Laboratório de Estudos de História dos Mundos do Trabalho

Lugares de Memória dos Trabalhadores #58: Rio Capibaribe, Recife (PE) – Felipe Azevedo e Souza



Felipe Azevedo e Souza
Pesquisador CAPES/PNPD no PPGH da Universidade Federal da Bahia



Por muito tempo os caminhos do Recife foram essencialmente os cursos dos rios que lhe cortam, principalmente o Capibaribe. Tudo se transportava em canoas: açúcar, tijolos, água potável e as pessoas que ali viviam. Até metade do século XIX, esse era um mercado de trabalho dominado pelos escravos canoeiros, posteriormente integrado também por libertos e livres, geralmente negros. Documentos registram a queixa de senhores que acusavam esses trabalhadores de colaborar para a fuga de escravizados. Mas, foi só entre 1884 e 1888, que esse expediente se tornou sistêmico. Nesse período, cerca de três mil homens e mulheres escaparam do cativeiro com a ajuda dos trabalhadores fluviais.

Em 25 de março de 1884 foi abolida a escravidão no Ceará. Cerca de 600 quilômetros ao sul, em Pernambuco, esse marco representou oportunidade para os abolicionistas. Eles fundaram no Recife o Clube do Cupim. Miravam-se no exemplo dos abolicionistas norte-americanos que criaram uma complexa rota de fugas clandestinas para franquear a passagem dos escravizados para terras onde não existia mais a escravidão legal. O Rio Capibaribe transformado em underground railroad, levava canoas e jangadas ao mar. Pelas águas salgadas tinham por destino frequente Fortaleza, Aracati e Mossoró, perto da fronteira com o Ceará.

O Clube do Cupim era uma associação secreta, ilegal, subterrânea. Não possuía estatutos, tinha um mote apenas: “a libertação do escravo por todos os meios”. Os cupins eram volantes, tinham pseudônimos, uma linguagem codificada própria, possuíam perfil social diverso e estavam infiltrados em várias repartições públicas. A silenciosa rede de espionagem e comunicação do Clube estava sempre dois passos à frente dos agentes de repressão. O telegrafista Júlio Falcão, por exemplo, era um cupim na linha do telégrafo, repassando informações trocadas entre os agentes das forças públicas. Como ele, outros estavam infiltrados nos quartéis antecipando os planos de batidas policiais. Nas muitas ações do grupo, poucos foram os casos de interceptação da polícia. Quando a força pública conseguia capturar os fugidos, membros do Cupim bem relacionados impetravam habeas corpus e geralmente conseguiam libertar os presos.

O Clube chegou a ter uma rede que envolvia cerca de trezentas pessoas entre membros e colaboradores eventuais. Sua diretoria era formada predominantemente por homens brancos e com influência social. Abrigavam os escravizados em suas propriedades, bancavam operações, mobilizavam conexões e eventualmente eles próprios se envolviam nos embarques dos fugidos. Cada membro desse círculo filiava seus auxiliares, chamados de capitães.


Esses homens, geralmente negros e alguns deles libertos, eram canoeiros, cocheiros, catraieiros, trabalhadores pobres da cidade. Eles eram propriamente os executores dos planos de fuga, os agentes de conexão entre o Clube e os trabalhadores escravizados.


As primeiras operações não envolveram mais que meia dúzia de escravizados. Mas, tempos depois, passaram a esvaziar senzalas inteiras. O capitão Lino Falcão visitava engenhos na Zona da Mata sob o disfarce de vendedor de fumo, pernoitava nas propriedades e, quando a casa-grande dormia, coordenava fugas coletivas. A polícia montava postos secretos de observação em vários pontos do Capibaribe, mas era inútil. Às centenas, homens, mulheres e crianças deixavam para trás o cativeiro. Camuflados embaixo de cobertas de capim, nas jangadas e canoas, pela rota fluvial placidamente passavam na frente da chefatura de polícia. Assim sucedeu, em 23 de abril de 1888 com o último embarque, quando 119 pessoas seguiram pelo rio, do Poço da Panela até os arrecifes, de onde tomaram um iate fretado pelo Clube.

Os membros do Cupim eram chamados de aliciadores ou ladrões de escravos, mas os trabalhadores escravizados estavam longe de ser passivamente seduzidos. Eles eram agentes de sua própria ventura. O embarque nas jangadas era início de jornada e ao mesmo tempo desfecho. Antes de chegar ao Capibaribe, o deslocamento a passos mudos nas ruas da cidade. Antes ainda, dias acoitados nas chamadas “panelas”. Antes disso, o planejamento, a negociação sussurrada entre os cativos e os cupins, a conspiração noturna das senzalas. Existem registros de que os escravizados custeavam parcialmente as despesas das fugas e há todo um anedotário sobre os diferentes expedientes utilizados pelos escravizados para desaparecer. Alguns sumiram na agitação dos dias de carnaval, uma outra embebedou seu senhor. Os disfarces também eram comuns – Miquelina, mucama de um casarão na Madalena, saiu de sinhá, com vestido à francesa, chapéu, sapatos lustrados e pó de arroz, caminhando à luz do dia pelas ruas de Recife até o porto.

A jangada tornou-se símbolo de resistência e liberdade. O Jornal do Recife de 13 de maio de 1890 publicava que nas celebrações daquele dia, “marcharão os cidadãos emancipados pela áurea lei, guarnecendo a legendária jangada do Clube do Cupim”. Na mesma data nos anos seguintes, a miniatura da jangada em madeira continuou a ser desfilada pelas ruas da cidade.

Atualmente, pertinho do curso do rio, existem duas estátuas de bronze, uma no bairro de Santo Antônio e outra no Poço da Panela, celebram famosos abolicionistas nascidos em casas-grandes. Mas, nas margens do Capibaribe, também resistem inabaláveis baobás centenários, são monumentos da diáspora africana. Árvores sagradas que representam a morada da ancestralidade e simbolizam o Rio Capibaribe como um lugar de memória dos trabalhadores e trabalhadoras escravizados e suas lutas por liberdade.

Os capitães do Cupim posam com a miniatura da jangada que era usada nas celebrações da Abolição.
Jornal Pequeno, 12 de maio de 1914 (a foto foi tirada anos antes).


Para saber mais:


Crédito da imagem de capa: Rio Capibaribe na década de 1860.Crédito: Villela, João Ferreira, circa 1865. Acervo Instituto Moreira Sales.


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