
Berthold Unfried
Professor Associado do Instituto de História Econômica e Social da Universidade de Viena (Áustria)
Há muitos lugares, espaços, onde as memórias da social-democracia austríaca se cristalizam. Mas, em um sentido mais amplo, os conjuntos habitacionais municipais vienenses do período entreguerras tornaram-se indubitavelmente um dos principais “monumentos”. O edifício “Vorwärts” (“Avante”), na Wienzeile, em Viena, foi a sede do movimento de 1910 a 1934, frequentado pelas grandes figuras do movimento operário internacional. Ocupado durante o período “austrofascista” e o subsequente período “nacional-socialista”, de 1934 a 1945, tornou-se a sede do jornal do partido, o Arbeiter-Zeitung, após 1945.
A história desse edifício condensa a história do movimento social-democrata, primeiro na antiga Áustria da monarquia dos Habsburgo, depois na Primeira e na Segunda Repúblicas Austríacas. Os primeiros anos do século XX trouxeram uma ascensão meteórica para o movimento operário social-democrata na Áustria. O sufrágio universal foi conquistado e, em 1907, os social-democratas ingressaram no parlamento austríaco como o partido mais votado. O número de filiados cresceu acentuadamente. Em 1909, o partido deliberou uma reforma organizacional que deveria formar a base para seu desenvolvimento como um partido de massa moderno. O ano da reforma também foi marcado pela decisão de adquirir o edifício na Rechte Wienzeile 97 e convertê-lo em sede do partido e das organizações sindicais. Os irmãos Hubert e Franz Gessner receberam a encomenda do projeto arquitetônico. Discípulo do célebre arquiteto Otto Wagner e amigo de Victor Adler, líder da social-democracia austríaca na monarquia dos Habsburgo, Hubert Gessner foi o arquiteto oficial da social-democracia até 1934. Gessner ergueu um edifício de três andares no estilo da Escola Wagner sobre a estrutura preexistente. De design de fachada simples, quase liso, levemente gradeado, enriquecido por ladrilhos vermelhos no pavimento térreo e um balcão em treliça no segundo andar, o edifício faz a transição para uma empena escalonada, coroada por um tambor metálico e ladeada por figuras de pedra sobre altos pedestais e mastros de bandeira, conferindo-lhe um caráter monumental.
As figuras em tamanho maior que o natural de um operário e uma operária, criadas pelo renomado escultor Anton Hanak — um presente do sindicato dos metalúrgicos —, erguem-se livremente em direção ao céu com mastros ao lado, expressando o pathos prometeico do movimento operário da época e conferindo ao projeto do edifício um toque de arquitetura programática.
Com suas amplas salas iluminadas e cúpulas de vidro, o edifício concluído foi considerado um modelo de arquitetura industrial moderna.
O partido, seu jornal Arbeiter-Zeitung e a comissão sindical mudaram-se para a nova sede em julho de 1910. O edifício contava com ventilação e um sistema central de aspiração — o que sublinhava seu caráter de modelo de ambiente de trabalho, no qual as condições laborais reivindicadas pelo movimento operário para a classe trabalhadora já se faziam realidade. Luz, ar, verde — a ala central do edifício gráfico dava para um pátio ajardinado —, praticidade e higiene eram as palavras de ordem utilizadas pelo Arbeiter-Zeitung para caracterizar o novo edifício. Além disso, o edifício estava idilicamente situado às margens do rio Wien. Quando o Arbeiter-Zeitung inaugurou a sede do partido com esse ardoroso apelo, o movimento operário, embora abalado pelas mesmas querelas nacionais que também despedaçavam a monarquia dos Habsburgo — 1910 foi também o ano da ruptura definitiva entre a social-democracia alemã e a tcheca na Áustria —, ainda não havia sofrido retrocessos sérios após anos de crescimento, e sua autopercepção otimista como vanguarda na linha do progresso permanecia inabalada. A construção do edifício — o “castelo do movimento operário” — parecia antecipar a construção de um futuro socialista – tão prático e, ao mesmo tempo, heroico e belo.
A casa na Wienzeile não era apenas a sede do movimento operário austríaco, mas também um ponto fixo na topografia do socialismo internacional. As grandes figuras do movimento operário frequentavam esse lugar. Primeiro, havia os líderes da “Pequena Internacional” dos diversos partidos social-democratas nacionais dos muitos povos da monarquia. Essa Internacional estava em processo de desintegração em 1910: os líderes do partido tcheco Antonín Němec e Bohumír Šmeral, o líder do partido polonês Daszyński, os húngaros Garami e Szabó. Os líderes do SPD, os da “Segunda Internacional”, cujo congresso deveria realizar-se em Viena em agosto de 1914. Victor Adler, um dos grandes Sêniores da “Segunda Internacional”, estava em contato com quase todos eles. Após a guerra, que, poucos anos depois da “Pequena Internacional”, destruiu a “grande” Internacional, esta foi a sede da Internacional de “Viena” ou “Dois-e-Meio”, que nos anos 1919–1923 tentou mais uma vez superar a divisão no movimento operário internacional. Após o fracasso dessa tentativa, Fritz Adler mudou-se para Londres em 1924 como secretário da “Internacional dos Trabalhadores Socialistas” (SAI).
A casa na Wienzeile foi sempre um lar e ponto de trânsito para emigrantes: antes de 1914, Viena era um importante polo da emigração social-democrata russa. Os bolcheviques estavam proeminentemente representados por Lenin, Trotsky (que ainda não era bolchevique na época), Bukharin, Yoffe e Ryazanov. Stalin também passou a mais longa estadia no exterior de sua vida (quase dois meses) em 1913, próximo ao castelo imperial de Schönbrunn, a um quarto de hora da Wienzeile. Os emigrantes estavam em contato com os líderes do partido austríaco, cuja ajuda frequentemente precisavam solicitar. Quando a guerra eclodiu em 1914, Victor Adler interveio diretamente junto ao Ministro do Interior em nome de Trotsky e Lenin. Este último havia sido preso perto de Cracóvia e foi libertado graças à intervenção de Adler. Na manhã de 3 de agosto, Trotsky, junto com Ryazanov e (o menchevique) Abramovič, foi à casa Vorwärts para discutir o que os emigrantes russos deveriam fazer. Victor Adler levou Trotsky ao chefe da polícia política, que lhe deu uma dica para deixar a Áustria-Hungria imediatamente a fim de evitar a prisão. No mês seguinte, após sua libertação, Lenin visitou Victor Adler em seu escritório no edifício Vorwärts para agradecê-lo por sua intervenção.
Os anos 1920 foram o apogeu da social-democracia na Áustria. A república foi fundada em 1918 sob sua liderança. Sua sede era agora um importante local para as decisões sobre a política do país. Dois homens moldaram o funcionamento interno do edifício, que era a parte mais importante de suas vidas. Friedrich Austerlitz, o mestre incontestável do jornal Arbeiter-Zeitung por quase quatro décadas, residia no segundo andar. Como líder da social-democracia no novo e pequeno estado-nação da Áustria, Otto Bauer residiu na sede do partido de 1918 a 1934. Ele não era apenas o líder político do partido, mas também seu teórico.
Na manhã de 12 de fevereiro de 1934, eclodiram combates na cidade de Linz entre a milícia armada do Partido Social-Democrata, o Schutzbund, e a polícia. Quando a notícia do início dos combates em Linz já havia chegado, apenas dois policiais guardavam a entrada do edifício na Wienzeile. O jornalista inglês G.E.R. Gedye, que simpatizava com os social-democratas, chegou ao meio-dia, quando os bondes em Viena já haviam parado de circular, e entrou na sede do partido sem ser importunado. Às onze e meia, quando um corte de energia deveria sinalizar o início da greve geral, as prensas tipográficas também pararam. Os funcionários do Vorwärts foram informados dos acontecimentos apenas por rumores – um sintoma da confusão em que a guerra civil de fevereiro de 1934 começou. No início da tarde, o edifício foi ocupado pela polícia e pela milícia austrofascista. As organizações social-democratas ali sediadas foram dissolvidas e seus bens confiscados. No entanto, o confisco rendeu resultados relativamente magros, como observa o relatório sobre a apreensão dos bens do partido social-democrata: “o partido estava em uma espiral descendente constante…” O edifício foi apreendido, mas a editora Vorwärts permaneceu no local como estrutura de produção de propaganda para o estado autoritário. Jornais operários continuaram a ser impressos no edifício em conformidade com a agenda do regime. Mesmo após 1938, a gráfica continuou a produzir títulos antigos com conteúdo adaptado aos novos tempos. Os arquivos do Partido Social-Democrata também foram confiscados. O administrador provisório mandou transportá-los a uma fábrica de papel para serem destruídos. Lá, no último momento, foram salvaguardados por funcionários do Arquivo do Estado. Em 1991, após cinquenta anos no exílio, esses arquivos retornaram ao edifício. A extensa biblioteca da secretaria do partido, a última relíquia reminiscente do antigo partido, permaneceu no prédio, surpreendentemente até mesmo ao longo de todo o período nazista. Tudo o que restou da sede do partido foi sua casca física – pois sua alma foi para outro lugar, para a resistência interna, cuja primeira liderança em 1934 foi formada por ex-editores do Arbeiter-Zeitung, e para o exílio, que a partir de 1938 tornou-se o último recurso para muitos.
Após 1945, o partido não voltou a se instalar no edifício Vorwärts. O edifício havia sobrevivido intacto aos maciços bombardeios de Viena. Ele entrou em sua era final como sede da redação e da gráfica do Arbeiter-Zeitung. Durante o período de ocupação (1945-1955) e a primeira década da Segunda República Austríaca, o órgão do recém-fundado Partido Socialista da Áustria (SPÖ) era um jornal de grande circulação e importância nacional com amplo alcance. Com o surgimento da imprensa popular, iniciou-se um período de declínio para os jornais partidários, do qual nem mesmo o tradicional jornal social-democrata conseguiu escapar. Um século após sua fundação, o Arbeiter-Zeitung teve de encerrar suas atividades. Partes do complexo, incluindo a antiga gráfica e estruturas adjacentes, foram demolidas. Surgiu então a questão de como utilizar o edifício principal tombado.
Um grande ciclo histórico do movimento social-democrata havia visivelmente chegado ao fim. No entanto, isso não significava apenas morte. Pelo contrário, o próprio movimento havia se tornado história, agora estudada no edifício, transformado em um Centro de Pesquisa e Documentação do movimento operário austríaco. Havia uma certa lógica em dedicar o edifício – outrora o centro vivo do movimento – à preservação e à pesquisa de seu passado. Ele contém agora o arquivo do partido, documentos pessoais de destacadas figuras social-democratas e uma grande biblioteca de pesquisa baseada na antiga biblioteca do Vorwärts. Desde o início, uma sala do edifício havia sido reservada para um arquivo do movimento; o partido sempre se preocupou em documentar sua história. Isso era uma incumbência dos secretários do partido. Fritz Adler, em particular, desenvolveu um amor pela profissão de arquivista, que viria a preencher seus anos crepusculares. Os arquivos do partido tiveram uma história bastante agitada desde então. Em 1934, a maior parte dos arquivos do partido no edifício foi confiscada. Funcionários conscienciosos dos arquivos do estado os salvaram da destruição no último momento. Foi somente em 1989 que as partes individuais da memória arquivística do partido foram reunidas sob o teto do edifício Vorwärts. Assim, a função do edifício migrou de centro de luta política ativa e de publicação para um lugar de pesquisa acadêmica e de memória. O que outrora foi uma vibrante sede política transformou-se em um monumento histórico. Assim, enquanto uma época chegava ao fim, um novo capítulo começava: a transformação da sede de um movimento político centenário em um centro de pesquisa histórica. A “Casa do Partido” tornou-se uma “Casa da História”. As duas figuras de pedra no topo do edifício ainda voltam seu olhar resoluto, talvez não mais em direção a um futuro radiante do socialismo, mas em direção a uma sociedade profundamente transformada por quase um século e meio de atividade social-democrata.
Fachada do edifício Vorwärts (Vorwärts-Gebäude), antiga sede da editora Vorwärts-Verlag, Rechte Wienzeile 97, Viena, Áustria. Fonte: fotografia de Thomas Ledl, 27 abr. 2014. (Fonte: https://de.wikipedia.org/wiki/Vorw%C3%A4rts-Geb%C3%A4ude#/media/Datei:Wienzeile_Vorw%C3%A4rts_Verlag.jpg)
Tradução: Yasmin Getirana
PARA SABER MAIS
Berthold Unfried. “Vorwärts”. Das Haus an der Wienzeile”, VGA Dokumentation 4/95
Gedye G.E.R., Die Bastionen fielen. Wie der Faschismus Wien und Prag überrannte, Wien (1948)
Krupskaja Nadežda, Erinnerungen in: Kutos Paul, Russische Revolutionäre in Wien 1900-1917, Wien 1993
Trotzki Leo, Mein Leben. Versuch einer Autobiographie, Berlin 1930
Crédito da imagem: Associação para a História do Movimento Operário, Viena.
Lugares de Memória dos Trabalhadores
As marcas das experiências dos trabalhadores e trabalhadoras brasileiros estão espalhadas por inúmeros lugares da cidade e do campo. Muitos desses locais não mais existem, outros estão esquecidos, pouquíssimos são celebrados. Na batalha de memórias, os mundos do trabalho e seus lugares também são negligenciados. Nossa série Lugares de Memória dos Trabalhadores procura justamente dar visibilidade para essa “geografia social do trabalho” procurando estimular uma reflexão sobre os espaços onde vivemos e como sua história e memória são tratadas. Mensalmente, um pequeno artigo com imagens, escrito por um(a) especialista, fará uma “biografia” de espaços relevantes da história dos trabalhadores de todo o Brasil. Nossa perspectiva é ampla. São lugares de atuação política e social, de lazer, de protestos, de repressão, de rituais e de criação de sociabilidades. Estátuas, praças, ruas, cemitérios, locais de trabalho, agências estatais, sedes de organizações, entre muitos outros. Todos eles, espaços que rotineiramente ou em alguns poucos episódios marcaram a história dos trabalhadores no Brasil, em alguma região ou mesmo em uma pequena comunidade.
A seção Lugares de Memória dos Trabalhadores é coordenada por Larissa Farias, Paulo Fontes, Vinicius Rosalvo e Yasmin Getirana.