LMT#83: Largo de São Francisco da Prainha e Pedra do Sal, Rio de Janeiro (RJ) – Erika Arantes



Erika Arantes
Professora de Ensino de História da UFF – Campos dos Goytacazes



Em 14 de novembro de 1883, o subdelegado da freguesia de Santa Rita, na cidade do Rio de Janeiro, efetuou uma prisão em massa em uma casa de cômodos no Largo da Prainha, alegando que ali se encontrava um zungú. Os zungús, muito comuns no século XIX, eram pontos de encontro de trabalhadores negros escravizados ou libertos, que se reuniam para comer, batucar ou praticar sua religião, sendo de grande importância para a sobrevivência cultural e religiosa dos negros. No entanto, aquele zungú também era formado por homens brancos, incluindo estrangeiros, revelando o papel desses espaços coletivos nas trocas culturais que ocorriam na cidade entre o final do século XIX e o início do XX, principalmente entre imigrantes portugueses e a população negra. Quase todos os 33 homens presos nesse dia trabalhavam no porto.

Nessa época, o Largo de São Francisco da Prainha era conhecido como ponto de encontro dos portuários. Esses trabalhadores, que no início do século XX se organizariam em sindicatos fortes e combativos como a União Operária dos Estivadores e a Sociedade de Resistência dos Trabalhadores em Trapiche e Café, eram em sua maioria negros. Frequentemente enfrentavam a ação repressiva da truculenta polícia republicana, que não raro os prendia por vadiagem enquanto esperavam uma chamada para o trabalho na estiva.

Localizado no bairro da Saúde, na zona portuária, e mais especificamente na Rua Sacadura Cabral, onde também está a Praça Mauá, o Largo de São Francisco da Prainha recebe esse nome pela proximidade com a Igreja de São Francisco da Prainha. Até fins do século XIX, havia ali uma pequena praia – a Prainha – que começa a ser aterrada nesse momento e também sofre transformações com a modernização do porto, entre 1904 e 1910. Toda região da Prainha tinham “má fama”.

O medo que despertava associava-se, principalmente, à forte presença negra na região. Foi também nessa mesma área que, no século XVIII, encontravam-se o mercado de escravos do Valongo e a Cadeia do Aljube, onde eram aprisionados os escravizados acusados de crimes e os quilombolas. No início do século XX esta memória e a imagem negativa da região ainda eram muito fortes. O temor que o local despertava nas elites foi expresso nas crônicas de João do Rio, que se referiu à Saúde como “o bairro onde o assassinato é natural” e apontou que a Prainha, à noite, “causava uma impressão de susto”.

Contigua ao Largo da Prainha, está a Pedra do Sal. Local de descarregamento de sal, entre outros gêneros, desde o século XVI, a Pedra do Sal ficou conhecida como reduto de músicos negros, que entraram para história como precursores do samba e dos ranchos carnavalescos. Foi o caso de Hilário Jovino, que morou nos arredores da Pedra do Sal e fundou, no final do XIX, o primeiro rancho carnavalesco que se tem notícia: o Rei de Ouros. O Lalau de Ouro, como era conhecido, trabalhou no cais do porto ao lado de sambistas famosos como João da Baiana e Elói Antero Dias – o Mano Elói. Estes, além das atividades carnavalescas, participaram ativamente nos sindicatos portuários. 


Em fins de século XIX e início do XX, trabalho, atuação política e diversão se encontravam na zona portuária e era bastante comum que trabalhadores sindicalizados, muitas vezes dirigentes sindicais, estivessem também à frente das associações carnavalescas, como nos casos de Cypriano José de Oliveira, Antenor dos Santos, Horácio de Souza Moreira e o próprio Mano Elói – que mais tarde fundaria a Escola de Samba Império Serrano.


O rancho Recreio das Flores se ligava diretamente à Sociedade de Resistência dos Trabalhadores em Trapiche e Café e à União dos Operários Estivadores. Muitos outros trabalhadores do porto, mas também das mais variadas profissões – sindicalizados ou não – certamente frequentavam ranchos como o Rosa Branca, Prazer da Prainha, Filhos da Prainha, Rancho Pedra do Sal, entre outros.

A Pedra do Sal foi constantemente associada à história do samba carioca. Tia Ciata, cuja casa ficou conhecida como reduto de sambistas, referia-se à Pedra do Sal como ponto de referência para os negros que deixavam a Bahia rumo ao Rio no pós-abolição. O ambiente festeiro e religioso do lugar marcou a experiência daqueles que frequentavam o local. O sambista Heitor dos Prazeres deu à região uma definição que ficou na memória da cidade: “Era a Pequena África no Rio de Janeiro”. O apelido, embora não dê conta da diversidade étnico-racial e cultural da região, resiste nos dias de hoje. No Rio de Janeiro, a Pedra do Sal é o coração da Pequena África e a memória ligada às manifestações culturais e religiosas dos negros permanece viva.

Em 1984, a Pedra do Sal foi tombada pelo Instituto Estadual do Patrimônio Histórico do Rio de Janeiro. Em 2004, o projeto cultural “Sal do Samba”, criado por moradores da região, associou-se a Associação dos Moradores da Saúde (AMAS-RJ) para resistirem às constantes desapropriações que estavam ocorrendo, frutos da crescente especulação imobiliária na região. Desse encontro surgiu a Associação de Resistência Quilombola da Pedra do Sal (ARQPEDRA), da qual faziam parte moradores ameaçados de despejo – entre eles, trabalhadores do porto – e comprometidos com a preservação da memória negra. Reconhecendo-se e reivindicando-se uma comunidade remanescente de quilombo, a luta dos moradores resultou, em 2005, na emissão, pela Fundação Cultural Palmares, da certidão de autorreconhecimento da região que engloba a Pedra do Sal e o Largo de São Francisco Prainha como um quilombo urbano: o Quilombo da Pedra do Sal.

João da Baiana na Pedra do Sal.
Acervo casa do Choro
(https://acervo.casadochoro.com.br/Images/index)
s/data
Placa localizada na Pedra do Sal.
Fonte: http://visit.rio/que_fazer/pedra-do-sal/


Para saber mais:

  • ARANTES, Erika B. O Porto Negro: cultura e associativismo dos trabalhadores portuários no Rio de Janeiro na virada do XIX para o XX. Tese de Doutorado: UFF, 2010.
  • CUNHA, Maria Clementina Pereira, Ecos da Folia: uma história social do Carnaval carioca entre 1880 e 1920. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.
  • MATTOS, Hebe; ABREU, Regina. Relatório histórico-antropológico sobre o quilombo Pedra do Sal em torno do samba, do santo e do porto. Relatório Técnico de identificação e delimitação da comunidade remanescente de quilombo Pedra do Sal. Rio de Janeiro: MDA/Incra, 2007.
  • DO RIO, João do. A Alma Encantadora das Ruas. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.
  • SOARES, Carlos Eugênio Líbano. Zungú: rumor de muitas vozes. Rio de Janeiro: Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro, 1998.

Crédito da imagem de capa: “Largo da Prainha”. Foto de Augusto Malta, c.1900. Fonte “A Praça Mauá na memória do Rio de Janeiro”, de Paulo Bastos Cezar e Ana Rosa Viveiros de Castro. 


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As marcas das experiências dos trabalhadores e trabalhadoras brasileiros estão espalhadas por inúmeros lugares da cidade e do campo. Muitos desses locais não mais existem, outros estão esquecidos, pouquíssimos são celebrados. Na batalha de memórias, os mundos do trabalho e seus lugares também são negligenciados. Nossa série Lugares de Memória dos Trabalhadores procura justamente dar visibilidade para essa “geografia social do trabalho” procurando estimular uma reflexão sobre os espaços onde vivemos e como sua história e memória são tratadas. Semanalmente, um pequeno artigo com imagens, escrito por um(a) especialista, fará uma “biografia” de espaços relevantes da história dos trabalhadores de todo o Brasil. Nossa perspectiva é ampla. São lugares de atuação política e social, de lazer, de protestos, de repressão, de rituais e de criação de sociabilidades. Estátuas, praças, ruas, cemitérios, locais de trabalho, agências estatais, sedes de organizações, entre muitos outros. Todos eles, espaços que rotineiramente ou em alguns poucos episódios marcaram a história dos trabalhadores no Brasil, em alguma região ou mesmo em uma pequena comunidade.

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