Chão de Escola #56: Fábrica Ocupada Flaskô: a história de uma fábrica sem patrão!
Abner Luiz da Costa Ribeiro, mestre em Ensino de História pela Unicamp, professor de História da rede estadual de São Paulo e da rede municipal de Mogi Mirim

Apresentação da atividade
Segmento: 3ª série do Ensino Médio
Unidade Temática: Mundo do Trabalho
Objetivo geral: Conhecer a história de luta e resistência dos trabalhadores da Fábrica Ocupada Flaskô durante os anos de seu funcionamento.
Objetivos específicos:
– Analisar as relações de produção, capital e trabalho em diferentes territórios, contextos e culturas;
– Discutir o papel dessas relações na construção, consolidação e transformação das sociedades na contemporaneidade;
– Compreender o papel da memória dos atores sociais envolvidos na luta;
– Refletir sobre a tática da ocupação como elemento de resistência utilizada em diversos movimentos sociais.
Habilidades a serem desenvolvidas (de acordo com a BNCC).
(EM13CHS401) “Identificar e analisar as relações entre sujeitos, grupos e classes sociais diante das transformações técnicas, tecnológicas e informacionais e das novas formas de trabalho ao longo do tempo, em diferentes espaços e contextos.”
(EM13CHS403) “Caracterizar e analisar os impactos das transformações tecnológicas nas relações sociais e de trabalho próprias da contemporaneidade, promovendo ações voltadas à superação das desigualdades sociais, da opressão e da violação dos Direitos Humanos.”
| Aulas | Planejamento |
| 1 (50 min.) | Apresentando a Fábrica Ocupada Flaskô |
| 2 (50 min.) | Debate: Condição dos trabalhadores no mundo atual |
| 3 (50 min.) | Memória de trabalhadores |
| 4 (50 min.) | Ocupar é resistir: outras formas de ocupação |
Duração da atividade: 04 aulas de 50 minutos
Conhecimentos prévios:
Noções acerca da Revolução Industrial; divisão da sociedade em classes sociais (burguesia x proletariado); formas de lutas da classe operária (greves, sindicatos, dentre outras); história política do Brasil contemporâneo.
Atividade
Recursos: material impresso, documentos da Flaskô, websites, quadro, vídeos do Youtube.
Etapa 1: Apresentando a Fábrica Ocupada Flaskô
A proprosta da primeira aula abarca a leitura dirigida de uma brochura e duas histórias em quadrinhos (HQ´s) produzidas pelo setor de mobilização da Fábrica Ocupada Flaskô nos anos de ocupação. O contato direto com os materiais do Centro de Memória Operária e Popular (CEMOP) consiste em um dos principais propósitos da exposição. Antes da realização da atividade será feita uma sondagem com as seguintes perguntas:
Vocês possuem algum familiar ou amigo que trabalha em uma indústria?
Alguém conhece como é uma planta industrial?
Já tiveram contato com algum metalúrgico ou operário?
Já viram uma fábrica comandada pelos próprios trabalhadores?
Em seguida, a brochura Guia de Visita à Fábrica Ocupada Flaskô será a primeira narrativa compartilhada com os alunos. Essa brochura foi produzida no ano de 2015, relativa à comemoração dos 12 anos de ocupação sob controle operário com o objetivo de difundir a história da luta dos trabalhadores da fábrica. A estrutura da obra é dividida em duas partes: Parte 1: Entendendo a Fábrica Ocupada Flaskô e Parte 2: Entrando na Fábrica Ocupada Flaskô. No primeiro tópico, o leitor é convidado a ter o primeiro contato com a Flaskô, desde sua constituição como empresa patronal até a origem do Movimento das Fábricas Ocupadas (MFO), conforme os excertos abaixo:

A partir do excerto acima, poderá se explanar sobre o contexto da ocupação da fábrica. Diante das dificuldades, os trabalhadores da Flaskô se viam em uma situação complicada para a manutenção dos postos de emprego. Por diversos motivos, não apostavam na via cooperativa para a regularização judicial da empresa, mas reivindicavam o controle operário da produção, em que a gestão da empresa estaria na mão dos trabalhadores e solução definitiva seria a estatização. Essa pauta norteou a luta da Flaskô até seu fechamento em 2018.
A história em quadrinhos “Flaskò: uma fábrica ocupada pelos trabalhadores“, voltado principalmente para os estudantes da educação básica, mostra de uma maneira divertida e crítica a luta dos trabalhadores da fábrica. A HQ apresenta de uma forma didática as diversas dimensões de uma fábrica ocupada, como o aspecto produtivo, a esfera das tomadas de decisões dentre outros aspectos, conforme imagem abaixo.

O último documento trabalhado será a brochura Visita à Flaskô: uma fábrica ocupada pelos trabalhadores, dividido em duas partes: a primeira, com uma introdução a perguntas e respostas sobre a Flaskô e o Movimento das Fábricas Ocupadas (MFO); a segunda, é composta por uma pequena história em quadrinhos. Na segunda parte, a história em quadrinhos conta a visita de um operário comum à Fábrica Ocupada Flaskô. Diante de sua curiosidade pela trajetória do movimento, paulatinamente o visitante vai conhecendo as particularidades do caso da fábrica e revelando as principais características do processo de ocupação. O excerto abaixo corrobora essa perspectiva:

Várias dimensões podem ser trabalhadas em específico pelo professor, na sequência didática. O norte escolhido aqui será a centralidade das ações dos trabalhadores, o foco no controle operário e as especificidades de uma fábrica ocupada.
Após as leituras, serão feitas sondagens com as impressões e opiniões dos alunos sobre o tema, buscando desfazer preconceitos em relação ao termo ocupação e sanar possíveis dúvidas sobre a história da Fábrica Ocupada Flaskô.
Etapa 2: Debate sobre a condição dos trabalhadores no mundo atual
A proposta da aula é realizar, através da realidade da experiência de luta da Fábrica Ocupada Flaskô, dialogar sobre determinados aspectos da situação da classe trabalhadora e do mercado capitalista no mundo contemporâneo. Para tal, será exibido o documentário “Flaskô: donos do próprio suor”, realizado no ano de 2017, às vésperas do fechamento da fábrica. Diante do cenário de iminente término do movimento, o documentário aborda o cotidiano da Flaskô, permeado por incertezas e problemas.
Com o auxílio de especialistas em Direito e Ciências Sociais, a produção cinematográfica realiza esclarecimentos de diferentes aspectos relativos à luta da Flaskô. O professor de sociologia da Unicamp, Ricardo Antunes, explica o contexto global e específico dos trabalhadores. Em determinados momentos, o relato dos operários está no tempo verbal do passado, como em um ato falho que demonstra haver um sentimento de que a situação piorasse e levasse ao fim da experiência do controle operário na empresa.
Após a exibição do documentário, se realizará uma sondagem com as impressões dos estudantes acerca da história da Fábrica Ocupada Flaskô com as seguintes perguntas:
Como foi a realidade de uma empresa gerida pelos trabalhadores?
O que mais chamou a atenção no relato dos operários?
Quais as principais dificuldades que os trabalhadores enfrentaram?
Qual o legado que a história da Flaskô deixa?
Com o auxílio das reflexões do professor Ricardo Antunes (2008), sobre a nova morfologia do trabalho no capitalismo contemporâneo, políticas de terceirizações, privatizações, flexibilização da legislação trabalhista, perda de direitos, dentre outros elementos característicos da era neoliberal. A intenção é mostrar que mesmo com as dificuldades os trabalhadores da Fábrica Ocupada Flaskô apostavam na conquista de direitos, na carteira de trabalho assinada e no pagamento dos salários.
Etapa 3: Memória de Trabalhadores
Nesta aula, a proposta será trabalhar com a memória dos trabalhadores da Fábrica Ocupada Flaskô nos anos da ocupação. As fontes utilizadas serão as entrevistas de História Oral com os trabalhadores Osvaldo Neto (Chaolin) e Manoel Carvalho (Manu) produzidas pela pesquisa de mestrado realizada por este autor no âmbito do Mestrado Profissional em Ensino de História (PROFHISTÓRIA) da Unicamp.
Como introdução, a sugestão é trabalhar os aspectos teóricos da discussão, as semelhanças e diferenças entre a História e a Memória. A proposta da análise documental consiste em mostrar aos estudantes como é o ofício do historiador, no cuidado e interpretação das fontes. Essa experiência visa aproximar o aluno ao trabalho profissional de um historiador.
As perguntas que nortearão a análise das fontes serão as seguintes:
Como é a relação dos trabalhadores com a memória da ocupação?
Quais as impressões que os trabalhadores têm dessa memória?
Como a experiência da ocupação afetou a vida dos trabalhadores?
Quais as lembranças mais marcantes para os trabalhadores?
Manoel Carvalho, vulgo Manu, foi um dos trabalhadores que estavam na fábrica desde a época patronal e um dos aspectos que mais chamou sua atenção foi o apelo cultural que a Flaskô tinha. No relato abaixo o trabalhador nos conta como isso se dava em momentos de mobilização:
A fábrica ficou tão conhecida assim pela cultura, que nem a polícia municipal, não atacava a gente. Quando o juiz ameaçava fechar por causa dos credores, nós íamos para a cidade. Alguém chamava a polícia, quando o comando chegava, que via que era nós, eles já baixava a borda, já ia embora, por quê?[…] Nós apresentamos uma peça de teatro da paz, né, e apresentava uma linha de produção, que era um teatro, aí a polícia dava sinal pros outros, virava a viatura e falava “vambora, é a Flaskô, vambora, é a Flaskô, aí é uma luta pelo trabalho deles.
Osvaldo Neto, apelidado de Chaolin, foi para a Flaskô depois de ter se notabilizado em outras experiências de ocupação de fábricas. Atualmente mora em um casarão no terreno da empresa. Sobre o cotidiano fabril, o operário comenta sobre os afazeres que realizava ao longo da produção:
Entrei pra expedição logística, me colocaram como líder de setor. Uma área que eu não entendia muito, mas dentro de uma semana, peguei a manha direitinho e fiquei até agora como líder de logística e expedição. Tudo que chegava, eu recebia, tudo que saía, tinha que passar por minha mão. Eu contava tudo, a produção do dia, o que era industrializado no dia, tudo bonitinho, lote por lote, peça de duzentos litros, peça de cem litro, um lote aqui é de cinquenta litro, ali, de vinte e cinco aqui, tudo assim enfileirado com seus lotes separados de cada um.
Esses dois exemplos são algumas potencialidades que os relatos de História Oral proporcionam. O professor interessado pode acessar o dossiê e fazer outras escolhas, adotar outras perspectivas e vieses que mais lhe importe. O mais relevante nessa proposta é os estudantes terem contato com a memória dos trabalhadores.
Etapa 4: Ocupar é resistir: outras formas de ocupações
Nessa aula, a proposta será demonstrar como a tática da ocupação é utilizada por diversos movimentos contestatórios. Uma introdução importante deve ser feita, a diferença entre os termos invasão, que é usado pejorativamente, e ocupação. A primeira expressão é utilizada por pessoas que não veem com bons olhos essa tática, com o intuito de descredibiliza-lhes. Já o termo ocupação refere-se às formas de luta que propõe a gestão coletiva dos locais ou como forma de protesto.
Os principais movimentos de ocupação são o movimento sem-terra, o sem-teto e principalmente para os objetivos dessa aula, o movimento estudantil, em especial na ação que ocorreu no ano de 2015 nas escolas públicas estaduais paulistas, onde estudantes secundaristas ocuparam diversas escolas.
Para ilustrar a história do movimento de ocupação das escolas paulistas, propõe-se a exibição de trechos do documentário “Lute como uma menina”, disponível no Youtube. Nele são apresentadas diversas dimensões do contexto das ocupações, como seu início marcado por uma política de reestruturação da educação paulista, que levava a cabo o fechamento de diversas escolas, transferência obrigatória de alunos para outras unidades de ensino, redução do número de aulas, dentre outras.
O documentário foca nas questões de gênero dos estudantes secundaristas e o protagonismo das meninas no processo de ocupação. Ao longo do vídeo, se evidencia os dilemas do movimento, desde as iniciativas de decisão pela ocupação, passando pelos processos deliberativos, até os momentos mais tensos com a polícia. A principal proposta em abordar o movimento estudantil é para aproximar os estudantes aos diversos âmbitos das lutas sociais.
Após a exibição do documentário se realizará uma roda de conversa, com o debate acerca das impressões dos estudantes sobre a ocupação de escolas. As perguntas motrizes serão as seguintes:
Como a tática da ocupação foi utilizada pelos estudantes?
Como eles se organizavam no cotidiano da ocupação?
Como eram tomadas as decisões coletivas?
Qual era o papel das meninas no processo?
Que relações podemos estabelecer com o Movimento de Fábricas Ocupadas?
Bibliografia e Material de apoio:
VÍDEOS:
COLOMBINI, Flávio; ALONSO, Beatriz. Lute como uma menina. Youtube, 9 de novembro de 2016. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=8OCUMGHm2oAAcesso em: 10/11/2024.
ORRÚ, Drielly et al. Flaskô: donos do próprio suor. Youtube, 3 de abril de 2018. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=Lu9g8OjC4tU. Acesso em: 09/09/2024.
FONTES:
CENTRO DE MEMÓRIA OPERÁRIA E POPULAR. Flaskô: uma fábrica ocupada pelos trabalhadores. Sumaré: Editora CEMOP, s/d.
CENTRO DE MEMÓRIA OPERÁRIA E POPULAR. Guia de Visita à Fábrica Ocupada Flaskô. Sumaré: Editora CEMOP, 2015.
CENTRO DE MEMÓRIA OPERÁRIA E POPULAR. Visita à Flaskô: uma fábrica ocupada pelos trabalhadores. Sumaré: Editora CEMOP, s/d.
BIBLIOGRAFIA
DELMONDES, Camila. Flaskô: fábrica ocupada. Campinas: PUC Campinas, 2009.
Entrevista de Manoel Carvalho, concedida ao autor em 27 de abril de 2024.
Entrevista de Osvaldo Neto, concedida ao autor em 12 de junho de 2024.
NASCIMENTO, Janaina. Fábrica quebrada é fábrica ocupada. Fábrica ocupada é fábrica estatizada: a luta dos trabalhadores da Cipla e Interfibra para salvar 1000 empregos. s.1.: s. Ed., 2004.
PIMENTA, Ricardo. Retalhos de memória: lembranças de operários têxteis sobre identidade e trabalho. Jundiaí: Paco Editorial, 2012.
ROMITO, Gabriel. Flaskô: a história de uma fábrica ocupada no Brasil. São Paulo: Editora Dialética, 2021.
VERAGO, Josiane. Fábricas ocupadas e controle operário: Brasil e Argentina (2002-2010). Sumaré: Edições CEMOP, 2011.
Créditos da imagem de capa:
Chão de Escola
Nos últimos anos, novos estudos acadêmicos têm ampliado significativamente o escopo e interesses da História Social do Trabalho. De um lado, temas clássicos desse campo de estudos como sindicatos, greves e a relação dos trabalhadores com a política e o Estado ganharam novos olhares e perspectivas. De outro, os novos estudos alargaram as temáticas, a cronologia e a geografia da história do trabalho, incorporando questões de gênero, raça, trabalho não remunerado, trabalhadores e trabalhadoras de diferentes categorias e até mesmo desempregados no centro da análise e discussão sobre a trajetória dos mundos do trabalho no Brasil.
Esses avanços de pesquisa, no entanto, raramente têm sido incorporados aos livros didáticos e à rotina das professoras e professores em sala de aula. A proposta da seção Chão de Escola é justamente aproximar as pesquisas acadêmicas do campo da história social do trabalho com as práticas e discussões do ensino de História. A cada nova edição, publicaremos uma proposta de atividade didática tendo como eixo norteador algum tema relacionado às novas pesquisas da História Social do Trabalho para ser desenvolvida com estudantes da educação básica. Junto a cada atividade, indicaremos textos, vídeos, imagens e links que aprofundem o tema e auxiliem ao docente a programar a sua aula. Além disso, a seção trará divulgação de artigos, entrevistas, teses e outros materiais que dialoguem com o ensino de história e mundos do trabalho.
A seção Chão de Escola é coordenada por Claudiane Torres da Silva, Luciana Pucu Wollmann do Amaral e Samuel Oliveira.