Contribuição especial #14: O Maradona dos trabalhadores e das trabalhadoras

Contribuição especial de Victoria Basualdo1

Diego Armando Maradona nasceu em 30 de outubro de 1960 na Policlínica Evita em Lanús, província de Buenos Aires. Foi o quinto dos oito filhos de Diego Maradona (1927-2015) e de Dalma Salvadora “Tota” Franco (1930-2011). Sua família vivia num casebre de um cômodo em Fiorito, uma favela da zona sul da região metropolitana de Buenos Aires. Seu pai se levantava às 4 horas da madrugada para ir ao trabalho na Moenda Tritumol e frequentemente sua mãe fingia estar doente para ceder a seus filhos e filhas a comida que não dava para todos. Trabalhadores pobres e mestiços, os Maradona eram uma típica família das quais as classes mais altas costumavam, de forma racista e classista, chamar de “cabecitas negras”.

Maradona aos 12 anos em jogo dos Cebollitas do Argentino Juniors em 1973.
Foto: Prego em https://www.elgrafico.com.ar/articulo/1090/33343/1973-estos-pibes-la-rompen

O garoto Diego desenvolveu suas habilidades futebolísticas na várzea de Fiorito e em 1969 ingressou nas divisões inferiores do clube Argentino Juniors na equipe dos “Cebollitas”. Seu enorme talento logo foi notado e Maradona tornou-se jogador do clube aos 14 anos.  Depois de ganhar a Copa do Mundo juvenil em 1979 com a seleção argentina, o já jogador campeão nacional pelo Boca Juniors, transferiu-se para a Europa onde jogou no Barcelona (1982-1984), no Napoli (1984-1991) e no Sevilha (1992-93). De volta a Argentina, jogou ainda no Newell’s Old Boys e no Boca Juniors antes de aposentar-se do futebol profissional em 1997. Com a seleção argentina participou de quatro Copas do Mundo e foi o capitão da equipe que venceu o Mundial em 1986, no México, quando se consagrou com uma excepcional e inesquecível atuação. Depois de aposentar-se como jogador, foi técnico de diversos times e inclusive, da seleção argentina.

No entanto, esses fatos por si só não dão conta de entender porque a morte de Maradona no dia 25 de novembro de 2020 teve tamanha repercussão mundial e é sentida com particular intensidade e importância na Argentina. Um primeiro fator para compreender um pouco do que “el Diego”, “Pelusa”, “Maradona”, “Dieguito”, “el Pibe de Oro”, “el 10”, “D10S” gera na Argentina e ao redor do planeta tem relação com sua capacidade aliar um talento futebolístico fora de série e uma habilidade excepcional com a percepção de processos históricos e sociais que ocorriam fora do futebol e que Maradona procurou de alguma forma dar respostas dentro e fora das quatro linhas.

O primeiro dos dois exemplos mais notáveis foi sua atuação no Napoli desde 1984. O time era, então, uma equipe desvalorizada e humilhada pelos clubes do norte italiano, cujas torcidas frequentemente utilizavam expressões racistas e classistas para insultar os torcedores e jogadores napolitanos. Sob a liderança de Maradona, o Napoli conquistou o primeiro scudetto de sua história em 1987, ganhando em seguida a Copa da Itália. Até então, tais conquistas estavam restritas aos grandes clubes do rico norte do país. Durante as temporadas em que esteve em Nápoles, a equipe obteve grandes resultados. Em 1988/89 conseguiram seu primeiro título internacional, a Copa da UEFA e, em 1989/90, seu segundo scudetto, vencendo em dezembro de 1990, a Supercopa da Itália, batendo nada menos que a Juventus de Turim na final. O que, a primeira vista, poderiam parecer apenas conquistas esportivas, se converteram para o povo napolitano em motivo de profundo orgulho. Como diversas pessoas em Nápoles afirmaram nas homenagens ao jogador logo após sua morte, a presença de Maradona na equipe foi o momento a partir do qual “começamos a acreditar que o Sul poderia ganhar do Norte, e acreditar em nós mesmos” e “na possibilidade de inverter a ordem que parecia natural, inamovível e indiscutível”.

No entanto, sem dúvida, o ápice deste entrelaçamento entre futebol, história e comoção profunda aconteceu na Copa do Mundo de 1986 e, particularmente, na partida de quartas de final entre Argentina e Inglaterra. Possivelmente o gol mais famoso da história do futebol que selou a vitória argentina, na sequência do não menos lendário primeiro gol batizado como “a mão de Deus”, maravilharam o mundo e geraram admiração pela incrível habilidade futebolística de Maradona. O que ocorreu nos campos de futebol da terra Asteca (por sua vez, traumatizada pela catástrofe do terremoto de 1985) trouxe uma alegria incomparável ao povo argentino, que se encontrava no difícil momento de saída da ditadura mais feroz de sua história, que havia deixado um legado de violações extremas dos direitos humanos e um retrocesso brutal nas condições econômicas e trabalhistas, em plena crise da dívida externa na América Latina. Um país que chorava seus “garotos da guerra”, mortos no enfrentamento bélico com a potência imperial da Grã Bretanha, liderada pela neoconservadora Margaret Thatcher, que conseguiu legitimar um processo selvagem e regressivo de reconfiguração social e econômica em seu país, utilizando a guerra para reafirmar a usurpação britânica sobre as Ilhas Malvinas argentinas.

Esse pequeno gigante surgido das entranhas populares, seus gols e toda a inesquecível vitória na Copa do Mundo trouxeram uma onda de euforia, um sentimento de solidariedade e esperança para o povo argentino que gritou, aclamou e considerou “heróis” a esses jogadores de futebol e, especialmente, a Diego. Como muitos explicaram no luto após sua morte, “Maradona nos fez acreditar que podíamos ser felizes, que tudo era possível”, estendendo esse fervor a muitos outros países, particularmente aqueles cuja história havia sido marcada pelo colonialismo britânico e que também viram em Maradona um símbolo de resistência.

O pintor sírio Aziz Asmar posa ao lado da imagem que fez de Diego Maradona em um prédio em escombros.
Foto: Muuhammad Haj Kadour/AFP

A esta conexão entre o que acontecia dentro e fora de campo é necessário acrescentar o interesse pouco usual e o envolvimento de uma estrela do esporte com posicionamentos políticos que levaram Maradona a expressar seu apoio a numerosas causas vinculadas aos direitos humanos, sua admiração e carinho pelas Mães e Avós da Plaza de Mayo, a quem abraçou publicamente, ampliando o alcance da campanha por Memória, Verdade e Justiça na Argentina. Diego também cultivou relações próximas com importantes figuras da política internacional, como Fidel Castro e Hugo Chávez, com lideranças do PT como Lula (a quem manifestou apoio e cuja libertação exigiu) e Dilma, entre muitos outros. Expressou suas posições anti-imperialistas em muitos momentos decisivos, como nos protestos contra a proposta norte-americana de uma Área de Livre Comércio das Américas (ALCA) durante a Cúpulas das Américas em Mar de Plata no ano de 2005. Na Argentina, foi próximo de diversos setores do peronismo e, particularmente, de Néstor e Cristina Kirchner.

Maradona apoiando Lula durante a prisão do ex-presidente. Reprodução Facebook.

A reivindicação de sua própria história pessoal, de sua origem favelada e de sua procedência popular o levou também a apoiar uma imensa quantidade de causas trabalhistas e sindicais, não apenas expressando apoio aos trabalhadores em diversos conflitos em tempos muito complexos, como no governo Macri, a quem confrontou de maneira aberta, mas também questionando o papel dos grandes meios de comunicação e incentivando a organização sindical no mundo do futebol. Como um dos seus obituários destacou, Maradona “foi um reivindicador dos direitos dos jogadores, crítico das autoridades, um sindicalista convicto e antipatronal”, o que o levou a criar em 1995 a Associação Internacional de Futebolistas Profissionais (AIFP). A Associação conquistou algumas melhorias nas condições de trabalho dos jogadores e confrontou as lideranças da FIFA, como Havelange e Blatter, além de cartolas locais como Grondona, presidente da Associação de Futebol da Argentina.

Todas essas posições lhe custaram também a ofensiva de diversos setores do establishment, que o viam como alguém incômodo e com posições inaceitáveis, e que o atacaram fortemente por toda sua vida. Mas, ao mesmo tempo, criou vínculos de irmandade e solidariedade com jogadores de futebol de todo o globo e com personalidades de outros esportes, tornando Maradona uma referência central de todo o mundo desportivo.  Mesmo em países com quem sempre teve uma acirrada rivalidade esportiva, como o Brasil, Maradona era admirado e mantinha vínculos próximos com muitos futebolistas. O grande Pelé, por exemplo, despediu-se de Diego com uma comovente mensagem: “Muitas pessoas adoravam nos comparar durante toda a vida. Você foi um gênio que encantou o mundo. Um mágico com a bola nos pés. Uma verdadeira lenda. Mas acima disso tudo, para mim, você sempre será um grande amigo, com um coração maior ainda.”

No entanto, é necessário ter cuidado para não delinear uma trajetória límpida e sem tensões, quando a vida de Diego foi tudo menos isso. Não apenas por conta de seu temperamento alegre e brincalhão, de suas paixões e humores indomáveis, de seu peito inflado e sua língua ácida e brilhante que nos presenteou com uma série interminável de frases geniais, rapidamente incorporadas ao jargão popular. Mas também, no contexto do brutal assédio moral que implica o papel de ídolo, por conta de sua dependência de drogas, com quedas e ressurreições públicas, assim como sua turbulenta e complexa vida familiar e íntima com Claudia Villafañe e suas filhas Dalma e Giannina, e com outras companheiras e filhos(as), com sucessivos capítulos de conflitos e confrontações, algumas vezes violentas e atravessadas por dinâmicas patriarcais e machistas. A frase “não importa o que fez com sua vida, mas o que fizestes com as nossas”, muito citada nesses dias, coexiste com valiosas interpretações e múltiplos debates promovidos pelo movimento feminista. Colocando na mesa a posição de que “o pessoal também é político”, muitas feministas, na chave de uma análise de gênero, têm aberto uma porta interessante para, por um lado, reivindicar o direito de chorar e amar a um figura tão especial em tantos aspectos, apesar de suas contradições, e, por outro, romper com a tendência de blindar os ídolos, dando lugar para a análise e crítica de comportamentos atravessados por dinâmicas sociais que, felizmente, estão em pleno processo de transformação e discussão.

A profunda dor com sua morte também traz consigo a incrível experiência de experimentar como a vida desse garoto de Fiorito, que apesar de ter chegado ao topo do mundo, nunca esqueceu sua origem de fome e pobreza e que fez de sua relação com a bola um espetáculo emocionante, conseguindo despertar sentimentos e paixões que deixou memórias que marcaram milhões de pessoas de todas as idades. Não apenas na Argentina, onde seu corpo foi velado na Casa Rosada em um dia marcado pela tensão e pela dor popular, que segue manifestando-se de diversas formas, e em outros lugares onde jogou e que o consideram como um nativo, mas também em países como Cuba, Irlanda, Bangladesh, Síria e em campos de futebol, ruas e lares de todos os pontos do planeta. O amor tão próximo e familiar e o agradecimento de milhões, manifestado em cartazes dos “catadores de papel com Diego”, o choro desconsolado de vendedores(as) ambulantes, de trabalhadores(as) informais, aposentados(as), crianças pequenas, e nas fábricas multinacionais, onde os operários o recordaram cantando seu nome ao som de bumbos e agitando bandeiras, é uma demonstração do lugar sem igual que, para sempre,  ganhou no coração de milhões, em especial dos(as) trabalhadores(as), de los de abajo, de uma forma geral, que continuaram a vê-lo como “um dos seus”. Agradecemos a Diego Maradona, que nesse mundo tão duro e complexo, nos acompanhou por décadas e nos presenteou com alegrias inigualáveis, que nos irmanaram, nos devolveram a esperança e a vontade de transformar o mundo. E nos fizeram sentir por um momento que tudo é possível.

Homenagem da Central de Trabajadores Argentinos a Maradona.
Fonte: Diário Sindical. http://www.diariosindical.com.ar/2020/11/sindicatos-y-dirigentes-gremiales.html

1 Professora e pesquisadora da Facultad Latinoamericana de Ciencias Sociales (FLACSO) e do CONICET – Argentina

Referências:

1) Livros:
Arcucci, Daniel (2001), Conocer al Diego: relatos de la fascinación maradoniana, Editorial Planeta.
Burgo, Andres (2016), El partido, Editorial Planeta.
Maradona, Diego, (2000), Yo soy el Diego de la gente, Editorial Planeta, Buenos Aires.
Maradona, Diego y Arcucci, Daniel (2016), México 86: Así ganamos la copa del mundo, Penguin Random House.
Maradona, Dalma (2013), Hija de Dios, No es el Diego, es mi papá, Sudamericana.

2) Sites de interesse:
https://www.diegomaradonagroup.com/
https://www.youtube.com/c/DiegoMaradonaOfficialWebsite/featured
https://twitter.com/Diego10Querido
Entrenamiento de 1989 (Life is life): https://www.youtube.com/watch?v=s7ZjU-6iSwk

3) Galerias de fotos de sua despedida na Argentina:
Clarín: https://www.clarin.com/fotogalerias/fotos-multitudinario-conmovedor-funeral-diego-maradona_5_NXd88rS97.html
Pagina 12: https://www.pagina12.com.ar/308230-las-mejores-imagenes-de-la-despedida-a-diego-maradona
El Pais: https://elpais.com/elpais/2020/11/26/album/1606376204_866103.html#foto_gal_7

4) Algumas canções:
La guardia hereje, Para verte gambetear: https://www.youtube.com/watch?v=ymrnENDEmWw
Charly García, Maradona Blues: https://youtu.be/zpooE1AmZQk
Mano Negra, Santa Maradona: https://www.youtube.com/watch?v=3CUnwPgopIk
Manu Chao, La vida tómbola: https://www.youtube.com/watch?v=A0KCbZ7L17I
Los Piojos, Marado: https://www.youtube.com/watch?v=VRu0tB1bKfc
Rodrigo, La Mano de Dios: https://www.youtube.com/watch?v=EAk-l1VHzBw
Bersuit, El baile de la gambeta: https://www.youtube.com/watch?v=qzxn85zX2aE
Ratones Paranoicos, Para siempre: https://youtu.be/2skqLOhqQgU
Las pastillas del abuelo, ¿Qué es Dios?: https://youtu.be/lHnRvUyXHKc

Crédito da imagem de capa: Mural em bairro popular de Buenos Aires. Fotografia de Ricardo Morais. Agência Reuters.

LEHMT

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