Lugares de Memória dos Trabalhadores #64: Casa de Caboclo, Praça Tiradentes, Rio de Janeiro (RJ) – Flavia Veras



Flavia Veras
Doutora em  História pela FGV e pesquisadora do LEHMT-UFRJ



A Casa de Caboclo foi o nome dado ao espaço montado nos escombros preservados do famoso Teatro São José após um incêndio devastador em 1931. As ruínas em nada lembravam o pomposo teatro que era parte do complexo de diversões da vibrante Praça Tiradentes, a principal região teatral do Rio de Janeiro naquele período. A Casa de Caboclo foi montada com liderança da dupla Jararaca e Ratinho. Eles haviam vencido um concurso realizado pelo proprietário do Teatro São José, Pascoal Segreto, principal empresário do ramo das diversões no Rio de Janeiro naquele período. O processo seletivo foi dirigido por Duque, funcionário de Segreto e conhecido dançarino e produtor.

Rapidamente, a Casa do Caboclo adquiriu fama atraindo um público, em grande parte composto de trabalhadores e trabalhadoras. Foi uma experiência singular de divertimento popular que colocava em destaque o papel das classes subalternas na construção da identidade nacional, num momento de grandes transformações políticas, econômicas e culturais.

 O surgimento do teatrinho foi anunciado, à princípio, como mais um dos muitos cineteatros improvisados que  exibiam números humorísticos e dançantes e compunham o cenário da Praça Tiradentes. As condições de trabalho eram precárias. A circulação do ar era ruim, não havia um guarda-roupas elegante à disposição do elenco, nem camarins adequados para a preparação das personagens. Além disso, frequentemente, o repasse dos ganhos e o pagamento dos cachês eram fraudados pelos produtores.

Apesar dos problemas, a Casa do Caboclo construiu uma identidade estética própria.  As  improvisadas condições físicas do estabelecimento colaboravam para que os preços dos ingressos fossem acessíveis. Assim, tornou-se extremamente popular. Os espetáculos apresentados remetiam às condições de vida dos trabalhadores rurais, personificados como sertanejos e caipiras, com grande uso de elementos folclóricos e regionais. Naquele espaço, por exemplo, Lampião era caracterizado como uma figura popular e até revolucionária. Além disso, outros elementos do imaginário do sertão eram ressignificados e valorizados.

Os improvisos eram comuns e apreciados, o que favorecia que as apresentações fossem assistidas diversas vezes pelas mesmas pessoas. Além da falta de ensaios e dos erros técnicos, os improvisos eram também resultado da ação do público que intervinha nas apresentações aplaudindo, vaiando ou até atirando objetos ao palco. Os/As artistas respondiam as interferências do público de forma criativa e, às vezes, bastante inusitada, como na conhecida cena que Dercy Gonçalves é lembrada por cuspir na plateia.

Antes dos espetáculos as/os artistas tocavam músicas e dançavam na porta do teatro; também davam voltas na Praça Tiradentes para atrair o público. Essa prática estava ligada à longa tradição circense da qual compartilhavam vários componentes da companhia. A vinculação com o circo é coerente com o projeto nacional-popular da Casa de Caboclo, que era também chamada de “a casa do povo”. Essa ideia surgiu da dupla Jararaca e Ratinho, artistas que reproduziram em seus personagens os traços do imaginário sertanejo. Trabalharam também nesse teatro improvisado artistas que se tornaram muito conhecidos como Dercy Gonçalves, Pixinguinha, Pérola Negra, Dalva de Oliveira, Alvarenga e Ranchinho,  entre outros.


Os artistas do mundo do teatro popular participaram ativamente dos debates sobre a identidade nacional, intensificados no início dos anos 1930. Reivindicações e conflitos trabalhistas que chegaram a resultar em greves  nas décadas anteriores também forjaram em muitos profissionais teatrais uma forte identidade de classe e de valorização do trabalho. Não por acaso, naqueles anos constituíram-se entidades representativas como a Casa dos Artistas e sindicatos.


A peça “Quequé qué casá” inaugurou a Casa do Caboclo em 7 de outubro de 1932.  Os espetáculos, geralmente com quadros dançantes e musicados, frequentemente tinham títulos que remetiam à oralidade popular com peças como “Rei Momo na roça” (1933), “Sodade de caboclo” (1934), “Portera veinha” (1934), entre outras. O cotidiano da população envolvendo trabalhadores rurais e migrantes, o mundo do carnaval, bem como as sátiras aos políticos eram os temas mais frequentes das revistas apresentadas.. Na Casa de Caboclo também foram encenadas quatro peças de autoria de De Chocolat, que nos anos 1920 liderou a talentosa Companhia Negra de Revista. Composta apenas de artistas negros, a Companhia encenava comédias que confrontavam o racismo e discutiam o problema da inclusão social e econômica das pessoas negras.

A Casa do Caboclo encerrou suas atividades nos escombros do Teatro São José em novembro de 1935. Desentendimentos entre o produtor Duque e a dupla Jararaca e Ratinho selaram o final daquela experiência. Apesar de pouco lembrada, ela foi fundamental para revelar artistas que conquistaram muita popularidade, além de participar ativamente no debate público sobre a brasilidade no período que esteve em atividade. Suas produções valorizavam os sujeitos subalternos, atribuindo novos valores e significados às experiências dos trabalhadores. As temáticas das peças, a audiência popular e a presença de artistas e profissionais de teatro que se reconheciam como trabalhadores/as num contexto de profundas mudanças no universo cultural e político brasileiros fazem da extinta Casa do Caboclo,  apesar de sua curta existência, um importante espaço de memória dos mundos do trabalho do Rio de Janeiro e do Brasil.

Praça Tiradentes em 1928, centro da vida teatral carioca.
Fotografia de Augusto Malta.
Acervo do Instituto Moreira Sales.


Para saber mais:

  • AMARAL, Maria Adelaide. Dercy de Cabo a Rabo. Rio de Janeiro: Editora Globo, 1994.
  • BARROS, Orlando de. Corações de Chocolat. A história da Companhia Negra de Revistas (1926-27). Rio de Janeiro: Livre Expressão, 2005.
  • RODRIGUES, Sonia Maria Braucks. Jararaca e Ratinho: a famosa dupla caipira. Rio de Janeiro: FUNARTE, 1983.
  • VERAS, Flavia. Tablado e Palanque – A formação da categoria profissional dos artistas no Rio de Janeiro (1918 – 1945). Saarbrücken: Novas Edições acadêmicas, 2014.
  • VERAS, Flavia. “Fábricas da Alegria”: o mercado de diversões e a organização do trabalho artístico no Rio de Janeiro e Buenos Aires (1918 – 1945). Tese (Doutorado em História, Política e Bens Culturais) – FGV – Fundação Getúlio Vargas, Rio de Janeiro, 2017.

Crédito da imagem de capa: Quadro de revista de apresentado na Casa do Caboclo no início dos anos 1930. Da esquerda para direita: Antonieta Matos (a terceira), Pérola Negra, Ratinho, Jararaca e Matinhos. Em pé: atrás de Pérola Negra, Evilásio Marçal. As duas primeiras não foram identificadas. Referência: RODRIGUES, Sonia Maria Braucks. Jararaca e Ratinho: a famosa dupla caipira. Rio de Janeiro: FUNARTE, 1983. p. 54.


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As marcas das experiências dos trabalhadores e trabalhadoras brasileiros estão espalhadas por inúmeros lugares da cidade e do campo. Muitos desses locais não mais existem, outros estão esquecidos, pouquíssimos são celebrados. Na batalha de memórias, os mundos do trabalho e seus lugares também são negligenciados. Nossa série Lugares de Memória dos Trabalhadores procura justamente dar visibilidade para essa “geografia social do trabalho” procurando estimular uma reflexão sobre os espaços onde vivemos e como sua história e memória são tratadas. Semanalmente, um pequeno artigo com imagens, escrito por um(a) especialista, fará uma “biografia” de espaços relevantes da história dos trabalhadores de todo o Brasil. Nossa perspectiva é ampla. São lugares de atuação política e social, de lazer, de protestos, de repressão, de rituais e de criação de sociabilidades. Estátuas, praças, ruas, cemitérios, locais de trabalho, agências estatais, sedes de organizações, entre muitos outros. Todos eles, espaços que rotineiramente ou em alguns poucos episódios marcaram a história dos trabalhadores no Brasil, em alguma região ou mesmo em uma pequena comunidade.

A seção Lugares de Memória dos Trabalhadores é coordenada por Paulo Fontes.

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