LMT #77: Rua do Ouvidor, Rio de Janeiro (RJ) – Renata Figueiredo Moraes



Renata Figueiredo Moraes
Professora do Departamento de História da UERJ e pesquisadora do LEHMT/UFRJ


A rua que leva o nome de um ofício, “do ouvidor”, surgiu pequena e cresceu a medida em que a cidade colonial se expandia. Passou assim a ser chamada por volta de 1780 com a chegada do Ouvidor português que ali se instalou. No Império, a longa via ficou próxima ao centro político dos arredores do Largo do Paço, ligando também os alunos da Escola Politécnica (atual UFRJ-IFCS, onde termina a rua) aos mais variados tipos de pessoas que nela circulava: os que vendiam e compravam peixe na Rua do Mercado (início da rua), os frequentadores do comércio, os que iam às portas das redações para ver os jornais e os trabalhadores das tipografias, muitas com sede na Ouvidor. Com prédios que dispunham de uma sacada, tipicamente colonial, cronistas e jornalistas observavam sua movimentação e de seus trabalhadores. Entre eles estavam também inúmeros escravizados que ocupavam as calçadas para vender mercadorias ou esperar para carregar algum objeto, atividades típicas dos escravos ganhadores, e muitas mulheres que vendiam seus produtos em tabuleiros, alguns levados à cabeça. A rua do Ouvidor, no centro do Rio de Janeiro, é carregada de memórias dos mundos do trabalho.

A Ouvidor foi tema de diversos cronistas da cidade. Joaquim Manoel de Macedo, Machado de Assis, Coelho Neto, Artur Azevedo, entre outros, a usaram como cenário privilegiado para retratar o cotidiano do Rio de Janeiro do século XIX e do início do XX. Para muitos deles, a Ouvidor era um espaço muito familiar já que a atravessavam frequentemente para exercerem suas atividades como trabalhadores nos diversos jornais cujas sedes ficavam nessa rua.

Durante boa parte do Império, a rua do Ouvidor foi o lugar de concentração de variados jornais existentes na Corte, reunindo grande número de editores, noticiaristas e tipógrafos, que, muitas vezes, também produziam seus próprios jornais. A Gazeta dos Operários, (1875), por exemplo, era publicada pela Tipografia Fluminense, com sede na Ouvidor. Essa rua também era o endereço do aristocrático Jornal do Comércio, próximo ao jornal de José do Patrocínio, Cidade do Rio, além de outros periódicos importantes do período, como a Gazeta de notícias, O Paiz, Diário de Notícias, dentre outros. Não por acaso, a rua também foi um espaço de mobilização dos tipógrafos, como no caso da famosa greve por eles realizada em 1858.  Mas, para além dos tipógrafos e cronistas que atuavam nos jornais, a Ouvidor era um importante lugar de trabalho para aqueles que atuavam no comércio, como os caixeiros e guarda-livros.

A Ouvidor era do trabalho e das festas. Os desfiles de carnaval no Império eram realizados na estreita rua e que tinha nos seus sobrados os camarotes para aqueles que não quisessem se misturar a alegria do povo. No início de maio de 1888, com a crescente expectativa pela aprovação da lei da abolição, a Ouvidor foi o epicentro das celebrações, que eram organizadas pela imprensa. Muitos dos que buscavam notícias nas redações dos jornais se juntaram aos festejos. No 13 de maio de 1888, muitos populares se reuniram nessa área a fim de esperar a chegada da Princesa ao Paço, a poucos metros daquela região, onde ocorreria a assinatura da lei que acabaria com a escravidão.


Naquele dia, a rua foi ocupada por uma multidão, que incluía os funcionários da Câmara Municipal que saudaram os jornais, assim como o fizeram os empregados da Estrada de Ferro, dos Correios e os da classe artística.


Da sede da Associação dos Empregados do Comércio, na Ouvidor, saiu um grupo que participou dos desfiles que ocorreram pelas ruas do centro da cidade no dia 20 de maio de 1888. Naqueles dias de maio, a região era o ponto de encontro para celebrar a abolição e pegar as poesias jogadas por literatos para os festeiros, sem pensar muito nos dias seguintes e o futuro do trabalho. 

Nessa rua ocorreram também os festejos não oficiais, celebrações feitas por homens e mulheres, muitos negros, que festejaram o fim da escravidão de forma própria. As notícias sobre essa festa são dadas pela Gazeta de Notícias, que criticou aquela movimentação por lhe parecer estranha, apesar de serem apenas homens e mulheres dançando um batuque em roda. Possivelmente os que celebravam daquele jeito eram trabalhadores que só tinham a noite para comemorar a abolição por não terem tido folga durante o dia, como os do comércio e tantos outros. Outros talvez não se identificassem com as bandas que tocavam nos bailes públicos nas ruas e pretendiam ter a liberdade de promoverem seus próprios festejos no mesmo local onde já se celebrava o carnaval.

Nos anos seguintes, a rua do Ouvidor continuaria a ser um importante local de passagem e de manifestações populares, como a que ocorreu por ocasião da proclamação da República. Desde então, a rua ganhou mais requintes aristocráticos, novas lojas, muitas internacionais, perdeu o carnaval e as redações dos jornais que migraram para a Avenida Central, inaugurada em 1904. Considerada um símbolo de refinamento e elegância da belle époque carioca, a Ouvidor foi perdendo seu glamour aristocrático ao longo do século XX. Mas nunca deixou de ser um espaço fundamental de trabalho no centro do Rio. Nos últimos anos, a rua havia voltado a ser um local das festas, com sambas frequentes e bailes que reuniam trabalhadores em happy hour. A pandemia do Coronavírus trouxe um esvaziamento à região. Mas, a Ouvidor continuará sendo a rua das festas e dos trabalhadores, que voltarão a ocupá-la, para uma manifestação política, um samba, ou uma cerveja após a cansativa jornada. 

Redação do jornal O Paiz (Rua do Ouvidor – 1888)
Créditos:  “Abolição no Brasil”, Antonio Luiz Ferreira, Lago, Pedro e Lago, Bia Corrêa. Coleção Princesa Isabel. Fotografia do século XIX. Rio de Janeiro: Capivara Editora Ltda; 2008, p. 303

Para saber mais:

  • BRASIL, Eric. A corte em festa. Experiências negras em carnavais do Rio de Janeiro (1879-1888). Curitiba: Editora Prisma, 2016
  • MORAES, Renata Figueiredo. “Festas e resistência negra no Rio de Janeiro: batuques escravos e as comemorações pela abolição em maio de 1888”. Revista do Arquivo Geral da cidade do Rio de Janeiro, n. 15, 2018,.
  • PEREIRA, Leonardo Affonso de Miranda. O Carnaval das letras. Literatura e folia no Rio de Janeiro do século XIX. 2ª ed. rev. Campinas: Editora da Unicamp, 2004.

Crédito da imagem de capa:  “Abolição no Brasil”, Antonio Luiz Ferreira, Lago, Pedro e Lago, Bia Corrêa. Coleção Princesa Isabel. Fotografia do século XIX. Rio de Janeiro: Capivara Editora Ltda; 2008, p. 301



Lugares de Memória dos Trabalhadores

As marcas das experiências dos trabalhadores e trabalhadoras brasileiros estão espalhadas por inúmeros lugares da cidade e do campo. Muitos desses locais não mais existem, outros estão esquecidos, pouquíssimos são celebrados. Na batalha de memórias, os mundos do trabalho e seus lugares também são negligenciados. Nossa série Lugares de Memória dos Trabalhadores procura justamente dar visibilidade para essa “geografia social do trabalho” procurando estimular uma reflexão sobre os espaços onde vivemos e como sua história e memória são tratadas. Semanalmente, um pequeno artigo com imagens, escrito por um(a) especialista, fará uma “biografia” de espaços relevantes da história dos trabalhadores de todo o Brasil. Nossa perspectiva é ampla. São lugares de atuação política e social, de lazer, de protestos, de repressão, de rituais e de criação de sociabilidades. Estátuas, praças, ruas, cemitérios, locais de trabalho, agências estatais, sedes de organizações, entre muitos outros. Todos eles, espaços que rotineiramente ou em alguns poucos episódios marcaram a história dos trabalhadores no Brasil, em alguma região ou mesmo em uma pequena comunidade.

A seção Lugares de Memória dos Trabalhadores é coordenada por Paulo Fontes.


Paulo Fontes

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