Chão de Escola #23: Keilla Vila Flor (UnB) fala sobre os debates de gênero, raça, classe e suas reflexões para professores da Educação Básica

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Professora Keilla Vila, é um prazer te receber no CHÃO DE ESCOLA. Gostaria que contasse de sua trajetória como professora. Em quais os lugares em que se formou e lecionou?

É um prazer ter recebido o convite para essa entrevista incrível também. Bom, eu comecei a dar aula com dezoito anos, em 2014. Eu terminei o ensino médio em 2013 e passei na UNB logo em seguida. O mais curioso disso, é que assim que eu passei, por volta de meados de janeiro, uma veterana no curso publicou no grupo da História-UnB, no Facebook, o anúncio de recrutamento de novos integrantes do Projeto Noctua, um projeto de extensão que atuava em escolas públicas dando aulas de história a partir de obras literárias. Eu, então, enviei uma mensagem para ela, perguntando se eu, recém aprovada, poderia compor o projeto. Como a resposta foi positiva, na semana seguinte eu já estava participando das reuniões do projeto e ainda faltava mais de um mês para o semestre da UnB começar. Como as aulas das escolas públicas do DF costumam começar antes do semestre da UnB, em 2014 eu entrei em sala de aula primeiro como professora e depois como aluna. Depois disso, no semestre seguinte, comecei a trabalhar como monitora de cursinhos pré-vestibulares até ser promovida à professora antes mesmo de me formar, já que não é necessário diploma para dar aula em cursinhos. Enquanto estava na graduação, fiz parte de outros projetos de extensão e docência voltados para a promoção de debates sobre raça, gênero e sexualidade nos quais trabalhei com turmas desde o fundamental II até o EJA. Só depois de formada consegui emprego em uma escola particular, na qual trabalhava com o ensino fundamental II.

Como surgiu o projeto “Tem Cor no Ensino”?

O Tem Cor surgiu de uma inquietação em comum que existia em mim, Verônica Gomes e Vinícius Machado. Ambos são professores e, assim como eu, trabalham com a promoção dos debates de gênero, raça, classe e sexualidade voluntariamente e presencialmente em várias escolas do DF, a partir do convite das coordenações dessas escolas. Durante o Novembro, por ser o mês da Consciência Negra, surgiam bastante convites, mas com a pandemia nós já sabíamos que isso não iria acontecer e, consequentemente, os debates que nós levávamos até as escolas também não. Então nós passamos a pensar em como seguir promovendo esses debates sem expor ninguém ao risco de um vírus mortal, que é a Covid-19. Assim surgiu, então, o Tem Cor No Ensino, que é 100% digital e conta com materiais didáticos em PDF (cartilhas e histórias em quadrinhos) e vídeos.

Vocês já realizaram mais de uma História em Quadrinhos para pensar o ensino de História. Qual é a diferença de pensar ensino a partir da produção de História em Quadrinhos? O que elas possibilitam de diferente no espaço das salas de aula?

Formular uma história em quadrinhos é, pra mim, tornar físico, tangível – mesmo que em meio digital – o que eu imagino ou como eu imagino a história a partir das minhas pesquisas e do que eu leio das pesquisas de outros profissionais das ciências humanas. Então eu acredito que o que tem de diferente em uma HQ é justamente isso: ela permite o compartilhamento da minha imaginação, da imaginação do Vinícius, da Verônica, da Laís, do Lucas, da Carol (os outros componentes do projeto) e permite que essa imaginação interaja com a dos alunos, por meio das propostas de trabalho que exigem produções deles a partir da leitura do material.

Qual a importância da história social dos de baixo para o debate da Lei 10.639/03 e 11.625/08, tema central para o debate que realizam?

Trazer para o centro dos debates esses indivíduos que foram marginalizados das ditas narrativas oficiais da História é de suma importância, porque as mãos que sustentam o Brasil são majoritariamente mãos negras e indígenas. É preciso que a História que é ensinada nas escolas faça sentido para os estudantes, que essa História esteja conectada, de alguma maneira, com suas vidas e que sobretudo eles consigam encontrar nessas narrativas histórias que não sejam apenas de sofrimento e dor. Por isso que as leis 10.639/03 e 11.625/08 são fundamentais, porque elas não apenas respaldam os docentes que sempre fizeram esse trabalho de conscientização e de resgate histórico, mas também obriga àqueles que perpetuam narrativas histórias que são muito caras e violentas aos povos negros e indígenas realizarem novas leituras e pesquisas sobre os temas. Do que eu leio bastante nas redes sociais, ou ouço em conversas informais com colegas e amigos, ou até mesmo com base em algumas das minhas experiências, a escola costuma ser um ambiente marcado por violências de várias formas e a racial é uma delas. Essas violências marcam a vida das pessoas para sempre e uma muito sutil é estudar uma História em que os poucos indivíduos que aparecem nela que possuem a mesma cor que eu – ou mais escuros -, o mesmo cabelo que o meu, os mesmos traços que os meus, só aparecem em posição de subalternização, de sofrimento, de humilhação. Qual perspectiva de futuro nós, professores de História, estamos apresentando para os nossos estudantes se nós perpetuamos uma narrativa que explicitamente nos mostra que para ser tratado como um herói, para “vencer”, para ter direito a nome, trajetória com detalhes e honrarias, você precisa nascer homem, branco e cisgênero? E essa pergunta não trata unicamente de fomentar a autoestima de estudantes não-brancos, o que é fundamental, mas também de questionar essa perspectiva muito tradicional da “história dos grandes homens/do vencedores” que deliberadamente faz com que os estudantes brancos se sintam autorizados a exercer essa posição de domínio sobre aqueles que não são brancos.

Nas redes sociais, percebemos que existe uma preocupação em falar dos escravizados, dos povos originários e das identidades de gênero e sexualidade no Ensino de História. Trata-se de um debate intersecional. Como a discussão da formação de classes sociais impactam a discussão desses temas?

Como professora, eu pratico bastante a escuta atenta e crítica – em algumas aulas, inclusive, os debates são tão acalorados que passo longos minutos calada enquanto eles convergem e/ou divergem nas opiniões que são levantadas sobre os temas supracitados (opressões raciais, de gênero, sexualidade, classe, etc). Frequentemente algumas frases ditas por eles me fazem ficar dias refletindo e em seguida começo a pensar que outras pessoas no Brasil também tem realidades tão confortáveis quanto a da maioria dos meus alunos e é preciso acessar essas pessoas e mostrar para elas que meritocracia é uma enorme falácia. Que é muito fácil dizer que “quem quer, se esforça e consegue”, quando sua geladeira está cheia de comida, quando você volta da escola, seu almoço está pronto e a palavra escassez só existe pra você nos módulos de ecologia, quando se fala de recursos não-renováveis. Nessas condições, de fato: a única preocupação que essa pessoa tem – pensando unicamente em questões de classe e sem entrar no mérito de questões psicológicas e/ou psiquiátricas – é estudar. Logo, não existe forma de, sendo habitante e natural de um país que passou por século de espólio colonial, não se falar das consequências dele. Em contrapartida, existem diversos estudantes no Brasil que passaram pelas situações mais adversas possíveis para conseguir acompanhar as aulas e o andamento do conteúdo durante a pandemia – e esses foram também incluídos na lógica meritocrática de “quem quer, sobe numa árvore e arruma sinal para assistir às aulas”, o que é de uma enorme canalhice. Foi em meio a esse cenário caótico que nasceu a ideia do Tem Cor pra mim, Verônica Gomes e Vinícius Machado: a ideia de que nós precisávamos criar materiais que fossem de acesso gratuito, que fossem atrativos, didáticos e que ao mesmo tempo fossem uma ponte entre a produção acadêmica e a sala de aula, porque professores de escolas públicas de todo o Brasil trabalharam infinitamente mais com ameaça de redução de salário – alguns, com redução real – e ainda sendo cobrados para produzir muito mais e nós, professores, precisamos nos ajudar.
Vários pensadores como Abdias do Nascimento, Lélia Gonzales, Sueli Carneiro – entre outros – já estão falando há décadas que não existe, no Brasil, análise de classe que não fale necessariamente de raça e vice-versa. Então, quando os demais idealizadores do Tem Cor No Ensino se reúnem, a questão de classe é fator preponderante para a análise da realidade que todos nós vivemos, mas alguns ainda não acessaram, outros preferem fingir que ela não existe e a maioria está sendo esmagada por ela.


Keilla Vila Flor Santos, 26, bacharel e licenciada em História pela Universidade de Brasília; mestranda em História Social pela UnB; professora da educação básica, trabalha com redes sociais e co-idealizadora do Tem Cor No Ensino.


Crédito da imagem de capa: Logo do projeto Tem Cor No Ensino.


Chão de Escola

Nos últimos anos, novos estudos acadêmicos têm ampliado significativamente o escopo e interesses da História Social do Trabalho. De um lado, temas clássicos desse campo de estudos como sindicatos, greves e a relação dos trabalhadores com a política e o Estado ganharam novos olhares e perspectivas. De outro, os novos estudos alargaram as temáticas, a cronologia e a geografia da história do trabalho, incorporando questões de gênero, raça, trabalho não remunerado, trabalhadores e trabalhadoras de diferentes categorias e até mesmo desempregados no centro da análise e discussão sobre a trajetória dos mundos do trabalho no Brasil.
Esses avanços de pesquisa, no entanto, raramente têm sido incorporados aos livros didáticos e à rotina das professoras e professores em sala de aula. A proposta da seção Chão de Escola é justamente aproximar as pesquisas acadêmicas do campo da história social do trabalho com as práticas e discussões do ensino de História. A cada nova edição, publicaremos uma proposta de atividade didática tendo como eixo norteador algum tema relacionado às novas pesquisas da História Social do Trabalho para ser desenvolvida com estudantes da educação básica. Junto a cada atividade, indicaremos textos, vídeos, imagens e links que aprofundem o tema e auxiliem ao docente a programar a sua aula. Além disso, a seção trará divulgação de artigos, entrevistas, teses e outros materiais que dialoguem com o ensino de história e mundos do trabalho.

A seção Chão de Escola é coordenada por Claudiane Torres da Silva, Luciana Pucu Wollmann do Amaral e Samuel Oliveira

LEHMT

One thought on “Chão de Escola #23: Keilla Vila Flor (UnB) fala sobre os debates de gênero, raça, classe e suas reflexões para professores da Educação Básica

  1. A nossa sociedade ainda precisa entender sobre consciência de classe e empatia, para entender que somos iguais. Parabéns pelo belo trabalho.

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