Chão de Escola

Chão de Escola #58: O Nordeste que construiu Brasília: um debate sobre o estigma do trabalhador nordestino, por Giselma dos Santos Torres

25 DE JUNHO DE 2026

             Giselma dos Santos Torres
(Licenciada em História pela Universidade Federal de Alagoas – Campus Sertão/Delmiro Gouveia, mestranda em Ensino de História e Saberes Históricos pelo Programa de Pós Graduação em História – PPGH – Universidade Federal da Paraíba)

Apresentação da atividade

Segmento: Ensino médio (Regular e EJA)

Unidade temática: Trabalho e identidade

Objeto de conhecimento: Período Republicano, Governos e relações trabalhistas

Objetivos gerais:

– Refletir sobre a questão trabalhista no Brasil nos governos de Getúlio Vargas (1943) e Juscelino Kubitschek (1956-1960)

– Compreender como a visão sobre o nordeste do período afetou o trabalho dos nordestinos na construção de Brasília.

Duração da atividade: 5 aulas de 50 min

AulasPlanejamento
1 e 2Etapa 1
3Etapa 2
4Etapa 3
5Etapa 4

Conhecimento prévio:

– Era Vargas (Direitos trabalhistas: CLT)

– Governo Juscelino Kubitschek (construção de Brasília)

Habilidades a serem desenvolvidas (BNCC):

(EM13CHS102) Identificar, analisar e discutir as circunstâncias históricas, geográficas, políticas, econômicas, sociais, ambientais e culturais de matrizes conceituais (etnocentrismo, racismo, evolução, modernidade, cooperativismo/desenvolvimento etc.), avaliando criticamente seu significado histórico e comparando-as a narrativas que contemplem outros agentes e discursos.

– (EM13CHS103) Elaborar hipóteses, selecionar evidências e compor argumentos relativos a processos políticos, econômicos, sociais, ambientais, culturais e epistemológicos, com base na sistematização de dados e informações de diversas naturezas (expressões artísticas, textos filosóficos e sociológicos, documentos históricos e geográficos, gráficos, mapas, tabelas, tradições orais, entre outros).

– (EM13CHS503) Identificar diversas formas de violência (física, simbólica, psicológica etc.), suas principais vítimas, suas causas sociais, psicológicas e afetivas, seus significados e usos políticos, sociais e culturais, discutindo e avaliando mecanismos para combatê-las, com base em argumentos éticos.

Atividade

Recursos: caixa de som, notebook, projetor.

Roda de conversas: Sentados em círculo, o/a professor/a propõe algumas perguntas para sensibilizar os estudantes para o tema: Com o que seus pais ou familiares trabalham? Eles possuem registro na carteira de trabalho? Vocês sabem do que se trata a CLT? As respostas devem gerar outros questionamentos que serão melhor explicados com a exibição dos vídeos sugeridos abaixo que contextualizam a Era Vargas de forma sucinta e dinâmica, como também, a jornada da conquista pelos direitos dos trabalhadores apresentada de um ponto de vista historiográfico e racializado.

Recurso 1 

Recurso 2

Texto 1: Sentados em círculo (ou organizados em grupo), o professor entregará cópias do cordel apresentado no texto 1, com o objetivo de aprofundar as reflexões sobre a identidade nordestina de grande parte dos trabalhadores que construíram Brasília.

Texto 1

Você sabe que deixei
O país passando bem
Criei as leis trabalhistas
Os institutos também
Para que o povo não fossem
Mais escravos de ninguém
Criei o Salário Mínimo
Por todos obedecido
Somente uma vez por ano,
Ficou estabelecido,
Era a primeiro de maio
O aumento concedido.

(Manoel D’Almeida Filho)

      Na discussão reservada para esta aula é necessário contextualizar a formação da identidade nacional brasileira e as suas transformações. O/a professor/a pode iniciar a aula falando sobre a necessidade de se dar uma “imagem” ao brasileiro que foi surgindo durante o período de governo de Getúlio Vargas.
Após essa contextualização, selecionamos a imagem de uma campanha de agência de publicidade de Sergipe, com o objetivo de trabalhar com os alunos a interpretação e problematização da identidade nordestina enquanto alvo de estereótipo e estigma.
Após esta análise, serão exibidas obras que retratam imagens do Nordeste, buscando fazer um comparativo e uma crítica histórico-social. O/a professor/a também pode apresentar a discussão do ponto de vista racial, e para esse fim, deixamos como sugestão o texto sobre mestiçagem de Kabenguele Munanga (indicado na bibliografia). A abordagem da identidade nordestina pode ser racializada a partir do conceito de mestiçagem, no contexto do sertanejo visto como “raça inferior” por sua origem e também por não possuir a cor “padrão” aceita pela sociedade.

Recurso 1

Campanha da agência Base Propaganda, de Sergipe

Fonte 1

Quadro: Os retirantes – Cândido Portinari disponível em: https://masp.org.br/busca?search=portinari

Fonte 2

Quadro: Criança morta – Cândido Portinari disponível em: https://masp.org.br/busca?search=portinari

Sugestão para aprofundamento no debate sobre mestiçagem para analogia com o perfil do trabalhador nordestino e racializado nos textos de Álef Mendes e Paula Silva indicados na bibliografia.

Nesta etapa, a leitura do texto a seguir, retirado de um livro didático, inicia a aula com o debate sobre como era o ambiente de trabalho para quem saía das suas terras e ia em busca de trabalho na construção de Brasília. No trecho, o depoimento de um trabalhador paraibano traduz o sentimento e as condições em que estavam os operários, em sua maioria nordestinos. Junto com a turma, o/a professor/a pode ler e instigar os questionamentos dos estudantes sobre quem eram esses trabalhadores que construíram Brasília com as seguintes perguntas: Por que os trabalhadores aceitavam trabalhar nessas condições? De onde estavam vindo? Por que? Após a provocação para o pensamento, o/a professor/a retoma as ideias discutidas na aula anterior sobre a imagem do nordestino e pode traçar um paralelo sobre como estas imagens representam o nordestino e como influenciaram a forma com que foram tratados quando chegaram no campo de trabalho de Brasília.

Fonte 1.

Candangos e a construção de Brasília

[…]

“Foi a gente que fez a fundação do Congresso Nacional. O que eu conheço por Congresso Nacional é aquele prédio que parece um cuscuz, todo redondinho. Nosso alojamento ficava no lugar onde hoje é a rampa. Primeiro, a máquina cavava o buraco. Depois, a gente descia agarrado num cabo de aço, junto com um balde, pra tirar o resto de terra que tinha ficado lá embaixo. […] Se morria gente? Vixe! Só no Hospital Distrital (Hospital de Base), vi morrer treze pessoas de uma vez.”.

[…]

LUIZ, Edson Beú; KUYUMJIAN, Marcia de Melo Martins. Candangos: uma história de trabalho e exclusão. Tempos Históricos, Cascavel, v. 14, n. 1, jan. 2010. p. 270. Disponível em: https://tedit.net/acrm9b.

Fonte 2:

Fonte 3:

Caminhão de operários passa próximo ao futuro prédio do Congresso Nacional, em 1959 disponível em: https://ne9.com.br/no-dia-do-trabalho-celebramos-os-candangos-nordestinos/

A proposta para a etapa final consiste em dividir os estudantes em grupos de acordo com a quantidade de alunos na turma, com base em tudo que foi discutido e apresentado a eles nas aulas anteriores, deverão criar um vídeo de, no mínimo 5 minutos, contendo suas sugestões para a resolução das problemáticas apresentadas, impressões pessoais sobre o que compreenderam dos debates e outros aspectos que o/a professor/a e a turma desejem explorar. Além disso, os vídeos podem ser exibidos ou só para a turma, ou em um local da escola onde outras turmas poderão ver o resultado das produções.

Bibliografia e Material de apoio:

BRITO, Cezar. Os nordestinos e o preconceito nosso de cada dia. 2017. Disponível em: https://www.socialistamorena.com.br/os-nordestinos-e-o-preconceito-nosso-de-cada-dia/. Acesso em: 07 out. 2025.

MUNANGA, Kabenguele. Rediscutindo a mestiçagem no Brasil: identidade nacional versus identidade negra. Petrópolis: Vozes, 1999.

SAVAGE, Mike. Classe e História do trabalho. In: BATALHA, Claudio H. M. et al. Culturas de Classe: identidade e diversidade na formação do operariado. Campinas: Unicamp, 2004. p. 25-48.

SANTOS, Álef Mendes dos et al. Memórias de plantações: trabalho cestaria e resistências afro-brasileira na paraíba contemporânea. In: ARAGÃO, Patrícia Cristina de et al. Educação, Diversidades e Práticas Educativas Escolares. São Paulo: Mentes Abertas, 2024. p. 26-31. SILVA, Paula Cristina da. Introdução. In: SILVA, Paula Cristina da. Negros à luz dos fornos: representações do trabalho e da cor entre metalúrgicos baianos. São Paulo: Dynamis Editorial, 1997. p. 13-37.


Crédito da imagem de capa: Retirantes nordestinos chegando em busca de oportunidade de trabalho em Brasília em 1959 disponível em: https://ne9.com.br/no-dia-do-trabalho-celebramos-os-candangos-nordestinos/


Chão de Escola

Nos últimos anos, novos estudos acadêmicos têm ampliado significativamente o escopo e interesses da História Social do Trabalho. De um lado, temas clássicos desse campo de estudos como sindicatos, greves e a relação dos trabalhadores com a política e o Estado ganharam novos olhares e perspectivas. De outro, os novos estudos alargaram as temáticas, a cronologia e a geografia da história do trabalho, incorporando questões de gênero, raça, trabalho não remunerado, trabalhadores e trabalhadoras de diferentes categorias e até mesmo desempregados no centro da análise e discussão sobre a trajetória dos mundos do trabalho no Brasil.
Esses avanços de pesquisa, no entanto, raramente têm sido incorporados aos livros didáticos e à rotina das professoras e professores em sala de aula. A proposta da seção Chão de Escola é justamente aproximar as pesquisas acadêmicas do campo da história social do trabalho com as práticas e discussões do ensino de História. A cada nova edição, publicaremos uma proposta de atividade didática tendo como eixo norteador algum tema relacionado às novas pesquisas da História Social do Trabalho para ser desenvolvida com estudantes da educação básica. Junto a cada atividade, indicaremos textos, vídeos, imagens e links que aprofundem o tema e auxiliem ao docente a programar a sua aula. Além disso, a seção trará divulgação de artigos, entrevistas, teses e outros materiais que dialoguem com o ensino de história e mundos do trabalho.

A seção Chão de Escola é coordenada por Claudiane Torres da Silva, Felipe Ribeiro, Flávia Veras, João Christovão, Juliana Pereira, Luciana Pucu Wollmann do Amaral, Romerito Arcoverde e Samuel Oliveira.

Marcio Romerito

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