Chão de Escola #60: Clodesmidt Riani: do chão de fábrica à Conferência Internacional do Trabalho, por Claudiane Torres
Claudiane Torres
(Professora de História da Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro e coordenadora da equipe de tutores de História do Pré-Vestibular Social Cecierj.)

Apresentação da atividade
Segmento: Ensino Fundamental – 9º ano
Unidade temática: Trabalho e cidadania
Objeto de conhecimento: Período Republicano, Governos e relações trabalhistas
Objetivo de conhecimento: Ditadura civil-militar no Brasil
Objetivos gerais:
-Conhecer a trajetória do trabalhador e sindicalista Clodesmidt Riani percebendo a luta da classe trabalhadora durante sua atuação;
– Compreender o contexto histórico da luta sindical, o espaço de debate possível e a reflexão sobre os direitos humanos, a cidadania e a participação democrática;
| Aulas | Planejamento |
| 1 | Etapa 1: Leitura e reflexão crítica da trajetória de Clodesmidt Riani |
| 2 | Etapa 2: Registro e sistematização da luta da classe trabalhadora ao longo da república brasileira para construção de um mural |
| 3 | Etapa 3: Sistematização sobre violações de direitos humanos e políticos durante a ditadura civil-militar brasileira |
Conhecimento prévio:
– Processos históricos dos governos brasileiros a partir da Era Vargas e os avanços da legislação trabalhista nas décadas de 1930 a 1960.
Habilidades da BNCC:
– (EF09HI19) Identificar e compreender o processo que resultou na ditadura civil-militar no Brasil e discutir a emergência de questões relacionadas à memória e à justiça sobre os casos de violação dos direitos humanos.
– (EF09HI20) Discutir os processos de resistência e as propostas de reorganização da sociedade brasileira durante a ditadura civil-militar.
Atividade
Recursos: caixa de som, notebook, projetor.
Etapa 1: Leitura e reflexão crítica da trajetória de Clodesmidt Riani
Etapa 1:
Professor(a), faça uma breve introdução em sala de aula sobre os avanços da luta da classe trabalhadora e da legislação trabalhista desde a Era Vargas para contextualizar que esse tema atravessou diversos governos e pode ser caracterizado através de muitos atores sociais e políticos ao longo da história republicana brasileira.
Para aprofundar esse momento de contextualização histórica leia o artigo do historiador Diorge Alceno Konrad, intitulado Trabalho, Questão Social e Direitos na Historiografia sobre o Brasil Pós-1930 a seguir. Link:
https://www.trt4.jus.br/portais/media/431701/Trabalho%252C_JustiAca_e_Direitos_no_Brasil.pdf pg.37-55.
Após uma sistematização da memória do movimento da classe trabalhadora ao longo do período republicano, registrada no quadro e construída com a ajuda dos estudantes, separe a turma em grupos de até quatro alunos e distribua a minibiografia do trabalhador e sindicalista Clodesmidt Riani. É importante projetar a foto abaixo do trabalhador para que os estudantes o conheçam e chamar atenção para a legenda da fotografia que apresenta Riani como deputado estadual na década de 1940.
O deputado estadual esteve da 3ª a 5ª legislaturas (1955-1967) e na 10ª legislatura (1983-1987) na ALMG, após Constituinte de 1947.Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Clodesmidt_Riani#/media/Ficheiro:Clodesmidt_Riani-1.jpg
Clodesmidt Riani nasceu em 15 de outubro de 1920, em Rio Casca, Minas Gerais, Brasil. Foi líder sindical e político mineiro com uma carreira significativa no movimento sindical no Brasil. Quando terminou o curso primário, em 1933, um ano depois, seu primeiro emprego foi na Companhia de Fiação e Tecelagem Moraes Sarmento em Juiz de Fora, aposentando-se após 43 anos de trabalho. Sua trajetória sindical iniciou-se na década de 1950, chegando à presidência da Confederação Nacional dos Trabalhadores da Indústria (CNTI) e ao Comando Geral dos Trabalhadores (CGT), já em 1961. Em 1958, participou da 42ª Sessão da Conferência Internacional do Trabalho, em Genebra na Suiça. Sua proximidade com o presidente João Goulart, deposto pelo golpe de 1964, deu maior visibilidade à sua atuação parlamentar. Durante toda sua atuação como trabalhador ativo, foi presidente de sindicatos, participou de comissões de salários e liderou esforços para obter aumentos significativos nos salários dos trabalhadores. Sua atuação sindical incluiu representação dos trabalhadores em conferências internacionais e envolvimento em questões trabalhistas e previdenciárias. Eleito deputado estadual em 1962 pelo PTB, Clodesmidt Riani tornou-se um dos três parlamentares que tiveram seus mandatos arbitrariamente cassados pela Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) em 8 de abril de 1964. Além de Riani, foram cassados Sinval Bambirra, eleito pelo PTB, e José Gomes Pimenta, o Dazinho, que se elegeu pelo Partido Democrata Cristão (PDC). O requerimento para a cassação foi baseado em discursos realizados enquanto eles eram deputados estaduais e em documentos do Departamento de Ordem Política e Social, cujos arquivos os descreviam como “agitadores comunistas”. Além de terem perdido os seus mandatos, os três deputados também foram presos pela repressão militar.
“Numa noite recebemos a visita de um major do Exército, juntamente com um investigador de apelido Coice de Mula – ele era um dos que mais espancavam os presos. Entraram na cela do amigo Sinval Bambirra e o espancaram tanto até romper o tímpano. Vi quando ele foi retirado todo ensanguentado. Posteriormente foi a vez de José Gomes Pimenta, o espancaram muito também. Ouvíamos os gritos dele e o barulho das pancadas. Chegou a minha vez, eles me retiraram da cela, não me espancaram, mas o Coice de Mula me agredia verbalmente e aos gritos dizia que eu não tinha jeito…”, relatou Clodesmidt Riani, em depoimento registrado pela Assembleia muitos anos depois. Fonte: https://www.almg.gov.br/comunicacao/noticias/arquivos/Morre-Clodesmidt-Riani-um-dos-tres-primeiros-cassados-pela-ditadura/
Riani foi condenado a 17 anos de reclusão. Ele, Bambirra e Dazinho foram acusados e condenados por “subverter a ordem social” com a finalidade de instalar regime de classe social, opor-se ao funcionamento de algum dos Poderes da União, e por terem sido considerados “cabeças” de movimentos de resistência à ditadura. Após o golpe militar de 1964 no Brasil, teve seus direitos sindicais cassados por um período de 10 anos devido à sua atuação política e sindical. Na Assembleia Legislativa de MG, Clodesmidt Riani exerceu o mandato de deputado em diferentes ocasiões. A cassação de seu mandato legislativo durante a ditadura se deu na 5ª Legislatura (1963-1967). Ainda durante a ditadura, mas já no início da reabertura política, Clodesmidt Riani elegeu-se deputado estadual em 1982. Riani teve 10 filhos, 18 netos e 25 bisnetos. Em 2014, durante a Comissão Nacional da Verdade, foi homenageado pelo Grupo de Trabalho dos Sindicalistas. No dia 15 de outubro de 2020, o sindicalista Clodesmidt Riani completou 100 anos de vida, superando o coronavírus que o infectou em julho daquele ano. Na ocasião, em sua homenagem um texto foi produzido.
“Clodesmidt Riani 100 anos, um exemplo de trabalhador brasileiro
Em 1920 o Brasil, uma República ainda jovem, vivia sob poder oligárquico que tradicionalmente se revezava entre São Paulo e Minas Gerais. Com apenas 30 anos do fim do regime imperial e da escravidão, aquele período, embora regido por uma nova Constituição, mantinha em sua mentalidade coletiva, os valores que marcaram os 300 anos anteriores. Vivendo e trabalhando naquelas condições, sem direito a férias, 13º salário, ou mesmo a um salário-mínimo, Orlando Riani, ferroviário da Leopoldina Railway Company, e Maria Riani, não desfrutavam dos mesmos direitos e da mesma estrutura de organização que os trabalhadores têm hoje, 100 anos depois. Legislação trabalhista até existia, mas era precária e não havia fiscalização que garantisse seu cumprimento.
Foi neste Brasil que nasceu, no dia 15 de outubro de 1920, em Rio Casca (MG), o filho de Orlando e Maria, Clodesmidt Riani. Um Brasil essencialmente agrário, cujos trabalhadores, submetidos aos desmandos de uma mentalidade escravocrata, organizavam suas primeiras lutas.
Os últimos 100 anos foram, pode-se dizer, de construção de um país urbano e industrial. E para Riani, estas transformações não foram apenas presenciadas. Foram, em muitos casos, resultados de ações nas quais o sindicalista esteve diretamente envolvido.
Se Orlando, seu pai, amargou anos de trabalho sem os direitos previstos na CLT, o próprio Clodesmidt só viria a conhecê-la dez anos depois do ano em que começou a trabalhar numa fábrica de tecidos.
Desde pequeno aprendeu com o pai a consciência sobre as injustiças sociais e a necessidade da luta por conquistas para a classe trabalhadora.
Foi esta consciência que o empurrou para os embates políticos e classistas, já no fim da década de 1940, época de grande efervescência, marcada pela derrota do nazifascismo, com fim da 2ª guerra mundial e, no Brasil, pelo fim da ditadura do Estado Novo e pela promulgação da Constituição de 1946.
Por seu perfil trabalhista era natural que Riani ingressasse no PTB de Vargas e de Jango, o que ocorreu em 1950. Pelo PTB foi deputado estadual, além de ter sido praticamente um conselheiro de João Goulart, tanto em seu período como Ministro do Trabalho, quanto como Presidente da República.
Mas ele nunca deixou de lado a luta sindical. Envolveu-se nas negociações que criaram o salário-mínimo e o 13º salário. Ativista reconhecido e bem-quisto por seus pares chegou à presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Indústria (CNTI) e do combativo Comando Geral dos Trabalhadores (CGT), embrião das centrais sindicais contemporâneas.
Riani é uma das raras pessoas que ainda guardam na memória episódios fundamentais da nossa história, eventos honrosamente protagonizados pelos trabalhadores, como a Greve dos 300 mil, de 1953, e a Greve dos 700 mil, dez anos depois.
Eventos que não só tornaram o sindicalismo mais politizado, como deu força para que o movimento passasse a intervir diretamente na política. Deste profícuo casamento entre política e sindicalismo, selado na década de 1950, Clodesmidit Riani é um dos maiores exemplos.
Como líder combativo e reconhecido que era, Riani foi cassado e preso pelos militares na ocasião do golpe de 31 de março de 1964. Foram anos duros, de repressão e de perdas. Mas ele não poderia estar de outro lado que não o daqueles que sofreram as agruras do golpe, assim como Gregório Bezerra, Hércules Correia, Afonso Dellelis, o ferroviário Raphael Martinelli, seu amigo do CGT, a tecelã Maria Sallas Dib, entre tantos outros.
Com a anistia, Clodesmidt foi pouco a pouco retomando sua ação política, sempre fiel aos compromissos com os trabalhadores.
Ainda que ao tratar dos anos de ditadura não se possa falar em justiça, alguma reparação começou a acontecer no ano 2000, quando, através do projeto de lei do deputado Durval Ângelo, Riani teve direito a uma indenização pelas atrocidades contra ele executadas.
Em 2014, por recomendação das centrais sindicais, ele foi um dos homenageados pelo Grupo dos Trabalhadores na Comissão Nacional da Verdade. No ato de entrega do relatório sobre a perseguição à classe trabalhadora durante o período do regime militar à Dra Rosa Cardoso, coordenadora do grupo, em dezembro daquele ano, homenageamos Clodesmidt Riani e Raphael Martinelli, líder ferroviário e também ex-membro do CGT, que infelizmente nos deixou em fevereiro deste ano.
Agora, no ano de seu centenário, prestamos mais uma justa e merecida homenagem. Riani abriu o caminho de lutas e conquistas e chega a edificante marca dos 100 anos em um Brasil diferente daquele em que deu seus primeiros passos.
Embora a desigualdade social seja ainda um entrave para o desenvolvimento econômico e civilizatório do país, a situação atual da classe trabalhadora não se compara à miséria a que estava submetida até a década de 1930. A Consolidação das Leis Trabalhistas de 1943, a conquista e a universalização do salário-mínimo, a Greve dos 300 mil, em 1953, o CGT, a lei do 13º salário, a resistência à ditadura militar e todo o processo de redemocratização e de construção da Constituição Cidadã, na década de 1980, o amadurecimento dos sindicatos e das centrais sindicais brasileiras, separam o trabalhador de hoje do de cem anos atrás.
Quantos dedicaram a vida por esta nobre causa? Quantos sacrificaram a convivência familiar, submeteram-se à repressão, à tortura e até à morte para que os trabalhadores tivessem direitos, cidadania e dignidade? Direitos tão duramente conquistados e que, em um mundo marcado por uma cruel divisão de classes, são de tão frágil manutenção. Direitos que vemos pouco a pouco escapar pelos vãos dos dedos.
Por isso tudo é necessário que todos conheçam a história dos homens que lutaram e lutam pelos trabalhadores. Que todos saibam que os direitos não se tornam realidade através de passes de mágica. E que, por isso, requerem vigília permanente. Precisamos que todos saibam da história de Clodesmidt Riani. Mais do que isso, o Brasil precisa de mais Clodesmidts Rianis.
Sérgio Nobre, Presidente da CUT – Central Única dos Trabalhadores
Ricardo Patah, Presidente da UGT – União Geral dos Trabalhadores
Adilson Araújo, Presidente da CTB – Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil
José Calixto Ramos, Presidente da NCST – Nova Central Sindical de Trabalhadores
José Avelino Pereira, Presidente da Central dos Sindicatos Brasileiros
Ubiraci Dantas de Oliveira, Presidente da CGTB – Central Geral dos Trabalhadores do Brasil
Atnágoras Lopes – Secretário Executiva Nacional da CSP-Conlutas
Nilza Pereira de Almeida – Secretária de Finanças da Intersindical – Central da Classe Trabalhadora
Emanuel Melato – Coordenação da Intersindical – Instrumento de Luta e Organização da Classe Trabalhadora
José Gozze, presidente da PÚBLICA, Central do Servidor
Fonte: https://memoriasindical.com.br/formacao-e-debate/clodesmidt-riani/
Após o tempo determinado para que os grupos leiam a minibiografia e o texto em homenagem a Clodesmidt Riani, peça para os estudantes responderem no caderno as seguintes questões:
a) Quais foram os cargos exercidos por Clodesmidt Riani que aparecem no texto e em sua homenagem?
b) Liste os eventos que marcam a trajetória da classe trabalhadora no texto em homenagem ao sindicalista e faça uma breve pesquisa sobre o contexto histórico de cada um desses eventos.
c) Caracterize através do texto como era a vida de um trabalhador ao longo da república brasileira.
d) Relacione o conteúdo do texto com o conceito de consciência de classe.
Etapa 2: Registro e sistematização da luta da classe trabalhadora ao longo da república brasileira para construção de um mural
Professor(a), nessa segunda etapa oriente os grupos que leram a minibiografia de Clodesmidt Riani junto a homenagem recebida por ele a construírem cartazes com as principais conquistas trabalhistas identificadas no texto. O objetivo dessa atividade é sistematizar a trajetória da classe trabalhadora por direitos sociais e trabalhistas ao longo do período republicano brasileiro. Os grupos podem dividir os cartazes por períodos históricos como:
a) Primeira República
b) Era Vargas
c) Redemocratização 1945-1964
d) Ditadura civil-militar no Brasil (1964-1985)
Etapa 3: Sistematização sobre violações de direitos humanos e políticos durante a ditadura civil-militar brasileira
Professor(a), nessa etapa vamos concentrar o debate nas violações de direitos sofridas por Clodesmidt Riani e demais parlamentares. Volte no texto para debater com a turma sobre as evidências de violações de direitos humanos e direitos políticos presentes na minibiografia distribuída entre os estudantes. A sugestão é que nessa etapa os estudantes sistematizem essas violências construindo uma nuvem de palavras que será impressa para compor o mural sobre as conquistas trabalhistas ao longo da república brasileira e a produção de um pequeno texto sobre o impacto dessas violações para o movimento da classe trabalhadora no país
Bibliografia e material de apoio
https://www.trt4.jus.br/portais/media/431701/Trabalho%252C_JustiAca_e_Direitos_no_Brasil.pdf
https://memoriasindical.com.br/formacao-e-debate/clodesmidt-riani/
https://www.almg.gov.br/comunicacao/noticias/arquivos/Morre-Clodesmidt-Riani-um-dos-tres-primeiros-cassados-pela-ditadura/
https://www.cecult.ifch.unicamp.br/pf-cecult/public-files/noticias/11396/luta-direitos-compactado.pdf
Crédito da imagem de capa: A foto de capa é de domínio público e encontra-se no site: https://pt.wikipedia.org/wiki/Clodesmidt_Riani#/media/Ficheiro:Clodesmidt_Riani.JPG
