Laboratório de Estudos da História dos Mundos do Trabalho

LMT #144: Alameda D. Afonso Henriques, Lisboa, Portugal – Elísio Estanque




A  Alameda D. Afonso Henriques é um dos centros mais icónicos da cidade de Lisboa, no que se refere aos principais pontos de efervescência sociopolítica, desde a chamada Revolução dos Cravos em Portugal, em 25 de Abril de 1974. Localizada na região central da capital, o arruamento e jardins que compõem a Alameda D. Afonso Henriques foram inaugurados na década de 1940, em homenagem ao primeiro rei de Portugal. O espaço é de grandes dimensões e sua configuração é em forma de um gigantesco arco cujo fundo mais baixo coincide com a zona onde é atravessado pela Avenida Almirante Reis, situando-se nos extremos mais elevados, de um lado, a Oeste, o Instituto Superior Técnico (IST) e na vertente oposta, a Este, a Fonte Luminosa (de onde jorra a água em cascata). Este monumento, que sobressai no topo desse imenso tapete verde, acolhe zonas de animação e de lazer, para adultos e crianças. É um campo aberto que marcou ruturas políticas decisivas em momentos de profunda viragem política no Portugal democrático.

É costume dizer-se que as revoluções começam num beco sem saída. Sem dúvida que a metáfora se aplica ao caso português, visto que o regime de Estado Novo se encontrava num beco sem saída, desde a década de sessenta. E por isso os militares do Movimento das Forças Armadas (MFA) conceberam e realizaram a ação militar de 25 de Abril de 1974, um ato heroico revolucionário, a derrocada desse muro decrépito e obsoleto que foi o regime de Salazar-Caetano. Houve, no entanto, condicionantes a montante desse momento apoteótico que acionaram e expandiram uma consciência social disposta para aplaudir (e construir) a democracia. É desse processo menos conhecido que gostaria de começar por referir, antes de culminar no clamor coletivo da classe trabalhadora que ganhou expressão nas diversas praças e avenidas da capital portuguesa, onde a Fonte Luminosa se tornou um ícone de festa e liberdade.

Tal como os grandes rios são veículos de um caudal que se alimenta dos seus pequenos afluentes, a capilaridade de uma revolução obedece a processos idênticos, ou seja, é oriunda de múltiplas fontes que brotam dos interstícios da sociedade. No caso de Portugal, os sonhos revolucionários e a dinâmica social irromperam após o 25 de Abril, das esquinas mais recônditas dos bairros operários, das fábricas industriais, dos amontoados de favelas (bairros de barracas) onde os esgotos eram ainda a céu aberto. Todavia, antes que esse caudal ganhasse expressão em praças como a Alameda D. Afonso Henriques que se tornou um pivô propulsor de uma cadeia de ações emancipatórias, foi necessário muito trabalho organizativo e muita dedicação militante em luta por um horizonte de liberdade. Se é verdade que a “queda do muro” do fascismo português surgiu num dia primaveril luminoso, não podemos ignorar que as sementes de uma cultura de dissidência, começaram a germinar muito antes desse dia decisivo que ocorreu há 52 anos atrás.


A emergência da classe trabalhadora portuguesa tem raízes longínquas que importa recordar. Entre a queda da monarquia e o fim da Primeira República (1910-1926), a consciência classista e a combatividade do movimento operário vinham crescendo ao ritmo de duas forças; em primeiro lugar as que acompanham o próprio processo de industrialização do país e, em segundo lugar, os ecos das lutas internacionalistas desde finais do século XIX. A classe operária portuguesa, apesar de todas as particularidades de um longo período de ditadura, que se seguiu à queda da república, não deixou de ser contaminada por vários desses acontecimentos.


Logo no ano seguinte à implantação do Estado Novo (o regime político de matriz corporativista e fascista liderado por Salazar), a greve geral dos vidreiros da Marinha Grande (1934) abalou o regime e vislumbrou até a possibilidade de abater o próprio ditador. Ao longo das décadas seguintes, vividas sob forte repressão, os polos industriais do país, tais como a indústria naval a sul de Lisboa e península de Setúbal, os vidreiros da Marinha Grande, os lanifícios da Covilhã ou a produção de calçado no norte, tornaram-se focos onde a classe trabalhadora emergiu como ator coletivo e foi resistindo como pôde ao salazarismo e em diversos momentos mostrou o seu potencial. Não foram apenas as ações grevistas, a identidade forjada no chão de fábrica e o papel das estruturas sindicais na clandestinidade, mas também as sociabilidades no plano da vida quotidiana, nos bairros operários da periferia da cidade tiveram papel central na formação da classe trabalhadora portuguesa.

No início da década de 1970, em plena ditadura, a Alameda D. Afonso Henrique era um ponto de encontro da juventude da classe trabalhadora que vinha dos bairros proletários. Tornou-se um dos principais espaços de lazer da cidade, onde localizava-se o cinema «Mundial», concertos de rock, um ambiente de paqueras e namoros ao redor da Fonte Luminosa, que marcava todo o ambiente envolvente. Sendo também um local de passagem, a Alameda foi, tal como o Rossio e outras ruas da baixa lisboeta, alegremente colorida na manhã do dia 25 de Abril de 1974 com as flores – cravos brancos e vermelhos – que as vendedeiras ambulantes traziam para comércio de rua, mas que, levadas pela vertigem da libertação repentina, ofereceram espontaneamente aos militares do MFA, desse modo gravando na memória coletiva o principal símbolo que define até hoje a Revolução dos Cravos. Todavia, a sua principal marca foi-se fortalecendo com as inúmeras concentrações, como ponto de encontro ou de passagem das grandes manifestações populares, com destaque para o Dia do Trabalhador.

O “primeiro ato” desse processo ocorreu logo no 1 de maio de 1974, como momento de maior impacto que foi o êxtase coletivo de celebração da conquista da democracia pelos militares do MFA uma semana antes. Com a participação de todos os partidos políticos do campo democrático, assim como das estruturas sindicais que então já existiam (como a CGTP-IN, Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses – Intersindical Nacional), esse «momentum» foi uma explosão espontânea de todos os setores sociais que celebravam a conquista da liberdade e da democracia política. Em Lisboa, a praça do Rossio, a avenida da Liberdade, a avenida Almirante Reis, a Alameda D. Afonso Henriques foram afluentes de um júbilo coletivo impressionante, numa comunhão de vontades que se exprimia na frase «O Povo Unido Jamais será Vencido». Foram rios de gente que, com passagem pela Alameda, desaguaram no estádio (que foi anteriormente o campo desportivo do Casa Pia Atlético Clube) desde então batizado como Estádio 1º de Maio em homenagem ao dia do Trabalhador e justamente por ter sido o principal palco dessa grande manifestação. O simbolismo desse local deve-se não só à sua centralidade, às suas enormes dimensões, mas também por se localizar em frente a um dos principais polos universitários de Lisboa (o Instituto Superior Técnico) que na década anterior tinha sido o principal pivô das manifestações estudantis contra o regime.

Em suma, a Alameda D. Afonso Henriques foi e continua sendo um espaço de expressividade do movimento operário e sindical desde o 25 de Abril de 1974, mas exprime ao mesmo tempo um campo em disputa onde as grandes tensões e ruturas sociopolíticas do período revolucionário se confrontaram. Mas, ainda no culminar do processo revolucionário (Agosto de 1975), seria aí o principal palco onde largos milhares de portugueses responderam ao apelo de Mário Soares (o então líder do Partido Socialista) numa das maiores manifestações da época – ainda hoje conhecida como a concentração da Fonte Luminosa –, em protesto contra a hegemonia do Partido Comunista Português no seio das Forças Armadas e contra o alegado perigo de uma “democracia popular”, sob chancela da ex-URSS. Após esse momento de viragem criaram-se as condições para a neutralização dos setores comunista e de esquerda (e da corrente do exército que os apoiava, sob influência de Otelo Saraiva de Carvalho, o comandante operacional do 25 de Abril) e abriu-se o caminho para a opção europeísta que viria a confirmar-se em 25 de novembro de 1975.

Cinquenta e dois anos depois da Revolução dos Cravos, ainda hoje a sua celebração é fonte de polémica, devido ao confronto ideológico que esses momentos de tensão evidenciaram. A liberdade política, apesar do inquestionável desenvolvimento que o país experimentou, visível em setores como a educação, as políticas sociais, a ciência ou a economia, não chegou para resolver todos os problemas e frustrou muitas expectativas. Os salários continuam baixos, o sistema de saúde revela inúmeras lacunas, fortes assimetrias entre o interior e o litoral, desigualdades económicas e de género chocantes, as condições de trabalho vêm-se degradando nas últimas décadas, enfim, o fenómeno migratório ganhou grande expressão, favorecendo novos e velhos ressentimentos, frustrações de muitos setores sociais, os quais se deixam seduzir pelas novas narrativas populistas e de extrema-direita, fazendo crescer forças políticas que ameaçam a própria democracia. Como um dos principais espaços de protestos e manifestações (como as do Primeiro de Maio), a Alameda D. Afonso Henriques em Lisboa continua a ser um palco onde muitas dessas lutas continuam a ocorrer.

Manifestação pelo direito à habitação em Lisboa, reunindo milhares de pessoas na Alameda Dom Afonso Henriques, em 28 de setembro de 2024. (Fonte: https://observador.pt/2024/09/28/milhares-de-pessoas-manifestam-se-em-lisboa-pelo-direito-a-habitacao-protesto-estende-se-a-todo-o-pais/)


Aldo Casas e António Louçã. O PREC e o Relógio das Revoluções. Lisboa, Parsifal, 2023.

Elísio Estanque; Agnaldo Barbosa e Fabrício Maciel (Orgs.). Re-Trabalhando as Classes no Diálogo Norte-Sul: trabalho e desigualdades no capitalismo pós-Covid.  S. Paulo: Editora da Unesp, 2024;

Elísio Estanque. Ressonâncias e Sociologia Pública: ensaio sociológico sobre a sociedade portuguesa. Porto: Editora VidaEconómica, 2023;

Irene Flunser Pimentel. Do 25 de Abril de 1974 ao 25 de Novembro de 1975. Lisboa: Temas&Debates, 2024.

Yves Léonard. Breve História do 25 de Abril. Lisboa: Ed. 70, 2024.


Crédito da imagem: Milhares de pessoas reunidas no antigo Estádio da FNAT para celebrar o primeiro 1º de Maio em democracia, em 1974 (Arquivo Diário de Notícias).


Lugares de Memória dos Trabalhadores

As marcas das experiências dos trabalhadores e trabalhadoras brasileiros estão espalhadas por inúmeros lugares da cidade e do campo. Muitos desses locais não mais existem, outros estão esquecidos, pouquíssimos são celebrados. Na batalha de memórias, os mundos do trabalho e seus lugares também são negligenciados. Nossa série Lugares de Memória dos Trabalhadores procura justamente dar visibilidade para essa “geografia social do trabalho” procurando estimular uma reflexão sobre os espaços onde vivemos e como sua história e memória são tratadas. Mensalmente, um pequeno artigo com imagens, escrito por um(a) especialista, fará uma “biografia” de espaços relevantes da história dos trabalhadores de todo o Brasil. Nossa perspectiva é ampla. São lugares de atuação política e social, de lazer, de protestos, de repressão, de rituais e de criação de sociabilidades. Estátuas, praças, ruas, cemitérios, locais de trabalho, agências estatais, sedes de organizações, entre muitos outros. Todos eles, espaços que rotineiramente ou em alguns poucos episódios marcaram a história dos trabalhadores no Brasil, em alguma região ou mesmo em uma pequena comunidade.

A seção Lugares de Memória dos Trabalhadores é coordenada por Larissa Farias, Paulo Fontes, Vinicius Rosalvo e Yasmin Getirana.


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