativa brasileira, preservando exemplares históricos que sobreviveram à censura, à repressão política da ditadura de 1964 e, ao mesmo tempo, dentro do projeto “Resistir é Preciso!”. Ao longo dos anos 1990, Vladimir realizou uma profunda pesquisa sobre a vida e a obra de Monteiro Lobato. Em 1997, publicou, em coautoria com Carmem Lúcia de Azevedo e Márcia Camargos, o livro Monteiro Lobato: Furacão na Botocúndia, que ganhou o Prêmio Jabuti nas categorias Ensaio e Biografia, e Livro do Ano, ambos em 1998. Isso lhe valeu a participação em diversos projetos, atividades e exposições relativos a Lobato e sua obra. Como parte desse envolvimento com a obra de Lobato, na luta pela valorização da cultura nacional em defesa contra o imperialismo cultural, em 2003 participou da fundação da “Sociedade dos Observadores de Saci” (Sosaci), sediada em São Luiz do Paraitinga, no Estado de São Paulo, da qual foi um dos redatores de seu manifesto inaugural.

O sociólogo Florestan Fernandes foi um daqueles que frequentou a casa de seus pais – a quem seu pai, Herminio, iniciou na política e que também o integrou ao Partido Socialista Revolucionário (PSR). Por ele e sua família, Vladimir desenvolveu uma duradoura amizade e admiração. Quando Florestan candidatou-se à Constituinte nas eleições de 1986 e em sua reeleição em 1990, Vladimir integrou seu Comitê de Campanha, chegando por algum tempo a fazer parte do gabinete do deputado eleito.

Em 1995, Vladimir organizou um dos últimos livros de Florestan: A contestação necessária: perfis intelectuais de inconformistas e revolucionários, obra premiada neste ano na categoria Ensaio com o Jabuti. Essa longa relação com Florestan também o fez ser um dos maiores apoiadores da constituição da Escola Florestan Fernandes do Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra (MST), em Guararema (SP).

Aqui, por fim, gostaria de deixar um testemunho pessoal, porém fixando-me em uma questão: o vigor e a honra com que defendia o nome Sacchetta. Vladimir sabia a genealogia da família, de que lugar da Itália haviam vindo seus ancestrais, quem e quando chegaram ao Brasil. E, particularmente, fazia questão de dizer que era filho de Herminio Sacchetta. Não se pode esquecer, para compreender o vulto do combate de Vladimir, que seu pai rompeu com o PCB em 1939 para ingressar no PSR, o representante brasileiro da IV Internacional fundada por Leon Trotsky.

Em 1992, no mesmo ano em que Herminio Sacchetta faleceu, Vladimir organizou e publicou uma coletânea com os principais textos políticos de seu pai: O caldeirão das bruxas e outros escritos políticos.

Durante quatro anos, entre 1993 e 1996, realizei uma pesquisa acadêmica sobre a cisão no PCB que Herminio protagonizou entre 1937 e 1938. Vladimir colaborou nesta pesquisa, cedendo documentos, imagens, relembrando episódios contados por seu pai, indicando personagens que tomaram parte nessa cisão para serem entrevistados, acompanhando o desenrolar da pesquisa e das descobertas feitas. Esse trabalho colocou Herminio Sacchetta no lugar onde sempre ele deveria ter estado, e não no sórdido campo das infâmias e insultos em que foi deixado durante muito tempo. E, mais importante, de cabeça erguida. O mais comovente para mim, talvez mais que a pesquisa, foi quando, na defesa da dissertação, com banca e essa coisa toda da Academia, Vladimir compareceu, acompanhado de sua mãe, dona Ceres, à defesa do trabalho.

E esse apreço do Vladimir por sua herança também persiste com a sua filha Paula. Orientada por Eugênio Bucci, fez um trabalho de conclusão de curso na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, discutindo as calúnias – vamos chamar isso pelo nome – de Jorge Amado sobre Hermínio Sacchetta em Subterrâneos da Liberdade. Isso, enfim, percorreu sua vida até o fim. Ele tinha muito orgulho da trajetória de seu pai e não tinha medo de dizer que era filho de Herminio Sacchetta.

Além dessa magnífica trajetória, o mais importante: Vladimir nos deixou os filhos Felipe e Paula e o neto Leon.

Genosse Vladimir, presente!

Didice Delgado discursa na abertura do 1° Encontro Nacional da Questão da Mulher Trabalhadora em 1988. Ao seu lado, a sindicalista Marlise Fernandes e o então presidente da CUT, Jair Meneguelli.


Herminio Sacchetta; Vladimir Sacchetta (Org.). O caldeirão das bruxas e outros escritos políticos. Campinas: Pontes; Editora da Universidade Estadual de Campinas, 1992.

Vladimir Sacchetta; Ricardo Carvalho; José Luiz Del Roio; José Maurício de Oliveira (Orgs.). As capas desta história: A imprensa alternativa, clandestina e no exílio, no período 1964-1979 (Do golpe à Anistia). São Paulo: Instituto Vladimir Herzog, 2011.

Vladimir Sacchetta (Org.) Os cartazes desta história: Memória gráfica da resistência à ditadura e da redemocratização. São Paulo: Instituto Vladimir Herzog; Escrituras Editora, 2012.

Adalberto Monteiro; Fernando Garcia (Orgs.); Vladimir Sacchetta et alii (Pesquisa). Cem Anos de Amor e Coragem pelo Brasil: Imagens da Centenária História do Partido Comunista do Brasil (1922-2022). São Paulo: Fundação Maurício Grabois, 2022.

Florestan Fernandes; Vladimir Sacchetta. A contestação necessária: Retratos intelectuais de inconformistas e revolucionários. São Paulo: Ática, 1995.

Vladimir Sacchetta (Coord.). Habeas corpus: Que se apresente o corpo. A busca dos desaparecidos políticos no Brasil. Brasília: Secretaria de Direitos Humanos, 2010.

Vladimir Sacchetta; Márcia Camargos; Gilberto Maringoni. A imagem e o gesto. Fotobiografia de Carlos Marighella. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 1999.

Vladimir Sacchetta; Hélio Guimarães. Machado de Assis: Fotógrafo do invisível. O escritor, sua vida e sua época em crônicas e imagens. São Paulo: Moderna, 2008.

Vladimir Sacchetta; Márcia Camargos; Carmem Lúcia de Azevedo. Monteiro Lobato: Furacão na Botocúndia. São Paulo: Senac, 1997.

Vladimir Sacchetta; José Paulo Netto; Paulo Cesar de Azevedo; José Antonio Segatto; José Ramos Néto. PCB, 1922-1982: Memória fotográfica. São Paulo: Brasiliense, 1982.

Paula Sacchetta. A farsa de um semianalfabeto ilustre. São Paulo: Escola de Comunicações e Artes. Universidade de São Paulo (Trabalho de Conclusão de Curso), 2011.

Jorge Amado. Subterrâneos da liberdade (3 volumes). São Paulo: Martins, 1954.

Jorge Amado. Subterrâneos da liberdade (3 volumes). São Paulo: Martins, 1954.

Dainis Karepovs. Luta subterrânea: O PCB em 1937-1938. São Paulo: Hucitec; Editora da Unesp, 2003.

Fernando Morais. Olga. São Paulo: Alfa-Omega, 1985.


Crédito da imagem de capa: Vladimir Sacchetta. Autoria desconhecida.

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