Chão de Escola #55: Os trabalhadores e as trabalhadoras na ditadura civil-militar
Claudiane Torres da Silva (professora de História da Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro

Apresentação da atividade
Segmento: Ensino Fundamental II – 9º ano
Unidade temática: Modernização, ditadura civil-militar e redemocratização: o Brasil pós 1964
Objeto de conhecimento: a ditadura civil-militar e os processos de resistência
Habilidades da BNCC:
(EF09HI19) Identificar e compreender o processo que resultou na ditadura civil-militar no Brasil e discutir a emergência de questões relacionadas à memória e à justiça sobre os casos de violação dos direitos humanos.
(EF09HI20) Discutir os processos de resistência e as propostas de reorganização da sociedade brasileira durante a ditadura civil-militar.
Duração da atividade:
| Aulas | Planejamento |
| 01 (50’) | Etapa 1: contextualização e problematização do tema |
| 02 (50’) | Etapa 2: a classe trabalhadora na década de 1960 |
| 03 (50’) | Etapa 3: a construção da memória de atuação e resistência dos trabalhadores e das trabalhadoras nos livros didáticos |
Conhecimentos prévios:
– Movimentos sociais pós 1945: a classe trabalhadora
– Governo João Goulart: a crise política que resultou no golpe de 1964
Atividade
Recursos: caderno, quadro, projetor e livro didático.
Professor(a), essa sequência didática propõe analisar a trajetória da organização dos trabalhadores e das trabalhadoras no Brasil pós 1945, percebendo como a classe trabalhadora organizada atuou momentos antes do golpe civil-militar de 1964 que deu início a 21 anos de um governo ditatorial no Brasil.Pretendemos perceber a resistência e a memória construída dessa atuação da classe trabalhadora nesse período. Começaremos problematizando o tema através de um episódio da história recente do país para estimular a reflexão dos estudantes sobre a classe trabalhadora no golpe de 1964, os impactos e resistências. Em seguida, vamos verificar no capítulo de ditadura civil-militar do livro didático. quais são os trabalhadores que aparecem e que categorias são invisibilizadas.
Etapa 1:
Professor(a), faça uma breve revisão dos temas estudados previamente, apontando como os trabalhadores e as trabalhadoras se organizaram durante a República no Brasil. É importante ressaltar que a luta por direitos trabalhistas no país é de longa data, intensificando-se na Primeira República, quando a demanda por direitos sociais no Brasil organizava a classe trabalhadora em movimentos de greves por exemplo. Nesse mesmo contexto, constituições sociais estavam sendo promulgadas em vários países do mundo colocando os trabalhadores como protagonistas nos textos constitucionais, como o caso da Alemanha, México e Itália.
Texto de apoio 1: PINHEIRO, Maria Cláudia Bucchianeri Pinheiro. A Constituição de Weimar e os direitos fundamentais sociais: A preponderância da Constituição da República Alemã de 1919 na inauguração do constitucionalismo social à luz da Constituição Mexicana de 1917.
Destaque que o governo de Getúlio Vargas deu protagonismo às questões trabalhistas e estabeleceu novas regras nos mundos do trabalho. Faça um esquema de quadro dialogado com tópicos dos principais momentos da história republicana apresentando um resumo da trajetória da classe trabalhadora no país contendo as seguintes palavras-chaves: anarquismo; sindicalismo; greves; movimento operário; classe; imigração; operariado urbano; industrialização; jornada de trabalho; trabalho feminino; trabalho infantil; associação operária; Greve geral de 1917; trabalhismo; ampliação da legislação trabalhista: abono de Natal, férias, 13º salário etc. Em seguida, projete a nuvem de palavras e peça que os estudantes sinalizem quais palavras eles associam com os mundos do trabalho. Essa relação pode revelar lacunas sobre a luta da classe trabalhadora por direitos ao longo da história.

Texto de apoio 2: Classe trabalhadora à brasileira https://outraspalavras.net/historia-e-memoria/classe-trabalhadora-a-brasileira/
Texto de apoio 3: O processo histórico de formação da classe trabalhadora https://www.scielo.br/j/eh/a/TV7Xv3xPMBGNr5FjDcbZQJD/?format=pdf&lang=pt
Atividade 1: Professor(a), após revisão da trajetória da classe trabalhadora no Brasil republicano, projete as imagens e leia os trechos dos documentos a seguir com os estudantes. Em seguida, peça que eles escrevam no caderno o que chamou mais atenção nas imagens 1 e 2, suas principais suas dúvidas e o que mais chamou atenção nos documentos. Essa etapa servirá para problematizar o tema e para analisar a construção de uma memória da classe trabalhadora visibilizada ou não nos livros didáticos e refletir sobre como direitos sociais e questões trabalhistas são pautas que atravessam períodos históricos.
Documento 1: É preciso dar um jeito, meu amigo – Paulo Fontes
“No dia 1º de setembro de 2013, em um editorial que se tornaria famoso, o jornal carioca O Globo reconheceu que seu apoio ao golpe militar de 1964 havia sido um erro. O texto foi escrito no contexto das grandes e confusas manifestações que tomavam as ruas do país naquele momento (conhecidas como “Jornadas de junho de 2013”), nas quais uma das palavras de ordem mais ouvidas era “a verdade é dura, a Globo apoiou a ditadura”. Além disso, era o período de atuação da Comissão Nacional da Verdade, instituída em 2011 pela presidenta Dilma Rousseff para investigar as graves violações contra direitos humanos ocorridas durante a ditadura.
Reconhecendo como verdadeiro o grito das ruas, o jornal justificava de forma reveladora que seu entusiasmo com a queda do governo de João Goulart era devido ao temor da instalação de uma suposta “república sindical” no país. A retórica anticomunista e a histeria conservadora que contagiava vastos setores das classes médias e altas tinham um alvo claro: o crescimento da organização de operários e de vastos setores populares nas cidades, bem como a impressionante mobilização de camponeses nas zonas rurais. O inédito espaço político conquistado por lideranças sindicais incomodava e amedrontava. O golpe de 1964 foi, antes de tudo e sobretudo, um golpe contra os trabalhadores e suas organizações.
A presença pública e as lutas por direitos dos trabalhadores brasileiros, intensas desde o final da Segunda Guerra Mundial, atingiriam seu ápice no início da década de 1960. Os sindicatos foram os principais vetores da organização popular naqueles anos. Mas tal mobilização também ocorria através de associações de moradores e espaços informais, como clubes de bairros e instituições culturais. No campo, a emergência das Ligas Camponesas, e suas demandas por uma Reforma Agrária transformadora, surpreendeu o país e colocou os trabalhadores rurais no centro do cenário político.
Trabalhistas, católicos, comunistas, entre diversas outras forças políticas, disputavam e formavam alianças no interior deste movimento. Greves, protestos e uma linguagem marcadamente nacionalista e reformista embalavam reivindicações por transformações estruturais e pela conquista de direitos desde sempre negados, como a lei do 13o salário e a sindicalização no campo. (…)” (FONTES, 2015)
Documento 2: O apoio ao golpe de 1964 foi um erro https://memoria.oglobo.globo.com/erros-e-acusacoes-falsas/apoio-ao-golpe-de-64-foi-um-erro-12695226
“Diante de qualquer reportagem ou editorial que lhes desagrade, é frequente que aqueles que se sintam contrariados lembrem que O GLOBO apoiou editorialmente o golpe militar de 1964.
A lembrança é sempre um incômodo para o jornal, mas não há como refutá-la. É História. O GLOBO, de fato, à época, concordou com a intervenção dos militares, ao lado de outros grandes jornais, como “O Estado de S. Paulo”, “Folha de S. Paulo”, “Jornal do Brasil” e o “Correio da Manhã”, para citar apenas alguns. Fez o mesmo parcela importante da população, um apoio expresso em manifestações e passeatas organizadas em Rio, São Paulo e outras capitais.
Naqueles instantes, justificavam a intervenção dos militares pelo temor de um outro golpe, a ser desfechado pelo presidente João Goulart, com amplo apoio de sindicatos — Jango era criticado por tentar instalar uma “república sindical” — e de alguns segmentos das Forças Armadas.
Na noite de 31 de março de 1964, por sinal, O GLOBO foi invadido por fuzileiros navais comandados pelo almirante Cândido Aragão, do “dispositivo militar” de Jango, como se dizia na época. O jornal não pôde circular no dia 1º. Sairia no dia seguinte, 2 de abril, quinta-feira, com o editorial impedido de ser impresso pelo almirante, “A decisão da pátria”. Na primeira página, um novo editorial: “Ressurge a Democracia”. (fac-símiles da primeira página e da página 3, da edição de 2 de abril de 1964, na galeria de páginas). 9…)” (Editorial do Jornal O Globo, 2013)
Imagem1: Sindicato é interditado pelos militares em 1964 (à esquerda) e manifestantes protestavam em frente ao prédio da Codesp (à direita) — Foto: Arquivo/A Tribuna Jornal, ver https://g1.globo.com/sp/santos-regiao/porto-mar/noticia/2024/05/22/mpf-pede-reparacao-de-danos-a-trabalhadores-portuarios-perseguidos-e-torturados-durante-a-ditadura-militar.ghtml

Imagem 2: Grupo protesta em frente ao prédio da Codesp em Santos, SP — Foto: Arquivo / A Tribuna Jornal, ver https://g1.globo.com/sp/santos-regiao/porto-mar/noticia/2024/05/22/mpf-pede-reparacao-de-danos-a-trabalhadores-portuarios-perseguidos-e-torturados-durante-a-ditadura-militar.ghtml

Etapa 2:
Professor(a), nessa aula, após a problematização da aula anterior e reflexão sobre o período da ditadura civil-militar no Brasil, vamos contextualizar historicamente quais eram as principais questões sociais e trabalhistas para a classe trabalhadora naquele momento e compreender como os trabalhadores e trabalhadoras foram alvos do regime autoritário. Para isso, vamos ver alguns vídeos que apresentam a década de 1960 no Brasil a luz das questões trabalhistas e da classe trabalhadora.
Vídeo 1: Teaser Os trabalhadores e o golpe (3’35”)
Descrição do video: “A classe trabalhadora foi um ator central na conjuntura que antecedeu o golpe militar de 1964. A presença pública e as lutas por direitos dos trabalhadores brasileiros, intensas desde o final da II Guerra Mundial, atingiriam seu ápice no início da década de 1960. O fantasma de uma “República Sindicalista” amedrontava vastos setores das elites políticas, econômicas e militares que se utilizavam de uma retórica anticomunista e conservadora para se contrapor ao crescimento da organização de operários nas cidades, bem como a impressionante mobilização de camponeses nas zonas rurais. O golpe de 1964 foi, antes de tudo e sobretudo, um golpe contra os trabalhadores e suas organizações. Nesses 60 anos do golpe, o portal do LEHMT/UFRJ convida à reflexão sobre o lugar dos mundos do trabalho neste evento decisivo para a história brasileira. A partir de 1º de abril, e nas quatro segundas-feiras seguintes do mês de abril, publicaremos cinco episódios de vídeos com entrevistas curtas com historiadores/as abordando diferentes aspectos da relação entre os trabalhadores e o golpe.” (Labuta – LEHMT/UFRJ)
Vídeo 2: Reportagem sobre livro que traz depoimentos de operários que viveram o movimento sindical nas décadas de 50, 60 e 70 (4’03’)
Descrição do video: “Conhecer a história pelo relato de quem “fez” a história. O livro “O Movimento Operário no ABC Paulista contado por seus autores” traz o depoimento de dezoito operários que viveram intensamente o movimento sindical nas décadas de 50, 60 e 70. Eles contam a repressão e a perseguição que sofreram. Cada um com uma linha política diferente, cada qual com sua ideologia, mas todos lutando por um brasil melhor e mais democrático. Um livro para conhecer o mundo e boa parte da História do Brasil pelo ponto de vista da classe trabalhadora.” (Rede TVT)
Vídeo 3: Os trabalhadores e o golpe – Ep. 01: Rodrigo Patto Motta (UFMG): Os trabalhadores e o governo Jango (15’15”)
Descrição do video: “Nesses 60 anos do golpe de 1964, o portal do LEHMT/UFRJ convida à reflexão sobre o lugar dos mundos do trabalho neste evento decisivo para a história brasileira. A partir de 1º de abril, e nas quatro segundas-feiras seguintes do mês, publicaremos cinco episódios de vídeos com entrevistas curtas com historiadores/as abordando diferentes aspectos da relação entre os trabalhadores e o golpe. Nesse primeiro episódio, Rodrigo Patto Motta (UFMG) comenta sobre o lugar dos trabalhadores e suas organizações no conturbado jogo político do governo Jango. Fala ainda sobre como as diferentes forças políticas se posicionavam em relação às crescentes demandas por reformas e direitos sociais naquela conjuntura e sobre o importante papel do anticomunismo na visão de mundo de grande parte das elites brasileiras.” Produção do LEHMT – Laboratório de Estudos da História dos Mundos do Trabalho da UFRJ
Após assistir os vídeos, deixe que os estudantes falem o que mais impressionou em cada material apresentado. Em seguida, peça que os estudantes escrevam no caderno:
a) Como os trabalhadores viviam na década de 1960 segundo os vídeos?
b) Os trabalhadores e as trabalhadoras foram alvos da ditadura civil-militar? Como eles foram impactados pelo regime autoritário?
c) É possível perceber nos vídeos alguma categoria de trabalhador específica? Quais categorias aparecem?
Etapa 3:
Professor(a), depois de duas aulas contextualizando e problematizando a história da luta da classe trabalhadora no Brasil, questões trabalhistas que perpassavam por gerações, contextos sociais extremos de trabalhadores a trabalhadoras na república brasileira e o impacto do golpe civil-militar de 1964 nas categorias de trabalhadores, vamos refletir como esses trabalhadores e trabalhadoras aparecem no capítulo de ditadura civil-militar no Brasil. Forme duplas de estudantes, distribua o livro didático de História e peça que leiam e identifiquem trechos que falem sobre os trabalhadores e trabalhadoras durante a ditadura civil-militar. Em seguida, peça para que os estudantes registrem no caderno o que encontraram e respondam:
a) Quem são os trabalhadores e trabalhadoras que aparecem no capítulo de ditadura civil-militar? Escreva os nomes e que categorias estavam inseridos, caso os(as) encontrem.
b) Aparecem trabalhadoras mulheres no capítulo? Quais?
c) Aparecem trabalhadores negros no capítulo? Quais?
d) Escreva por que alguns trabalhadores e trabalhadoras que sofreram com a ditadura não parecem nos livros didáticos?
e) É possível construir consciência de classe e memória da luta dos trabalhadores e das trabalhadoras apenas lendo o livro didático? Justifique sua resposta.
Bibliografia e Material de apoio:
FICO, Carlos. Além do golpe: versões e controvérsias sobre 1964 e a ditadura militar. Rio de Janeiro: Record, 2004.
FIGUEIREDO, Lucas. Lugar nenhum. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.
FONTE: FONTES, Paulo. É preciso dar um jeito, meu amigo. Movimento sindical e ditadura militar no Brasil (1964-1985). Phenomenal World, Análises, 15 de maio de 2025.
FORTES, Alexandre. O processo histórico de formação da classe trabalhadora: algumas considerações. Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol. 29, no 59, p. 587-606, setembro-dezembro 2016.
Relatório – Tomo I – Parte II – A Perseguição aos Trabalhadores Urbanos e ao Movimento Operário, ver https://comissaodaverdade.al.sp.gov.br/relatorio/tomo-i/downloads/I_Tomo_Parte_2_A-perseguicao-aos-trabalhadores-e-ao-Movimento-Operario.pdf
NAPOLITANO, Marcos. Recordar é vencer: as dinâmicas e vicissitudes da construção da memória sobre o regime militar brasileiro. Antíteses, v. 8, n. 15, p. 09-44, 2015.
GOMES, Angela de Castro; SILVA, Fernando Teixeira da (org.) A Justiça do Trabalho e sua história: os direitos dos trabalhadores no Brasil. Campinas: Editora Unicamp, 2013.
Créditos da imagem de capa: Depredação da sede do Sindicato dos Metalúrgicos em 1964.
Disponível em :https://pt.wikipedia.org/wiki/Ditadura_militar_brasileira#/media/Ficheiro:Depredação_do_Sindicato_dos_Metalúrgicos_–_Golpe_de_1964.tif
Chão de Escola
Nos últimos anos, novos estudos acadêmicos têm ampliado significativamente o escopo e interesses da História Social do Trabalho. De um lado, temas clássicos desse campo de estudos como sindicatos, greves e a relação dos trabalhadores com a política e o Estado ganharam novos olhares e perspectivas. De outro, os novos estudos alargaram as temáticas, a cronologia e a geografia da história do trabalho, incorporando questões de gênero, raça, trabalho não remunerado, trabalhadores e trabalhadoras de diferentes categorias e até mesmo desempregados no centro da análise e discussão sobre a trajetória dos mundos do trabalho no Brasil.
Esses avanços de pesquisa, no entanto, raramente têm sido incorporados aos livros didáticos e à rotina das professoras e professores em sala de aula. A proposta da seção Chão de Escola é justamente aproximar as pesquisas acadêmicas do campo da história social do trabalho com as práticas e discussões do ensino de História. A cada nova edição, publicaremos uma proposta de atividade didática tendo como eixo norteador algum tema relacionado às novas pesquisas da História Social do Trabalho para ser desenvolvida com estudantes da educação básica. Junto a cada atividade, indicaremos textos, vídeos, imagens e links que aprofundem o tema e auxiliem ao docente a programar a sua aula. Além disso, a seção trará divulgação de artigos, entrevistas, teses e outros materiais que dialoguem com o ensino de história e mundos do trabalho.
A seção Chão de Escola é coordenada por Claudiane Torres da Silva, Luciana Pucu Wollmann do Amaral e Samuel Oliveira.