Está no ar o primeiro episódio da nova temporada do podcast Vale Mais, do LEHMT-UFRJ!
Nesta temporada, continuamos convidando pesquisadoras e pesquisadores para discutir projetos, livros e teses recentes que aprofundam debates interdisciplinares sobre os mundos do trabalho.
Neste episódio, conversamos com Marcelo Magalhães, professor da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO) e coordenador nacional do ProfHistória. Magalhães abordou as relações entre o Programa de Pós-Graduação em Ensino de História e os mundos do trabalho. Aponta como diferencial do programa a valorização da experiência profissional docente na Educação Básica, reconhecendo nessa experiência um saber constituído, que no diálogo com a universidade, enriquece-a e é enriquecido. O professor destaca também a capacidade do ProfHistória em mobilizar questões que são caras à escola e às regionalidades, vislumbrando unidade e diversidade no Ensino de História no país. Magalhães ainda debate o processo de precarização do trabalho docente atualmente. Para saber mais sobre esse assunto, ouça o episódio!
Não esqueça também de compartilhar nas redes sociais e acompanhar os próximos!
Entrevistadores: Isabelle Pires e Márcio Romerito Arcoverde Roteiro: Claudiane Torres e Luciana Pucu Wollmann Produção: Ana Clara Tavares e Larissa Farias Edição: Thompson Clímaco Diretor da série: Thompson Clímaco Coordenadora geral do Vale Mais: Larissa Farias
Vale Mais #36: ProfHistória, por Marcelo Magalhães –
Vale Mais
Está no ar o primeiro episódio da nova temporada do podcast Vale Mais, do LEHMT-UFRJ!
Nesta temporada, continuamos convidando pesquisadoras e pesquisadores para discutir projetos, livros e teses recentes que aprofundam debates interdisciplinares sobre os mundos do trabalho.
Neste episódio, conversamos com Marcelo Magalhães, professor da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO) e coordenador nacional do ProfHistória. Magalhães abordou as relações entre o Programa de Pós-Graduação em Ensino de História e os mundos do trabalho. Aponta como diferencial do programa a valorização da experiência profissional docente na Educação Básica, reconhecendo nessa experiência um saber constituído, que no diálogo com a universidade, enriquece-a e é enriquecido. O professor destaca também a capacidade do ProfHistória em mobilizar questões que são caras à escola e às regionalidades, vislumbrando unidade e diversidade no Ensino de História no país. Magalhães ainda debate o processo de precarização do trabalho docente atualmente. Para saber mais sobre esse assunto, ouça o episódio!
Não esqueça também de compartilhar nas redes sociais e acompanhar os próximos!
Entrevistadores: Isabelle Pires e Márcio Romerito Arcoverde
Roteiro: Claudiane Torres e Luciana Pucu Wollmann
Produção: Ana Clara Tavares e Larissa Farias
Edição: Thompson Clímaco
Diretor da série: Thompson Clímaco
Coordenadora geral do Vale Mais: Larissa Farias
Neste episódio de Livros de Classe, o professor Carlo Romani (UNIRIO) apresenta Travessias Revolucionárias: ideias e militantes sindicalistas em São Paulo e na Itália (1890–1945), de Edilene Toledo, uma obra pioneira da História do Trabalho no Brasil. A partir das trajetórias de três militantes, o livro analisa as conexões entre São Paulo e a Itália, revelando a circulação transnacional de pessoas, ideias e práticas do sindicalismo revolucionário e antecipando debates que se consolidariam na História Global do Trabalho.
Livros de Classe
Os estudantes de graduação são desafiados constantemente a elaborar uma percepção analítica sobre os diversos campos da história. Nossa série Livros de Classe procura refletir justamente sobre esse processo de formação, trazendo obras que são emblemáticas para professores/as, pesquisadores/as e atores sociais ligados à história do trabalho. Em cada episódio, um/a especialista apresenta um livro de impacto em sua trajetória, assim como a importância da obra para a história social do trabalho. Em um formato dinâmico, com vídeos de curtíssima duração, procuramos conectar estudantes a pessoas que hoje são referências nos mais diversos temas, períodos e locais nos mundos do trabalho, construindo, junto com os convidados, um mosaico de clássicos do campo.
Neste episódio de Livros de Classe, Luciana Lombardo, chefe de Divisão do Memórias Reveladas do Arquivo Nacional, apresenta o livro “Novos e velhos sindicalismos: Rio de Janeiro, 1955/1988”, de Marcelo Badaró Mattos. A obra é fruto da tese de doutorado do autor, defendida em 1996 e investiga as rupturas e continuidades no sindicalismo carioca entre a década de 1950 e o surgimento do novo sindicalismo.
Livros de Classe
Os estudantes de graduação são desafiados constantemente a elaborar uma percepção analítica sobre os diversos campos da história. Nossa série Livros de Classe procura refletir justamente sobre esse processo de formação, trazendo obras que são emblemáticas para professores/as, pesquisadores/as e atores sociais ligados à história do trabalho. Em cada episódio, um/a especialista apresenta um livro de impacto em sua trajetória, assim como a importância da obra para a história social do trabalho. Em um formato dinâmico, com vídeos de curtíssima duração, procuramos conectar estudantes a pessoas que hoje são referências nos mais diversos temas, períodos e locais nos mundos do trabalho, construindo, junto com os convidados, um mosaico de clássicos do campo.
Neste episódio especial de Livros de Classe, José Sergio Leite Lopes (UFRJ) conduz uma homenagem à trajetória intelectual de Maria Célia Paoli, a partir da recente publicação da coleção Obras Reunidas de Maria Célia Paoli (2024), composta por dois volumes: Sujeitos políticos na formação social brasileira e Movimentos sociais e direitos. Reunindo textos produzidos ao longo de mais de três décadas, os livros apresentam ao público um conjunto fundamental da obra da autora, organizado em edição póstuma.
Com este episódio especial, dividido em duas partes, o LEHMT-UFRJ homenageia Maria Célia Paoli, que nos deixou há exatos 7 anos.
Livros de Classe
Os estudantes de graduação são desafiados constantemente a elaborar uma percepção analítica sobre os diversos campos da história. Nossa série Livros de Classe procura refletir justamente sobre esse processo de formação, trazendo obras que são emblemáticas para professores/as, pesquisadores/as e atores sociais ligados à história do trabalho. Em cada episódio, um/a especialista apresenta um livro de impacto em sua trajetória, assim como a importância da obra para a história social do trabalho. Em um formato dinâmico, com vídeos de curtíssima duração, procuramos conectar estudantes a pessoas que hoje são referências nos mais diversos temas, períodos e locais nos mundos do trabalho, construindo, junto com os convidados, um mosaico de clássicos do campo.
Livros de Classe é uma série mensal do portal do LEHMT-UFRJ, na qual especialistas apresentam obras fundamentais para a História dos Mundos do Trabalho e para a formação intelectual dos pesquisadores da área.
Neste episódio especial, José Sergio Leite Lopes (UFRJ) conduz uma homenagem à trajetória intelectual de Maria Célia Paoli, a partir da recente publicação da coleção Obras Reunidas de Maria Célia Paoli (2024), composta por dois volumes: Sujeitos políticos na formação social brasileira e Movimentos sociais e direitos. Reunindo textos produzidos ao longo de mais de três décadas, os livros apresentam ao público um conjunto fundamental da obra da autora, organizado em edição póstuma.
Com este episódio especial, dividido em duas partes, o LEHMT-UFRJ homenageia Maria Célia Paoli, que nos deixou há exatos 7 anos.
Livros de Classe
Os estudantes de graduação são desafiados constantemente a elaborar uma percepção analítica sobre os diversos campos da história. Nossa série Livros de Classe procura refletir justamente sobre esse processo de formação, trazendo obras que são emblemáticas para professores/as, pesquisadores/as e atores sociais ligados à história do trabalho. Em cada episódio, um/a especialista apresenta um livro de impacto em sua trajetória, assim como a importância da obra para a história social do trabalho. Em um formato dinâmico, com vídeos de curtíssima duração, procuramos conectar estudantes a pessoas que hoje são referências nos mais diversos temas, períodos e locais nos mundos do trabalho, construindo, junto com os convidados, um mosaico de clássicos do campo.
Edilene Toledo Professora do Departamento de História da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp)
Há exatos 120 anos, entre 15 e 20 de abril de 1906, na sede do Centro Galego, na rua da Constituição, nº 30 e 32, no centro do Rio de Janeiro, então Distrito Federal, ocorreu o Primeiro Congresso Operário Brasileiro. Os brasileiros e imigrantes nele reunidos eram herdeiros da longa tradição de luta por melhores condições de vida e de trabalho no nosso país e compartilhavam também as ideias e práticas sindicais que circulavam intensamente de um país a outro naquele início do século XX. Os delegados sindicais promoveram intensos debates sobre os problemas que afligiam a classe operária, entendida como o conjunto dos trabalhadores manuais urbanos, grupo em crescimento que englobava homens, mulheres, crianças, idosos, negros, brancos, indígenas, brasileiros e estrangeiros e sobre as formas de luta para melhorar suas condições de vida e de trabalho.
O Centro Galego, que dispunha de um teatro, vinha sendo há alguns anos um espaço para realizações de eventos, encontros e exibições de peças de teatro escritas por operários. A Rua da Constituição, uma das vias que ligam a Praça Tiradentes e a Praça da República, também abrigava uma livraria de um poeta anarquista, especializada em publicações libertárias, um sindicato, o Centro Internacional dos Pintores, e também foi o palco da breve experiência da Universidade Popular de Ensino Livre, que tinha sido realizada em 1904.
Este primeiro congresso foi um evento muito importante para o movimento operário, constituindo o primeiro esforço de luta coordenada dos trabalhadores de várias partes do país, visando construir diálogos e trocas mais intensos e uma primeira central sindical que unisse trabalhadores das diferentes regiões A iniciativa para realizar esse primeiro congresso nacional partiu da União Operária do Engenho de Dentro, localizada nesse bairro na zona norte da cidade do Rio de Janeiro. A união enviou uma circular, assinada por seu presidente, Antonio Pinto Machado, aos sindicatos. O congresso foi organizado por uma coalizão de sindicatos e militantes, especialmente da capital do país, que sediou o encontro. Nele foi evidente a influência do sindicalismo revolucionário, teoria e prática que caracterizou grande parte do movimento sindical em várias partes do mundo naquele momento, com a defesa entusiasta da ação direta e da autonomia dos trabalhadores e da democracia interna de seus sindicatos. Diversamente dos socialistas e anarquistas, os sindicalistas revolucionários acreditavam que o sindicato era o órgão mais importante da luta cotidiana por melhorias e seria o núcleo principal da sociedade futura que pretendiam construir. Embora muitos trabalhadores no Brasil apostassem na luta pela elaboração de leis trabalhistas e na mediação de políticos e jornalistas, a ação direta predominava no movimento operário de São Paulo, e tinha também forte influência no movimento do Rio de Janeiro e em outras partes do país, entre aqueles que acreditavam que a emancipação dos trabalhadores deveria ser obra dos próprios trabalhadores. Assim, lutavam por melhores condições de trabalho e de vida, por melhores salários, jornadas mais suportáveis e pelo direito à organização, enfrentando diretamente seus empregadores.
Os trabalhadores reunidos no congresso revelaram sentir-se parte de um movimento sindicalista internacional. O operariado francês, também em grande medida partidário da ação direta, foi apontado como modelo a ser seguido. Pode-se dizer que as resoluções do congresso foram muito mais sindicalistas que revolucionárias e se encontram nelas poucas ideias do anarquismo e do socialismo. As ideias, por exemplo, de destruição do Estado, ou da tomada dele, ou da construção de uma sociedade futura não foram discutidas, mas sim um conjunto vasto de questões muito práticas que evidenciavam as dificuldades encontradas pelos trabalhadores cotidianamente. A predominância das ideias do sindicalismo revolucionário no congresso não significa, porém, necessariamente que elas fossem a expressão do movimento operário em todo o Brasil. É possível que nos debates acesos do congresso, os grupos de sindicalistas revolucionários tenham feito prevalecer suas ideias sobre os vários delegados e sindicatos que defendiam uma ação reformista. Estiveram presentes 43 delegados de 28 sindicatos do Rio de Janeiro, São Paulo, Ceará, Pernambuco e Santa Catarina, das seguintes categorias: tecelões, ferroviários, gráficos, mineradores, marmoristas, correeiros, marceneiros, estivadores, chapeleiros, alfaiates, sapateiros, trabalhadores das indústrias de tabaco, de trapiche e café e da construção civil. Os sindicatos contaram com a contribuição voluntária dos trabalhadores para financiar os gastos do congresso e os deslocamentos.
Muito provavelmente pela distância e dificuldades no financiamento da viagem, predominaram os sindicatos e militantes do Rio de Janeiro e de São Paulo, 13 e 12 associações, respectivamente, sendo apenas uma do Ceará, uma de Pernambuco e uma de Santa Catarina. Muitos outros sindicatos participaram, porém, enviando sugestões. Devemos considerar também que Rio de Janeiro e São Paulo eram no período as duas maiores cidades do país e com maior número de indústrias e sindicatos, cidades que viviam mais intensamente as consequências dos fenômenos conectados, a industrialização, a urbanização e as migrações, embora eles também tenham ocorrido nos outros estados.
O congresso refletiu em alguma medida a diversidade racial e étnica dos mundos do trabalho naquele momento do pós-abolição e da grande presença de imigrantes no centro-sul do país. Sindicatos com forte presença de trabalhadores negros em sua base como a União dos Operários Estivadores do Rio de Janeiro e a Associação dos Trabalhadores em Trapiche e Café, do Rio de Janeiro, estiveram presentes, assim como é evidente a presença de imigrantes, especialmente italianos, vindos sobretudo de São Paulo. Os trabalhadores organizados buscavam superar as divisões étnicas, raciais e de gênero existentes na classe trabalhadora, enfatizando a importância da identidade de classe. A enorme presença de mulheres e crianças, especialmente nas indústrias têxteis, também apareceu nos debates como elemento de tensão, sendo elas consideradas concorrentes, visto que eram preferidas pelos empregadores que pagavam salários que correspondiam à metade e um quarto, respectivamente, em relação aos salários dos homens. A solução apontada foi estimular a organização das trabalhadoras.
Fizeram parte da comissão redatora das resoluções do congresso Mota Assunção, Alfredo Vasques, Camilo Soares, Sergio de Brito, Luigi Magrassi, Augusto S. Altro e Belisário de Sousa. O tema da neutralidade dos sindicatos foi o primeiro a ser discutido. As questões tinham sido preparadas e propostas com antecedência por várias organizações. Decidiu-se que, “considerando que o operariado estava profundamente dividido por suas opiniões políticas e religiosas e que os interesses econômicos comuns a toda a classe operária eram a única base sólida de acordo e de ação, o congresso deveria aconselhar os trabalhadores a se organizar em sociedades de resistência econômica e de ação direta, deixando fora do sindicato as rivalidades que resultariam da adoção de uma doutrina política ou religiosa”. Isso significava que os sindicatos deveriam manter o que chamavam de neutralidade política, não deveriam ser nem anarquistas, nem socialistas, nem católicos, de modo que todo trabalhador pudesse se reconhecer nele e assim superar os conflitos provocados pelas outras identidades. Além disso, os sindicatos deveriam organizar lutas estritamente trabalhistas, por melhorias salariais, diminuição da jornada, tratamento digno, mas também admitiam greves e manifestações de solidariedade a outras categorias. Entre outras resoluções, decidiu-se também que: o Primeiro de Maio deveria ser um dia de protesto e não de festa; as caixas, isto é, o dinheiro arrecadado pelas organizações deveriam ter como objetivo a resistência; os sindicatos não poderiam admitir empregadores e contramestres; os meios de ação dos sindicatos deveriam ser a greve geral ou parcial, o boicote, a sabotagem e as manifestações públicas; os principais objetivos dos trabalhadores deveriam ser a redução das horas de trabalho, a fundação de bibliotecas e instituições de ensino e a atividade sindical; a propaganda do sindicalismo deveria ser feita através de jornais, folhetos, cartazes, manifestos, carimbos, conferências, excursões de propaganda, representações teatrais e criação de bibliotecas; os sindicatos deveriam realizar protestos contra as guerras e o militarismo; era necessária uma ampla campanha contra o alcoolismo; era necessário que as operárias se organizassem como companheiras de luta; dever-se-ia convidar os pais a não mandarem as crianças para as fábricas; o operariado em geral devia lutar para impedir o aumento dos aluguéis; deveriam promover a propaganda e organizar sindicatos também entre os trabalhadores das fazendas e fazer uma campanha ativa de denúncias contra os abusos sofridos pelos trabalhadores rurais. Decidiu-se também defender por todos os meios o direito de reunião e associação, em caso de ação violenta do governo, visto que eram comuns as prisões arbitrárias, a ação violenta da polícia em caso de manifestações e greves, muitas vezes com mortos e feridos, e a invasão dos sindicatos e apreensão de seus móveis e livros. O Congresso se encerrou com os trabalhadores cantando o Hino da Internacional.
Várias dessas resoluções foram acolhidas pelas organizações operárias do país. O atendimento à chamada para a luta pelas oito horas foi espetacular, visto o movimento em cadeia realizado em várias partes do país no ano seguinte, quando várias categorias de trabalhadores, algumas ainda que provisoriamente, conseguiram obter a jornada de oito horas, como na greve geral de 1907 em São Paulo. O congresso lançou também as bases da Confederação Operária Brasileira, que passaria a funcionar em 1908, junto com seu jornal, A Voz do Trabalhador. Esse congresso constituiu um capítulo importante da luta dos trabalhadores no Brasil, por melhores condições de vida e de trabalho, mas também por democracia, de modo que as lutas e as organizações dos trabalhadores fossem reconhecidas como elementos legítimos na sociedade. Teve também papel central na consolidação de uma identidade de classe entre os trabalhadores e na sociedade como um todo.
O jornal A Voz do Trabalhador, um dos resultados do Primeiro Congresso Operário Brasileiro. A Voz do Trabalhador: Orgam da Confederação Operária Brazileira, edição facsimilar com 71 números, referente ao período de 1908 – 1915. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado: Secretaria do Estado da Cultura: Centro de Memória Sindical, 1985.
PARA SABER MAIS:
BARBOSA, José Fernando da Silva Barbosa. O ano que abalou o movimento operário brasileiro: O Correio da Manhã e o Congresso Operário de 1906. Dissertação de Mestrado. 2019.
OLIVEIRA, Tiago Bernardon de. Anarquismo, sindicatos e revolução no Brasil. Tese de Doutorado, Universidade Federal Fluminense, 2009.
PINHEIRO, Paulo Sérgio e HALL, Michael. A Classe Operária no Brasil. Documentos (1889 a 1930) Vol. 1 – O movimento operário. São Paulo: Alfa-Omega, 1979.
SOUZA, Felipe Azevedo e Souza e CASTELLUCCI, Aldrin. À margem dos grandes esquemas: o associativismo político-eleitoral dos trabalhadores de Pernambuco e da Bahia na Primeira República. Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 35, nº 75, p.6-25, Janeiro-Abril 2022.
TOLEDO, Edilene. Travessias Revolucionárias. Ideias e militantes sindicalistas entre São Paulo e a Itália (1890-1945). Campinas-SP: Editora da Unicamp. 2004.
Crédito da imagem de capa: Operários reunidos no Primeiro Congresso Operário Brasileiro, Rio de Janeiro, 1906. Fotografia de autor desconhecido publicado pelo jornal O Malho em 28 de abril de 1906. Arquivo Edgard Leuenroth, Unicamp.
Rodolfo Porrini Professor do Instituto de História, Universidade da República (Uruguai)
Entre os lugares de memória da classe trabalhadora no Uruguai existem exemplos interessantes de como organizações sociais construíram, mantiveram e transformaram os espaços materiais nos quais seus projetos políticos, sociais, intelectuais e culturais se desenvolveram.
Um dos espaços de referência do movimento operário no Uruguai e sua capital, Montevidéu, é o antigo local do Centro Internacional de Estudos Sociais (CIES). O CIES foi estabelecido no centro da cidade a partir do final de 1897 ou início de 1898, por um grupo de trabalhadores alfaiates de diversas nacionalidades – em sua maioria italianos, mas também espanhóis e locais. Além dos trabalhadores alfaiates, participou também um amplo grupo de intelectuais e artistas. Do ponto de vista ideológico, o CIES era plural. Ali transitavam socialistas, livres-pensadores e liberais radicais, embora predominasse um tom anarquista. Foi o espaço operário mais conhecido de Montevidéu e teve longa duração, chegando até 1924, sendo posteriormente continuado por outras experiências e múltiplas atividades.
Ali desde o início do século XX aconteciam debates, cursos e conferências, leituras individuais e “comentadas”, sustentadas por uma importante biblioteca e periódicos de todo o mundo. O espaço servia para o funcionamento de organizações sindicais e assembleias, centro de apoio a conflitos operários e sede de publicações sindicais e políticas, de caráter predominantemente libertário. Foi também cenário de multifacetadas veladas (noites) culturais e artísticas.
Desde o início, o CIES esteve vinculado aos alfaiates, reunidos desde 1901 na Sociedade de Resistência de Operários Alfaiates. Ali funcionavam ainda outras sociedades de resistência e iniciativas mais ambiciosas que buscaram construir instrumentos de luta e de cultura alternativa, operária e socialista. O amplo local ficava na rua Río Negro 274, que, após mudanças na numeração, em 1913, passou a ser 1180, endereço mantido até hoje.
O Centro Internacional foi palco de múltiplas assembleias operárias de sociedades de resistência – continuadoras das sociedades mutuais que antecederam os sindicatos – e onde se fundou, em agosto de 1905, a primeira organização federal com relevante continuidade no século XX: a Federação Operária Regional Uruguaia (FORU), de orientação anarquista. Dali partiam manifestações internacionalistas, como a que protestou contra o assassinato de Francisco Ferrer em 1909, ou em apoio à Primeira Greve Geral no Uruguai, em maio de 1911. Em suas instalações realizavam-se conferências e cursos, debates e “controvérsias” entre oradores de diversas ideias e nacionalidades, predominantemente anarquistas, mas também socialistas e livres-pensadores.
As noites artísticas eram um fator de sociabilidade e de arrecadação de recursos para sustentar a imprensa e as famílias dos “presos sociais”. Incluíam música, poesia, danças, cantos e representações teatrais, além de conferências sobre temas ideológicos, filosóficos ou internacionalistas. Em seu grupo “filodramático” atuou o célebre dramaturgo Florencio Sánchez, militante anarquista durante um período, tendo estreado ali peças de teatro social como Puertas adentro em 1899 e Ladrones em 1901.
Foi sede da redação de várias publicações, como o jornal El Trabajo, primeiro diário anarquista no Uruguai (setembro de 1901 – março de 1902), e o semanário Tribuna Libertaria (1900–1902), ambos órgãos do CIES.
A Revolução Russa de outubro de 1917 atuou como divisor de águas no movimento operário da época. Por volta de 1920, impulsionou no Partido Socialista, fundado em 1910, sua transformação em Partido Comunista (abril de 1921) e a reconstrução de um novo PS em 1922. Para o anarquismo, gerou tensões nos múltiplos círculos sociais, nas sociedades de resistência e na FORU. Entre 1921 e 1923 ocorreu a divisão da FORU, criando-se em outubro de 1923 a União Sindical Uruguaia (USU), definida como anarco-sindicalista, também com presença de uma minoria comunista.
Em 1920 foi formado o importante Sindicato de Artes Gráficas (SAG). Em 25 de novembro de 1921, categorias ocupacionais tradicionais do setor de confecção, como alfaiates, camiseiras, costureiras de coletes e calças e cortadores, fundaram o Sindicato Único da Agulha (SUA). Ambos foram importantes referências da USU, funcionando todos no local do CIES.
Em 1924 trabalhadores do setor criaram o Ateneu Popular do Sindicato Único da Agulha, com o objetivo de “contribuir para a elevação cultural da classe operária”. Pode-se considerá-lo uma continuação do Centro Internacional. Nessa iniciativa, além de anarquistas, participaram alguns socialistas.
Em dezembro, o Ateneu propôs comprar o antigo casarão. Organizaram-se atividades para arrecadar fundos e obteve-se o apoio financeiro do órgão legislativo municipal – com gestão de vereadores socialistas – concretizando-se a compra em 1925. O sindicato planejou ampliar e reformar o local, em um projeto que, após receber subsídio estatal, foi finalizado em 1928. O resultado foi um edifício em estilo art déco de três andares: no térreo havia um espaço para sala teatral, e nos outros dois andares, espaços para biblioteca e distintas atividades sociais e sindicais. Nesses anos, vários sindicatos funcionavam ali.
A partir dos anos 1940, a sociedade, as classes trabalhadoras e o sindicalismo passaram por importantes mudanças. No âmbito dessas transformações, formou-se a União Geral de Trabalhadores (UGT) em 1942. Militantes comunistas dirigiam a UGT, enquanto vários sindicatos permaneceram como “autônomos” e formaram coordenações próprias. Paralelamente, em 1951, criou-se a Confederação Sindical do Uruguai.
Em 1944, estabeleceu-se uma tensão entre um grupo oriundo da matriz inicial anarquista do Ateneu Popular e a direção do Sindicato Único da Agulha, vinculada à UGT comunista. Isso motivou um enfrentamento que resultou na permanência do local nas mãos de uma comissão do antigo Ateneu Popular e obrigou o SUA a se transferir. Período complexo para o Ateneu, para o próprio SUA e para o movimento sindical da época.
A partir do final dos anos 1950 e meados dos 1960, impulsionado pela crise econômica e estrutural do país, avançou no Uruguai o processo de unificação sindical, criando-se entre 1964 e 1966 a Convenção Nacional de Trabalhadores (CNT), unificando a maioria das correntes sindicais classistas do país. Vieram então tempos mais duros: o autoritarismo de Estado (1968–1973) e a instalação da ditadura civil-militar a partir de 27 de junho de 1973.
Por sua vez, após o fim da ditadura, o SUA continuou lutando para retornar ao que considerava seu local. Isso só se concretizou em 2004. Recuperado o espaço, o sindicato decidiu homenagear um de seus militantes, de orientação comunista, dando seu nome ao novo Ateneu Popular “Bernardo Groisman”, falecido em 2003.
Desde então, além de suas tarefas sindicais, o Sindicato se propôs a desenvolver atividades culturais, sociais e solidárias, retomando as motivações e práticas dos operários e intelectuais de suas origens. Foi sede de atos culturais, festas, lançamentos de livros e de veículos jornalísticos, e durante a pandemia realizou tarefas solidárias: confecção de máscaras e apoio a projetos de alimentação popular diante da difícil situação econômica e social.
Ainda hoje, apesar de certa precariedade do edifício, o SUA tem conseguido manter o prédio e realizar tarefas sindicais, solidárias e culturais. Sua existência constitui uma marca indelével do patrimônio cultural e material do movimento operário e social de Montevidéu e do Uruguai. Um espaço para a cultura alternativa.
Fachada do Ateneu da SUA Bernardo Groisman, antiga sede do Centro Internacional, na Rua Río Negro, 1180, Montevidéu, Uruguai. Fonte: fotografia tirada por Rodolfo Porrini, 9/10/2025.
Tradução: Yasmin Getirana
PARA SABER MAIS
MOREIRA, Ricardo, “El Sindicato Único de la Aguja y su Ateneo popular”, en Ana Frega (coordinación), Montevideo 300 años, Montevideo, Intendencia de Montevideo, 2024, pp.408-413.
MUÑOZ, Pascual, La primera huelga general en el Uruguay. 23 de mayo de 1911, Montevideo, La Turba Ediciones, 2011.
PORRINI, Rodolfo, Montevideo, ciudad obrera. El ‘tiempo libre desde las izquierdas (1920-1950), Montevideo, Ediciones Universitarias, 2023 [2019].
VIDAL, Daniel, “Centros de estudios Sociales. Conferencias y controversias”, en letra chica. Revista de ramos generales, número 3, diciembre 2009 (internet)
ZUBILLAGA, Carlos, BALBIS, Jorge, Historia del movimiento sindical uruguayo, tomos II, IV, Montevideo, Banda Oriental, 1986, 1992.
Crédito da imagem: Reunião de trabalhadores no saguão do Centro Internacional, 1901. Fonte: Carlos M. Rama, Obreros y anarquistas, Montevidéu, Editores Reunidos/Arca, 1969, p. 24.
Lugares de Memória dos Trabalhadores
As marcas das experiências dos trabalhadores e trabalhadoras brasileiros estão espalhadas por inúmeros lugares da cidade e do campo. Muitos desses locais não mais existem, outros estão esquecidos, pouquíssimos são celebrados. Na batalha de memórias, os mundos do trabalho e seus lugares também são negligenciados. Nossa série Lugares de Memória dos Trabalhadores procura justamente dar visibilidade para essa “geografia social do trabalho” procurando estimular uma reflexão sobre os espaços onde vivemos e como sua história e memória são tratadas. Mensalmente, um pequeno artigo com imagens, escrito por um(a) especialista, fará uma “biografia” de espaços relevantes da história dos trabalhadores de todo o Brasil. Nossa perspectiva é ampla. São lugares de atuação política e social, de lazer, de protestos, de repressão, de rituais e de criação de sociabilidades. Estátuas, praças, ruas, cemitérios, locais de trabalho, agências estatais, sedes de organizações, entre muitos outros. Todos eles, espaços que rotineiramente ou em alguns poucos episódios marcaram a história dos trabalhadores no Brasil, em alguma região ou mesmo em uma pequena comunidade.
A seção Lugares de Memória dos Trabalhadores é coordenada por Larissa Farias, Paulo Fontes, Vinicius Rosalvo e Yasmin Getirana.
Livros de Classe é uma série mensal do portal do LEHMT-UFRJ, na qual especialistas apresentam obras fundamentais para a História dos Mundos do Trabalho e para a formação intelectual dos pesquisadores da área.
Neste episódio, Fernando Sarti, pesquisador de pós-doutorado na Unicamp, apresenta o livro “Greve de massa e crise política: Estudo sobre a greve dos 300 mil em São Paulo (1953-54)”, de José Álvaro Moisés. A obra é resultado da pesquisa de mestrado realizada na Universidade de Essex, no Reino Unido, defendida em 1972, e tornou-se um dos estudos clássicos e dos mais controversos sobre a história do movimento operário brasileiro. Com esse episódio, o LEHMT-UFRJ homenageia José Álvaro Moisés, falecido recentemente de maneira trágica.
Livros de Classe
Os estudantes de graduação são desafiados constantemente a elaborar uma percepção analítica sobre os diversos campos da história. Nossa série Livros de Classe procura refletir justamente sobre esse processo de formação, trazendo obras que são emblemáticas para professores/as, pesquisadores/as e atores sociais ligados à história do trabalho. Em cada episódio, um/a especialista apresenta um livro de impacto em sua trajetória, assim como a importância da obra para a história social do trabalho. Em um formato dinâmico, com vídeos de curtíssima duração, procuramos conectar estudantes a pessoas que hoje são referências nos mais diversos temas, períodos e locais nos mundos do trabalho, construindo, junto com os convidados, um mosaico de clássicos do campo.
Victoria Basualdo Historiadora, pesquisadora do CONICET, da Universidade Nacional de Quilmes (Centro de Estudos de Desenvolvimento, Inovação e Economia Política) e da Universidade de Buenos Aires (Instituto Interdisciplinar de Estudos de Gênero)
O golpe de 24 de março de 1976 marcou um ponto de inflexão na história da Argentina, em termos repressivos, econômicos, trabalhistas e políticos, e deixou um legado cujos impactos perduram até hoje. Embora a história do país tenha sido marcada por uma série de golpes de Estado desde 1930 (e no contexto da Guerra Fria em 1955 e 1966), tanto os estudos acadêmicos e científicos quanto o processo de judicialização provaram que a ditadura de 1976 desenvolveu um plano sistemático de repressão contra a chamada “subversão”, que incluía um amplo arco de linhas de ação e pensamento. Esse processo repressivo incluiu, de forma central, a tortura, o desaparecimento forçado de pessoas, o assassinato e o encarceramento ou cativeiro de pessoas em cerca de 800 centros clandestinos de detenção em todo o território do país. Também incluiu sistematicamente a apropriação de menores, dos quais foi roubada a identidade, e o roubo de bens móveis e imóveis, entre outros crimes contra a humanidade, que seguem sendo julgados até a atualidade.
Por mais que as análises históricas predominantes tenham enfatizado leituras políticas da ditadura que se estendeu entre 1976 e 1983, a dimensão de classe dessa história, em articulação com dimensões de gênero, raça e territorialidade, é central para a compreensão desse processo. A classe trabalhadora argentina tem uma longa história de organização e luta e, desde meados da década de 40, logrou construir uma estrutura sindical que combinou a existência de uma confederação sindical em nível nacional, sindicatos de tipo industrial por ramo de atividade e uma presença sindical nos locais de trabalho por meio de delegados/as e comissões internas, o que foi decisivo para garantir uma participação dos/as trabalhadores/as na renda nacional que chegou a 50% em 1950. O golpe de 1955 que derrubou Juan Domingo Perón em sua segunda presidência deu lugar a 18 anos de proscrição política de sua figura e partido, no marco de uma ofensiva tendente a reconfigurar o papel dessa classe trabalhadora na economia, na política e na sociedade, com uma repressão crescente a partir da ativação do Plano Conintes (Comoção Interna do Estado) e da Doutrina de Segurança Nacional nos anos 60.
No contexto do aprofundamento da segunda etapa da industrialização por substituição de importações, em que o complexo automotivo e as indústrias metalúrgicas e químicas foram eixos dinâmicos, e num contexto de radicalização política crescente, a partir do final dos anos 60 produziu-se uma série de manifestações operário-estudantis em distintas cidades do país, entre os quais se destacou o Cordobazo em maio de 1969, que contribuíram para enfraquecer a ditadura do General Onganía e iniciar um período de luta aberta. Isso permitiu, em 1973, a convocação de eleições, nas quais triunfou a chapa peronista Cámpora-Solano Lima, e posteriormente uma nova eleição em que a chapa Juan Domingo Perón-Isabel Perón se impôs com margem ainda maior. Em 1º de julho de 1974, com a morte de Perón, as tensões já existentes entre uma ala direita e uma ala esquerda dentro do próprio movimento peronista resolveram-se claramente em benefício da primeira, dando lugar a um processo repressivo de intensidade crescente contra os setores políticos e político-militares da ala esquerda do peronismo e os setores sindicais e trabalhadores combativos. A repressão em Córdoba em 1974 e em 1975 no cordão industrial da zona norte de Buenos Aires e do sul de Santa Fé (com epicentro em Villa Constitución), bem como no âmbito da Operação Independência em Tucumán, veio acompanhada de uma brusca virada na política econômica nos planos de ajuste dos ministros Celestino Rodrigo (em junho de 1975) e Eugenio Mondelli (fevereiro de 1976), que enfrentaram uma resistência significativa.
O golpe de 24 de março de 1976, liderado pela Junta Militar composta pelos generais Videla (Exército), Massera (Marinha) e Agosti (Força Aérea), tentou alcançar uma solução definitiva para esse processo de confrontação social e disputa em torno da distribuição da renda nacional e das condições de trabalho e de vida. Isso ocorreu no marco do avanço das ditaduras em vários países da região com o apoio dos Estados Unidos e de mudanças em nível global no sistema capitalista desencadeadas com maior força a partir da crise do petróleo, que promoveram um processo de financeirização, um retrocesso do peso da produção industrial e, no marco de importantes mudanças tecnológicas nos anos 70 e 80, impulsionaram uma reconfiguração do papel da classe trabalhadora e do movimento sindical e a gênese do projeto neoliberal.
Tudo isso marcou um ponto de inflexão visível no mundo do trabalho, já que desde o próprio 24 de março realizaram-se grandes operações militares em estabelecimentos fabris, que deram início a uma repressão sem precedentes em termos de intensidade e extensão. Linhas de pesquisa desenvolvidas nas últimas décadas abordaram um conjunto de casos emblemáticos de empresas e grupos econômicos em diversas regiões do país e puderam provar, a partir da abordagem sistemática de um conjunto de fontes judiciais, de imprensa, de arquivos públicos e privados, testemunhos orais e um amplo arco de documentação proveniente de fundos sindicais e pessoais de protagonistas, a articulação que existiu entre setores do poder econômico e as forças armadas no processo repressivo contra trabalhadores/as e sindicalistas, com efeitos brutais nas comunidades operárias.
A Área de Economia e Tecnologia da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais e do Centro de Estudos Legais e Sociais, a Secretaria de Direitos Humanos da Nação e o Programa Verdade e Justiça desenvolveram uma pesquisa sobre 25 casos de empresas de distintas atividades, tipo de propriedade e localização, que demonstrou a existência de padrões tanto de militarização dos espaços laborais quanto de aportes logísticos e materiais centrais por parte dessas empresas ao processo repressivo, comprovando em 5 dos 25 casos a existência de centros clandestinos de detenção dentro das fábricas. A repressão no âmbito trabalhista não ocorreu apenas nos grandes centros urbanos e nos cordões industriais, mas também em zonas rurais, nas quais processos de organização de enorme importância, como as Ligas Agrárias nas zonas do Nordeste e Noroeste da Argentina, foram objeto de uma repressão brutal, articulada com profundas transformações nas formas de produção e comercialização dos produtos primários.
Esse envolvimento de setores empresariais na repressão não pode ser compreendido fora da relação mais ampla entre forças armadas e núcleos do poder econômico. Um traço central da ditadura de 1976-1983 foi a aliança intelectual e institucional militar-empresarial que se traduziu em grande quantidade de representantes empresariais em postos-chave da ditadura e na participação de militares em conselhos de administração de empresas nesse período. A figura central nesse sentido foi José Alfredo Martínez de Hoz, ministro da Economia entre 1976 e 1981, que havia sido, entre muitos outros cargos em conselhos e confederações empresariais, presidente do Conselho de Administração da Acindar, uma empresa siderúrgica profundamente implicada na repressão a trabalhadores a partir de 1975, que se tornou símbolo da aliança entre o poder econômico e as forças armadas. Quem o substituiu à frente da empresa foi um militar de grande importância, Alcides López Aufranc, formado na escola francesa de contrainsurgência e que havia desempenhado um papel em processos repressivos dos anos 60 e 70.
Nesse contexto, a ditadura implementou transformações muito profundas no marco normativo trabalhista, desenvolvendo ao mesmo tempo uma perseguição extrema não apenas contra os setores sindicais representativos que levaram adiante lutas nesse período, tanto nos locais de trabalho quanto por meio de greves abertas, jornadas de protesto e processos de organização e denúncia em nível internacional, mas também contra todas as instituições e setores vinculados à defesa dos direitos de organização, protesto, negociação e demanda judicial, incluindo os/as advogados/as trabalhistas que haviam redigido algumas das leis trabalhistas mutiladas e que defendiam trabalhadores/as e sindicatos. Ao mesmo tempo, as políticas econômicas ditatoriais, incluindo uma reforma financeira e um processo de abertura e desregulação, afetaram drasticamente a industrialização substitutiva de importações do país e colocaram a valorização financeira no centro da estrutura econômica e do comportamento macro e microeconômico, levando a cabo uma drástica e sem precedentes redistribuição da renda em detrimento dos trabalhadores. Essa combinação de processos delineou um novo padrão de acumulação que continuou após a transição para a democracia, caracterizado por um processo de endividamento externo, um crescimento da fuga de capitais e uma reestruturação brutal da estrutura econômica baseada numa aliança entre os grupos econômicos locais e o capital financeiro internacional, que incluiu os bancos privados e os organismos internacionais como representantes políticos do capital financeiro.
Este aniversário torna-se particularmente relevante e atual, não apenas pela reivindicação explícita por parte do governo de Javier Milei dos referenciais econômicos da ditadura e de suas políticas, grande parte das quais busca retomar e aprofundar, mas também pela reivindicação do processo repressivo, não apenas em termos discursivos, mas na prática, num incremento extremo da repressão ao protesto, com particular brutalidade contra coletivos de aposentados, pessoas com deficiência e trabalhadores/as. A reforma trabalhista recentemente aprovada pelo Congresso Nacional, apesar de uma forte rejeição política e sindical, mostra um novo capítulo da ofensiva da elite econômica contra os direitos trabalhistas e as formas de trabalho, vida e organização, que busca eliminar vários dos direitos conquistados há um século. Essas disputas, que devem necessariamente ser compreendidas e analisadas mais uma vez num marco regional e mundial de avanço contra a classe trabalhadora a nível internacional, estão inextricavelmente unidas às demandas por memória, verdade e justiça que se multiplicam em todo o território nacional e em todo lugar do mundo onde há argentinos. O olhar a partir do eixo capital-trabalho torna clara a vinculação desses processos históricos e contribui para compreender por que, nas ofensivas das extremas direitas, a luta pela história é tão importante. Há 50 anos, reivindicamos a importância dessa história, imprescindível para iluminar as lutas do presente e a construção de um outro futuro.
Faixa dos trabalhadores da Ford e seus familiares durante a manifestação em 24 de marco de 2019, logo após a sentença histórica que condenou o responsável militar Santiago Omar Riveros e outros dois altos funcionários da empresa, Héctor Sibilla e Pedro Müller. Fotografia de Victoria Basualdo
Basualdo, Eduardo M., Estudios de historia económica argentina. Desde mediados del siglo XX hasta la actualidad, Siglo Veintiuno Editores, 2006.
Basualdo Victoria, Berghoff, Harmut y Bucheli, Marcelo, Big Business and Dictatorships in Latin America: A Transnational History of Profits and Repression, Palgrave Macmillan, 2021.
Pereira Campos, Pedro Henrique; Vaz Da Motta Brandao, Rafael; Basualdo, Victoria; Responsabilidade empresarial em violações de direitos humanos nas ditaduras da Argentina e do Brasil en Barcelos Ribeiro Da Silva, Ana Paula, Vaz Da Motta Brandao, Rafael, Fogelman, Patricia Alejandra, Simoes de Melo, Leda Agnes, Conexões Brasil-Argentina: Pontes e intercâmbios a partir da história; Mauad X, 2024.
Crédito da imagem de capa: Plenária Nacional Anti-Burocrática, reuniu diversos setores do sindicalismo combativo da Argentina no dia 20 de abril de 1974 no Clube Riberas do Paraná na Villa Constitución.Um exemplo entre vários da crescente força e presença pública dos trabalhadores organizados na política argentina no período que antecedeu o golpe de março de 1976. Fotografia de Norberto Puzzolo, Archivo Nacional de la Memoria.
Görkem Akgöz Pesquisadora do Instituto Internacional de História Social, Amsterdã
Em 19 de março de 2025, mais um duro golpe foi desferido contra a democracia turca com a prisão de Ekrem İmamoğlu, prefeito de oposição de Istambul e o rival mais proeminente do presidente Recep Tayyip Erdoğan. Em resposta, a Praça Saraçhane tornou-se o epicentro da resistência, com sua histórica esplanada em frente à prefeitura transformando-se em uma ágora vibrante, um testemunho de uma cidade que se recusa a ser silenciada.
Comentaristas saudaram as multidões massivas como o nascimento do “Segundo Espírito de Saraçhane”. Para muitos que utilizaram o termo, o “primeiro” teria sido a celebração jubilosa que marcou a vitória eleitoral decisiva do prefeito, extremamente popular, na mesma praça em 2019. Mas a memória da praça é muito mais profunda. O “novo” espírito, em 2025, foi uma resposta ao que muitos observadores chamaram de “golpe judicial”, enquanto o “Espírito de Saraçhane” original nasceu sessenta e quatro anos antes, no rastro de um golpe militar. Durante décadas, o espectro da dissidência popular assombrou a praça.
Para compreender como uma única praça se tornou o palco recorrente de momentos tão decisivos, é preciso primeiro entender o próprio cenário onde eles ocorreram: uma praça que não surgiu de forma gradual e orgânica, mas que foi violentamente escavada do coração da cidade décadas antes.
Na década de 1950, sob uma agressiva campanha de modernização liderada pelo poderoso governo da época, que promovia uma nova agenda pró-negócios e firmemente pró-americana, o antigo bairro de Saraçhane foi radicalmente transformado. Seguindo esses novos planos urbanísticos, uma ampla e moderna via foi aberta à força através do denso bairro histórico. Nesse processo, séculos de patrimônio otomano — incluindo as pequenas mesquitas, fontes e oficinas que deram nome à área — foram apagados do mapa. Em seu lugar, surgiu a vasta, aberta e imponente praça que vemos hoje, dominada pelo novo edifício modernista da Prefeitura Metropolitana de Istambul. A praça foi concebida pelo Estado como símbolo de uma nova ordem. A população, no entanto, logo a reivindicaria para um propósito muito diferente: como um poderoso novo palco de dissidência.
Esse novo propósito começou a se concretizar em 31 de dezembro de 1961, quando uma multidão imensa — estimada entre 100 mil e 200 mil pessoas — tomou a praça na maior manifestação de trabalhadores que o país já havia presenciado. Um evento de tal magnitude não surgiu do nada; foi o culminar de uma década de crescimento silencioso e explosivo, à medida que a Turquia se industrializava rapidamente.
Essa nova classe social foi fortalecida pelo ambiente político mais livre que se seguiu ao golpe militar de 1960, um evento que, em uma ironia histórica, depôs e executou o mesmo primeiro-ministro cujo governo havia criado a moderna Praça Saraçhane. O golpe levou à promulgação da liberal Constituição de 1961, aprovada por referendo poucos meses antes. A nova constituição apresentou aos trabalhadores um poderoso paradoxo: pela primeira vez, reconhecia o princípio do direito à greve. No entanto, uma antiga lei trabalhista de 1936, que proibia explicitamente todas as greves, ainda estava em vigor e contradizia diretamente a nova constituição. Como o governo não oferecia um cronograma claro para resolver esse conflito, os trabalhadores temiam que seu novo direito permanecesse preso entre uma promessa constitucional e uma proibição legal. O comício de Saraçhane foi sua tentativa de forçar uma solução e romper o impasse.
Esse impulso para romper o impasse surgiu de duas forças poderosas: um medo profundamente enraizado e uma nova ambição política. O medo era de que essa “oportunidade única em um século” fosse perdida; os sindicalistas desconfiavam dos políticos civis que estavam prestes a assumir o poder, acreditando que usariam o limbo jurídico para adiar as leis indefinidamente. A ambição pertencia ao nascente Partido dos Trabalhadores da Turquia (TİP), fundado meses antes pelos mesmos líderes sindicais, que viam o protesto como uma chance de provar a força do movimento que representavam.
O Estado resistiu ferozmente. O Governador de Istambul, um ex-general, tentou proibir o comício, zombando dos trabalhadores: “Em vez de pés caminhando, cabeças deveriam estar pensando. Isso não serve para nada além de bloquear o trânsito.” Ele sugeriu sarcasticamente que, se eles simplesmente quisessem caminhar, deveriam “dar um passeio até a Colina de Çamlıca,” um conhecido parque recreativo longe do centro político da cidade. Sua arrogância saiu pela culatra, unindo os trabalhadores na indignação e fortalecendo sua determinação até que o comício finalmente foi autorizado a acontecer.
A raiva bruta e a esperança de uma classe em ascensão finalmente encontraram sua voz no último dia de 1961, ecoando por uma lamacenta Praça Saraçhane repleta de uma multidão determinada. As vozes do palco formaram um coro coletivo de uma classe descobrindo seu poder. Houve palavras de esperança de um velho sindicalista: “As sementes que plantamos nos dias sombrios brotaram… O sol pode ser negado, mas o seu poder não pode mais ser negado.” Houve a definição clara da luta: “Onde há direito de greve, há democracia. Fora disso, não há democracia.” Houve a raiva bruta contra os patrões que espremiam os trabalhadores “como um limão e os jogavam fora como bagaço,” e um ultimato desafiador: “Ou a lei da greve será aprovada, ou faremos greve apesar da proibição.”
O clímax do dia ocorreu quando o mesmo Governador que os havia ridicularizado fez uma aparição surpresa. Ao subir ao palco, alguns na multidão gritaram de volta suas próprias palavras: “Para a Colina de Çamlıca!” Mas diante da imensa e disciplinada multidão, seu tom havia mudado. “Heroicos trabalhadores turcos,” começou ele, “este país se erguerá sobre suas mãos calejadas… Sua causa é a nossa causa. Tenho orgulho de vocês.” Naquele momento, o Estado, que havia tentado proibi-los e ridicularizá-los, foi forçado a elogiá-los em seu próprio palco, uma impressionante reviravolta que demonstrou o poder inegável da multidão.
O impacto do comício foi imediato e profundo. Sua disciplina e caráter pacífico desafiaram os temores dos setores dominantes quanto ao caos. O protesto contrapôs-se de forma contundente à narrativa oficial promovida pelo então Ministro do Trabalho, Bülent Ecevit, um homem que mais tarde se tornaria uma das figuras mais importantes da social-democracia turca. Na visão paternalista de Ecevit, os direitos dos trabalhadores eram uma “dádiva” concedida de cima para baixo, posicionando a classe trabalhadora como receptora passiva da benevolência do Estado. Desafiando diretamente essa narrativa de uma classe passiva que recebe presentes, Mehmet Ali Aybar, que em breve se tornaria líder do Partido dos Trabalhadores da Turquia (TİP), ofereceu uma poderosa contra-metáfora. A mudança, argumentava ele, não era um presente externo, mas uma transformação interna. Para ele, aquele foi o momento em que “os trabalhadores despertaram como se de um sono de um século,” um gigante adormecido que se movia não para receber algo, mas para finalmente reivindicar sua própria força inerente.
Esse despertar teve resultados concretos. A ameaça de greve não era um blefe; o comício tornou-se o “sinalizador” para uma onda de greves eficazes, ainda que ilegais. Essa pressão sustentada de baixo para cima acabou forçando a mão do governo: em 24 de julho de 1963, as primeiras leis trabalhistas abrangentes da Turquia, legalizando plenamente o direito de greve e a negociação coletiva, foram oficialmente publicadas. A energia de Saraçhane também revitalizou o nascente TİP, dando-lhe o impulso necessário para entrar no Parlamento em 1965 e provando que o poder das ruas podia ser convertido em poder político.
O eco cultural do comício revelou-se igualmente potente. Em uma reviravolta comovente da história, apenas alguns meses antes dos protestos de março de 2025, o prefeito de Istambul, Ekrem İmamoğlu, inaugurou uma exposição fotográfica sobre o comício de 1961 no mesmo edifício da prefeitura. Foi uma redescoberta de um passado esquecido; İmamoğlu confessou que estava tomando conhecimento daquele evento monumental pela primeira vez, um exemplo contundente de como esse capítulo da história dos trabalhadores havia sido apagado da memória oficial da cidade. Ainda assim, o legado do comício mostrou-se poderoso demais para ser completamente suprimido, tendo alcançado, muito antes, até mesmo o poeta mais famoso da Turquia, o comunista exilado Nazım Hikmet, que imortalizou o espírito daquele dia em seu poema icônico, “Saudações à Classe Trabalhadora Turca,” com uma visão esperançosa do futuro: “…saudações àqueles que marcham para criar os dias futuros!”
Koçak, M. Hakan and Aziz Çelik. “Türkiye İşçi Sınıfının Ayağa Kalktığı Gün: Saraçhane Mitingi” (The Day the Turkish Working Class Rose Up: The Saraçhane Rally). Tarih ve Toplum: Yeni Yaklaşımlar, Sayı 9, 2009.
Zürcher, Erik J. Turkey: A Modern History. I.B. Tauris, 2017. (Provides a comprehensive historical context for the political turmoil of the 1950s and the 1960 coup).
Ahmad, Feroz. The Turkish Experiment in Democracy, 1950-1975. C. Hurst & Co. Publishers, 1977. (A classic academic study focusing on the period, with detailed analysis of social and political forces, including the labor movement).
Film:Kavel (2018), a documentary directed by Zafer Aydın that details the historic 1963 strike that followed the Saraçhane rally.
Poem & Music: Nazım Hikmet, “Türkiye İşçi Sınıfına Selam” (Greetings to the Turkish Working Class, 1962). The poem, written in exile after being inspired by the rally, was famously set to music by Timur Selçuk. You can listen to the iconic song here: https://www.youtube.com/watch?v=SN7HimmS0e0
Crédito da imagem: Manifestação em Saraçhane, 31 de dezembro de 1961 (Arquivo İsmail Topkar)
Lugares de Memória dos Trabalhadores
As marcas das experiências dos trabalhadores e trabalhadoras brasileiros estão espalhadas por inúmeros lugares da cidade e do campo. Muitos desses locais não mais existem, outros estão esquecidos, pouquíssimos são celebrados. Na batalha de memórias, os mundos do trabalho e seus lugares também são negligenciados. Nossa série Lugares de Memória dos Trabalhadores procura justamente dar visibilidade para essa “geografia social do trabalho” procurando estimular uma reflexão sobre os espaços onde vivemos e como sua história e memória são tratadas. Mensalmente, um pequeno artigo com imagens, escrito por um(a) especialista, fará uma “biografia” de espaços relevantes da história dos trabalhadores de todo o Brasil. Nossa perspectiva é ampla. São lugares de atuação política e social, de lazer, de protestos, de repressão, de rituais e de criação de sociabilidades. Estátuas, praças, ruas, cemitérios, locais de trabalho, agências estatais, sedes de organizações, entre muitos outros. Todos eles, espaços que rotineiramente ou em alguns poucos episódios marcaram a história dos trabalhadores no Brasil, em alguma região ou mesmo em uma pequena comunidade.
A seção Lugares de Memória dos Trabalhadores é coordenada por Larissa Farias, Paulo Fontes, Vinicius Rosalvo e Yasmin Getirana.
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