Está no ar o quarto episódio da nova temporada do podcast Vale Mais, do LEHMT-UFRJ!
Nesta temporada, convidamos pesquisadoras e pesquisadores para discutir projetos, livros e teses recentes que aprofundam debates interdisciplinares sobre os mundos do trabalho.
Neste quarto episódio, conversamos com Itan Cruz, doutor em História pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), sobre sua tese Saraiva, Dantas e Cotegipe: baianismo, escravidão e os planos para o pós-abolição no Brasil (1880-1889). Ao longo da conversa, Itan mostra como investigou de que maneira políticos baianos, como Saraiva, Dantas e Cotegipe, influenciaram os últimos anos do cativeiro no Brasil. Entre jogos de poder, alianças improváveis e disputas internas, revelamos como o baianismo atravessou gabinetes, salões, senzalas e até as relações íntimas do Império.
Para saber mais, ouça o episódio. E não deixe de acompanhar a nova temporada do Vale Mais!
Entrevistadores: Ana Clara Tavares, Isabelle Pires, Josemberg Araújo, Larissa Farias e Thompson Clímaco Roteiro: Ana Clara Tavares, Isabelle Pires, Larissa Farias e Thompson Clímaco Produção: Ana Clara Tavares e Larissa Farias Edição: Josemberg Araújo e Thompson Clímaco Diretor da série: Thompson Clímaco Coordenadora geral do Vale Mais: Larissa Farias
Vale Mais #31: Saraiva, Dantas e Cotegipe: baianismo, escravidão e os planos para o pós-abolição no Brasil, por Itan Cruz –
Vale Mais
Está no ar o quarto episódio da nova temporada do podcast Vale Mais, do LEHMT-UFRJ!
Nesta temporada, convidamos pesquisadoras e pesquisadores para discutir projetos, livros e teses recentes que aprofundam debates interdisciplinares sobre os mundos do trabalho.
Neste quarto episódio, conversamos com Itan Cruz, doutor em História pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), sobre sua tese Saraiva, Dantas e Cotegipe: baianismo, escravidão e os planos para o pós-abolição no Brasil (1880-1889). Ao longo da conversa, Itan mostra como investigou de que maneira políticos baianos, como Saraiva, Dantas e Cotegipe, influenciaram os últimos anos do cativeiro no Brasil. Entre jogos de poder, alianças improváveis e disputas internas, revelamos como o baianismo atravessou gabinetes, salões, senzalas e até as relações íntimas do Império.
Para saber mais, ouça o episódio. E não deixe de acompanhar a nova temporada do Vale Mais!
Entrevistadores: Ana Clara Tavares, Isabelle Pires, Josemberg Araújo, Larissa Farias e Thompson Clímaco
Roteiro: Ana Clara Tavares, Isabelle Pires, Larissa Farias e Thompson Clímaco
Produção: Ana Clara Tavares e Larissa Farias
Edição: Josemberg Araújo e Thompson Clímaco
Diretor da série: Thompson Clímaco
Coordenadora geral do Vale Mais: Larissa Farias
No 53° episódio de Livros de Classe, Alex Ivo, professor do Instituto Federal da Bahia (IFBA), apresenta o livro Estado-Patrão e a Luta Operária: O Caso FNM, de José Ricardo Ramalho. Publicado em 1989, a obra analisa a experiência dos operários da antiga Fábrica Nacional de Motores, em Duque de Caxias.
Livros de Classe
Os estudantes de graduação são desafiados constantemente a elaborar uma percepção analítica sobre os diversos campos da história. Nossa série Livros de Classe procura refletir justamente sobre esse processo de formação, trazendo obras que são emblemáticas para professores/as, pesquisadores/as e atores sociais ligados à história do trabalho. Em cada episódio, um/a especialista apresenta um livro de impacto em sua trajetória, assim como a importância da obra para a história social do trabalho. Em um formato dinâmico, com vídeos de curtíssima duração, procuramos conectar estudantes a pessoas que hoje são referências nos mais diversos temas, períodos e locais nos mundos do trabalho, construindo, junto com os convidados, um mosaico de clássicos do campo.
O Tribunal Superior do Trabalho (TST) vai realizar, nessa quarta-feira, dia 13 de agosto, a cerimônia de entrega da Ordem do Mérito Judiciário do Trabalho (OMJT) de 2025. A solenidade será às 17h, no edifício-sede do Tribunal, em Brasília. Criada na década de 1970, a comenda reconhece personalidades e instituições que se destacam no exercício de suas atividades ou que contribuíram de forma relevante para a sociedade e para a Justiça do Trabalho.
O Laboratório de Estudos de História dos Mundos do Trabalho (LEHMT) da UFRJ será agraciado com a OMJT na figura de seu coordenador, Professor Paulo Fontes (IH-UFRJ). Também receberão a Ordem a Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional Claudio Santoro e o Hospital de Amor (Hospital de Câncer de Barretos). Lideranças dos três Poderes, como a Ministra de Secretaria de Relações Institucionais do Brasil, Gleise Hoffman, o presidente do Congresso Nacional, senador Davi Alcolumbre e o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Cristiano Zanin, entre outras autoridades, serão igualmente homenageadas.
Toby Boraman Pesquisador associado do Stout Research Centre, Universidade Victoria de Wellington, Nova Zelândia
Durante a onda de greves das décadas de 1960 e 1970, os chamados black bans (bloqueios negros) — em uma linguagem infeliz para os padrões atuais — foram uma forma frequente de paralisação. Eles consistiam em trabalhadores que se recusavam a realizar certos tipos de trabalho por diferentes motivos. Por exemplo, na Nova Zelândia (Aotearoa, no idioma Māori), durante os anos 1970, sindicatos impediram o comércio com o Chile (em protesto contra a ditadura de Pinochet) e com a França (em protesto contra os testes nucleares franceses no Pacífico Sul).
Os green bans (bloqueios verdes) foram um avanço inovador em relação aos black bans. Tratavam-se de paralisações políticas de cunho ecológico, iniciadas em 1970 por sindicatos de trabalhadores da construção civil na Austrália. A Federação dos Trabalhadores da Construção (Builders’ Labourers’ Federation) impôs green bans em terras em disputa, habitats naturais, edifícios e bairros operários ameaçados por empreendimentos imobiliários. Eles só o faziam após um pedido de algum grupo comunitário. Uma vez estabelecido o green ban, os trabalhadores da construção se recusavam a atuar no local. Assim, os green bans eram ao mesmo tempo uma forma de controle dos trabalhadores e de proteção ambiental. Seu sucesso notável em impedir projetos de construção caros levou à repressão. No entanto, muitos desses bans ainda são respeitados — por exemplo, eles salvaram diversos bairros históricos de Sydney.
Os green bans foram celebrados por muitos como exemplos de como os sindicatos podem realizar ações diretas bem-sucedidas em apoio a causas ambientais nesta era de mudanças climáticas, além de contestar a visão de que o movimento operário é incompatível com o ambientalismo. Embora os green bans australianos tenham ganhado certo reconhecimento internacional, os da Nova Zelândia ainda são quase desconhecidos fora do país. Em Aotearoa, os green bans também foram inovadores: tratavam-se de adaptações indígenas da prática australiana. Eles foram aplicados em apoio às reivindicações Māori por terras e áreas de pesca das quais haviam sido expulsos no final da década de 1970.
O green ban mais significativo na Nova Zelândia ocorreu em Takaparawhau/Bastion Point, Auckland, entre 1977 e 1978.
A área costeira de Takaparawhau foi o palco de um protesto Māori decisivo contra a privação de suas terras, e o green ban imposto em apoio à ocupação do local representou a mais importante paralisação de trabalhadores em solidariedade aos Māori na história do país. Foi também, talvez, um exemplo global da importância do apoio prático de sindicatos às lutas indígenas por direitos sobre a terra.
Um governo nacional agressivo, liderado pelo autoritário primeiro-ministro Robert Muldoon, decidiu transformar Takaparawhau, então uma vasta área gramada de propriedade estatal situada no alto de uma encosta, em um loteamento de luxo para moradias privadas. O terreno era valioso, com vista para o mar e próximo a algumas das residências mais ricas de Auckland. O povo indígena Ngāti Whātua e seus apoiadores então ocuparam, ou “repossuiram”, a terra, e os sindicatos impuseram um green ban em apoio.
Na década de 1840, os Ngāti Whātua haviam doado grande parte de suas terras em Auckland ao governador britânico. Eles mantiveram o território de Ōrākei (que incluía Takaparawhau) para que pudessem continuar vivendo em suas terras tradicionais. No entanto, apesar de uma decisão judicial de 1869 afirmar que o terreno de Ōrākei, com 700 acres, era inalienável, ao longo dos anos o governo colonial acabou comprando ou tomando compulsoriamente quase toda essa terra até 1951.
Em 1951, o governo expulsou de forma humilhante os Ngāti Whātua Ōrākei da pequena porção de terra que ainda lhes restava e incendiou tanto a casa de reunião comunitária quanto as residências particulares, reduzindo-as a cinzas. Joe Hawke, uma das lideranças do Grupo de Ação do Comitê Māori de Ōrākei (Ōrākei Māori Committee Action Group – ŌMCAG), que organizou a ocupação, foi expulso ainda criança junto com sua família, após a destruição de sua casa.
Em 1977, Hawke escreveu sobre Ōrākei:
restava agora apenas um quarto de acre — o urupā, ou cemitério… Hoje, em Bastion Point, os Ngāti Whātua lutam contra a divisão, pelo governo, do que é legitimamente a sua terra… Nosso povo não aceitará mais a desonra e a humilhação. Bastion Point representa a luta dos Ngāti Whātua pela devolução de seu mana [prestígio ou autoridade], honra e terra ancestral.
O green ban foi imposto antes que a ocupação passasse a impedir a chegada dos tratores ao local. Isso aconteceu após o ŌMCAG solicitar ao Conselho de Sindicatos de Auckland (Auckland Trades Council – ATC) que proibisse qualquer trabalho no terreno. O então presidente interino do ATC, Dave Clarke (do povo Te Paatu e membro do Sindicato dos Trabalhadores Marítimos), concordou com o pedido, e o green ban foi posteriormente confirmado pela Executiva completa do ATC após o retorno das férias de verão. O ATC era o órgão coordenador regional de Auckland para os sindicatos do setor privado filiados à Federação de Trabalhadores da Nova Zelândia.
Representantes do ŌMCAG então contataram com urgência os locais de trabalho que seriam responsáveis por iniciar as obras no terreno, a fim de por em prática o green ban. Foram organizadas assembleias sindicais com esses trabalhadores, incluindo fornecedores de brita e caminhoneiros, e eles votaram unanimemente a favor do ban, além da contribuição financeira para a ocupação. Os sindicatos contatados, entre eles os dos operários da construção civil e os dos motoristas, contavam com muitos membros Māori. Consequentemente, nenhuma obra foi iniciada em Takaparawhau, incluindo trabalhos de terraplanagem e infraestrutura, como a construção de estradas, por exemplo.
Em 5 de janeiro de 1977, a ocupação começou. Foi montada uma grande “cidade de barracas” (sem eletricidade ou água) para ocupar a terra. Milhares de apoiadores visitaram o local. Hortas foram plantadas, construções erguidas, e uma grande marae (casa de reunião comunitária) foi construída. Parte dos materiais de construção foi fornecida por sindicalistas. Muitos sindicalistas participaram diretamente, ou apoiaram, a ocupação.
Quatro meses após o início da ocupação, o governo ameaçou expulsar os ocupantes. Considerava os manifestantes como “invasores” e as barracas como uma “favela”. Apesar da ocupação estar desrespeitando a lei de invasão de propriedade (trespass law), o governo “teve que recuar por causa do amplo apoio popular à nossa causa”, segundo o ŌMCAG.
O comitê continuou enviando seus representantes às reuniões sindicais para obter apoio e reforçar o green ban. Após esses encontros, professores, estivadores/portuários, marítimos, ferroviários, operários da construção civil, enfermeiros, trabalhadores dos frigoríficos, entre outros, doaram dinheiro. Trabalhadores de uma cervejaria passaram a destinar semanalmente uma parte de seus salários à ocupação. No entanto, Syd Keepa, membro do sindicato dos caminhoneiros, lembra que alguns dirigentes sindicais apresentaram o green ban aos trabalhadores como uma ação contra os esforços do primeiro-ministro Muldoon, uma figura profundamente polarizadora, de “construir casas para gente rica naquele local”, a fim de contornar alguns membros do sindicato que estavam “um pouco incertos” quanto aos direitos dos Māori.
Em abril de 1978, foi concedida uma liminar para impedir que os manifestantes “invadissem, utilizassem ou ocupassem a terra” em Takaparawhau. O ŌMCAG, em um “apelo especial aos trabalhadores”, pediu que estes “defendessem Bastion Point” e “demonstrassem solidariedade de classe conosco em nossa luta… Uma agressão contra um é uma agressão contra todos!” O ATC convocou um grande piquete sindical caso uma tentativa de despejo fosse realizada. Segundo Syd Jackson, membro da Executiva do ATC e importante liderança do movimento pela soberania Māori, vários trabalhadores entraram em greve para se dirigirem rapidamente para a ocupação em solidariedade, quando surgiram ameaças de despejo.
Apesar desses chamados, em 25 de maio de 1978 o Estado desalojou à força os ocupantes e prendeu 222 pessoas. Centenas de apoiadores, incluindo sindicalistas, não conseguiram chegar a Takaparawhau, pois a polícia havia bloqueado todas as estradas da região. A ocupação durou 17 meses. Funcionários do governo, membros de um sindicato conservador do setor público que não fazia parte do ATC, furaram o green ban ao demolir as construções. O despejo de 1951 havia se repetido, apesar da resistência massiva e não violenta.
Para o ŌMCAG, o governo havia retirado sua “máscara de democracia” e revelado sua “verdadeira face de violência estatal, ao usar 600 policiais, além de membros do Exército, da Marinha e da Força Aérea… Bastion Point seria loteado para uma elite rica. “O espírito dos povos Māori e Pākehā [europeus /brancos] diante da força massiva do Estado foi formidável”. Muitos sindicalistas estavam entre os presos. As duzentas prisões representaram uma das maiores detenções em massa de manifestantes na história do país.
Sindicatos, tanto local quanto globalmente, geralmente negligenciaram as questões indígenas. O green ban em Takaparawhau foi um exemplo de aliança prática bem-sucedida entre povos indígenas e sindicatos, além de ter sido uma ação ambiental. Sua aparente derrota, devido à repressão estatal, acabou se transformando em vitória quando, após uma audiência no Tribunal de Waitangi em 1987, o governo finalmente devolveu a maior parte de Takaparawhau ao Ngāti Whātua (o terreno havia permanecido sem construções, e o green ban continuou em vigor após o despejo). Hoje, grande parte dessa terra é uma reserva pública, a Reserva Takaparawhau, “para o benefício de todos” e é gerida conjuntamente pelo Ngāti Whātua Ōrākei e pela Câmara Municipal de Auckland.
Hoje, a ocupação é celebrada como um marco histórico. Ela representou um ponto de virada em um importante renascimento Māori. Na década de 1970, os Māori já haviam perdido cerca de 95% de suas terras desde o início da colonização, por meio de guerras, confisco e compras forçadas. Takaparawhau foi uma das primeiras (embora pequenas) porções de terra a serem devolvidas aos Māori no contexto do esforço do Estado para reparar essas injustiças, que começou em meados da década de 1980 com o Tribunal de Waitangi. A ocupação abriu os olhos de muitos neozelandeses Pākehā para a natureza sistêmica e contínua da expropriação de terras e do racismo.
O green ban também foi um ponto alto da ação direta dos trabalhadores em apoio aos direitos de terra dos Māori. Os Māori (inclusive os que integravam o ŌMCAG) estavam concentrados predominantemente na classe trabalhadora de operários manuais, e frequentemente desempenhavam um papel central em muitos sindicatos considerados “militantes” e em greves. As conexões mútuas e tradições de solidariedade com outros sindicalistas, desenvolvidas ao longo da década de 1970, o período com mais greves e protestos da história do país, lançaram as bases para o green ban. Vários outros green bans também foram impostos sobre áreas tradicionais de pesca e terras alienadas na década de 1970. Mas, após as derrotas progressivas dos sindicatos e seu esvaziamento, nas décadas de 1980 e 1990, pela desindustrialização e pelo neoliberalismo, os green bans não voltaram a ser aplicados, até onde se sabe.
Sharon Hawke, ed. Takaparawhau: The People’s Story (1988)
Bastion Point: The Untold Story (1999 documentary)
Cybele Locke, Comrade: Bill Andersen, A Communist Working-Class Life (2022)
Crédito da imagem de capa: Takaparawhau, Auckland, 1978. Photo credit: Robin Morrison Estate, Auckland Museum, Tāmaki Paenga Hira.
Lugares de Memória dos Trabalhadores
As marcas das experiências dos trabalhadores e trabalhadoras brasileiros estão espalhadas por inúmeros lugares da cidade e do campo. Muitos desses locais não mais existem, outros estão esquecidos, pouquíssimos são celebrados. Na batalha de memórias, os mundos do trabalho e seus lugares também são negligenciados. Nossa série Lugares de Memória dos Trabalhadores procura justamente dar visibilidade para essa “geografia social do trabalho” procurando estimular uma reflexão sobre os espaços onde vivemos e como sua história e memória são tratadas. Mensalmente, um pequeno artigo com imagens, escrito por um(a) especialista, fará uma “biografia” de espaços relevantes da história dos trabalhadores de todo o Brasil. Nossa perspectiva é ampla. São lugares de atuação política e social, de lazer, de protestos, de repressão, de rituais e de criação de sociabilidades. Estátuas, praças, ruas, cemitérios, locais de trabalho, agências estatais, sedes de organizações, entre muitos outros. Todos eles, espaços que rotineiramente ou em alguns poucos episódios marcaram a história dos trabalhadores no Brasil, em alguma região ou mesmo em uma pequena comunidade.
A seção Lugares de Memória dos Trabalhadores é coordenada por Paulo Fontes.
Nesta temporada, convidamos pesquisadoras e pesquisadores para discutir projetos, livros e teses recentes que aprofundam debates interdisciplinares sobre os mundos do trabalho.
No terceiro episódio, conversamos com Thayara de Lima, doutora em Educação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e autora do livro A cultura de luta antirracista e o movimento negro do século 21 (2024). A obra propõe o conceito de “cultura de luta antirracista” e discute as noções de fragmentação, capilarização e descentralização do movimento negro. A autora destaca, ainda, o papel das mulheres negras como protagonistas de um processo de reeducação social. Para saber mais, ouça o episódio aqui. E não deixe de acompanhar a nova temporada do Vale Mais!
No 52° episódio de Livros de Classe, Glaucia Konrad, professora da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), apresenta o livro Mulheres e trabalhadoras: A presença feminina na constituição do sistema fabril, de Maria Valéria Pena. Publicado em 1981, o livro é resultado da tese de doutorado da autora e analisa o trabalho feminino entre 1850 e 1950.
Livros de Classe
Os estudantes de graduação são desafiados constantemente a elaborar uma percepção analítica sobre os diversos campos da história. Nossa série Livros de Classe procura refletir justamente sobre esse processo de formação, trazendo obras que são emblemáticas para professores/as, pesquisadores/as e atores sociais ligados à história do trabalho. Em cada episódio, um/a especialista apresenta um livro de impacto em sua trajetória, assim como a importância da obra para a história social do trabalho. Em um formato dinâmico, com vídeos de curtíssima duração, procuramos conectar estudantes a pessoas que hoje são referências nos mais diversos temas, períodos e locais nos mundos do trabalho, construindo, junto com os convidados, um mosaico de clássicos do campo.
Márcio Romerito da Silva Arcoverde (Professor do Colégio Agrícola Dom Agostinho Ikas da UFRPE e Doutorando em História pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro)
Apresentação da atividade
Segmento: Docente da Educação Básica
Unidade Temática: Ensino de História; História Pública
Atividade
Conheça o CdE: Trabalhadores Docentes no Chão de Escola
Márcio Romerito da Silva Arcoverde, professor do Colégio Agrícola Dom Agostinho Ikas (UFRPE) e doutorando em História pela PUC-Rio, convida você a conhecer o Chão de Escola (CdE), seção de História Pública do LEHMT/UFRJ dedicada a levar a História Social do Trabalho para dentro da sala de aula.
Desde 2020, o CdE já disponibilizou, no site do LEHMT, 46 publicações — entre sequências didáticas e entrevistas — oferecendo a estudantes da educação básica ferramentas para construírem uma visão crítica sobre o mundo do trabalho, em diálogo com a BNCC e o ensino de História. Esses materiais gratuitos, prontos para uso em diferentes segmentos e alinhados às novas abordagens historiográficas, colocam trabalhadoras e trabalhadores no centro das narrativas.
Se você é professor(a) e produz atividades nessa perspectiva, envie sua sequência didática e fortaleça essa rede de troca e criação coletiva.
Para entrar em contato com a equipe do Chão de Escola, utilize o e-mail: cdelehmt@gmail.com
Chão de Escola
Nos últimos anos, novos estudos acadêmicos têm ampliado significativamente o escopo e interesses da História Social do Trabalho. De um lado, temas clássicos desse campo de estudos como sindicatos, greves e a relação dos trabalhadores com a política e o Estado ganharam novos olhares e perspectivas. De outro, os novos estudos alargaram as temáticas, a cronologia e a geografia da história do trabalho, incorporando questões de gênero, raça, trabalho não remunerado, trabalhadores e trabalhadoras de diferentes categorias e até mesmo desempregados no centro da análise e discussão sobre a trajetória dos mundos do trabalho no Brasil. Esses avanços de pesquisa, no entanto, raramente têm sido incorporados aos livros didáticos e à rotina das professoras e professores em sala de aula. A proposta da seção Chão de Escola é justamente aproximar as pesquisas acadêmicas do campo da história social do trabalho com as práticas e discussões do ensino de História. A cada nova edição, publicaremos uma proposta de atividade didática tendo como eixo norteador algum tema relacionado às novas pesquisas da História Social do Trabalho para ser desenvolvida com estudantes da educação básica. Junto a cada atividade, indicaremos textos, vídeos, imagens e links que aprofundem o tema e auxiliem ao docente a programar a sua aula. Além disso, a seção trará divulgação de artigos, entrevistas, teses e outros materiais que dialoguem com o ensino de história e mundos do trabalho.
Está no ar o segundo episódio da nova temporada do podcast Vale Mais, do LEHMT-UFRJ!
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No segundo episódio, conversamos com Alexandre Fortes, professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro e autor do livro The Second World War and the Rise of Mass Nationalism in Brazil (2024). A obra propõe um reexame da história do Brasil nas décadas de 1930 e 1940 a partir de diálogos com as novas perspectivas historiográficas internacionais sobre a Segunda Guerra Mundial. Fortes ressalta a efervescência econômica para suprir as necessidades do conflito global. Nesse contexto, a classe trabalhadora esteve no centro das lutas pela redemocratização, justamente por conta de sua experiência no processo de esforço de guerra e das ambiguidades decorrentes da intensificação da superexploração do trabalho, da derrota do nazifascismo e da perspectiva de “descontar o cheque patriótico”. Nesse sentido, a guerra e a ação dos trabalhadores foram fundamentais para redefinir noções de classe, raça e nação. Para saber mais sobre esse assunto, ouça o episódio!
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Entrevistadores: Ana Clara Tavares, Isabelle Pires, Josemberg Araújo, Larissa Farias e Thompson Clímaco Roteiro: Ana Clara Tavares, Isabelle Pires, Larissa Farias e Thompson Clímaco Produção: Ana Clara Tavares e Larissa Farias Edição: Josemberg Araújo e Thompson Clímaco Diretor da série: Thompson Clímaco Coordenadora geral do Vale Mais: Larissa Farias
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Nesta temporada, convidamos pesquisadoras e pesquisadores para discutir projetos, livros e teses recentes que aprofundam debates interdisciplinares sobre os mundos do trabalho.
Neste quarto episódio, conversamos com Itan Cruz, doutor em História pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), sobre sua tese Saraiva, Dantas e Cotegipe: baianismo, escravidão e os planos para o pós-abolição no Brasil (1880-1889). Ao longo da conversa, Itan mostra como investigou de que maneira políticos baianos, como Saraiva, Dantas e Cotegipe, influenciaram os últimos anos do cativeiro no Brasil. Entre jogos de poder, alianças improváveis e disputas internas, revelamos como o baianismo atravessou gabinetes, salões, senzalas e até as relações íntimas do Império.
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Roteiro: Ana Clara Tavares, Isabelle Pires, Larissa Farias e Thompson Clímaco
Produção: Ana Clara Tavares e Larissa Farias
Edição: Josemberg Araújo e Thompson Clímaco
Diretor da série: Thompson Clímaco
Coordenadora geral do Vale Mais: Larissa Farias
ERRATA: O professor se refere, em certo momento, a “janeiro de 1941”, mas o correto é janeiro de 1942, quando começam as transmissões de rádio do Marcondes Filho, coincidindo com a ruptura do Brasil com o Eixo.
Neste episódio de Livros de Classe, Flávia Veras, professora do Instituto Federal do Pará (IFPA), apresenta o livro “Que tenhas teu corpo”: Uma história social da prostituição no Rio de Janeiro das primeiras décadas republicanas, de Cristiana Schettini. Publicado inicialmente em 2006, o livro conta com uma segunda edição, disponível gratuitamente no site da CECULT-Unicamp.
Livros de Classe
Os estudantes de graduação são desafiados constantemente a elaborar uma percepção analítica sobre os diversos campos da história. Nossa série Livros de Classe procura refletir justamente sobre esse processo de formação, trazendo obras que são emblemáticas para professores/as, pesquisadores/as e atores sociais ligados à história do trabalho. Em cada episódio, um/a especialista apresenta um livro de impacto em sua trajetória, assim como a importância da obra para a história social do trabalho. Em um formato dinâmico, com vídeos de curtíssima duração, procuramos conectar estudantes a pessoas que hoje são referências nos mais diversos temas, períodos e locais nos mundos do trabalho, construindo, junto com os convidados, um mosaico de clássicos do campo.
Stefan Berger Professor de História Social e Diretor do Instituto para Movimentos Sociais da Ruhr-Universitaet Bochum
Em 2001, o complexo da mina de carvão Zollverein, incluindo a coqueria, recebeu o status de Patrimônio Mundial da UNESCO — na época, um dos poucos sítios de patrimônio industrial a receber essa distinção máxima. Nos últimos quinze anos, o complexo tem sido a joia da coroa do patrimônio formado pela paisagem industrial no vale do Ruhr, na Alemanha, que dificilmente encontra paralelo em qualquer outra parte do mundo. Dezenas de minas de carvão, siderúrgicas, montes de resíduos, canais, conjuntos habitacionais operários e outras formas materiais e imateriais de patrimônio industrial constituem a base de uma paisagem da memória que está ligada não tanto à história da classe trabalhadora da região, mas sim às suas duas indústrias dominantes — o carvão e o aço, respectivamente.
Zollverein foi fundada em 1847, bem ao lado da linha ferroviária construída no mesmo ano, o que garantia o transporte eficiente de carvão. Uma coqueria foi adicionada em 1866. A mina foi continuamente expandida antes da Primeira Guerra Mundial, e sua capacidade de produção atingiu um novo patamar durante o período, com 2,5 milhões de toneladas de carvão produzidas anualmente. No final dos anos 1920, eram produzidas 12.000 toneladas de carvão por dia, e a Zollverein havia se tornado uma das mais modernas e maiores minas do mundo. Seu design em estilo Bauhaus também lhe garantiu o apelido de “a mina mais bonita do mundo”. Quase milagrosamente, sobreviveu quase ilesa aos pesados bombardeios do Ruhr durante a Segunda Guerra Mundial e, em 1953, já era novamente a mina mais produtiva do Ruhr e de toda a Alemanha Ocidental, com uma produção anual de 2,4 milhões de toneladas de carvão.
A crise do carvão após 1959 levou a uma redução gradual da capacidade da Zollverein, até seu fechamento em 1986. A coqueria sobreviveu até 1993. Já protegida como patrimônio desde os anos 1980, o local onde, em seu auge, milhares de mineiros trabalharam arduamente, transformou-se em um espaço de patrimônio industrial gerido pela Fundação Zollverein. O Museu do Ruhr, principal museu regional da área do Ruhr, instalou-se na antiga unidade de lavagem de carvão da mina em 2010. Atualmente, cerca de 700.000 visitantes, muitos deles estrangeiros, visitam o museu e o território da antiga mina, onde podem escolher entre uma ampla variedade de visitas guiadas.
O que os visitantes do complexo de Zollverein e de centenas de outros sítios semelhantes aprendem é, acima de tudo, uma história sobre poder econômico, progresso tecnológico, engenhosidade de engenheiros e empreendedores, e sim, os trabalhadores que operavam as minas e forjas também são mencionados, mas como exatamente eles são representados?
Os mineiros de carvão chegaram antes dos trabalhadores das usinas siderúrgicas, e sua história inicial, que remonta ao início da era moderna, recebe bastante atenção. A história dos mineiros de carvão no Ruhr está intimamente ligada ao Estado prussiano, que assumiu o controle da região após as Guerras Napoleônicas. Como funcionários do Estado prussiano, gozavam de um status elevado como profissionais respeitados, com jornada de trabalho de oito horas, salários decentes e condições de trabalho razoáveis. Em troca, eram súditos leais à coroa prussiana. Com a privatização das minas e a liberalização da economia a partir dos anos 1860, os mineiros passaram a enfrentar as incertezas do mercado e viram suas condições de trabalho e salários piorarem, assim como seu status geral na sociedade. Visto que seus apelos ao rei não eram atendidos, eles passaram, com certo atraso, a organizar seus próprios interesses por meio da criação de sindicatos. No entanto, os donos das minas no vale do Ruhr eram absolutamente contrários à sindicalização e faziam de tudo, geralmente com o apoio das autoridades, para manter suas posições de “senhores em sua própria casa”. Assim, foi apenas após mais uma greve fracassada, em 1889, que os mineiros conseguiram fundar uma organização sindical permanente, o chamado Alter Verband. Contudo, os mineiros logo se dividiram ideologicamente entre social-democratas, católicos e até mesmo um pequeno sindicato polonês, que organizava os numerosos mineiros de língua polonesa que haviam migrado para o vale do Ruhr em busca de melhores condições de vida e ali enfrentavam forte discriminação.
A história dos trabalhadores das siderúrgicas é ligeiramente diferente: eles nunca gozaram do tipo de proteção estatal que os mineiros desfrutaram antes da plena ascensão do capitalismo liberal nas décadas de 1860 e 1870. Eles formaram sua primeira organização sindical permanente quase ao mesmo tempo que os mineiros, em 1891. Após o fim das Leis Antissocialistas na Alemanha, em 1890, que haviam reprimido severamente todas as organizações socialistas, os movimentos sindicais prosperaram em geral durante os anos de 1890. No entanto, eles, em grande parte, falharam, especialmente no setor de carvão e aço, em levar os empregadores à mesa de negociações. Estes últimos, porém, não apenas fecharam fileiras contra os sindicatos e buscaram reprimi-los. Eles também tentaram vincular a lealdade dos trabalhadores às suas respectivas empresas, oferecendo a eles uma gama de benefícios e recompensas, incluindo boas moradias, seguros contra acidentes e doenças, planos de aposentadoria, hospitais da empresa, lojas de alimentos subsidiadas, entre outros. As indústrias Krupp, no Ruhr, foi um dos principais exemplos de paternalismo empresarial na Alemanha Imperial. Seus proprietários orgulhavam-se de cuidar de seus trabalhadores em troca da lealdade destes à empresa.
Sob essas condições, não surpreende saber que os Social-Democratas, durante muito tempo, não conseguiram se tornar a força política dominante na região do Ruhr. O Catolicismo Social e o Liberalismo Nacional eram ambos mais influentes, sendo o primeiro especialmente forte entre os trabalhadores católicos da região. Além disso, o extraordinário sucesso econômico da Alemanha Imperial não deixou os trabalhadores alemães indiferentes. Eles começaram a se sentir fortemente alemães no novo Estado-nação, tanto que, após o início da Primeira Guerra Mundial, a grande maioria deles se sentiu incapaz de se opor ao conflito. Até mesmo os Social-Democratas votaram unânimes a favor da guerra no Reichstag alemão em setembro de 1914.
Especialmente no Museu do Ruhr, os visitantes aprendem muito sobre os desdobramentos políticos ligados à história da classe trabalhadora. Assim, descobrem que os Social-Democratas, muito antes de 1914, já estavam divididos quanto ao caminho político a ser seguido — reformista e gradualista ou revolucionário. A guerra logo aprofundou essas divisões, o que acabou levando à cisão do partido. No Ruhr, tanto os Social-Democratas Majoritários (de orientação reformista) quanto os Social-Democratas Independentes (mais revolucionários) tinham seus redutos em diferentes cidades da região. Quando a Revolução Alemã de 1918 pôs fim ao derrotado Império Alemão, ambos os partidos formaram um governo de unidade, que, no entanto, não durou. Quando a ala à esquerda dos Socialistas Independentes, juntamente com outros grupos radicais minoritários, fundaram o Partido Comunista da Alemanha em janeiro de 1919, ele quase não tinha apoio entre os trabalhadores do Ruhr — mas isso mudaria rapidamente.
Se a insurreição comunista do início de 1919 se concentrou em Berlim, onde também foi derrotada, foi o Ruhr que assumiu o centro do palco nos acontecimentos revolucionários de 1920. Após o Kapp Putsch, um golpe da direita, contra a jovem República de Weimar, formou-se na região o chamado “Exército Vermelho do Ruhr”, à medida que os trabalhadores se armaram e buscaram não apenas defender a república contra a direita, mas também empurrá-la mais na direção de uma república social, já que muitos estavam decepcionados com os ganhos limitados proporcionados pela Alemanha republicana. No entanto, a desunião dentro das fileiras do Exército Vermelho do Ruhr e a brutal repressão imposta por paramilitares de direita a serviço da recém-estabelecida república transformaram o “Vermelho do Ruhr” e a chamada “luta do Ruhr” apenas em um episódio da história inicial da República de Weimar — ainda que seja, sem dúvida, um evento sobre o qual aprendemos em locais como o Museu do Ruhr.
Contudo, a história principal logo retorna à trajetória econômica da Alemanha e o papel das indústrias de mineração e siderurgia do Ruhr em impulsionar esse processo. Com a estabilização da república entre 1924 e 1928, parecia que a Alemanha se recuperaria rapidamente da catástrofe que foi a Primeira Guerra Mundial. Zollverein foi modernizada para se tornar uma das maiores e mais modernas minas de carvão do mundo. Isso sinalizava ao mundo que a Alemanha estava de volta como uma das principais economias do mundo. Seu nome patriótico — a união aduaneira alemã (Zollverein), amplamente vista como precursora da unificação alemã em 1871 — parecia ideal para representar essa ascensão das cinzas. No entanto, a Grande Depressão pôs fim a essas esperanças, já que os trabalhadores alemães no Ruhr e em outras partes do país foram os mais atingidos pelo desemprego em massa que acompanhou a pior recessão da história global do século XX.
A ascensão dos nazistas na Alemanha não é ignorada pelo patrimônio da paisagem industrial do Ruhr. Os visitantes aprendem que isso não pode ser reduzido a um resultado da crise econômica, mas que ela certamente foi um fator contribuidor. No entanto, os nazistas sabiam que muitos trabalhadores não estavam convencidos por seu novo regime. Os meios sociais-democratas e católicos foram alguns dos mais resistentes às investidas dos nazistas. O Partido Comunista Alemão havia se tornado o partido comunista mais forte fora da União Soviética nos anos de 1920 e início de 1930. Tudo isso explica por que os Nacional-Socialistas no governo iniciaram uma ofensiva de conquista deliberada voltada aos trabalhadores, especialmente em regiões industriais como o Ruhr e em cidades claramente “vermelhas” como Berlim. Embora essa ofensiva, caracterizada por um bem estar (welfare) racializado e por várias vantagens prometidas aos trabalhadores – de carros populares até férias baratas – tenha sido acompanhada desde o início por terror contra todos aqueles que resistiam aos nazistas, há evidências consideráveis de que o ideal da Volksgemeinschaft (Comunidade Nacional) se mostrou atraente para muitos trabalhadores, incluindo os do Ruhr.
Após outra guerra mundial perdida, com os nazistas derrotados, a região do Ruhr voltou a ser central para permitir que a ascensão econômica da Alemanha se tornasse um motor fundamental para uma história de sucesso europeia, que é a mensagem central da narrativa do patrimônio industrial na Zollverein e no Ruhr de maneira mais geral. A região do Ruhr também foi a razão para a formação da Comunidade Europeia do Carvão e do Aço, a origem da atual União Europeia. Assim, uma história importante que o patrimônio industrial do Ruhr conta é a de um triunfo: sem o Ruhr, não haveria a ascensão da Alemanha para se tornar a economia mais forte da Europa pouco antes da Primeira Guerra Mundial; sem o Ruhr, não haveria uma ascensão semelhante à fênix das cinzas da Primeira e da Segunda Guerra Mundial e, sem o Ruhr, não haveria União Europeia. O orgulho regional se combina com o orgulho nacional nessa narrativa.
No que diz respeito a sorte dos trabalhadores alemães, a nova reconfiguração das relações industriais significou o estabelecimento de um corporativismo que deu aos sindicatos uma voz importante na administração das empresas. Os conselhos se tornaram instituições poderosas dentro das empresas, com forte representação de sindicalistas nos conselhos administrativos. A democracia no local de trabalho deveria acompanhar a democracia política da República Federal, e um espírito de parceria social entre o capital e o trabalho que beneficiaria ambos. Assim, a história conta que a Alemanha encontrou a fórmula que permitiu à sua economia nacional se tornar uma das mais bem-sucedidas do mundo, com os trabalhadores recebendo sua parte da prosperidade.
Em nenhum lugar a democracia industrial foi mais forte do que na região do Ruhr, onde as autoridades britânicas de ocupação já haviam estabelecido a representação igualitária de trabalhadores e gestão nos conselhos administrativos das indústrias de carvão e aço da região em 1947.
Embora haja preocupação já há alguns anos sobre o crescente número de empregadores que estão deixando o modelo de parceria social e cogestão, e embora os sindicatos sem dúvida tenham se tornado mais fracos, eles continuam sendo organizações poderosas na sociedade alemã, com forte influência sobre a Social-Democracia e a Democracia-Cristã. No que diz respeito à história dos trabalhadores contada em locais como Zollverein, o que é enfatizado é que, no Ruhr, sindicatos, junto com empregadores e o Estado tiveram sucesso em coordenar uma transição do carvão e do aço que não foi apenas ambientalmente sustentável, mas também socialmente justa. Hoje, o Ruhr é uma das regiões mais pobres da Alemanha, mas não se transformou em um “cinturão da ferrugem” alemão. Em comparação com outras regiões do Norte Global dependentes de carvão e aço, o Ruhr foi relativamente bem-sucedido em se reinventar, diversificando sua base industrial e mudando para uma economia voltada para o setor de serviços. Assim, encontramos nesta narrativa outro triunfo — desta vez, o sucesso em lidar com a desindustrialização, sem deixar os trabalhadores para trás, mas protegendo-os das incertezas do mercado livre.
Aqui, forneci um resumo da principal narrativa que os visitantes encontram sobre os trabalhadores do Ruhr quando visitam o complexo Zollverein, especialmente o excelente Museu do Ruhr, localizado na antiga unidade de lavagem de carvão do complexo, e em muitos outros locais do patrimônio industrial da região. Podemos resumir essa narrativa a um duplo sucesso — o da industrialização e o da desindustrialização. No entanto, essa narrativa da memória tem falhado em impedir o avanço do populismo de direita, que tem conquistado apoio substancial entre a classe trabalhadora branca do Ruhr. O Alternative für Deutschland (AfD, Alternativa Para a Alemanha) tem um de seus mais fortes redutos na região do Ruhr. Em Gelsenkirchen, o partido até se tornou a maior força nas recentes eleições gerais do país, em fevereiro de 2025, superando pela primeira vez os Social-Democratas, que haviam detido maiorias nesta cidade desde o fim da Segunda Guerra Mundial.
O sucesso do AfD sinaliza que grandes setores da classe trabalhadora alemã, não apenas no Ruhr, consideram a narrativa do “duplo triunfo” não convincente. Ao contrário, eles sentem que seus sucessos arduamente conquistados na antiga República Federal estão ameaçados e que sua posição social está se deteriorando. E, nessa situação, a narrativa triunfalista do patrimônio industrial soa vazia e sem sentido. Portanto, as forças progressistas na política do Ruhr terão que repensar como reformular sua principal história sobre o passado, para que seja mais convincente no presente e recupere o futuro. A alternativa seria horrível: a ascensão de uma nova direita populista na Alemanha, quase cem anos após o sucesso dos Nazistas.
Museu do Ruhr em Zollverein atualmente.Imagem: Zollverein Foundation.
Tradução: Yasmin Getirana
Para saber mais:
Stefan Berger, ‘Industrial Heritage and the Ambiguities of Nostalgia for an Industrial Past in the Ruhr Valley, Germany’, Labor: Studies in Working Class History 16:1 (2019), pp. 37 – 64.
Stefan Berger, Christian Wicke Umimaginário pós-industrial? A popularização do patrimônio industrial no Ruhr e a representação de sua identidade regional, Estudos Históricos, vol. 7, n. 24, 2014.
Stiftung Zollverein (ed.), The Zollverein World Heritage Site: the Past and Present History of the Zollverein Mining Complex and Coking Plant. Essen: Klartext, 2008.
Bart Zwegers, ‘Zeche Zollverein: from Eyescore to Eyecatcher‘, in: idem, Cultural Heritage in Transition: a Multi-Level Perspective on World Heritage in Germany and the United Kingdom, 1970 – 2000, Cham: Springer, 2022, pp. 131 – 156.
As marcas das experiências dos trabalhadores e trabalhadoras brasileiros estão espalhadas por inúmeros lugares da cidade e do campo. Muitos desses locais não mais existem, outros estão esquecidos, pouquíssimos são celebrados. Na batalha de memórias, os mundos do trabalho e seus lugares também são negligenciados. Nossa série Lugares de Memória dos Trabalhadores procura justamente dar visibilidade para essa “geografia social do trabalho” procurando estimular uma reflexão sobre os espaços onde vivemos e como sua história e memória são tratadas. Mensalmente, um pequeno artigo com imagens, escrito por um(a) especialista, fará uma “biografia” de espaços relevantes da história dos trabalhadores de todo o Brasil. Nossa perspectiva é ampla. São lugares de atuação política e social, de lazer, de protestos, de repressão, de rituais e de criação de sociabilidades. Estátuas, praças, ruas, cemitérios, locais de trabalho, agências estatais, sedes de organizações, entre muitos outros. Todos eles, espaços que rotineiramente ou em alguns poucos episódios marcaram a história dos trabalhadores no Brasil, em alguma região ou mesmo em uma pequena comunidade.
A seção Lugares de Memória dos Trabalhadores é coordenada por Paulo Fontes.
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