Laboratório de Estudos da História dos Mundos do Trabalho

LMT #142: Praça Saraçhane, Istambul, Turquia – Görkem Akgöz




Em 19 de março de 2025, mais um duro golpe foi desferido contra a democracia turca com a prisão de Ekrem İmamoğlu, prefeito de oposição de Istambul e o rival mais proeminente do presidente Recep Tayyip Erdoğan. Em resposta, a Praça Saraçhane tornou-se o epicentro da resistência, com sua histórica esplanada em frente à prefeitura transformando-se em uma ágora vibrante, um testemunho de uma cidade que se recusa a ser silenciada.

Para compreender como uma única praça se tornou o palco recorrente de momentos tão decisivos, é preciso primeiro entender o próprio cenário onde eles ocorreram: uma praça que não surgiu de forma gradual e orgânica, mas que foi violentamente escavada do coração da cidade décadas antes.

Na década de 1950, sob uma agressiva campanha de modernização liderada pelo poderoso governo da época, que promovia uma nova agenda pró-negócios e firmemente pró-americana, o antigo bairro de Saraçhane foi radicalmente transformado. Seguindo esses novos planos urbanísticos, uma ampla e moderna via foi aberta à força através do denso bairro histórico. Nesse processo, séculos de patrimônio otomano — incluindo as pequenas mesquitas, fontes e oficinas que deram nome à área — foram apagados do mapa. Em seu lugar, surgiu a vasta, aberta e imponente praça que vemos hoje, dominada pelo novo edifício modernista da Prefeitura Metropolitana de Istambul. A praça foi concebida pelo Estado como símbolo de uma nova ordem. A população, no entanto, logo a reivindicaria para um propósito muito diferente: como um poderoso novo palco de dissidência.


Esse novo propósito começou a se concretizar em 31 de dezembro de 1961, quando uma multidão imensa — estimada entre 100 mil e 200 mil pessoas — tomou a praça na maior manifestação de trabalhadores que o país já havia presenciado. Um evento de tal magnitude não surgiu do nada; foi o culminar de uma década de crescimento silencioso e explosivo, à medida que a Turquia se industrializava rapidamente.


Esse impulso para romper o impasse surgiu de duas forças poderosas: um medo profundamente enraizado e uma nova ambição política. O medo era de que essa “oportunidade única em um século” fosse perdida; os sindicalistas desconfiavam dos políticos civis que estavam prestes a assumir o poder, acreditando que usariam o limbo jurídico para adiar as leis indefinidamente. A ambição pertencia ao nascente Partido dos Trabalhadores da Turquia (TİP), fundado meses antes pelos mesmos líderes sindicais, que viam o protesto como uma chance de provar a força do movimento que representavam.

A raiva bruta e a esperança de uma classe em ascensão finalmente encontraram sua voz no último dia de 1961, ecoando por uma lamacenta Praça Saraçhane repleta de uma multidão determinada. As vozes do palco formaram um coro coletivo de uma classe descobrindo seu poder. Houve palavras de esperança de um velho sindicalista: “As sementes que plantamos nos dias sombrios brotaram… O sol pode ser negado, mas o seu poder não pode mais ser negado.” Houve a definição clara da luta: “Onde há direito de greve, há democracia. Fora disso, não há democracia.” Houve a raiva bruta contra os patrões que espremiam os trabalhadores “como um limão e os jogavam fora como bagaço,” e um ultimato desafiador: “Ou a lei da greve será aprovada, ou faremos greve apesar da proibição.”

O clímax do dia ocorreu quando o mesmo Governador que os havia ridicularizado fez uma aparição surpresa. Ao subir ao palco, alguns na multidão gritaram de volta suas próprias palavras: “Para a Colina de Çamlıca!” Mas diante da imensa e disciplinada multidão, seu tom havia mudado. “Heroicos trabalhadores turcos,” começou ele, “este país se erguerá sobre suas mãos calejadas… Sua causa é a nossa causa. Tenho orgulho de vocês.” Naquele momento, o Estado, que havia tentado proibi-los e ridicularizá-los, foi forçado a elogiá-los em seu próprio palco, uma impressionante reviravolta que demonstrou o poder inegável da multidão.

O impacto do comício foi imediato e profundo. Sua disciplina e caráter pacífico desafiaram os temores dos setores dominantes quanto ao caos. O protesto contrapôs-se de forma contundente à narrativa oficial promovida pelo então Ministro do Trabalho, Bülent Ecevit, um homem que mais tarde se tornaria uma das figuras mais importantes da social-democracia turca. Na visão paternalista de Ecevit, os direitos dos trabalhadores eram uma “dádiva” concedida de cima para baixo, posicionando a classe trabalhadora como receptora passiva da benevolência do Estado. Desafiando diretamente essa narrativa de uma classe passiva que recebe presentes, Mehmet Ali Aybar, que em breve se tornaria líder do Partido dos Trabalhadores da Turquia (TİP), ofereceu uma poderosa contra-metáfora. A mudança, argumentava ele, não era um presente externo, mas uma transformação interna. Para ele, aquele foi o momento em que “os trabalhadores despertaram como se de um sono de um século,” um gigante adormecido que se movia não para receber algo, mas para finalmente reivindicar sua própria força inerente.

Esse despertar teve resultados concretos. A ameaça de greve não era um blefe; o comício tornou-se o “sinalizador” para uma onda de greves eficazes, ainda que ilegais. Essa pressão sustentada de baixo para cima acabou forçando a mão do governo: em 24 de julho de 1963, as primeiras leis trabalhistas abrangentes da Turquia, legalizando plenamente o direito de greve e a negociação coletiva, foram oficialmente publicadas. A energia de Saraçhane também revitalizou o nascente TİP, dando-lhe o impulso necessário para entrar no Parlamento em 1965 e provando que o poder das ruas podia ser convertido em poder político.

O eco cultural do comício revelou-se igualmente potente. Em uma reviravolta comovente da história, apenas alguns meses antes dos protestos de março de 2025, o prefeito de Istambul, Ekrem İmamoğlu, inaugurou uma exposição fotográfica sobre o comício de 1961 no mesmo edifício da prefeitura. Foi uma redescoberta de um passado esquecido; İmamoğlu confessou que estava tomando conhecimento daquele evento monumental pela primeira vez, um exemplo contundente de como esse capítulo da história dos trabalhadores havia sido apagado da memória oficial da cidade. Ainda assim, o legado do comício mostrou-se poderoso demais para ser completamente suprimido, tendo alcançado, muito antes, até mesmo o poeta mais famoso da Turquia, o comunista exilado Nazım Hikmet, que imortalizou o espírito daquele dia em seu poema icônico, “Saudações à Classe Trabalhadora Turca,” com uma visão esperançosa do futuro: “…saudações àqueles que marcham para criar os dias futuros!”

O prefeito de Istambul, Ekrem İmamoğlu, atualmente preso, visitando a exposição “Manifestação dos Trabalhadores de Saraçhane de 1961” em janeiro de 2024. (Fonte: https://filashaber.com/amp/haber/cumhuriyet-tarihinin-ilk-kitlesel-mitingine-ozel-sergi-42185.html)


Koçak, M. Hakan and Aziz Çelik. “Türkiye İşçi Sınıfının Ayağa Kalktığı Gün: Saraçhane Mitingi” (The Day the Turkish Working Class Rose Up: The Saraçhane Rally). Tarih ve Toplum: Yeni Yaklaşımlar, Sayı 9, 2009.

Zürcher, Erik J. Turkey: A Modern History. I.B. Tauris, 2017. (Provides a comprehensive historical context for the political turmoil of the 1950s and the 1960 coup).

Ahmad, Feroz. The Turkish Experiment in Democracy, 1950-1975. C. Hurst & Co. Publishers, 1977. (A classic academic study focusing on the period, with detailed analysis of social and political forces, including the labor movement).

Film: Kavel (2018), a documentary directed by Zafer Aydın that details the historic 1963 strike that followed the Saraçhane rally.

Poem & Music: Nazım Hikmet, “Türkiye İşçi Sınıfına Selam” (Greetings to the Turkish Working Class, 1962). The poem, written in exile after being inspired by the rally, was famously set to music by Timur Selçuk. You can listen to the iconic song here: https://www.youtube.com/watch?v=SN7HimmS0e0


Crédito da imagem: Manifestação em Saraçhane, 31 de dezembro de 1961 (Arquivo İsmail Topkar)


Lugares de Memória dos Trabalhadores

As marcas das experiências dos trabalhadores e trabalhadoras brasileiros estão espalhadas por inúmeros lugares da cidade e do campo. Muitos desses locais não mais existem, outros estão esquecidos, pouquíssimos são celebrados. Na batalha de memórias, os mundos do trabalho e seus lugares também são negligenciados. Nossa série Lugares de Memória dos Trabalhadores procura justamente dar visibilidade para essa “geografia social do trabalho” procurando estimular uma reflexão sobre os espaços onde vivemos e como sua história e memória são tratadas. Semanalmente, um pequeno artigo com imagens, escrito por um(a) especialista, fará uma “biografia” de espaços relevantes da história dos trabalhadores de todo o Brasil. Nossa perspectiva é ampla. São lugares de atuação política e social, de lazer, de protestos, de repressão, de rituais e de criação de sociabilidades. Estátuas, praças, ruas, cemitérios, locais de trabalho, agências estatais, sedes de organizações, entre muitos outros. Todos eles, espaços que rotineiramente ou em alguns poucos episódios marcaram a história dos trabalhadores no Brasil, em alguma região ou mesmo em uma pequena comunidade.

A seção Lugares de Memória dos Trabalhadores é coordenada por Larissa Farias, Paulo Fontes, Vinicius Rosalvo e Yasmin Getirana.


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