LMT #76: Usina Wigg, Miguel Burnier, Ouro Preto (MG) – Luana Campos Akinruli



Luana Campos Akinruli
Doutora em Antropologia pela Universidade Federal de Minas Gerais



A importante presença dos trabalhadores na história de Miguel Burnier, distrito de Ouro Preto, Minas Gerais, quase nunca é evidenciada e divulgada. Dispersos na paisagem local existem sítios de vilas operárias, de conjuntos ferroviários e um patrimônio arquitetônico e religioso de grande envergadura. A Usina Wigg, por exemplo, foi a primeira no país a explorar manganês. Posteriormente, dedicou-se ao ferro. Ali também se desenvolveu a Usina Barra Mansa, que depois passou a fazer parte do Grupo Votorantim e, atualmente, ao grupo Gerdau.

A Usina Wigg foi fundada em 1893, pelo empresário anglo-brasileiro Carlos Wigg. Situava-se num local privilegiado para as atividades da indústria siderúrgica, com grande quantidade de jazidas de minério de ferro e de manganês de boa qualidade a pouca distância do local de beneficiamento. Também possuía abundância de reservas vegetais para a produção de carvão, água em fartura para a movimentação de maquinário de forças hidráulicas e proximidade da malha ferroviária para o escoamento da produção, além de depósitos de calcário, material indispensável ao funcionamento dos altos-fornos.

Atuando em todas as fases de produção – extração, beneficiamento, transporte e exportação do minério –, a Usina Wigg contava já no ano de 1905 com 373 casas destinadas a seus trabalhadores, onde residiam 334 famílias. As condições de moradia, no entanto, eram bastante precárias. A maioria era de pau a pique com cobertura de zinco. Em 1913, residiam cerca de 2.000 pessoas nessa vila operária.

Assim como em diversas outras vilas operárias criadas no país entre o final do século XIX e início do XX, a empresa procurava moldar diversos aspectos do cotidiano de seus trabalhadores. O controle social era rigoroso, com interferências na vida religiosa, escolar e no lazer dos funcionários. Na vila também havia serviços médicos, farmácia e um armazém de alimentos. Em geral, era permitido que os operários mantivessem pequenas plantações nos quintais de suas casas ou em glebas pertencentes à empresa nas imediações. A manutenção dessas áreas se dava rotineiramente pelas mulheres e esporadicamente pelos homens em horários de folga. Nas proximidades da sede existiam as melhores casas, moradias dos encarregados feitas de tijolos, coberturas de telhas e pisos de peroba rosa.

O trabalho na empresa, majoritariamente masculino, era realizado em turnos de 24 horas incluindo os fins de semana e feriados, com exceção da Sexta-feira da Paixão. Do total de 413 operários distribuídos em 28 seções da Mineração e Usina Wigg, em 1958, havia apenas 10 mulheres por exemplo. Cada seção tinha um encarregado, que era responsável por uma equipe de trabalho e a quem cabia realizar os pagamentos e definir as acomodações, entre outros assuntos.


As políticas assistências e o rígido controle e disciplina imposto pela empresa dificultaram a organização sindical e o protesto operário. Mas, eles também ocorreram. Em 1919, por exemplo, uma greve generalizada por melhores salários e condições de trabalho paralisou a mina e a Usina. O padre italiano Marcelino Braglia, responsável pela Igreja da Usina (Nossa Senhora Auxiliadora de Calastróis), procurou mediar, sem sucesso, o conflito. Outros conflitos e insatisfações, abertas ou veladas, eclodiriam ao longo da história da empresa.


Com a morte de Wigg em 1931 e, sem descendentes, sua esposa Alice da Silveira Wigg  assumiu provisoriamente os negócios. Em 1940, a empresa foi adquirida por uma nova organização acionária e teve seu nome alterado para Mineração e Usina Wigg S. A. A partir da década de 1950, o controle acionário passou à Siderúrgica Barra Mansa S. A. e nos anos 1970 para as Indústrias Votorantim, ambas de propriedade da família Ermírio de Moraes. As atividades minerárias nas áreas do patrimônio da Wigg continuaram sob novas titularidades, o que ainda hoje tem gerado a expulsão de famílias moradoras na localidade há gerações e mesmo violentas situações de conflitos socioambientais.

Embora quase nunca lembrada nos roteiros turísticos da “barroca” Ouro Preto, a Usina Wigg é um lugar de memória fundamental na história da cidade. As lembranças de seus antigos trabalhadores ainda hoje combinam recordações da violência e autoritarismo que marcaram aquelas relações de trabalho com as saudades, muitas vezes idealizadas, da vida comunitária e da solidariedade local. Na experiência da Wigg, continuada em grande medida pela Siderúrgica Barra Mansa, o mundo do trabalho era articulado de modo desigual e combinado, conjugando manutenção e superação na maneira de se trabalhar de outros tempos. Em sua vida cotidiana e na conjugação entre interiorização e resistência às formas de dominação da empresa, os trabalhadores e suas famílias apropriaram-se daquele espaço, forjaram laços e identidades, e transformaram Miguel Burnier numa vigorosa comunidade operária.

Vestígios arqueológicos da Usina Wigg em 2018.
Fotografia de Luana Campos Akinruli.


Para saber mais:

  • AKINRULI, Luana Carla Martins Campos. A desconstrução do esquecimento em contexto de conflito ambiental: arqueologia e etnografia da comunidade de Miguel Burnier, Ouro Preto, Minas Gerais. Tese de Doutorado em Antropologia, UFMG, 2018. Disponível em: http://hdl.handle.net/1843/BUBD-BCDH4A.
  • AKINRULI, Samuel Ayobami. Geoprocessamento para a análise das dinâmicas geoespaciais e temporais do patrimônio cultural do distrito de Miguel Burnier, Ouro Preto, Minas Gerais. Monografia, Especialização em Geoprocessamento, UFMG, 2017. Disponível em: http://hdl.handle.net/1843/IGCM-AX9MUT.
  • ARQUIVO PÚBLICO MINEIRO. Fundo Gerdau Açominas S. A. (1891-2007).
  • LLOYD, Reginald. Impressões do Brazil no Século Vinte. Londres: Lloyd’s Greater Britain Publishing Company Ltd., 1913.

Crédito da imagem de capa:  Vista das minas de manganês e Miguel Burner, tendo ao centro da boca da mina o proprietário Carlos Wigg. Fonte: LLOYD, 1913, p. 324.


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As marcas das experiências dos trabalhadores e trabalhadoras brasileiros estão espalhadas por inúmeros lugares da cidade e do campo. Muitos desses locais não mais existem, outros estão esquecidos, pouquíssimos são celebrados. Na batalha de memórias, os mundos do trabalho e seus lugares também são negligenciados. Nossa série Lugares de Memória dos Trabalhadores procura justamente dar visibilidade para essa “geografia social do trabalho” procurando estimular uma reflexão sobre os espaços onde vivemos e como sua história e memória são tratadas. Semanalmente, um pequeno artigo com imagens, escrito por um(a) especialista, fará uma “biografia” de espaços relevantes da história dos trabalhadores de todo o Brasil. Nossa perspectiva é ampla. São lugares de atuação política e social, de lazer, de protestos, de repressão, de rituais e de criação de sociabilidades. Estátuas, praças, ruas, cemitérios, locais de trabalho, agências estatais, sedes de organizações, entre muitos outros. Todos eles, espaços que rotineiramente ou em alguns poucos episódios marcaram a história dos trabalhadores no Brasil, em alguma região ou mesmo em uma pequena comunidade.

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