LMT#107: Metalúrgica Abramo Eberle, Caxias do Sul (RS) – Anthony Beux Tessari



Anthony Beux Tessari
Professor na Universidade de Caxias do Sul (UCS)



Caxias do Sul, localizada na Serra gaúcha, é a segunda maior cidade do Rio Grande do Sul e destaca-se nacionalmente pela produção na indústria da transformação. Neste início da década de 2020, são cerca de 67 mil trabalhadores empregados nos mais de 10 mil estabelecimentos industriais existentes na cidade. Por mais de meio século, a Metalúrgica Abramo Eberle foi a maior expressão no seu ramo de atividade, atraindo mão-de-obra local e trabalhadores de outras regiões. Suas unidades fabris hoje constituem em patrimônio histórico da cidade, cujo principal valor de preservação está relacionado à memória dos trabalhadores.

Nas narrativas elaboradas e patrocinadas pela empresa, que procuram salientar o pioneirismo e empreendedorismo de seu fundador, a Metalúrgica Abramo Eberle iniciou suas atividades em 1896, quando o imigrante italiano Abramo Eberle, aos dezesseis anos de idade, teria comprado, do próprio pai, Giuseppe Eberle, uma oficina de funilaria, estabelecida em Caxias do Sul. Contudo, a oficina funcionava desde uma década antes, e boa parte desse período teve sob seu comando Luigia Zanrosso Eberle, mãe de Abramo e esposa de Giuseppe, que assumiu o negócio da família trabalhando como funileira e ensinando o filho na atividade. 

Na década de 1900, os primeiros investimentos não foram expressivos em maquinário, mas na contratação de força de trabalho, inclusive muitas crianças, denominadas de aprendizes. Os primeiros aprendizes, Ernesto Barbisan e Eugenio Lucchese, tiveram os seus contratos de trabalho assinados em 1901, quando tinham a idade de 12 e 13 anos, respectivamente. Ambos eram empregados com a condição de residirem na casa de Abramo, e deviam “cuidar as ordens dos patrões, e prestar toda a obediência como se fosse a seus pais”. 

Nos anos 1920, uma parte da fábrica passou a funcionar em prédios de alvenaria, e incorporou mecanismos automáticos à produção. No mesmo período, houve a fixação dos primeiros regulamentos, que tinham o objetivo de disciplinar a dinâmica produtiva e as relações de trabalho. Naquela década, com quase 300 trabalhadores empregados, a fábrica absorvia cerca de 25% da mão-de-obra operária local.

Em notícia de jornal, de 1921, encontra-se a menção mais antiga a um acidente de trabalho na fábrica, o da morte do operário Arthur Rosa, que teve traumatismo craniano após cair de uma altura aproximada de 7 metros.  Outros relatos, registrados em fontes orais, falam de um ambiente de trabalho perigoso e documentam outras mortes de trabalhadores, assim como de operários que sofreram amputações ou adquiriram deficiências diversas.


No ano de 1942, em meio à Segunda Guerra Mundial, a fábrica foi declarada de interesse militar pelo governo brasileiro, tendo parte da sua produção dedicada a atender a Força Expedicionária Brasileira.


Passado o esforço de guerra, em 1948, foi inaugurada a segunda unidade da fábrica, o que resultou na intensificação do trabalho de fundição e de artefatos artísticos e religiosos e o início da produção de motores elétricos. Além disso, a fábrica também produzia, em grande escala, artigos de montaria, espadas, facas, prataria e talheres. 

Abramo Eberle faleceu em 1945; foi comerciante, industrial, vice-intendente municipal, aproximou-se do fascismo na década de 1920 e apoiou o Estado Novo varguista. Com sua morte, a administração da fábrica foi continuada por seus dois filhos homens.  A empresa – e a família – Eberle manteve-se próxima de autoridades políticas regionais e nacionais, recepcionando por exemplo, os presidentes militares da Ditadura em visitas oficiais à Caxias do Sul.

Entre 1905 e 1970, a fábrica empregou cerca de 11.300 trabalhadores, sendo a maioria constituída por homens, mas com parcela significativa de mulheres e de aprendizes. A maior parte dos operários era oriunda de Caxias do Sul ou de municípios vizinhos. A primeira ficha que identifica uma pessoa negra na fábrica é datada de 1943, embora se perceba a presença de negros nas seções de trabalho em fotografias desde o início da década de 1920. 

Em suas publicações, a administração da fábrica orgulhava-se de não registrar greves com ampla adesão dos empregados. Apenas em 1963 ocorreu a primeira e maior greve na fábrica, que teve a participação de 95% dos operários, segundo o depoimento de um líder sindical do período, Bruno Segalla. Contra a adesão aos movimentos grevistas, a administração da fábrica atuava combinando atitudes paternalistas com medidas de assistência social. Repressão no interior da fábrica também era uma característica, notando-se por exemplo, em fotografias, os quadros de multas afixados nas seções de trabalho.

A Metalúrgica Abramo Eberle foi vendida para outros grupos empresariais em meados da década de 1980. Naquele período, a fábrica era constituída por nove unidades fabris, distribuídas em três grandes fábricas. Atualmente, duas fábricas da antiga Eberle encontram-se desativadas do seu uso industrial original, e foram tombadas como patrimônio histórico de Caxias do Sul. O conjunto dos prédios mais antigos da fábrica pertencem a um grupo privado de investidores, e têm hoje ocupação diversa, para escritórios, lojas comerciais e estacionamento para veículos. A segunda unidade, pertencente ao município, após diversos movimentos e lutas da sociedade civil, encontra-se em processo de definição de uso cultural e relacionado à memória do esforço e dedicação de milhares de trabalhadores que se constituíram como operários metalúrgicos.

“Na hora de começar o trabalho”, registra a legenda desta fotografia, datada de 1922. A edificação ao fundo foi a primeira a ser erguida em alvenaria, forma construtiva que substituiu aos poucos as primitivas oficinas que funcionavam em construções de madeira vistas no primeiro plano.
Acervo: Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami.


Para saber mais:

  • BERGAMASCHI, Heloísa Délia Eberle. Abramo e seus filhos: cartas familiares – 1920/1945. Caxias do Sul: Educs, 2005.
  • LAZZAROTTO, Valentim Angelo. Pobres construtores de riqueza: absorção da mão-de-obra e expansão industrial na Metalúrgica Abramo Eberle: 1905-1970. Caxias do Sul, RS: Educs, 1981.
  • TESSARI, Anthony Beux. Imagens do labor: memória e esquecimento nas fotografias do trabalho da antiga Metalúrgica Abramo Eberle. Dissertação de Mestrado em História. PUCRS, 2013.
  • TESSARI, Anthony Beux (et alli). Projeto Educa Maesa: história e educação patrimonial no complexo industrial da antiga Metalúrgica Abramo Eberle S.A. 2020. Disponível em: https://sites.google.com/view/educamaesa. Acesso em: 15 jan. 2022.
  • TISOTT, Ramon Victor. Pequenos trabalhadores: infância e industrialização em Caxias do Sul (fim do Séc. XIX e início do Séc. XX). Dissertação de Mestrado em História. Unisinos, 2008.

Crédito da imagem de capa:  “Os operários da fábrica”, diz a legenda escrita pela fábrica para esta fotografia datada de 1907, em que aparecem 60 trabalhadores, incluindo o patrão Abramo Eberle e seu sócio-irmão Pedro Eberle. Acervo: Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami.


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As marcas das experiências dos trabalhadores e trabalhadoras brasileiros estão espalhadas por inúmeros lugares da cidade e do campo. Muitos desses locais não mais existem, outros estão esquecidos, pouquíssimos são celebrados. Na batalha de memórias, os mundos do trabalho e seus lugares também são negligenciados. Nossa série Lugares de Memória dos Trabalhadores procura justamente dar visibilidade para essa “geografia social do trabalho” procurando estimular uma reflexão sobre os espaços onde vivemos e como sua história e memória são tratadas. Semanalmente, um pequeno artigo com imagens, escrito por um(a) especialista, fará uma “biografia” de espaços relevantes da história dos trabalhadores de todo o Brasil. Nossa perspectiva é ampla. São lugares de atuação política e social, de lazer, de protestos, de repressão, de rituais e de criação de sociabilidades. Estátuas, praças, ruas, cemitérios, locais de trabalho, agências estatais, sedes de organizações, entre muitos outros. Todos eles, espaços que rotineiramente ou em alguns poucos episódios marcaram a história dos trabalhadores no Brasil, em alguma região ou mesmo em uma pequena comunidade.

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