Está no ar mais um episódio do Vale Mais, o podcast do LEHMT-UFRJ.
Nesta temporada, continuamos convidando pesquisadoras e pesquisadores para discutir projetos, livros e teses recentes que aprofundam debates interdisciplinares sobre os mundos do trabalho.
Neste episódio, conversamos com Julimar Mora Silva, professora da Universidade Federal Fluminense (UFF), sobre sua tese “Cosmopolitas do Terceiro Mundo: Redes Laborais, Comunicação Militante e Culturas Transnacionais de Solidariedade entre Moçambique e o Brasil durante a Guerra Fria (1970-1980)”, defendida em 2025. A tese recebeu o Premio Anual de Investigación en Estudios sobre África, da Universidad Nacional Autónoma de México e Menção Honrosa no Prêmio CAPES de Tese 2026. Entre outros tópicos, Julimar apresentou as interseções entre mobilidade laboral, internacionalismo proletário e dinâmicas pós-coloniais que mapeou em sua tese.
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Entrevistadores: Ana Clara Tavares, Isabelle Pires, Josemberg Araújo, Larissa Farias e Thompson Clímaco Roteiro: Ana Clara Tavares, Isabelle Pires, Josemberg Araújo, Larissa Farias e Thompson Clímaco Produção: Ana Clara Tavares e Larissa Farias Edição: Josemberg Araújo e Thompson Clímaco Diretor da série: Thompson Clímaco Coordenadora geral do Vale Mais: Larissa Farias
Vale Mais #37: COSMOPOLITAS DO TERCEIRO MUNDO: Redes laborais, comunicação militante e culturas transnacionais de solidariedade entre Moçambique e o Brasil no final da Guerra Fria (1970-1980), por Julimar Mora –
Vale Mais
Está no ar mais um episódio do Vale Mais, o podcast do LEHMT-UFRJ.
Nesta temporada, continuamos convidando pesquisadoras e pesquisadores para discutir projetos, livros e teses recentes que aprofundam debates interdisciplinares sobre os mundos do trabalho.
Neste episódio, conversamos com Julimar Mora Silva, professora da Universidade Federal Fluminense (UFF), sobre sua tese "Cosmopolitas do Terceiro Mundo: Redes Laborais, Comunicação Militante e Culturas Transnacionais de Solidariedade entre Moçambique e o Brasil durante a Guerra Fria (1970-1980)", defendida em 2025. A tese recebeu o Premio Anual de Investigación en Estudios sobre África, da Universidad Nacional Autónoma de México e Menção Honrosa no Prêmio CAPES de Tese 2026. Entre outros tópicos, Julimar apresentou as interseções entre mobilidade laboral, internacionalismo proletário e dinâmicas pós-coloniais que mapeou em sua tese.
Entrevistadores: Ana Clara Tavares, Isabelle Pires, Josemberg Araújo, Larissa Farias e Thompson Clímaco
Roteiro: Ana Clara Tavares, Isabelle Pires, Josemberg Araújo, Larissa Farias e Thompson Clímaco
Produção: Ana Clara Tavares e Larissa Farias
Edição: Josemberg Araújo e Thompson Clímaco
Diretor da série: Thompson Clímaco
Coordenadora geral do Vale Mais: Larissa Farias
O governo da Unidade Popular (1970-1973) representou um momento de imensa intensidade política e social. A chegada de Salvador Allende à presidência permitiu que amplos setores populares considerassem a possibilidade de transformar a ordem existente. Processos como a reforma agrária e as ocupações de terra se aceleraram, ao mesmo tempo em que surgiam novas formas de organização populares. Entre elas, se destacaram as Juntas de Abastecimento e Controle de Preços (JAP) e os Cordones Industriais, que, em meio à ofensiva empresarial, coordenaram a defesa da produção e promoveram formas de controle operário. Nessas experiências se expressou o que o historiador Peter Winn denominou uma “revolução desde baixo”.
Uma de suas expressões mais significativas desse processo revolucionário “desde baixo” teve lugar no sudoeste da Grande Santiago. O Cordón Cerrillos-Maipú compreendia crescimento industrial, organização sindical e fortes carências urbanas. No início dos anos 1970, estimava-se que cerca de 46 mil trabalhadores estavam distribuídos em aproximadamente 250 indústrias, entre elas a Perlak, FENSA, CIC, Fantuzzi e Polycron. A organização sindical também crescia com rapidez: cerca de um quinto dos sindicatos da zona havia se formado entre 1971 e 1972. O Cordón se estendia, além disso, sobre um território onde cidade e campo ainda se misturavam, e das zonas rurais próximas vinham trabalhadores e produtos que abasteciam Santiago.
Em 1972, essas mobilizações passaram a se articular de forma mais ampla no território. No primeiro semestre aumentaram os protestos por melhorias em transporte, saúde, moradia e outros problemas urbanos. Marchas e bloqueios confluíram em um Cabildo Abierto (uma assembleia aberta) que congregou entre 300 e 400 pessoas de sindicatos, acampamentos, organizações camponesas e juntas de vizinhos. Ali surgiu a ideia de criar um Comando Comunal para coordenar as organizações do território, aproximando o mundo das fábricas de pobladores (moradores de bairros populares) e camponeses. A mobilização também crescia nos locais de trabalho. Durante 1972 foram registradas 63 greves na região: 55 industriais e 8 rurais.
Em junho, as mobilizações na Perlak, Polycron e Aluminios El Mono, entre outras indústrias, marcaram um novo momento. Várias greves e ocupações começaram a coincidir, enquanto aumentavam as reuniões entre trabalhadores de diferentes empresas. Desse processo surgiu o Comando Coordenador das Lutas dos Trabalhadores de Cerrillos-Maipú, que em poucas semanas juntou mais de vinte indústrias. Parte dos conflitos se vinculava à demanda de incorporar fábricas à Área de Propriedade Social (APS), um setor da economia que o governo buscava colocar sob controle estatal. No final de junho, parte dos trabalhadores fechou os acessos à comuna, o que levou o ministro da Economia a decretar a intervenção em algumas indústrias em conflito. A pressão exercida conseguia, assim, incidir sobre as decisões do governo, e os conflitos começavam a encontrar respostas em escala nacional.
Essas dinâmicas antecipavam várias características dos Cordones industriais: a coordenação entre fábricas, as assembleias de delegados e ações que iam além dos conflitos trabalhistas. Cada fábrica conservava certa autonomia, embora existissem espaços comuns de coordenação, circulação de boletins e discussão política. Essa articulação permitia vincular a defesa da produção a problemas cotidianos como o abastecimento e o transporte.
No entanto, não existia uma visão única sobre como agir: militantes comunistas, socialistas e integrantes do Movimento de Esquerda Revolucionária (Movimiento de Izquierda Revolucionaria, MIR) conviviam nesses espaços e discutiam sobre os métodos, os tempos e os objetivos da mobilização.
Um dos principais problemas encontrados nesse processo foi o de distribuição. Embora diversas fábricas tenham conseguido manter a produção em meio ao boicote e às paralisações, os trabalhadores continuavam tendo pouco controle sobre boa parte do circuito comercial. Na Perlak, por exemplo, os operários denunciavam que todo mês saíam da fábrica mais de um milhão de unidades de molho de tomate e dezenas de milhares de sopas, enquanto esses mesmos produtos faltavam nas poblaciones ou reapareciam apenas no mercado negro. O problema estava também na estrutura de distribuição: mesmo com uma presença estatal maior, o setor público controlava apenas uma parte desse sistema, em torno de 25 ou 30%, deixando amplo espaço para a especulação. Diante dessa questão, começaram a se organizar feiras populares, vendas diretas e formas de coordenação com as JAP, organizações de bairro e camponeses próximos.
A paralisação empresarial e de caminhoneiros em outubro de 1972 escalonou essa situação a um novo patamar. A paralisação do transporte e do comércio agravou o desabastecimento e pôs à prova as formas de organização construídas. Em Cerrillos-Maipú, numerosas fábricas foram ocupadas e organizaram turnos para manter a produção. A “Batalha pela Produção” passou assim a fazer parte da vida cotidiana das fábricas. Também surgiram respostas para a escassez, como a distribuição de alimentos, a produção de caldos e as vendas diretas. Mas a paralisação mostrou também os limites dessas iniciativas: sem controlar o transporte, nem tampouco boa parte das redes comerciais, manter as fábricas operando não bastava para garantir que os produtos chegassem até a população.
Após a paralisação, um dos conflitos mais persistentes foi o destino das empresas que haviam sido objeto de intervenção ou ocupadas. Muitos trabalhadores esperavam que estas companhias passassem à APS, enquanto o governo buscava limitar o processo e devolver algumas a seus proprietários ou enquadrá-las dentro do programa da Unidade Popular. Essa tensão dividiu as próprias organizações de trabalhadores. Um dos principais pontos de atrito surgiu com a Central Única de Trabalhadores, cuja direção defendia uma estratégia mais próxima ao programa governamental e observava com cautela organizações que podiam escapar ao seu controle. Dentro do Cordón coexistiam distintas posições sobre até onde avançar e como se relacionar com o governo. Nesse sentido, Cerrillos-Maipú expressou as disputas sobre o rumo da via chilena ao socialismo e a tensão entre uma revolução “desde cima” e outra “desde baixo”.
Durante 1973, a coordenação territorial buscou estreitar vínculos com outras zonas industriais. No entanto, o golpe de Estado de 11 de setembro pôs violentamente fim a essa experiência. Desde as primeiras horas do dia, forças militares ocuparam o setor industrial de Cerrillos-Maipú e controlaram os acessos e vias de circulação. Segundo o testemunho de Guillermo Rodríguez, houve tentativas de resistência na Perlak e na Fensa. Nesta última, carros blindados participaram da operação e, no dia seguinte, efetivos militares abriram caminho até a fábrica com explosivos antes de retirar do recinto, com as mãos na nuca, 109 trabalhadores. Buscas, detenções e ocupações militares se repetiram em outras indústrias. A Feira Internacional de Santiago (FISA), em Cerrillos, funcionou como centro de detenção durante setembro e outubro de 1973. Também foram utilizados outros recintos, como a Medialuna (a arena de rodeio) e o Ginásio Municipal de Maipú. Assim, a repressão ocupou o mesmo território que havia dado vida ao Cordón industrial, transformando espaços de encontro cotidianos em lugares de detenção e interrogatório.
A destruição dessas redes não significou o fim de toda organização territorial entre os trabalhadores. Durante a ditadura surgiram em Maipú tentativas de reconstruir vínculos sindicais, entre elas, a Federação Sindical de Maipú (FESIMA). Nesse mesmo local, em 1979, o Sindicato Industrial N.º 1 da Goodyear protagonizou uma das primeiras greves que enfrentaram o novo Plano Trabalhista da ditadura de Pinochet.
Nas décadas seguintes, a experiência dos Cordones foi recuperada por meio de pesquisas, comemorações e expressões culturais. A obra Cordones Industriais, da companhia Tarea Urgente, é uma das iniciativas que levaram essa história outra vez ao espaço público por meio do teatro. Seu nome também voltou a aparecer em ciclos recentes de mobilização. Durante a Revolução Pinguim, organizada por estudantes secundaristas em 2006, surgiram “Cordones estudantis” para coordenar estabelecimentos de ensino por comunas e zonas de Santiago. Em outubro de 2019, distintas assembleias territoriais articularam “Cordones de assembleias” ou “Cordones de cabildos”. Não se tratava de uma continuidade direta com os Cordones industriais dos anos setenta. No entanto, essas experiências voltaram a pôr em circulação uma forma de organização levantada a partir dos territórios. Mais de meio século depois, essa experiência segue gerando perguntas sobre as formas de organização popular, sua relação com o território e, sobretudo, até onde podia chegar aquela revolução construída “desde baixo”.
Salgado, Xaviera (2019). “Organización política y sociabilidad popular: Cordón Industrial Cerrillos‑Maipú y el paro de octubre de 1972”. En Se levanta el clamor popular. Experiencias del pueblo organizado durante el gobierno de los mil días 1970‑1973. Concepción: Talleres Sartaña, pp. 125‑157.
Henríquez, Renzo (2014). “Industria Perlak ‘Dirigida y controlada por los Trabajadores’. Desalienación obrera en los tiempos de la Unidad Popular, 1970–1973”. Revista Izquierdas, n.º 20, pp. 52–77.
Castillo, Sandra (2010). “Sociabilidad y organización política popular: Cordón Industrial Cerrillos-Maipú”. Cuadernos de Historia, n.º 32.
Gaudichaud, Franck (2016). Chile 1970–1973: mil días que estremecieron al mundo. Poder popular, cordones industriales y socialismo durante el gobierno de Salvador Allende. LOM Ediciones.
Cordero, M. C.; Sader, E.; Threlfall, M. (1973). Consejo comunal de trabajadores y cordón Cerrillos-Maipú: Balance y perspectivas de un embrión de poder popular. Documento CIDU.
Silva, Miguel (1990). Los cordones industriales y el socialismo desde abajo. Ediciones Documento ILIDE.
Documentário: La Batalla de Chile (Parte II). Dir. Patricio Guzmán, 1976.
Crédito da imagem: Trabalhadores do Cobre Cerrillos marcham carregando cartazes do Cordão Cerrillos e de “Cobre Cerrillos Intervenida Presente”. Santiago, 1973. Fonte: Armindo Cardoso, Cordão Cerrillos, 1973. Negativo monocromático, gelatina sobre acetato de celulose, 6 × 6 cm.
Lugares de Memória dos Trabalhadores
As marcas das experiências dos trabalhadores e trabalhadoras brasileiros estão espalhadas por inúmeros lugares da cidade e do campo. Muitos desses locais não mais existem, outros estão esquecidos, pouquíssimos são celebrados. Na batalha de memórias, os mundos do trabalho e seus lugares também são negligenciados. Nossa série Lugares de Memória dos Trabalhadores procura justamente dar visibilidade para essa “geografia social do trabalho” procurando estimular uma reflexão sobre os espaços onde vivemos e como sua história e memória são tratadas. Mensalmente, um pequeno artigo com imagens, escrito por um(a) especialista, fará uma “biografia” de espaços relevantes da história dos trabalhadores de todo o Brasil. Nossa perspectiva é ampla. São lugares de atuação política e social, de lazer, de protestos, de repressão, de rituais e de criação de sociabilidades. Estátuas, praças, ruas, cemitérios, locais de trabalho, agências estatais, sedes de organizações, entre muitos outros. Todos eles, espaços que rotineiramente ou em alguns poucos episódios marcaram a história dos trabalhadores no Brasil, em alguma região ou mesmo em uma pequena comunidade.
A seção Lugares de Memória dos Trabalhadores é coordenada por Larissa Farias, Paulo Fontes, Vinicius Rosalvo e Yasmin Getirana.
Didice Godinho Delgado Presidenta do Sindicato de Assistentes Sociais do Estado de São Paulo entre 1985 e 1992 e coordenadora da Comissão Nacional da Mulher Trabalhadora da CUT entre 1987 e 1993
Há 40 anos, a Central Única dos Trabalhadores (CUT) aprovou uma política de defesa das mulheres trabalhadoras e de luta contra as desigualdades entre homens e mulheres nos mundos do trabalho e na sociedade. Foi no 2° Congresso Nacional da CUT (2º Concut), realizado entre julho e agosto de 1986, no Rio de Janeiro, com a presença de 5.564 sindicalistas, dos quais se estima que cerca de 25% eram mulheres. Foi um marco histórico para o sindicalismo brasileiro. A CUT foi pioneira e avançada em muitos aspectos, entre eles a política sindical de igualdade de gênero.
Muitas companheiras fizeram e fazem parte desta longa trajetória, tanto sindicalistas como apoiadoras: foi sempre uma construção coletiva. Na linha do tempo de quatro décadas, oito sindicalistas estivemos à frente da organização das trabalhadoras na CUT, primeiro como Comissão Nacional da Questão da Mulher Trabalhadora e, a partir do 8° Concut, em 2003, como Secretaria Nacional da Mulher Trabalhadora: depois de mim, vieram as companheiras Sandra Cabral, Luci Paulino, Ednalva Bezerra (que foi também a primeira dirigente da Secretaria), Carmen Foro, Rosane Silva, Juneia Batista e, atualmente, Amanda Corcino. Lembro às companheiras que integraram a Comissão Nacional e já se foram, entre elas as sindicalistas Ednalva, Luci, Marlene Furtado, Maria Isabel Nascimento, Zênia Chaves e Maria da Penha Nascimento Silva, e nossas apoiadoras de primeira hora, Elisabeth Souza-Lobo e Nalu Faria.
A organização das mulheres trabalhadoras na CUT se inseriu no ambiente de enorme efervescência social, política, sindical e feminista que tivemos no Brasil entre as metades dos anos 1970 e dos anos 1980. O país vivia um intenso processo de luta contra a ditadura, por redemocratização, e o “novo sindicalismo”, desde as primeiras greves metalúrgicas lideradas por Lula, era a grande novidade no contexto sindical. Simultaneamente, eclodiram movimentos populares com forte participação das mulheres nos bairros, como a luta contra a carestia e por creches. O movimento feminista se visibilizava nos congressos de mulheres e jornais feministas, e a crítica ao trabalho doméstico, à divisão sexual do trabalho, à sexualidade tradicional e à violência contra as mulheres entrou na pauta dos grupos autônomos e dos estudos acadêmicos. O marcante crescimento da participação das mulheres no mercado de trabalho, inclusive em áreas até então quase exclusivamente masculinas, tornou-se um fenômeno irreversível e interpelou os sindicatos. Além do movimento feminista e dos movimentos populares, os sindicatos também eram um espaço importante de atuação para as mulheres, e sua presença desafiava uma longa tradição de exclusão das trabalhadoras no sindicalismo.
A CUT foi fundada nesse contexto, em 28 de agosto de 1983, como uma central sindical classista, autônoma e democrática. Uma central progressista, atenta a novos temas que se mostravam na sociedade, entre eles, certamente, a presença ativa das mulheres e as reivindicações das trabalhadoras (embora ainda não de forma explícita: basta uma olhada rápida nas fotos do palco do congresso de fundação!).
Desde o final dos anos 1970 e início dos anos 1980 ocorreram diversos congressos e encontros de trabalhadoras de sindicatos urbanos, como metalúrgicos, químicos, vestuários e outros. As trabalhadoras domésticas também se organizavam em busca de direitos. As trabalhadoras rurais se mobilizavam pelo direito à sindicalização e seu reconhecimento como trabalhadoras, já que seu trabalho era considerado ajuda à família e excluído de direitos. Margarida Maria Alves, presidenta do Sindicato de Trabalhadores Rurais de Alagoa Grande, na Paraíba, foi assassinada 16 dias antes da fundação da CUT.
As demandas pelos direitos das trabalhadoras urbanas e rurais estiveram presentes desde o primeiro congresso da CUT. Alguns sindicatos que se filiaram à central já contavam com comissões ou grupos de mulheres. Entre 1985 e 1986, algumas instâncias da CUT realizaram encontros de trabalhadoras, como as CUTs estaduais de São Paulo, Minas Gerais e Paraíba e a CUT regional (instância depois extinta) do ABC paulista. Em 1985, o congresso estadual da CUT da Paraíba aprovou a criação da Secretaria da Mulher Trabalhadora, proposta impulsionada pelas trabalhadoras rurais e as professoras. A expectativa de uma política para as trabalhadoras e de sua maior representação na CUT vinha germinando gradativamente.
Em entrevista concedida a mim, em 1995, Nalu Faria, militante feminista, lembrava que, em 1986, em São Paulo, na atividade do Dia Internacional da Mulher, 8 de Março, promovida pelo movimento feminista, o grupo de discussão sobre mulher e trabalho, no qual participaram sindicalistas, levantou a necessidade de se pensar uma iniciativa em relação ao congresso da CUT daquele ano, “porque as pessoas que estavam nos sindicatos já tinham esse desejo de que a CUT tivesse uma discussão mais organizada sobre a questão das mulheres”. Resultou daí uma rápida e eficiente articulação para formular uma proposta ao congresso, que foi fechada em um encontro em junho, em São Paulo, com sindicalistas urbanas (entre elas, químicas, coureiras, da indústria de plásticos, assistentes sociais, professoras, médicas e outras) e rurais de 10 estados. O encontro foi apoiado pela então secretária nacional de Formação da CUT, Ana Lúcia da Silva, a única mulher na direção executiva de 15 integrantes, e militantes feministas que apoiavam as lutas das trabalhadoras. Foi nesse encontro que me juntei ao projeto.
Elaboramos uma tese que argumentava por que a CUT tinha que organizar e representar as trabalhadoras e explicitava a relação intrínseca entre a luta das mulheres e a luta de classes; propunha a criação da Comissão da Questão da Mulher Trabalhadora (tanto em âmbito nacional quanto nos estados), vinculada à Secretaria de Política Sindical, e a reivindicação de creches como bandeira de luta. Por que uma comissão e não uma secretaria? Porque estamos falando de 40 anos atrás, do início da CUT e da nossa inserção organizada nela, de relações de poder: impossível conquistar naquele estágio uma secretaria nacional! Estar na secretaria de Política Sindical era um bom começo, pois estávamos propondo uma política sindical.
E por que a “questão” da mulher trabalhadora? Foi uma saída para evitar o que era comum em sindicatos: gerar um espaço de mulheres deslocado da política geral. Nossa reivindicação era de que a CUT inserisse a exploração do trabalho das mulheres no debate sobre os mundos do trabalho e na ação sindical, e que essa política fosse assumida pela CUT toda, não só pelas mulheres. Estávamos propondo uma política transversal (terminologia que não tínhamos na época). Caberia à Comissão coordenar a organização das trabalhadoras e infiltrar-se em todas as áreas/secretarias para levar a política de igualdade de gênero (terminologia que também não tínhamos na época) a toda a Central.
Quanto à creche, era uma bandeira de luta bem concreta: era reivindicação das trabalhadoras nos encontros e congressos de trabalhadoras e nos movimentos populares desde meados dos anos 1970. Propúnhamos que essa demanda fosse inserida nas pautas de reivindicações e negociações coletivas, e esperávamos que envolvesse os homens por tratar-se do cuidado de suas filhas e seus filhos.
Como estratégia para chegar ao 2° Concut, a prioridade era aprovar a tese nos congressos estaduais para que alcançasse o nacional. Fazer trabalho de convencimento, ganhar adesões de mulheres e homens nos estados. Conseguimos que fosse aprovada em alguns congressos. Mas, antes disso, solicitamos uma reunião com a direção executiva nacional para apresentar a proposta e buscar seu apoio. Ao contrário do que se possa pensar, conquistamos o apoio, o que mostrou que a CUT estava atenta às mobilizações das mulheres dentro e fora do sindicalismo. Houve, no entanto, uma ressalva: a proposição de que a CUT defendesse a legalização do aborto, que estava incluída no texto que formulamos, ia longe demais. Não nos surpreendeu naquele momento e a excluímos da redação final levada aos congressos. Mas não demoraríamos a voltar ao assunto. O 1° Encontro Nacional sobre a Questão da Mulher Trabalhadora, realizado em 1988, aprovou a necessidade do posicionamento da CUT favorável à legalização do aborto, cuja proibição penaliza as mulheres, sobretudo as mulheres pobres e negras. Foi um consenso construído com base numa discussão intensa entre as sindicalistas. O tema foi posto em discussão na Central e levado ao 4° Concut, em 1991, para deliberação. Defendi a proposta em plenário, que foi aprovada com algumas abstenções, mas sem votos contrários. Foi uma vitória contundente e uma experiência inesquecível. A partir de então, a CUT se incorporou à luta feminista pela descriminalização do aborto, feito inédito entre as centrais sindicais da época.
Na reunião com a direção executiva nacional, um dirigente levantou a dúvida que esperávamos: a organização das mulheres não iria dividir a classe trabalhadora? Era um argumento recorrente no pensamento de esquerda da época. Tínhamos a resposta na ponta da língua, além de ela estar na tese: “a organização das mulheres no movimento sindical, com a incorporação de suas lutas e reivindicações, deve ser assumida pelo conjunto da classe e representará não uma divisão, mas o fortalecimento e unificação da classe contra a dominação burguesa”. Ao final, a executiva da CUT estadual de São Paulo assumiu a tese, o que lhe deu mais peso político no congresso nacional.
Chegamos ao 2° Congresso Nacional da CUT com grandes expectativas. Uma de nossas companheiras teve a feliz ideia de fazermos um broche, que foi nosso “crachá” e, ao mesmo tempo, despertou curiosidade e conquistou adesões entre muitas delegadas. A tese precisava ser aprovada pelo menos em alguns grupos de trabalho para ser levada ao plenário: foi! Porém, um grupo de mulheres apresentou uma contraproposta que jogava para a frente a definição da forma de organização a ser adotada, sugerindo que a Comissão Nacional fosse implementada após encontros estaduais de trabalhadoras que elegeriam suas representantes, o que adiaria, portanto, a concretização da política. Não foi surpresa que a divergência tenha provocado os habituais comentários machistas do tipo “as mulheres não se entendem”, “as mulheres já começam brigando”. Para nós, defensoras da tese original, tal adiamento jogaria para as calendas a política da CUT, mas a decisão era, obviamente, do plenário. Houve defesa de uma e outra proposta. Venceu a nossa, defendida com brilho por Marlise Fernandes, trabalhadora rural do Rio Grande do Sul. Antes da votação, reivindicamos à coordenação da mesa que lesse a tese para o plenário, o que, embora contrariasse a rotina do congresso, foi aceito. Quisemos dar o máximo de visibilidade à decisão a ser tomada.
Após o congresso, o desafio era transformar a resolução em realidade. A vitória não significava que toda a direção nacional e as direções das CUTs estaduais estariam automaticamente comprometidas com colocá-la em prática. Ou que tivessem a mesma urgência que nós. Foi somente em março de 1987 que a Secretaria Nacional de Política Sindical convocou uma reunião para implementar a decisão congressual e instalar a Comissão. Participaram representantes de seis estados. Fiquei coordenadora entre dezembro de 1987 e março de 1993, sendo muito bem substituída por Sandra Cabral, presidenta da CUT Estadual de Goiás. Quando saí, estávamos em campanha pela adoção da cota mínima de 30% de mulheres nas direções, reivindicação que o 2° Encontro Nacional sobre a Questão da Mulher Trabalhadora, realizado em 1991, decidiu apresentar à CUT. Entre 1991 e 1993, fizemos campanha pela cota em todo o país, desencadeando um intenso debate sobre as relações de poder e a exclusão das mulheres dos espaços de decisão. Na 6ª. Plenária Nacional, em agosto de 1993, a cota foi aprovada. Foi outro pioneirismo da CUT. Em 2012, o 11° Concut aprovou a paridade entre mulheres e homens nas direções, proposta pela Secretaria Nacional da Mulher Trabalhadora, decisão também pioneira no sindicalismo brasileiro.
Referi-me no início a uma construção coletiva. Éramos sindicalistas da cidade e do campo e de várias regiões do país que decidimos atuar de forma unificada, construindo consensos quando tínhamos eventuais divergências na compreensão dos temas da pauta das mulheres e em função de nossa inserção em diferentes correntes políticas presentes na CUT. Todas estávamos convencidas da importância de implantar esta política na CUT. No âmbito nacional e nos estados, e cada uma em sua organização por ramo ou seu sindicato, atuamos com a energia, o tempo e a dedicação que pudemos dar à tarefa, muitas vezes sob condições adversas.
Com o apoio das aliadas feministas, fizemos as conexões entre a luta das mulheres trabalhadoras e a luta feminista, as intersecções entre gênero, classe e raça nas relações de dominação, entre mundo público e mundo privado. Entrou na CUT uma perspectiva que buscava integrar sindicalismo e feminismo.
Na Comissão Nacional, contamos com o impulso dado por organizações sindicais e não sindicais estrangeiras que apoiavam a CUT e já tinham incorporado a questão da mulher trabalhadora em suas agendas, fazendo pressão para a Central avançar na consolidação desta política. Entre elas, centrais sindicais de países como a Itália, a Dinamarca e o Canadá, a confederação precursora da Confederação Sindical Internacional (CSI) e organizações de cooperação internacional atuantes no Brasil, como a alemã Fundação Friedrich Ebert. A vitória no 2° Concut (assim como em conquistas posteriores) também teve o apoio de muitos homens, do contrário, não haveria maioria.
As relações de gênero são relações de poder: conflituosas, contraditórias, em permanente movimento, avançam e recuam, às vezes até simultaneamente. Nas interações sindicais cotidianas e em discussões sobre nossas pautas, naquela época, vivemos alianças e estranhamentos; apoios e recusas; somas e divisões. Seguimos construindo!
No 2° Concut, a disputa política sobre a concepção sindical e a estrutura da CUT dominou o clima do congresso. Na memória coletiva ou individual sobre ele, a decisão sobre a política de igualdade de gênero costuma estar invisibilizada. Obviamente, as sindicalistas que vivemos aquele período não o esquecemos. E a história da organização das mulheres e da política de gênero sempre foi resgatada e valorizada pelas dirigentes da Comissão Nacional e comissões estaduais e, mais tarde, da Secretaria Nacional e secretarias estaduais.
Em 40 anos, a organização das mulheres e a política de igualdade de gênero nunca foram interrompidas: dificuldades, contradições e crises ao longo do caminho jamais levaram à desistência. É uma trajetória de debates e mudanças relevantes nas relações de gênero internas, de atuação marcante em defesa dos direitos das mulheres trabalhadoras e de comprometimento com as lutas feministas na sociedade. Recordar o início desta história é motivo de orgulho para mim por ser parte dela. E por saber que ela continua movendo a luta das mulheres no presente.
Didice Delgado discursa na abertura do 1° Encontro Nacional da Questão da Mulher Trabalhadora em 1988. Ao seu lado, a sindicalista Marlise Fernandes e o então presidente da CUT, Jair Meneguelli.
PARA SABER MAIS
Bezerra de Lima, M.E. et al. Mulheres na CUT: uma história de muitas faces. CUT/Secretaria Nacional da Mulher Trabalhadora, São Paulo, 2006. Disponível em: https://cedoc.cut.org.br/cedoc/livros-e-folhetos/1152
Central Única dos Trabalhadores. Mulher trabalhadora. Não é blá, blá, blá… Cadernos da CUT. CUT/Comissão Nacional da Questão da Mulher Trabalhadora, São Paulo, 1988. Disponível em: https://cedoc.cut.org.br/cedoc/livros-e-folhetos/951.
Giulliani, P.C. “Silenciosas e combativas: as contribuições das mulheres na estrutura sindical no Nordeste 1976/1986”. In: Costa, A. de O. e Bruschini, C. (orgs.). Rebeldia e submissão. Estudos sobre condição feminina. Fundação Carlos Chagas/Vértice, São Paulo, 1989.
Godinho Delgado, M.B. “Mulheres na CUT: um novo olhar sobre o sindicalismo”. In: Borba, A., Faria, N. e Godinho, T. (orgs.). Mulher e política: gênero e feminismo no Partido dos Trabalhadores. Ed. Fundação Perseu Abramo, São Paulo, 1998. Disponível em: https://fpabramo.org.br/livro/mulher-e-politica-genero-e-feminismo-no-partido-dos-trabalhadores/
Godinho Delgado, M.B. A organização das mulheres na Central Única dos Trabalhadores. A Comissão Nacional sobre a Mulher Trabalhadora. Dissertação de mestrado em Serviço Social. PUC-São Paulo, 1996. Disponível em: https://tede2.pucsp.br/handle/handle/20244
Neves, M. de A. “Relações de gênero nos espaços público e privado: a experiência das trabalhadoras na CUT”. Revista Brasileira de Estudos de População, 10(1/2), 89–98, 1993. Disponível em: https://rebep.org.br/revista/article/view/494
Souza-Lobo, E. A classe operária tem dois sexos. Trabalho, dominação e resistência. Ed. Fundação Perseu Abramo, 2ª. ed., São Paulo, 2011 . https://fpabramo.org.br/livro/a-classe-operaria-tem-dois-sexos/
Crédito da imagem de capa: Trabalhadoras durante a greve geral convocada pela CUT em março de 1989″. Fonte: CEDOC/CUT.
Neste episódio de Livros de Classe, Lorena Telles, professora da Unifesp, apresenta o clássico “Quotidiano e poder em São Paulo no século XIX”, de Maria Odila Leite da Silva Dias. Na obra, Maria Odila analisa como as relações de dominação, resistência e controle se manifestam no cotidiano, a partir da experiência de mulheres pobres.
Livros de Classe
Os estudantes de graduação são desafiados constantemente a elaborar uma percepção analítica sobre os diversos campos da história. Nossa série Livros de Classe procura refletir justamente sobre esse processo de formação, trazendo obras que são emblemáticas para professores/as, pesquisadores/as e atores sociais ligados à história do trabalho. Em cada episódio, um/a especialista apresenta um livro de impacto em sua trajetória, assim como a importância da obra para a história social do trabalho. Em um formato dinâmico, com vídeos de curtíssima duração, procuramos conectar estudantes a pessoas que hoje são referências nos mais diversos temas, períodos e locais nos mundos do trabalho, construindo, junto com os convidados, um mosaico de clássicos do campo.
Está no ar o primeiro episódio da nova temporada do podcast Vale Mais, do LEHMT-UFRJ!
Nesta temporada, continuamos convidando pesquisadoras e pesquisadores para discutir projetos, livros e teses recentes que aprofundam debates interdisciplinares sobre os mundos do trabalho.
Neste episódio, conversamos com Marcelo Magalhães, professor da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO) e coordenador nacional do ProfHistória. Magalhães abordou as relações entre o Programa de Pós-Graduação em Ensino de História e os mundos do trabalho. Aponta como diferencial do programa a valorização da experiência profissional docente na Educação Básica, reconhecendo nessa experiência um saber constituído, que no diálogo com a universidade, enriquece-a e é enriquecido. O professor destaca também a capacidade do ProfHistória em mobilizar questões que são caras à escola e às regionalidades, vislumbrando unidade e diversidade no Ensino de História no país. Magalhães ainda debate o processo de precarização do trabalho docente atualmente. Para saber mais sobre esse assunto, ouça o episódio!
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Entrevistadores: Isabelle Pires e Márcio Romerito Arcoverde Roteiro: Claudiane Torres e Luciana Pucu Wollmann Produção: Ana Clara Tavares e Larissa Farias Edição: Thompson Clímaco Diretor da série: Thompson Clímaco Coordenadora geral do Vale Mais: Larissa Farias
Vale Mais #37: COSMOPOLITAS DO TERCEIRO MUNDO: Redes laborais, comunicação militante e culturas transnacionais de solidariedade entre Moçambique e o Brasil no final da Guerra Fria (1970-1980), por Julimar Mora –
Vale Mais
Está no ar mais um episódio do Vale Mais, o podcast do LEHMT-UFRJ.
Nesta temporada, continuamos convidando pesquisadoras e pesquisadores para discutir projetos, livros e teses recentes que aprofundam debates interdisciplinares sobre os mundos do trabalho.
Neste episódio, conversamos com Julimar Mora Silva, professora da Universidade Federal Fluminense (UFF), sobre sua tese "Cosmopolitas do Terceiro Mundo: Redes Laborais, Comunicação Militante e Culturas Transnacionais de Solidariedade entre Moçambique e o Brasil durante a Guerra Fria (1970-1980)", defendida em 2025. A tese recebeu o Premio Anual de Investigación en Estudios sobre África, da Universidad Nacional Autónoma de México e Menção Honrosa no Prêmio CAPES de Tese 2026. Entre outros tópicos, Julimar apresentou as interseções entre mobilidade laboral, internacionalismo proletário e dinâmicas pós-coloniais que mapeou em sua tese.
Entrevistadores: Ana Clara Tavares, Isabelle Pires, Josemberg Araújo, Larissa Farias e Thompson Clímaco
Roteiro: Ana Clara Tavares, Isabelle Pires, Josemberg Araújo, Larissa Farias e Thompson Clímaco
Produção: Ana Clara Tavares e Larissa Farias
Edição: Josemberg Araújo e Thompson Clímaco
Diretor da série: Thompson Clímaco
Coordenadora geral do Vale Mais: Larissa Farias
Neste episódio de Livros de Classe, o professor Carlo Romani (UNIRIO) apresenta Travessias Revolucionárias: ideias e militantes sindicalistas em São Paulo e na Itália (1890–1945), de Edilene Toledo, uma obra pioneira da História do Trabalho no Brasil. A partir das trajetórias de três militantes, o livro analisa as conexões entre São Paulo e a Itália, revelando a circulação transnacional de pessoas, ideias e práticas do sindicalismo revolucionário e antecipando debates que se consolidariam na História Global do Trabalho.
Livros de Classe
Os estudantes de graduação são desafiados constantemente a elaborar uma percepção analítica sobre os diversos campos da história. Nossa série Livros de Classe procura refletir justamente sobre esse processo de formação, trazendo obras que são emblemáticas para professores/as, pesquisadores/as e atores sociais ligados à história do trabalho. Em cada episódio, um/a especialista apresenta um livro de impacto em sua trajetória, assim como a importância da obra para a história social do trabalho. Em um formato dinâmico, com vídeos de curtíssima duração, procuramos conectar estudantes a pessoas que hoje são referências nos mais diversos temas, períodos e locais nos mundos do trabalho, construindo, junto com os convidados, um mosaico de clássicos do campo.
Daniel T. Ferreira Doutorando na Universidade de Chicago
O dia 5 de junho de 2026 marcou os 92 anos da fundação do Sindicato das Empregadas em Serviços Domésticos de Santos, um marco na história da luta das domésticas brasileiras por condições dignas de trabalho. Fundado por Laudelina de Campos Mello – trabalhadora doméstica e frequentadora assídua de associações negras – o sindicato de Santos foi uma das primeiras organizações dedicadas à defesa da profissão que mais empregava mulheres no país.
Essa efeméride pouco convencional, de 92 anos, merece uma explicação. Afinal, segundo muitos historiadores, estaríamos comemorando um aniversário mais redondo, de 90 anos do sindicato, no dia 8 de julho de 2026. A origem do mal-entendido está no final da década de 1980, quando Laudelina de Campos Mello concedeu uma longa e extraordinária entrevista à pesquisadora Elisabete Aparecida Pinto. Mais de 50 anos depois dos fatos, Laudelina dizia ter fundado o sindicato no dia 8 de julho de 1936. Mas parece ter havido um pequeno lapso em sua memória. Uma nota publicada na Gazeta Popular de Santos não deixa dúvida: o sindicato iniciou suas atividades em 5 de junho de 1934.
Durante a sua breve existência, o sindicato não chegou a negociar salários ou a planejar greves. Ele funcionava mais como uma sociedade de assistência mútua: cobrava de seus membros uma ínfima mensalidade de um mil- réis (algo como R$1 nos dias de hoje), e oferecia cursos de culinária e de economia doméstica; fornecia assistência às crianças, aos idosos e aos pobres; e promovia atividades recreativas como o teatro. Para arrecadar mais dinheiro, Laudelina organizava bailes e torneios de futebol aos domingos.
Pode parecer pouco, mas não era. Havia poucas profissões mais solitárias que a de doméstica, especialmente numa época em que dormir no emprego era a regra. Era de enorme importância para essas mulheres ter um espaço de convivência e de lazer nos seus poucos momentos de folga.
Entre os sindicatos de domésticas fundados antes de 1945, o de Santos é de longe o mais conhecido, e por um bom motivo. O sindicato liderado por Laudelina foi a primeira entidade que, por toda a sua breve existência (1934–1937), foi inteiramente comandado por uma trabalhadora doméstica.
Mas o sindicato de Santos está longe de ter sido a única entidade da categoria nessa época. No Rio de Janeiro, por exemplo, já atuava desde 1922 a Sociedade Beneficente União Doméstica. A Sociedade foi fundada por um policial negro chamado Joaquim Rufino dos Santos, um sujeito com muitos amigos em associações negras, no sindicalismo carioca, no mundo do Carnaval e, especialmente, entre os políticos. Rufino dos Santos trabalhou por anos como segurança na Câmara dos Deputados, posição que usou para promover os primeiros projetos de lei de proteção às domésticas. Algumas de suas propostas eram bem questionáveis, como a obrigação de uma carteira policial para a categoria. Já outras eram indiscutivelmente louváveis: aviso prévio, folgas semanais, férias anuais, aposentadoria e a possibilidade de usar a justiça para garantir o pagamento de salários. A Sociedade também organizava bailes de 13 de Maio para suas associadas, em sua maioria mulheres negras.
Poucos anos depois, Getúlio Vargas assumia o poder, trazendo consigo uma série de decretos que ampliaram significativamente as proteções trabalhistas no país. Nos anos 1930, nenhuma dessas medidas se aplicava às domésticas – a Lei de Sindicalização de 1931, inclusive, chegava a excluí-las explicitamente de seu alcance. Mas nesse momento, a legislação trabalhista ainda era uma obra em construção. Reinava um clima de possibilidades abertas, e nesse clima, uma parcela significativa da sociedade civil passou a ver o emprego doméstico como uma profissão que, como todas as outras, merecia seu próprio sindicato e regulamentação. E muita gente começou a trabalhar para transformar essa visão em realidade.
Em 1933, o jovem Dom Hélder Câmara organizou as domésticas de Fortaleza em torno de um movimento operário católico. De acordo com o Legionário, um dos jornais católicos da cidade, em uma publicação no dia 13 de Maio: “assim como os operários fabris e os artistas têm os seus sindicatos […], as lavadeiras, engomadeiras, domésticas etc. precisam também possuir o seu órgão de defesa que é, indiscutivelmente, o sindicato”. Apesar da resistência das patroas, o esforço foi relativamente bem-sucedido: em 1934, a organização de Dom Hélder já tinha dez filiais nos arredores da cidade. Além de negociar conflitos trabalhistas, também prestava assistência e oferecia alguns cursos às interessadas.
Em 1934, Manuela Lucas e uma dúzia de outras trabalhadoras domésticas fundaram no Rio de Janeiro uma organização “de empregadas domésticas para empregadas domésticas”. Essas mulheres costumavam se reunir todas as semanas para rezar, e durante esses encontros, decidiram arrecadar fundos para criar um centro comunitário e uma casa de férias para as domésticas. No entanto, após receber uma doação de uma benfeitora rica, a organização deixou de ser uma associação de trabalhadoras e se tornou uma instituição de caridade dominada por senhoras católicas.
A própria Frente Negra Brasileira, fundada em 1931, reunia centenas de domésticas – que constituíam, afinal, a principal ocupação das mulheres negras à época. Em São Paulo, a Frente Negra criticava a discriminação racial na contratação de domésticas, ajudava mulheres a encontrarem postos de trabalho e encorajava as domésticas negras a repelirem os insultos dos brancos. Não seria um exagero dizer que, na prática, a Frente Negra agia, entre outras coisas, como uma espécie de associação de trabalhadoras domésticas.
A líder das feministas brasileiras, Bertha Lutz, também trabalhou em prol da causa das domésticas. Embora a maioria das participantes da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino nas décadas de 1920 e 30 tivessem poucos vínculos com a classe trabalhadora, Bertha Lutz tinha plena consciência da importância dos direitos trabalhistas para o avanço das mulheres em geral. Ela incentivou as poucas operárias que militavam na organização, como Almerinda Farias Gama, a organizarem sindicatos. E quando assumiu uma cadeira na Câmara dos Deputados em 1937, escreveu o Estatuto da Mulher, um grande projeto de lei que tinha como objetivo definir “os direitos e obrigações constitucionais da cidadã”. Em relação às trabalhadoras domésticas, o projeto proibia o trabalho de menores, limitava a jornada de trabalho a oito horas e, para garantir que esses direitos pudessem ser colocados em prática, dava ao governo a autoridade para supervisionar o cumprimento dessas leis pelos patrões.
Foi neste clima de mobilização que Laudelina de Campos Mello fundou, em 1934, o Sindicato das Empregadas em Serviços Domésticos de Santos. Clima este que duraria até o golpe do Estado Novo, em novembro de 1937. Então, Vargas dissolveu o Congresso, que havia sido suscetível às pressões dos defensores das domésticas, e dissolveu diversas organizações políticas e sindicais, inclusive aquelas estavam reivindicando os direitos daquelas trabalhadoras.
O retorno à democracia em 1945 trouxe um novo impulso à sindicalização das trabalhadoras domésticas. Em meio à febre de sindicalização que tomava o país, houve interesse entre os comunistas na formação de sindicatos de domésticas. Nessa época, a própria Laudelina se filiou ao PCB. Em 1946, Laudelina se aproximou de Luiz Lobato, marxista negro militante no Partido Socialista Brasileiro, e de Geraldo Campos de Oliveira, o maior colaborador de Abdias Nascimento em São Paulo. Os três, junto com a doméstica Cilia Ambrósio, fundaram uma associação de domésticas na capital paulista. Mas a associação não prosperou. A despeito de muitas tentativas, não houve nenhuma entidade de domésticas muito duradoura nem no Rio nem em São Paulo durante as décadas de 1940 e 50.
Isso começou a mudar no começo da década de 60, outro período de atividade extraordinária no sindicalismo brasileiro. Começaram a surgir uma série de associações de domésticas a partir da militância católica, como em São Paulo e no Rio de Janeiro. Já em Santos, foi refundada a Associação de Domésticas em 1963, com o apoio dos comunistas locais.
Nesse período – mais precisamente, em maio de 1961 – Laudelina de Campos Mello fundou sua terceira e última entidade de classe: a Associação dos Empregados Domésticos de Campinas. Segundo ela, a primeira assembleia “fechou o trânsito em Campinas”, com mais de 1.200 mulheres. E nesses anos, Laudelina manteve uma capacidade extraordinária de alianças. Embora nunca tenha escondido que fosse comunista, Laudelina convivia muito bem com a Igreja – que cedia espaço para reuniões da Associação – e com todo tipo de corrente política. Em 1964, enquanto a primeira onda de repressão da ditadura militar varria o Brasil, o diretório campineiro da UDN permitiu que a Associação usasse a sede do partido, para que “ninguém mexesse” com a Associação. Nas próximas décadas, associações como a de Campinas contribuíram para a aprovação da Lei 5.859 de 1972, que estendeu às domésticas o direito a férias e à Previdência Social; e para a inclusão de direitos trabalhistas fundamentais para a categoria na Constituição de 1988.
A participação de Laudelina na Associação teve idas e vindas, mas em fins da década de 1980, ela se reconciliou com a organização que havia fundado. Depois de cinco décadas de luta, Laudelina de Campos Mello faleceu em Campinas no dia 12 de maio de 1991.
Baile da Sociedade Beneficente União Doméstica no Club Carioca (Beira-Mar, 1/7/1923)
PARA SABER MAIS
FERREIRA, Daniel T. “The Regulators of Citizenship: The Labor Law Establishment and Domestic Workers in Brazil, 1922-1972”, Trabalho de Conclusão de Curso, Stanford University, 2022.
GETIRANA, Yasmin. Na casa e na causa: a organização sindical das trabalhadoras domésticas (Rio de Janeiro, 1961-1973). Rio de Janeiro: Telha, 2023.
MARQUES, Teresa Cristina Novaes. “Anatomia de uma injustiça secular: O Estado Novo e a regulação do serviço doméstico no Brasil”, Varia Historia, vol, 36, n. 70, pp. 183-216, 2020.
PINTO, Elisabete Aparecida. “Etnicidade, gênero e educação: a trajetória de vida de Da. Laudelina de Campos Mello (1904-1991)”, Dissertação de Mestrado, Faculdade de Educação, Universidade Estadual de Campinas, 1993.
SOTERO, Edilza Correia. “Representação política negra no Brasil pós-Estado Novo”, Tese de Doutorado, Universidade de São Paulo, 2015.
Crédito da imagem de capa: Abertura do 3° Congresso Nacional da Trabalhadora Doméstica na década de 1950. Laudelina de Campos Mello é a de blusa preta. Acervo Casa Laudelina
Neste episódio de Livros de Classe, Luciana Lombardo, chefe de Divisão do Memórias Reveladas do Arquivo Nacional, apresenta o livro “Novos e velhos sindicalismos: Rio de Janeiro, 1955/1988”, de Marcelo Badaró Mattos. A obra é fruto da tese de doutorado do autor, defendida em 1996 e investiga as rupturas e continuidades no sindicalismo carioca entre a década de 1950 e o surgimento do novo sindicalismo.
Livros de Classe
Os estudantes de graduação são desafiados constantemente a elaborar uma percepção analítica sobre os diversos campos da história. Nossa série Livros de Classe procura refletir justamente sobre esse processo de formação, trazendo obras que são emblemáticas para professores/as, pesquisadores/as e atores sociais ligados à história do trabalho. Em cada episódio, um/a especialista apresenta um livro de impacto em sua trajetória, assim como a importância da obra para a história social do trabalho. Em um formato dinâmico, com vídeos de curtíssima duração, procuramos conectar estudantes a pessoas que hoje são referências nos mais diversos temas, períodos e locais nos mundos do trabalho, construindo, junto com os convidados, um mosaico de clássicos do campo.
Neste episódio especial de Livros de Classe, José Sergio Leite Lopes (UFRJ) conduz uma homenagem à trajetória intelectual de Maria Célia Paoli, a partir da recente publicação da coleção Obras Reunidas de Maria Célia Paoli (2024), composta por dois volumes: Sujeitos políticos na formação social brasileira e Movimentos sociais e direitos. Reunindo textos produzidos ao longo de mais de três décadas, os livros apresentam ao público um conjunto fundamental da obra da autora, organizado em edição póstuma.
Com este episódio especial, dividido em duas partes, o LEHMT-UFRJ homenageia Maria Célia Paoli, que nos deixou há exatos 7 anos.
Livros de Classe
Os estudantes de graduação são desafiados constantemente a elaborar uma percepção analítica sobre os diversos campos da história. Nossa série Livros de Classe procura refletir justamente sobre esse processo de formação, trazendo obras que são emblemáticas para professores/as, pesquisadores/as e atores sociais ligados à história do trabalho. Em cada episódio, um/a especialista apresenta um livro de impacto em sua trajetória, assim como a importância da obra para a história social do trabalho. Em um formato dinâmico, com vídeos de curtíssima duração, procuramos conectar estudantes a pessoas que hoje são referências nos mais diversos temas, períodos e locais nos mundos do trabalho, construindo, junto com os convidados, um mosaico de clássicos do campo.
Livros de Classe é uma série mensal do portal do LEHMT-UFRJ, na qual especialistas apresentam obras fundamentais para a História dos Mundos do Trabalho e para a formação intelectual dos pesquisadores da área.
Neste episódio especial, José Sergio Leite Lopes (UFRJ) conduz uma homenagem à trajetória intelectual de Maria Célia Paoli, a partir da recente publicação da coleção Obras Reunidas de Maria Célia Paoli (2024), composta por dois volumes: Sujeitos políticos na formação social brasileira e Movimentos sociais e direitos. Reunindo textos produzidos ao longo de mais de três décadas, os livros apresentam ao público um conjunto fundamental da obra da autora, organizado em edição póstuma.
Com este episódio especial, dividido em duas partes, o LEHMT-UFRJ homenageia Maria Célia Paoli, que nos deixou há exatos 7 anos.
Livros de Classe
Os estudantes de graduação são desafiados constantemente a elaborar uma percepção analítica sobre os diversos campos da história. Nossa série Livros de Classe procura refletir justamente sobre esse processo de formação, trazendo obras que são emblemáticas para professores/as, pesquisadores/as e atores sociais ligados à história do trabalho. Em cada episódio, um/a especialista apresenta um livro de impacto em sua trajetória, assim como a importância da obra para a história social do trabalho. Em um formato dinâmico, com vídeos de curtíssima duração, procuramos conectar estudantes a pessoas que hoje são referências nos mais diversos temas, períodos e locais nos mundos do trabalho, construindo, junto com os convidados, um mosaico de clássicos do campo.