Márcio Romerito da Silva Arcoverde (CODAI-UFRPE/ PUC-Rio)
Apresentação da atividade
Segmento: Segundo ano e Terceiro ano do Ensino Médio
Unidade temática: Espaços dos trabalhadores na sociedade brasileira e suas memórias.
Objetivos gerais:
– Apresentar e discutir a partir da trajetória de José Sales de Lima as experiências dos trabalhadores na luta por direitos e melhoria de vida no regime republicano de 1945-1964;
– Entender como a classe trabalhadora brasileira estava mobilizada em um sentido nacional, assim como a importância do PCB para arregimentar e ligar contextos diversos entre os trabalhadores;
– Analisar como os trabalhadores, a partir de suas vivências, mantinham articulações políticas nos níveis estadual e federal, mesmo estando distantes dos principais centros urbanos.
Habilidades a serem desenvolvidas (de acordo com a BNCC).
EM13CHS601: Identificar e analisar as demandas e os protagonismos políticos, sociais e culturais dos povos indígenas e das populações afrodescendentes (incluindo as quilombolas) no Brasil contemporâneo considerando a história das Américas e o contexto de exclusão e inclusão precária desses grupos na ordem social e econômica atual, promovendo ações para a redução das desigualdades étnico-raciais no país.
EM13CHS401: Identificar e analisar as relações entre sujeitos, grupos, classes sociais e sociedades com culturas distintas diante das transformações técnicas, tecnológicas e informacionais e das novas formas de trabalho ao longo do tempo, em diferentes espaços (urbanos e rurais) e contextos.
Atividade
José Sales de Lima
Nascido em 1921, na cidade pernambucana de Moreno, José Sales de Lima era filho de trabalhadores rurais da região canavieira. Sua trajetória fabril iniciou-se precocemente: aos 13 anos ele ingressou como operário na Societé Cotonniére Belge-Brésilienne S.A., indústria têxtil de capital belga que operava nos arredores de Recife, na Zona da Mata de Pernambuco, desde o ano de 1910. Muito do que se sabe dele está vinculado com sua ligação ao movimento sindical e ao Partido Comunista, sobretudo quando em 1947 o PCB foi considerado ilegal e ele se tornou alvo frequente de investigações pela polícia política, a Delegacia de Ordem Política e social (DOPS). O que gerou uma farta documentação sobre a sua vida e suas intensas conexões políticas.
Sua trajetória ganhou especial relevo nas décadas de 1950 e 1960, período em que se consolidou como uma liderança atuante na cidade, na fábrica onde trabalhava e no cenário estadual. Sua trajetória está vinculada a um período de ascensão de trabalhadores rurais e urbanos como protagonistas que vislumbraram a possibilidade de uma significativa reestruturação política, agrária e social no Brasil no período republicano entre a ditadura do Estado Novo e o golpe militar de 1964. José Sales, operário de chão de fábrica, foi um sujeito atento aos movimentos sindicais e políticos do seu tempo. Manteve proximidade com trabalhadores e lideranças rurais de diversas cidades, inclusive no engenho Galiléia, da cidade vizinha de Vitória de Santo Antão, onde há relatos de trocas de experiência entre os operários têxteis de Moreno e camponeses daquele engenho que fizeram a primeira reforma agrária do Brasil no ano de 1959. A figura de Sales estava intrinsecamente ligada tanto ao Partido Comunista Brasileiro (PCB) quanto às lutas camponesas dos trabalhadores dos engenhos de açúcar. Evidenciando uma articulação crucial entre as demandas dos trabalhadores rurais e urbanos em Pernambuco. Essa conexão se manifestava tanto na atuação de trabalhadores de chão de fábrica no espaço político-institucional aberto pelo PCB quanto na defesa de uma ordenação política mais audaciosa, com destaque para a reforma agrária e redefinição política social pautada nos interesses da classe trabalhadora.
A curta legalização do PCB engajou os operários dos grandes centros urbanos do Brasil, mas também de localidades menores entre fábricas, trabalhos informais e trabalhadores do campo. Os operários da cidade de Moreno, conectados ao que se desenrolava na política nacional, participaram desse momento nas disputas eleitorais e articulações ideológicas. Junto com Camilo Santana, liderança das ligas camponesas da cidade de Moreno, Sales percorria os engenhos de açúcar da região fazendo reuniões, ouvindo os camponeses, traçando ações contra desmandos e violências patronais. Motivados pelo êxito da primeira reforma agrária ocorrida na vizinha Vitória de Santo Antão, eles trabalhavam com o intuito de desarticular a intensa concentração fundiária presente na Zona da Mata de Pernambuco. Houve ocasiões em que as próprias autoridades solicitaram a presença do operário têxtil nos engenhos, buscando sua mediação para resolver impasses e confrontos. José Sales representava a militância e experiência de quem conhecia e viveu o meio rural canavieiro, e que na sua posição de operário de uma fábrica longe da capital, era um agente desses dois mundos do trabalho.
José Sales personifica esse momento da história da classe trabalhadora com forte protagonismo nesse período marcado pelas experiências de operários, em sua maioria negros, no caso de Pernambuco, que se apropriaram das deliberações do partido a partir dos seus filtros culturais baseados em suas trajetórias e experiências sociais forjadas por gerações.
Foi agente dos periódicos da imprensa popular Folha do Povo e da Voz operária,interlocutor entre movimento sindical têxtil e as lutas camponesas em diversas cidades, esteve nas trincheiras dos principais movimentos grevistas nos anos 1950/60 na fábrica de tecidos de Moreno e era sujeito ativo na política pernambucana. Esteve nas disputas do sindicato têxtil, foi membro ativo do PCB, compôs a Federação dos Trabalhadores nas Indústrias de Fiação e Tecelagem do Norte Nordeste e participou de disputas a cargos eletivos para a prefeitura municipal de Moreno. Representou o operariado no pleito do ano de 1959 com candidatura à vice-prefeito pelo PST obtendo 402 votos contra os 2142 votos de Argemiro Nepomuceno da Silva do PTB e aliado do deputado federal e dono de engenho Ney Maranhão. Em 1959, Sales foi eleito presidente do sindicato têxtil de Moreno mostrando liderança política entre os operários. Esteve nas greves de 1959 e de 1963 quando os trabalhadores, liderados por ele no sindicato têxtil, pararam os trabalhos pelo reajuste do salário da primeira zona e pela diminuição dos aluguéis das casas operárias.
Nas eleições municipais de 1963 José Sales concorreu à disputa pela prefeitura numa corrida eleitoral apertada com Raul Alves de Melo. Este último obteve 2341 votos contra os 1936 votos de Sales. Durante aquela campanha, ele conseguiu mobilizar o suporte de importantes nomes da política, a exemplo de Miguel Arraes e Francisco Julião, que se deslocaram até Moreno para dividir o palanque com o operário.
Com a ascensão das forças conservadoras através do golpe civil militar de 1964, José Sales foi perseguido. O mandado de prisão para ele foi expedido nos primeiros dias do regime ditatorial. Embora Sales nunca tenha sido capturado pela ditadura, registros do Sistema Nacional de Informação (SNI) e relatos abundantes na cidade de Moreno comprovam que ele foi alvo de uma perseguição militar contínua. Apesar de seu paradeiro final permanecer um mistério, é certo que ele sobreviveu, tendo possivelmente passado o restante de seus dias na clandestinidade. Sendo mais uma vítima das violências impetradas pela ditadura civil militar que assolou o Brasil por 21 anos, onde pessoas como Sales eram consideradas inimigas por atuarem em busca de melhorias de vidas e redefinições das disparidades sociais.
A trajetória de José Sales de Lima permite-nos compreender, hoje, o papel central desempenhado pelos operários, muitos deles negros, na construção de direitos, demandas populares e na melhoria da sociedade brasileira entre 1945 e 1964. Ao analisar sua vida, percebemos como o engajamento de trabalhadores rurais e urbanos, mesmo fora dos grandes eixos metropolitanos, estava profundamente alinhado às questões nacionais. Essa atuação revela uma capacidade de organização e agência que precisa ser devidamente estudada, interpretada e tirada da invisibilidade, possibilitando que o Brasil reconheça as múltiplas camadas e a complexidade que definem a história da classe trabalhadora. Pensando na sala de aula da educação básica, entender, usar e problematizar essa trajetória cria uma proximidade dos alunos com as temáticas do currículo de história que muitas vezes só são protagonizadas por grandes personagens da elite econômica e política.
Bibliografia e Material de apoio:
ARCOVERDE, Márcio Romerito da Silva. Lutas operárias num espaço semirrural: Trabalho e conflitos sociais em Moreno-PE (1946-1964). 2014. 191 f. Dissertação (Mestrado em História Social da Cultura Regional) – Departamento de História, Universidade Federal Rural de Pernambuco, Recife, 2014.
PAGE, Joseph A..A revolução que nunca houve: o nordeste do Brasil 1955-1964. Rio de Janeiro: Ed. Record, 1972.
SOUZA, Edinaldo Antonio Oliveira. “Herdeiro das gloriosas tradições de luta dos homens e mulheres da sua raça”:trabalhadores, política, classe e raça na Bahia no pós-Segunda Guerra Mundial. Mundos do Trabalho, Florianópolis | v. 15 | p. 1-16 | 2023.
Sites:
1. A fotografia de capa foi retirada de seu prontuário individual no DOPS, no qual José Sales é descrito pelo órgão repressor como “pardo escuro”.
2. As informações sobre José Sales foram retiradas dos fundos do DOPS: Prontuário funcional município de Moreno Fundo SSP nº 26717. Acervo DOPS- PE. APEJE; Prontuário individual do José Sales de Lima ou José Sales Miranda (Jordão) Fundo SSP 12675. Acervo DOPS- PE. APEJE.
E também de recortes de jornais inseridos nesses prontuários. Este acervo também se encontra no site Memórias reveladas. https://pesquisa.memoriasreveladas.gov.br/mrex/consulta/login.asp
Chão de Escola
Nos últimos anos, novos estudos acadêmicos têm ampliado significativamente o escopo e interesses da História Social do Trabalho. De um lado, temas clássicos desse campo de estudos como sindicatos, greves e a relação dos trabalhadores com a política e o Estado ganharam novos olhares e perspectivas. De outro, os novos estudos alargaram as temáticas, a cronologia e a geografia da história do trabalho, incorporando questões de gênero, raça, trabalho não remunerado, trabalhadores e trabalhadoras de diferentes categorias e até mesmo desempregados no centro da análise e discussão sobre a trajetória dos mundos do trabalho no Brasil.
Esses avanços de pesquisa, no entanto, raramente têm sido incorporados aos livros didáticos e à rotina das professoras e professores em sala de aula. A proposta da seção Chão de Escola é justamente aproximar as pesquisas acadêmicas do campo da história social do trabalho com as práticas e discussões do ensino de História. A cada nova edição, publicaremos uma proposta de atividade didática tendo como eixo norteador algum tema relacionado às novas pesquisas da História Social do Trabalho para ser desenvolvida com estudantes da educação básica. Junto a cada atividade, indicaremos textos, vídeos, imagens e links que aprofundem o tema e auxiliem ao docente a programar a sua aula. Além disso, a seção trará divulgação de artigos, entrevistas, teses e outros materiais que dialoguem com o ensino de história e mundos do trabalho.
A seção Chão de Escola é coordenada por Claudiane Torres da Silva, Luciana Pucu Wollmann do Amaral e Samuel Oliveira.
