Neste episódio de Livros de Classe, Fidel Velásquez, professor do Centro de Investigaciones Históricas, Antropológicas y Culturales de Panamá, apresenta “Palmares & Cacaú: O aprendizado da dominação, de Silvia Lara. A obra explora as relações entre escravidão, liberdade e poder na sociedade colonial e oferece novas perspectivas sobre estratégias de resistência e mecanismos de dominação mobilizados pelas autoridades coloniais.
Livros de Classe
Os estudantes de graduação são desafiados constantemente a elaborar uma percepção analítica sobre os diversos campos da história. Nossa série Livros de Classe procura refletir justamente sobre esse processo de formação, trazendo obras que são emblemáticas para professores/as, pesquisadores/as e atores sociais ligados à história do trabalho. Em cada episódio, um/a especialista apresenta um livro de impacto em sua trajetória, assim como a importância da obra para a história social do trabalho. Em um formato dinâmico, com vídeos de curtíssima duração, procuramos conectar estudantes a pessoas que hoje são referências nos mais diversos temas, períodos e locais nos mundos do trabalho, construindo, junto com os convidados, um mosaico de clássicos do campo.
Em 1934, operárias da Fábrica Bangu lideraram uma greve por melhores salários, enquanto a imprensa ainda recorria à imagem do “sexo frágil” para descrever sua atuação. A contradição revela uma questão central na história das relações de gênero: a participação das mulheres nos mundos do trabalho e nas lutas sociais não significou, necessariamente, o reconhecimento de sua autonomia e de seus direitos. Hoje, quando setores da extrema direita questionam a participação política das mulheres e até mesmo seu direito ao voto, encontramos novas expressões das disputas históricas em torno do lugar das mulheres na sociedade e do exercício pleno da cidadania.
Está no ar mais um episódio do Vale Mais, o podcast do LEHMT-UFRJ!
Nesta edição, conversamos com a historiadora Isabelle Cristina da Silva Pires sobre sua tese “Queremos lutar para honrar o nosso trabalho”: gênero, legislação social e operários/as têxteis no Rio de Janeiro (1926-1944), defendida na UFRJ em 2023. A pesquisa mostra que as mulheres não foram espectadoras da conquista dos direitos trabalhistas. Elas lideraram greves, participaram de sindicatos e reivindicaram férias, melhores salários, igualdade salarial, licença-maternidade e creches. E enfrentaram, dentro e fora das fábricas, projetos que pretendiam restringi-las aos papéis de mães e donas de casa. Num momento em que a autonomia e os direitos das mulheres voltam a ser atacados, essa história nos lembra que direitos não são favores de governantes ou patrões e sim conquistas construídas em meio a organização, conflitos e resistência. Neste domingo, 25 de outubro, vamos às urnas com a memória dessas lutas. Vote pensando nos direitos que as mulheres tanto lutaram para conquistar e na importância de defendê-los.
Ouça e compartilhe o novo episódio do Vale Mais!
Entrevistadores: Ana Clara Tavares, Isabelle Pires, Josemberg Araújo, Larissa Farias e Thompson Clímaco Roteiro: Ana Clara Tavares, Isabelle Pires, Josemberg Araújo, Larissa Farias e Thompson Clímaco Produção: Ana Clara Tavares e Larissa Farias Edição: Josemberg Araújo e Thompson Clímaco Diretor da série: Thompson Clímaco Coordenadora geral do Vale Mais: Larissa Farias
Vale Mais #38: “Queremos lutar para honrar o nosso trabalho”: gênero, legislação social e operários/as têxteis no Rio de Janeiro (1926-1944), por Isabelle Pires –
Vale Mais
Em 1934, operárias da Fábrica Bangu lideraram uma greve por melhores salários, enquanto a imprensa ainda recorria à imagem do “sexo frágil” para descrever sua atuação. A contradição revela uma questão central na história das relações de gênero: a participação das mulheres nos mundos do trabalho e nas lutas sociais não significou, necessariamente, o reconhecimento de sua autonomia e de seus direitos. Hoje, quando setores da extrema direita questionam a participação política das mulheres e até mesmo seu direito ao voto, encontramos novas expressões das disputas históricas em torno do lugar das mulheres na sociedade e do exercício pleno da cidadania.
Está no ar mais um episódio do Vale Mais, o podcast do LEHMT-UFRJ!
Nesta edição, conversamos com a historiadora Isabelle Cristina da Silva Pires sobre sua tese “Queremos lutar para honrar o nosso trabalho”: gênero, legislação social e operários/as têxteis no Rio de Janeiro (1926-1944), defendida na UFRJ em 2023.
A pesquisa mostra que as mulheres não foram espectadoras da conquista dos direitos trabalhistas. Elas lideraram greves, participaram de sindicatos e reivindicaram férias, melhores salários, igualdade salarial, licença-maternidade e creches. E enfrentaram, dentro e fora das fábricas, projetos que pretendiam restringi-las aos papéis de mães e donas de casa.
Num momento em que a autonomia e os direitos das mulheres voltam a ser atacados, essa história nos lembra que direitos não são favores de governantes ou patrões e sim conquistas construídas em meio a organização, conflitos e resistência.
Neste domingo, 25 de outubro, vamos às urnas com a memória dessas lutas. Vote pensando nos direitos que as mulheres tanto lutaram para conquistar e na importância de defendê-los.
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Entrevistadores: Ana Clara Tavares, Isabelle Pires, Josemberg Araújo, Larissa Farias e Thompson Clímaco
Roteiro: Ana Clara Tavares, Isabelle Pires, Josemberg Araújo, Larissa Farias e Thompson Clímaco
Produção: Ana Clara Tavares e Larissa Farias
Edição: Josemberg Araújo e Thompson Clímaco
Diretor da série: Thompson Clímaco
Coordenadora geral do Vale Mais: Larissa Farias
Única intervenção municipal na questão da habitação operária, as Casas Baratas del Patronato Municipal de la Habitación tiveram como objetivo realojar os moradores de barracas de Montjuïc, local de celebração da Exposição Internacional de 1929. A rápida construção de 2.335 moradias em quatro grupos extremamente periféricos constituiu, no entanto, mais um problema do que uma solução autêntica. As famílias foram despejadas pela Guarda Civil apenas uma semana antes da inauguração do evento. Os aluguéis não eram baratos. Os novos bairros também não reuniam as condições urbanísticas adequadas, com extrema distância e falta de acessibilidade ao centro da cidade.
As Casas Baratas tinham um caráter homogeneamente operário. Tanto o grupo Milans del Bosch quanto o Eduardo Aunós apresentavam percentuais de chefes de família de trabalhadores sem qualificação superiores a 80%. Guetos proletários também eram guetos de imigrantes recentes. Grupos regionais da onda imigratória mais recente, como os murcianos e andaluzes, superavam claramente a população catalã. Era muito marcante a presença de lares onde conviviam duas ou mais unidades familiares, fossem famílias com relação de parentesco direto ou sem nenhuma relação aparente. Isso levou a um altíssimo nível de superlotação, com 6,7 pessoas por moradia.
Carentes de linhas de bonde ou ônibus, os deslocamentos ao trabalho dos habitantes das Casas Baratas eram a pé e geralmente custosos em tempo e dinheiro. Os bairros onde se situavam funcionavam como dormitórios, onde a população trabalhadora se recolhia em casa em horas tardias. Ali os esperava um local quase sem locais de lazer. As redes de parentesco e de conterrâneos e a vida na rua vinham compensar essa falta de núcleos de encontro. Entre os bairros operários barceloneses, o grupo Eduardo Aunós era um dos que mais se caracterizava pela presença de parentes em primeiro grau próximos, às vezes vivendo dentro da própria moradia, outras na esquina ao lado (cerca de 60% tinha um familiar direto vivendo no bairro). Essas relações, articuladas principalmente por mulheres, podiam se ampliar aos familiares menos próximos, os primos ou simples conterrâneos do povoado ou comarca. A grande maioria da população andaluza residente no grupo Eduardo Aunós procedia de Cuevas de Vera, na província de Almería.
A rua foi o lugar principal de desdobramento de todo esse conjunto de redes de parentes, de conterrâneos, de vizinhos e amigos. Uma “cidade horizontal” onde a rua era o lugar de relação social por excelência.
O pequeno tamanho da moradia (38m² em sua maioria), a alta taxa de ocupação doméstica, o elevado número de filhos e filhas, a proximidade física e falta de filtros entre as casinhas térreas e a rua faziam com que a moradia transbordasse literalmente para o exterior, convertendo a rua na principal esfera de coesão comunitária. As próprias tarefas domésticas, como o abastecimento de água na fonte e a secagem da roupa ao sol, realizavam-se na rua.
A estrutura laboral da imigração recente pouco qualificada acarretou graves consequências durante a crise dos anos trinta em setores como a construção civil, formada na maioria por peões-de-obra imigrantes. O impacto do desemprego na construção significou literalmente fome, doença e conflitos. Como em outros bairros periféricos, baixa qualificação e imigração estavam claramente associadas ao cenetismo (movimento ligado ao radicalizado sindicato majoritário anarquista, a Confederación Nacional del Trabajo, CNT). As Casas Baratas foram um dos espaços mais marcantes da expansão da CNT dos anos 1930. Com 64% de todos os operários da construção em suas fileiras, o combativo Sindicato Único da Construção era um foco permanente de conflitos, capacidade mobilizadora e radicalismo. Nas Casas Baratas da zona de Sant Andreu, a filiação estava esmagadoramente voltada para os peões, que formavam 93% do total de cenetistas. Essa taxa de filiação dobrava a do restante das segundas periferias da zona e quadruplicava a do núcleo histórico, algo que se observava também ao analisar o Sindicato metalúrgico, com uma marcada tendência à concentração em alguns espaços periféricos. Nas Casas Baratas de Ramón Albó, no final de 1938, a CNT dominava absolutamente o grupo dos jornaleiros (trabalhadores braçais, diaristas), e nove em cada dez desse extenso grupo haviam nascido fora da Catalunha. O Sindicato Único de Transportes da CNT era ali o de maior filiação, e mais da metade eram trabalhadores de bondes que trabalhavam na então coletivizada Tranvías de Barcelona.
A análise da militância da CNT nos descreve o mesmo panorama. Uma parte substancial dos militantes residia nos novos bairros operários periféricos que formavam as segundas periferias, as chamadas barriadas. Era o caso de La Torrassa e Santa Eulalia em l’Hospitalet, dos dois grupos de Casas Baratas e das barriadas surgidas nos anos de entreguerras em Santa Coloma, Sant Adrià ou Badalona. 86% dos 300 militantes confederais identificados em Santa Coloma procediam dos bairros periféricos surgidos no entreguerras. A abstenção constante nas distintas eleições republicanas foi, em meios confederais, sinônimo de militantismo radical. Os quatro grupos de Casas Baratas figuraram entre as barriadas mais abstencionistas da cidade. Ao menos três dos quatro bairros tiveram núcleos das Juventudes Libertarias. O do grupo Ramón Albó se situava no local do Sindicato de la Construcción do bairro, O do grupo Ramón Albó se situava no local do Sindicato de la Construcción do bairro, e o do grupo Milans del Bosch funcionou em um local que começou a funcionar no bairro vizinho de Sanchís no final de 1932.
O desenrolar da greve de aluguéis nos quatro grupos de Casas Baratas mostra que a CNT teve ali sua base de apoio mais fiel e radicalizada. Antes que a Comisión de Defensa Económica do Sindicato de la Construcción iniciasse a grande greve de aluguéis do verão de 1931, a ação direta na forma de inadimplência dos aluguéis já havia explodido nos quatro grupos. Em abril de 1930, o Patronato obteve uma ordem judicial de expulsão de 60 famílias dos grupos Eduardo Aunós e Milans del Bosch. Em fevereiro de 1931, é possível que mais da metade das casas do primeiro grupo estivessem inadimplentes, e no início de maio a vizinhança concordava em suspender totalmente o pagamento de aluguéis. No mês de junho, quando a Comisión de Defensa Económica estava a ponto de iniciar a greve, já existia uma coordenação dos quatro grupos de Casas Baratas e a maioria dos inquilinos não pagava o aluguel a cerca de quatro meses. Segundo Rider, “o movimento de inquilinos das Casas Baratas se converteu de maneira imediata e inevitável em parte integral da CNT e do Sindicato de la Construcción em particular”. Na noite de 31 de outubro, o grupo Aunós foi invadido por guardas civis e de assalto, e cada casa foi revistada. Em 23 de novembro chegou-se a um acordo com o Patronato para pagar 20 pesetas por mês, mais uma taxa de 12 pesetas por luz e água, com suspensão dos processos de despejo, isenção de aluguel para os desempregados e obras de reforma, mas com a condição de excluir os ativistas mais radicais. O acordo inicial foi rompido e a greve mais uma vez foi geral nos quatro grupos. Ela continuou firme nos quatro grupos de Casas Baratas e parece que assim se manteve, mais ou menos intermitentemente, até a Guerra Civil.
Durante 1936 funcionavam em Barcelona não menos de 41 ateneus libertários de bairro. Na distribuição espacial da rede de ateneus e de escolas racionalistas é relevante a presença nas segundas periferias, entre elas as Casas Baratas. Em um levantamento de todos os comitês revolucionários de bairro extraídos dos jornais Solidaridad Obrera e Tierra y Libertad ao final de 1936, aprecia-se também a maior presença do conjunto de barriadas periféricas. Os quatro núcleos de Casas Baratas tiveram um comitê (ou subcomitê) revolucionário. As notícias das milícias da CNT ligadas a esses comitês são por vezes explícitas, não apenas no que se refere ao abastecimento de alimentos e agasalhos aos voluntários e à celebração de sorteios, festivais e atos para arrecadar fundos, mas também em relação à partida de milicianos para o front. Em 11 de setembro, um longo artigo nos recorda a saída da bateria “Sacco y Vanzetti” desde as Casas Baratas de Horta e seu percurso em um ambiente de entusiasmo até a estação de la Sagrera.
Ao estudar a distribuição urbana de milicianos voluntários anarquistas que partiram para o front após as triunfais jornadas de julho de 1936, fica muito explícita a especial relevância do cinturão operário periférico na geografia do radicalismo cenetista. As barriadas que mais forneceram milicianos anarquistas em proporção à sua população, os bastiões do radicalismo da CNT, situavam-se sem discussão na periferia. Em um primeiro pelotão de frente estavam as Casas Baratas. Nesse cinturão, o número de milicianos era no mínimo o triplo do que se esperaria pela sua população.
Essa geografia periférica e esse perfil de trabalhador braçal e imigrante do mundo cenetista radical se confirma ao analisar os anarquistas mortos e presos em represália aos Fets de Maig (confrontos armados que eclodiram em Barcelona entre 3 e 8 de maio de 1937). As barriadas mais afastadas do centro continuavam concentrando grande parte dos radicais atingidos pela repressão. Cerca de 30% de todos os presos vinham desses bairros, destacando-se de maneira especial as Casas Baratas Eduardo Aunós. Pere López estudou o ambiente do cenetismo radical desse bairro. Seriam duramente julgados em conselhos de guerra uma vez consumada a derrota. Alguns entre os jovens anarcossindicalistas foram duramente reprimidos, e alguns foram condenados à pena capital. Outros partiram para o exílio rumo à França após a invasão das tropas fascistas em janeiro de 1939. Ao final de 1940, era notável que muitas famílias haviam mudado de bairro e não apareciam mais nos censos.
O legado de luta e participação dos anos trinta e seu papel principal nas atividades relacionadas com a guerra e a revolução foram caindo pouco a pouco no esquecimento. Três dos quatro grupos de Casas Baratas desapareceram. Hoje, só resta de pé e habitado o grupo Ramón Albó (Can Peguera). Após um longuíssimo processo de esquecimento da memória operária e anarquista desses bairros, duas quadras de casas do grupo Milans del Bosch (Bon Pastor) foram restauradas pelo Museu d’Història de Barcelona (MUHBA) para serem usadas como salas de conferências e exposição permanente sobre a evolução da habitação popular na cidade desde 1859. A notável musealização de quatro moradias explica com minúcia e riquíssima documentação os distintos períodos de evolução dos interiores domésticos.
Fotografia aérea do grupo de Casas Baratas Baró de Viver (fotografia de Josep Gaspar Serra, Arxiu Fotogràfic de Barcelona)
Tradução: Yasmin Getirana
PARA SABER MAIS
López Sánchez, Pere, Rastros de rostros en un prado rojo (y negro). Las Casas Baratas de Can Tunis en la revolución social de los años treinta, Barcelona: Virus, 2013.
Stefano Portelli, La ciudad horizontal, Urbanismo y resistencia en un barrio de Casas Baratas de Barcelona, Barcelona: Edicions Bellaterra, 2015.
Oyón, José Luis, La quiebra de la ciudad popular. Espacio urbano, inmigración y anarquismo en la Barcelona de entreguerras, 1914-1936, Barcelona: Ediciones del Serbal, 2008.
Gallardo Romero, Juan José, Los orígenes del movimiento obrero en Santa Coloma de Gramenet (1923-1936), Barcelona: Grupo de Historia “José Berruezo”, 2004.
Rider, Nick, La práctica de la acción directa: la huelga de alquileres de Barcelona de 1931, 1989 https://libertamen.wordpress.com/2025/04/20/
Crédito da imagem: fotografía aérea del grupo de Casas Baratas Baró de Viver (fotografía de Josep Gaspar Serra, Arxiu Fotogràfic de Barcelona)
Lugares de Memória dos Trabalhadores
As marcas das experiências dos trabalhadores e trabalhadoras brasileiros estão espalhadas por inúmeros lugares da cidade e do campo. Muitos desses locais não mais existem, outros estão esquecidos, pouquíssimos são celebrados. Na batalha de memórias, os mundos do trabalho e seus lugares também são negligenciados. Nossa série Lugares de Memória dos Trabalhadores procura justamente dar visibilidade para essa “geografia social do trabalho” procurando estimular uma reflexão sobre os espaços onde vivemos e como sua história e memória são tratadas. Mensalmente, um pequeno artigo com imagens, escrito por um(a) especialista, fará uma “biografia” de espaços relevantes da história dos trabalhadores de todo o Brasil. Nossa perspectiva é ampla. São lugares de atuação política e social, de lazer, de protestos, de repressão, de rituais e de criação de sociabilidades. Estátuas, praças, ruas, cemitérios, locais de trabalho, agências estatais, sedes de organizações, entre muitos outros. Todos eles, espaços que rotineiramente ou em alguns poucos episódios marcaram a história dos trabalhadores no Brasil, em alguma região ou mesmo em uma pequena comunidade.
A seção Lugares de Memória dos Trabalhadores é coordenada por Larissa Farias, Paulo Fontes, Vinicius Rosalvo e Yasmin Getirana.
Neste episódio de Livros de Classe, realizado por ocasião dos 60 anos de publicação de “A Revolução Brasileira”, o professor Lincoln Secco (USP) apresenta e comenta a obra de Caio Prado Júnior, publicada originalmente em 1966. A partir de sua própria trajetória de formação intelectual e militância política, Secco recupera a importância do livro para a compreensão das estratégias e dos projetos de transformação social no Brasil, destacando seu diálogo com questões que atravessaram a esquerda brasileira nas décadas seguintes. Ao retomar o contexto da obra, Secco destaca sua contribuição para a reflexão sobre a classe trabalhadora, a reforma agrária e a organização dos trabalhadores rurais, bem como a posição singular de Caio Prado Júnior nos debates da esquerda após o golpe de 1964. Ao articular trajetória intelectual, experiência política e análise historiográfica, sua fala reafirma a atualidade da obra e a permanência de suas questões para pensar a classe trabalhadora e os projetos de transformação social no Brasil.
Livros de Classe
Os estudantes de graduação são desafiados constantemente a elaborar uma percepção analítica sobre os diversos campos da história. Nossa série Livros de Classe procura refletir justamente sobre esse processo de formação, trazendo obras que são emblemáticas para professores/as, pesquisadores/as e atores sociais ligados à história do trabalho. Em cada episódio, um/a especialista apresenta um livro de impacto em sua trajetória, assim como a importância da obra para a história social do trabalho. Em um formato dinâmico, com vídeos de curtíssima duração, procuramos conectar estudantes a pessoas que hoje são referências nos mais diversos temas, períodos e locais nos mundos do trabalho, construindo, junto com os convidados, um mosaico de clássicos do campo.
Claudiane Torres (Professora de História da Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro e coordenadora da equipe de tutores de História do Pré-Vestibular Social Cecierj.)
Apresentação da atividade
Segmento: Ensino Fundamental – 9º ano
Unidade temática: Trabalho e cidadania
Objeto de conhecimento: Período Republicano, Governos e relações trabalhistas
Objetivo de conhecimento: Ditadura civil-militar no Brasil
Objetivos gerais:
-Conhecer a trajetória do trabalhador e sindicalista Clodesmidt Riani percebendo a luta da classe trabalhadora durante sua atuação;
– Compreender o contexto histórico da luta sindical, o espaço de debate possível e a reflexão sobre os direitos humanos, a cidadania e a participação democrática;
Aulas
Planejamento
1
Etapa 1: Leitura e reflexão crítica da trajetória de Clodesmidt Riani
2
Etapa 2: Registro e sistematização da luta da classe trabalhadora ao longo da república brasileira para construção de um mural
3
Etapa 3: Sistematização sobre violações de direitos humanos e políticos durante a ditadura civil-militar brasileira
Conhecimento prévio:
– Processos históricos dos governos brasileiros a partir da Era Vargas e os avanços da legislação trabalhista nas décadas de 1930 a 1960.
Habilidades da BNCC:
– (EF09HI19) Identificar e compreender o processo que resultou na ditadura civil-militar no Brasil e discutir a emergência de questões relacionadas à memória e à justiça sobre os casos de violação dos direitos humanos.
– (EF09HI20) Discutir os processos de resistência e as propostas de reorganização da sociedade brasileira durante a ditadura civil-militar.
Atividade
Recursos: caixa de som, notebook, projetor.
Etapa 1: Leitura e reflexão crítica da trajetória de Clodesmidt Riani
Etapa 1: Professor(a), faça uma breve introdução em sala de aula sobre os avanços da luta da classe trabalhadora e da legislação trabalhista desde a Era Vargas para contextualizar que esse tema atravessou diversos governos e pode ser caracterizado através de muitos atores sociais e políticos ao longo da história republicana brasileira. Para aprofundar esse momento de contextualização histórica leia o artigo do historiador Diorge Alceno Konrad, intitulado Trabalho, Questão Social e Direitos na Historiografia sobre o Brasil Pós-1930 a seguir. Link: https://www.trt4.jus.br/portais/media/431701/Trabalho%252C_JustiAca_e_Direitos_no_Brasil.pdf pg.37-55.
Após uma sistematização da memória do movimento da classe trabalhadora ao longo do período republicano, registrada no quadro e construída com a ajuda dos estudantes, separe a turma em grupos de até quatro alunos e distribua a minibiografia do trabalhador e sindicalista Clodesmidt Riani. É importante projetar a foto abaixo do trabalhador para que os estudantes o conheçam e chamar atenção para a legenda da fotografia que apresenta Riani como deputado estadual na década de 1940.
Clodesmidt Riani nasceu em 15 de outubro de 1920, em Rio Casca, Minas Gerais, Brasil. Foi líder sindical e político mineiro com uma carreira significativa no movimento sindical no Brasil. Quando terminou o curso primário, em 1933, um ano depois, seu primeiro emprego foi na Companhia de Fiação e Tecelagem Moraes Sarmento em Juiz de Fora, aposentando-se após 43 anos de trabalho. Sua trajetória sindical iniciou-se na década de 1950, chegando à presidência da Confederação Nacional dos Trabalhadores da Indústria (CNTI) e ao Comando Geral dos Trabalhadores (CGT), já em 1961. Em 1958, participou da 42ª Sessão da Conferência Internacional do Trabalho, em Genebra na Suiça. Sua proximidade com o presidente João Goulart, deposto pelo golpe de 1964, deu maior visibilidade à sua atuação parlamentar. Durante toda sua atuação como trabalhador ativo, foi presidente de sindicatos, participou de comissões de salários e liderou esforços para obter aumentos significativos nos salários dos trabalhadores. Sua atuação sindical incluiu representação dos trabalhadores em conferências internacionais e envolvimento em questões trabalhistas e previdenciárias. Eleito deputado estadual em 1962 pelo PTB, Clodesmidt Riani tornou-se um dos três parlamentares que tiveram seus mandatos arbitrariamente cassados pela Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) em 8 de abril de 1964. Além de Riani, foram cassados Sinval Bambirra, eleito pelo PTB, e José Gomes Pimenta, o Dazinho, que se elegeu pelo Partido Democrata Cristão (PDC). O requerimento para a cassação foi baseado em discursos realizados enquanto eles eram deputados estaduais e em documentos do Departamento de Ordem Política e Social, cujos arquivos os descreviam como “agitadores comunistas”. Além de terem perdido os seus mandatos, os três deputados também foram presos pela repressão militar. “Numa noite recebemos a visita de um major do Exército, juntamente com um investigador de apelido Coice de Mula – ele era um dos que mais espancavam os presos. Entraram na cela do amigo Sinval Bambirra e o espancaram tanto até romper o tímpano. Vi quando ele foi retirado todo ensanguentado. Posteriormente foi a vez de José Gomes Pimenta, o espancaram muito também. Ouvíamos os gritos dele e o barulho das pancadas. Chegou a minha vez, eles me retiraram da cela, não me espancaram, mas o Coice de Mula me agredia verbalmente e aos gritos dizia que eu não tinha jeito…”, relatou Clodesmidt Riani, em depoimento registrado pela Assembleia muitos anos depois. Fonte: https://www.almg.gov.br/comunicacao/noticias/arquivos/Morre-Clodesmidt-Riani-um-dos-tres-primeiros-cassados-pela-ditadura/ Riani foi condenado a 17 anos de reclusão. Ele, Bambirra e Dazinho foram acusados e condenados por “subverter a ordem social” com a finalidade de instalar regime de classe social, opor-se ao funcionamento de algum dos Poderes da União, e por terem sido considerados “cabeças” de movimentos de resistência à ditadura. Após o golpe militar de 1964 no Brasil, teve seus direitos sindicais cassados por um período de 10 anos devido à sua atuação política e sindical. Na Assembleia Legislativa de MG, Clodesmidt Riani exerceu o mandato de deputado em diferentes ocasiões. A cassação de seu mandato legislativo durante a ditadura se deu na 5ª Legislatura (1963-1967). Ainda durante a ditadura, mas já no início da reabertura política, Clodesmidt Riani elegeu-se deputado estadual em 1982. Riani teve 10 filhos, 18 netos e 25 bisnetos. Em 2014, durante a Comissão Nacional da Verdade, foi homenageado pelo Grupo de Trabalho dos Sindicalistas. No dia 15 de outubro de 2020, o sindicalista Clodesmidt Riani completou 100 anos de vida, superando o coronavírus que o infectou em julho daquele ano. Na ocasião, em sua homenagem um texto foi produzido.
“Clodesmidt Riani 100 anos, um exemplo de trabalhador brasileiro Em 1920 o Brasil, uma República ainda jovem, vivia sob poder oligárquico que tradicionalmente se revezava entre São Paulo e Minas Gerais. Com apenas 30 anos do fim do regime imperial e da escravidão, aquele período, embora regido por uma nova Constituição, mantinha em sua mentalidade coletiva, os valores que marcaram os 300 anos anteriores. Vivendo e trabalhando naquelas condições, sem direito a férias, 13º salário, ou mesmo a um salário-mínimo, Orlando Riani, ferroviário da Leopoldina Railway Company, e Maria Riani, não desfrutavam dos mesmos direitos e da mesma estrutura de organização que os trabalhadores têm hoje, 100 anos depois. Legislação trabalhista até existia, mas era precária e não havia fiscalização que garantisse seu cumprimento. Foi neste Brasil que nasceu, no dia 15 de outubro de 1920, em Rio Casca (MG), o filho de Orlando e Maria, Clodesmidt Riani. Um Brasil essencialmente agrário, cujos trabalhadores, submetidos aos desmandos de uma mentalidade escravocrata, organizavam suas primeiras lutas. Os últimos 100 anos foram, pode-se dizer, de construção de um país urbano e industrial. E para Riani, estas transformações não foram apenas presenciadas. Foram, em muitos casos, resultados de ações nas quais o sindicalista esteve diretamente envolvido. Se Orlando, seu pai, amargou anos de trabalho sem os direitos previstos na CLT, o próprio Clodesmidt só viria a conhecê-la dez anos depois do ano em que começou a trabalhar numa fábrica de tecidos. Desde pequeno aprendeu com o pai a consciência sobre as injustiças sociais e a necessidade da luta por conquistas para a classe trabalhadora. Foi esta consciência que o empurrou para os embates políticos e classistas, já no fim da década de 1940, época de grande efervescência, marcada pela derrota do nazifascismo, com fim da 2ª guerra mundial e, no Brasil, pelo fim da ditadura do Estado Novo e pela promulgação da Constituição de 1946. Por seu perfil trabalhista era natural que Riani ingressasse no PTB de Vargas e de Jango, o que ocorreu em 1950. Pelo PTB foi deputado estadual, além de ter sido praticamente um conselheiro de João Goulart, tanto em seu período como Ministro do Trabalho, quanto como Presidente da República. Mas ele nunca deixou de lado a luta sindical. Envolveu-se nas negociações que criaram o salário-mínimo e o 13º salário. Ativista reconhecido e bem-quisto por seus pares chegou à presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Indústria (CNTI) e do combativo Comando Geral dos Trabalhadores (CGT), embrião das centrais sindicais contemporâneas. Riani é uma das raras pessoas que ainda guardam na memória episódios fundamentais da nossa história, eventos honrosamente protagonizados pelos trabalhadores, como a Greve dos 300 mil, de 1953, e a Greve dos 700 mil, dez anos depois. Eventos que não só tornaram o sindicalismo mais politizado, como deu força para que o movimento passasse a intervir diretamente na política. Deste profícuo casamento entre política e sindicalismo, selado na década de 1950, Clodesmidit Riani é um dos maiores exemplos. Como líder combativo e reconhecido que era, Riani foi cassado e preso pelos militares na ocasião do golpe de 31 de março de 1964. Foram anos duros, de repressão e de perdas. Mas ele não poderia estar de outro lado que não o daqueles que sofreram as agruras do golpe, assim como Gregório Bezerra, Hércules Correia, Afonso Dellelis, o ferroviário Raphael Martinelli, seu amigo do CGT, a tecelã Maria Sallas Dib, entre tantos outros. Com a anistia, Clodesmidt foi pouco a pouco retomando sua ação política, sempre fiel aos compromissos com os trabalhadores. Ainda que ao tratar dos anos de ditadura não se possa falar em justiça, alguma reparação começou a acontecer no ano 2000, quando, através do projeto de lei do deputado Durval Ângelo, Riani teve direito a uma indenização pelas atrocidades contra ele executadas. Em 2014, por recomendação das centrais sindicais, ele foi um dos homenageados pelo Grupo dos Trabalhadores na Comissão Nacional da Verdade. No ato de entrega do relatório sobre a perseguição à classe trabalhadora durante o período do regime militar à Dra Rosa Cardoso, coordenadora do grupo, em dezembro daquele ano, homenageamos Clodesmidt Riani e Raphael Martinelli, líder ferroviário e também ex-membro do CGT, que infelizmente nos deixou em fevereiro deste ano. Agora, no ano de seu centenário, prestamos mais uma justa e merecida homenagem.Riani abriu o caminho de lutas e conquistas e chega a edificante marca dos 100 anos em um Brasil diferente daquele em que deu seus primeiros passos. Embora a desigualdade social seja ainda um entrave para o desenvolvimento econômico e civilizatório do país, a situação atual da classe trabalhadora não se compara à miséria a que estava submetida até a década de 1930. A Consolidação das Leis Trabalhistas de 1943, a conquista e a universalização do salário-mínimo, a Greve dos 300 mil, em 1953, o CGT, a lei do 13º salário, a resistência à ditadura militar e todo o processo de redemocratização e de construção da Constituição Cidadã, na década de 1980, o amadurecimento dos sindicatos e das centrais sindicais brasileiras, separam o trabalhador de hoje do de cem anos atrás. Quantos dedicaram a vida por esta nobre causa? Quantos sacrificaram a convivência familiar, submeteram-se à repressão, à tortura e até à morte para que os trabalhadores tivessem direitos, cidadania e dignidade? Direitos tão duramente conquistados e que, em um mundo marcado por uma cruel divisão de classes, são de tão frágil manutenção. Direitos que vemos pouco a pouco escapar pelos vãos dos dedos. Por isso tudo é necessário que todos conheçam a história dos homens que lutaram e lutam pelos trabalhadores. Que todos saibam que os direitos não se tornam realidade através de passes de mágica. E que, por isso, requerem vigília permanente. Precisamos que todos saibam da história de Clodesmidt Riani. Mais do que isso, o Brasil precisa de mais Clodesmidts Rianis. Sérgio Nobre, Presidente da CUT – Central Única dos Trabalhadores Ricardo Patah, Presidente da UGT – União Geral dos Trabalhadores Adilson Araújo, Presidente da CTB – Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil José Calixto Ramos, Presidente da NCST – Nova Central Sindical de Trabalhadores José Avelino Pereira, Presidente da Central dos Sindicatos Brasileiros Ubiraci Dantas de Oliveira, Presidente da CGTB – Central Geral dos Trabalhadores do Brasil Atnágoras Lopes – Secretário Executiva Nacional da CSP-Conlutas Nilza Pereira de Almeida – Secretária de Finanças da Intersindical – Central da Classe Trabalhadora Emanuel Melato – Coordenação da Intersindical – Instrumento de Luta e Organização da Classe Trabalhadora José Gozze, presidente da PÚBLICA, Central do Servidor
Após o tempo determinado para que os grupos leiam a minibiografia e o texto em homenagem a Clodesmidt Riani, peça para os estudantes responderem no caderno as seguintes questões:
a) Quais foram os cargos exercidos por Clodesmidt Riani que aparecem no texto e em sua homenagem? b) Liste os eventos que marcam a trajetória da classe trabalhadora no texto em homenagem ao sindicalista e faça uma breve pesquisa sobre o contexto histórico de cada um desses eventos. c) Caracterize através do texto como era a vida de um trabalhador ao longo da república brasileira. d) Relacione o conteúdo do texto com o conceito de consciência de classe.
Etapa 2: Registro e sistematização da luta da classe trabalhadora ao longo da república brasileira para construção de um mural
Professor(a), nessa segunda etapa oriente os grupos que leram a minibiografia de Clodesmidt Riani junto a homenagem recebida por ele a construírem cartazes com as principais conquistas trabalhistas identificadas no texto. O objetivo dessa atividade é sistematizar a trajetória da classe trabalhadora por direitos sociais e trabalhistas ao longo do período republicano brasileiro. Os grupos podem dividir os cartazes por períodos históricos como: a) Primeira República b) Era Vargas c) Redemocratização 1945-1964 d) Ditadura civil-militar no Brasil (1964-1985)
Etapa 3: Sistematização sobre violações de direitos humanos e políticos durante a ditadura civil-militar brasileira
Professor(a), nessa etapa vamos concentrar o debate nas violações de direitos sofridas por Clodesmidt Riani e demais parlamentares. Volte no texto para debater com a turma sobre as evidências de violações de direitos humanos e direitos políticos presentes na minibiografia distribuída entre os estudantes. A sugestão é que nessa etapa os estudantes sistematizem essas violências construindo uma nuvem de palavras que será impressa para compor o mural sobre as conquistas trabalhistas ao longo da república brasileira e a produção de um pequeno texto sobre o impacto dessas violações para o movimento da classe trabalhadora no país
Está no ar mais um episódio do Vale Mais, o podcast do LEHMT-UFRJ.
Nesta temporada, continuamos convidando pesquisadoras e pesquisadores para discutir projetos, livros e teses recentes que aprofundam debates interdisciplinares sobre os mundos do trabalho.
Neste episódio, conversamos com Julimar Mora Silva, professora da Universidade Federal Fluminense (UFF), sobre sua tese “Cosmopolitas do Terceiro Mundo: Redes Laborais, Comunicação Militante e Culturas Transnacionais de Solidariedade entre Moçambique e o Brasil durante a Guerra Fria (1970-1980)”, defendida em 2025. A tese recebeu o Premio Anual de Investigación en Estudios sobre África, da Universidad Nacional Autónoma de México e Menção Honrosa no Prêmio CAPES de Tese 2026. Entre outros tópicos, Julimar apresentou as interseções entre mobilidade laboral, internacionalismo proletário e dinâmicas pós-coloniais que mapeou em sua tese.
Escute agora o episódio e acompanhe a temporada do Vale Mais!
Entrevistadores: Ana Clara Tavares, Isabelle Pires, Josemberg Araújo, Larissa Farias e Thompson Clímaco Roteiro: Ana Clara Tavares, Isabelle Pires, Josemberg Araújo, Larissa Farias e Thompson Clímaco Produção: Ana Clara Tavares e Larissa Farias Edição: Josemberg Araújo e Thompson Clímaco Diretor da série: Thompson Clímaco Coordenadora geral do Vale Mais: Larissa Farias
Vale Mais #38: “Queremos lutar para honrar o nosso trabalho”: gênero, legislação social e operários/as têxteis no Rio de Janeiro (1926-1944), por Isabelle Pires –
Vale Mais
Em 1934, operárias da Fábrica Bangu lideraram uma greve por melhores salários, enquanto a imprensa ainda recorria à imagem do “sexo frágil” para descrever sua atuação. A contradição revela uma questão central na história das relações de gênero: a participação das mulheres nos mundos do trabalho e nas lutas sociais não significou, necessariamente, o reconhecimento de sua autonomia e de seus direitos. Hoje, quando setores da extrema direita questionam a participação política das mulheres e até mesmo seu direito ao voto, encontramos novas expressões das disputas históricas em torno do lugar das mulheres na sociedade e do exercício pleno da cidadania.
Está no ar mais um episódio do Vale Mais, o podcast do LEHMT-UFRJ!
Nesta edição, conversamos com a historiadora Isabelle Cristina da Silva Pires sobre sua tese “Queremos lutar para honrar o nosso trabalho”: gênero, legislação social e operários/as têxteis no Rio de Janeiro (1926-1944), defendida na UFRJ em 2023.
A pesquisa mostra que as mulheres não foram espectadoras da conquista dos direitos trabalhistas. Elas lideraram greves, participaram de sindicatos e reivindicaram férias, melhores salários, igualdade salarial, licença-maternidade e creches. E enfrentaram, dentro e fora das fábricas, projetos que pretendiam restringi-las aos papéis de mães e donas de casa.
Num momento em que a autonomia e os direitos das mulheres voltam a ser atacados, essa história nos lembra que direitos não são favores de governantes ou patrões e sim conquistas construídas em meio a organização, conflitos e resistência.
Neste domingo, 25 de outubro, vamos às urnas com a memória dessas lutas. Vote pensando nos direitos que as mulheres tanto lutaram para conquistar e na importância de defendê-los.
Ouça e compartilhe o novo episódio do Vale Mais!
Entrevistadores: Ana Clara Tavares, Isabelle Pires, Josemberg Araújo, Larissa Farias e Thompson Clímaco
Roteiro: Ana Clara Tavares, Isabelle Pires, Josemberg Araújo, Larissa Farias e Thompson Clímaco
Produção: Ana Clara Tavares e Larissa Farias
Edição: Josemberg Araújo e Thompson Clímaco
Diretor da série: Thompson Clímaco
Coordenadora geral do Vale Mais: Larissa Farias
O governo da Unidade Popular (1970-1973) representou um momento de imensa intensidade política e social. A chegada de Salvador Allende à presidência permitiu que amplos setores populares considerassem a possibilidade de transformar a ordem existente. Processos como a reforma agrária e as ocupações de terra se aceleraram, ao mesmo tempo em que surgiam novas formas de organização populares. Entre elas, se destacaram as Juntas de Abastecimento e Controle de Preços (JAP) e os Cordones Industriais, que, em meio à ofensiva empresarial, coordenaram a defesa da produção e promoveram formas de controle operário. Nessas experiências se expressou o que o historiador Peter Winn denominou uma “revolução desde baixo”.
Uma de suas expressões mais significativas desse processo revolucionário “desde baixo” teve lugar no sudoeste da Grande Santiago. O Cordón Cerrillos-Maipú compreendia crescimento industrial, organização sindical e fortes carências urbanas. No início dos anos 1970, estimava-se que cerca de 46 mil trabalhadores estavam distribuídos em aproximadamente 250 indústrias, entre elas a Perlak, FENSA, CIC, Fantuzzi e Polycron. A organização sindical também crescia com rapidez: cerca de um quinto dos sindicatos da zona havia se formado entre 1971 e 1972. O Cordón se estendia, além disso, sobre um território onde cidade e campo ainda se misturavam, e das zonas rurais próximas vinham trabalhadores e produtos que abasteciam Santiago.
Em 1972, essas mobilizações passaram a se articular de forma mais ampla no território. No primeiro semestre aumentaram os protestos por melhorias em transporte, saúde, moradia e outros problemas urbanos. Marchas e bloqueios confluíram em um Cabildo Abierto (uma assembleia aberta) que congregou entre 300 e 400 pessoas de sindicatos, acampamentos, organizações camponesas e juntas de vizinhos. Ali surgiu a ideia de criar um Comando Comunal para coordenar as organizações do território, aproximando o mundo das fábricas de pobladores (moradores de bairros populares) e camponeses. A mobilização também crescia nos locais de trabalho. Durante 1972 foram registradas 63 greves na região: 55 industriais e 8 rurais.
Em junho, as mobilizações na Perlak, Polycron e Aluminios El Mono, entre outras indústrias, marcaram um novo momento. Várias greves e ocupações começaram a coincidir, enquanto aumentavam as reuniões entre trabalhadores de diferentes empresas. Desse processo surgiu o Comando Coordenador das Lutas dos Trabalhadores de Cerrillos-Maipú, que em poucas semanas juntou mais de vinte indústrias. Parte dos conflitos se vinculava à demanda de incorporar fábricas à Área de Propriedade Social (APS), um setor da economia que o governo buscava colocar sob controle estatal. No final de junho, parte dos trabalhadores fechou os acessos à comuna, o que levou o ministro da Economia a decretar a intervenção em algumas indústrias em conflito. A pressão exercida conseguia, assim, incidir sobre as decisões do governo, e os conflitos começavam a encontrar respostas em escala nacional.
Essas dinâmicas antecipavam várias características dos Cordones industriais: a coordenação entre fábricas, as assembleias de delegados e ações que iam além dos conflitos trabalhistas. Cada fábrica conservava certa autonomia, embora existissem espaços comuns de coordenação, circulação de boletins e discussão política. Essa articulação permitia vincular a defesa da produção a problemas cotidianos como o abastecimento e o transporte.
No entanto, não existia uma visão única sobre como agir: militantes comunistas, socialistas e integrantes do Movimento de Esquerda Revolucionária (Movimiento de Izquierda Revolucionaria, MIR) conviviam nesses espaços e discutiam sobre os métodos, os tempos e os objetivos da mobilização.
Um dos principais problemas encontrados nesse processo foi o de distribuição. Embora diversas fábricas tenham conseguido manter a produção em meio ao boicote e às paralisações, os trabalhadores continuavam tendo pouco controle sobre boa parte do circuito comercial. Na Perlak, por exemplo, os operários denunciavam que todo mês saíam da fábrica mais de um milhão de unidades de molho de tomate e dezenas de milhares de sopas, enquanto esses mesmos produtos faltavam nas poblaciones ou reapareciam apenas no mercado negro. O problema estava também na estrutura de distribuição: mesmo com uma presença estatal maior, o setor público controlava apenas uma parte desse sistema, em torno de 25 ou 30%, deixando amplo espaço para a especulação. Diante dessa questão, começaram a se organizar feiras populares, vendas diretas e formas de coordenação com as JAP, organizações de bairro e camponeses próximos.
A paralisação empresarial e de caminhoneiros em outubro de 1972 escalonou essa situação a um novo patamar. A paralisação do transporte e do comércio agravou o desabastecimento e pôs à prova as formas de organização construídas. Em Cerrillos-Maipú, numerosas fábricas foram ocupadas e organizaram turnos para manter a produção. A “Batalha pela Produção” passou assim a fazer parte da vida cotidiana das fábricas. Também surgiram respostas para a escassez, como a distribuição de alimentos, a produção de caldos e as vendas diretas. Mas a paralisação mostrou também os limites dessas iniciativas: sem controlar o transporte, nem tampouco boa parte das redes comerciais, manter as fábricas operando não bastava para garantir que os produtos chegassem até a população.
Após a paralisação, um dos conflitos mais persistentes foi o destino das empresas que haviam sido objeto de intervenção ou ocupadas. Muitos trabalhadores esperavam que estas companhias passassem à APS, enquanto o governo buscava limitar o processo e devolver algumas a seus proprietários ou enquadrá-las dentro do programa da Unidade Popular. Essa tensão dividiu as próprias organizações de trabalhadores. Um dos principais pontos de atrito surgiu com a Central Única de Trabalhadores, cuja direção defendia uma estratégia mais próxima ao programa governamental e observava com cautela organizações que podiam escapar ao seu controle. Dentro do Cordón coexistiam distintas posições sobre até onde avançar e como se relacionar com o governo. Nesse sentido, Cerrillos-Maipú expressou as disputas sobre o rumo da via chilena ao socialismo e a tensão entre uma revolução “desde cima” e outra “desde baixo”.
Durante 1973, a coordenação territorial buscou estreitar vínculos com outras zonas industriais. No entanto, o golpe de Estado de 11 de setembro pôs violentamente fim a essa experiência. Desde as primeiras horas do dia, forças militares ocuparam o setor industrial de Cerrillos-Maipú e controlaram os acessos e vias de circulação. Segundo o testemunho de Guillermo Rodríguez, houve tentativas de resistência na Perlak e na Fensa. Nesta última, carros blindados participaram da operação e, no dia seguinte, efetivos militares abriram caminho até a fábrica com explosivos antes de retirar do recinto, com as mãos na nuca, 109 trabalhadores. Buscas, detenções e ocupações militares se repetiram em outras indústrias. A Feira Internacional de Santiago (FISA), em Cerrillos, funcionou como centro de detenção durante setembro e outubro de 1973. Também foram utilizados outros recintos, como a Medialuna (a arena de rodeio) e o Ginásio Municipal de Maipú. Assim, a repressão ocupou o mesmo território que havia dado vida ao Cordón industrial, transformando espaços de encontro cotidianos em lugares de detenção e interrogatório.
A destruição dessas redes não significou o fim de toda organização territorial entre os trabalhadores. Durante a ditadura surgiram em Maipú tentativas de reconstruir vínculos sindicais, entre elas, a Federação Sindical de Maipú (FESIMA). Nesse mesmo local, em 1979, o Sindicato Industrial N.º 1 da Goodyear protagonizou uma das primeiras greves que enfrentaram o novo Plano Trabalhista da ditadura de Pinochet.
Nas décadas seguintes, a experiência dos Cordones foi recuperada por meio de pesquisas, comemorações e expressões culturais. A obra Cordones Industriais, da companhia Tarea Urgente, é uma das iniciativas que levaram essa história outra vez ao espaço público por meio do teatro. Seu nome também voltou a aparecer em ciclos recentes de mobilização. Durante a Revolução Pinguim, organizada por estudantes secundaristas em 2006, surgiram “Cordones estudantis” para coordenar estabelecimentos de ensino por comunas e zonas de Santiago. Em outubro de 2019, distintas assembleias territoriais articularam “Cordones de assembleias” ou “Cordones de cabildos”. Não se tratava de uma continuidade direta com os Cordones industriais dos anos setenta. No entanto, essas experiências voltaram a pôr em circulação uma forma de organização levantada a partir dos territórios. Mais de meio século depois, essa experiência segue gerando perguntas sobre as formas de organização popular, sua relação com o território e, sobretudo, até onde podia chegar aquela revolução construída “desde baixo”.
Salgado, Xaviera (2019). “Organización política y sociabilidad popular: Cordón Industrial Cerrillos‑Maipú y el paro de octubre de 1972”. En Se levanta el clamor popular. Experiencias del pueblo organizado durante el gobierno de los mil días 1970‑1973. Concepción: Talleres Sartaña, pp. 125‑157.
Henríquez, Renzo (2014). “Industria Perlak ‘Dirigida y controlada por los Trabajadores’. Desalienación obrera en los tiempos de la Unidad Popular, 1970–1973”. Revista Izquierdas, n.º 20, pp. 52–77.
Castillo, Sandra (2010). “Sociabilidad y organización política popular: Cordón Industrial Cerrillos-Maipú”. Cuadernos de Historia, n.º 32.
Gaudichaud, Franck (2016). Chile 1970–1973: mil días que estremecieron al mundo. Poder popular, cordones industriales y socialismo durante el gobierno de Salvador Allende. LOM Ediciones.
Cordero, M. C.; Sader, E.; Threlfall, M. (1973). Consejo comunal de trabajadores y cordón Cerrillos-Maipú: Balance y perspectivas de un embrión de poder popular. Documento CIDU.
Silva, Miguel (1990). Los cordones industriales y el socialismo desde abajo. Ediciones Documento ILIDE.
Documentário: La Batalla de Chile (Parte II). Dir. Patricio Guzmán, 1976.
Crédito da imagem: Trabalhadores do Cobre Cerrillos marcham carregando cartazes do Cordão Cerrillos e de “Cobre Cerrillos Intervenida Presente”. Santiago, 1973. Fonte: Armindo Cardoso, Cordão Cerrillos, 1973. Negativo monocromático, gelatina sobre acetato de celulose, 6 × 6 cm.
Lugares de Memória dos Trabalhadores
As marcas das experiências dos trabalhadores e trabalhadoras brasileiros estão espalhadas por inúmeros lugares da cidade e do campo. Muitos desses locais não mais existem, outros estão esquecidos, pouquíssimos são celebrados. Na batalha de memórias, os mundos do trabalho e seus lugares também são negligenciados. Nossa série Lugares de Memória dos Trabalhadores procura justamente dar visibilidade para essa “geografia social do trabalho” procurando estimular uma reflexão sobre os espaços onde vivemos e como sua história e memória são tratadas. Mensalmente, um pequeno artigo com imagens, escrito por um(a) especialista, fará uma “biografia” de espaços relevantes da história dos trabalhadores de todo o Brasil. Nossa perspectiva é ampla. São lugares de atuação política e social, de lazer, de protestos, de repressão, de rituais e de criação de sociabilidades. Estátuas, praças, ruas, cemitérios, locais de trabalho, agências estatais, sedes de organizações, entre muitos outros. Todos eles, espaços que rotineiramente ou em alguns poucos episódios marcaram a história dos trabalhadores no Brasil, em alguma região ou mesmo em uma pequena comunidade.
A seção Lugares de Memória dos Trabalhadores é coordenada por Larissa Farias, Paulo Fontes, Vinicius Rosalvo e Yasmin Getirana.
Didice Godinho Delgado Presidenta do Sindicato de Assistentes Sociais do Estado de São Paulo entre 1985 e 1992 e coordenadora da Comissão Nacional da Mulher Trabalhadora da CUT entre 1987 e 1993
Há 40 anos, a Central Única dos Trabalhadores (CUT) aprovou uma política de defesa das mulheres trabalhadoras e de luta contra as desigualdades entre homens e mulheres nos mundos do trabalho e na sociedade. Foi no 2° Congresso Nacional da CUT (2º Concut), realizado entre julho e agosto de 1986, no Rio de Janeiro, com a presença de 5.564 sindicalistas, dos quais se estima que cerca de 25% eram mulheres. Foi um marco histórico para o sindicalismo brasileiro. A CUT foi pioneira e avançada em muitos aspectos, entre eles a política sindical de igualdade de gênero.
Muitas companheiras fizeram e fazem parte desta longa trajetória, tanto sindicalistas como apoiadoras: foi sempre uma construção coletiva. Na linha do tempo de quatro décadas, oito sindicalistas estivemos à frente da organização das trabalhadoras na CUT, primeiro como Comissão Nacional da Questão da Mulher Trabalhadora e, a partir do 8° Concut, em 2003, como Secretaria Nacional da Mulher Trabalhadora: depois de mim, vieram as companheiras Sandra Cabral, Luci Paulino, Ednalva Bezerra (que foi também a primeira dirigente da Secretaria), Carmen Foro, Rosane Silva, Juneia Batista e, atualmente, Amanda Corcino. Lembro às companheiras que integraram a Comissão Nacional e já se foram, entre elas as sindicalistas Ednalva, Luci, Marlene Furtado, Maria Isabel Nascimento, Zênia Chaves e Maria da Penha Nascimento Silva, e nossas apoiadoras de primeira hora, Elisabeth Souza-Lobo e Nalu Faria.
A organização das mulheres trabalhadoras na CUT se inseriu no ambiente de enorme efervescência social, política, sindical e feminista que tivemos no Brasil entre as metades dos anos 1970 e dos anos 1980. O país vivia um intenso processo de luta contra a ditadura, por redemocratização, e o “novo sindicalismo”, desde as primeiras greves metalúrgicas lideradas por Lula, era a grande novidade no contexto sindical. Simultaneamente, eclodiram movimentos populares com forte participação das mulheres nos bairros, como a luta contra a carestia e por creches. O movimento feminista se visibilizava nos congressos de mulheres e jornais feministas, e a crítica ao trabalho doméstico, à divisão sexual do trabalho, à sexualidade tradicional e à violência contra as mulheres entrou na pauta dos grupos autônomos e dos estudos acadêmicos. O marcante crescimento da participação das mulheres no mercado de trabalho, inclusive em áreas até então quase exclusivamente masculinas, tornou-se um fenômeno irreversível e interpelou os sindicatos. Além do movimento feminista e dos movimentos populares, os sindicatos também eram um espaço importante de atuação para as mulheres, e sua presença desafiava uma longa tradição de exclusão das trabalhadoras no sindicalismo.
A CUT foi fundada nesse contexto, em 28 de agosto de 1983, como uma central sindical classista, autônoma e democrática. Uma central progressista, atenta a novos temas que se mostravam na sociedade, entre eles, certamente, a presença ativa das mulheres e as reivindicações das trabalhadoras (embora ainda não de forma explícita: basta uma olhada rápida nas fotos do palco do congresso de fundação!).
Desde o final dos anos 1970 e início dos anos 1980 ocorreram diversos congressos e encontros de trabalhadoras de sindicatos urbanos, como metalúrgicos, químicos, vestuários e outros. As trabalhadoras domésticas também se organizavam em busca de direitos. As trabalhadoras rurais se mobilizavam pelo direito à sindicalização e seu reconhecimento como trabalhadoras, já que seu trabalho era considerado ajuda à família e excluído de direitos. Margarida Maria Alves, presidenta do Sindicato de Trabalhadores Rurais de Alagoa Grande, na Paraíba, foi assassinada 16 dias antes da fundação da CUT.
As demandas pelos direitos das trabalhadoras urbanas e rurais estiveram presentes desde o primeiro congresso da CUT. Alguns sindicatos que se filiaram à central já contavam com comissões ou grupos de mulheres. Entre 1985 e 1986, algumas instâncias da CUT realizaram encontros de trabalhadoras, como as CUTs estaduais de São Paulo, Minas Gerais e Paraíba e a CUT regional (instância depois extinta) do ABC paulista. Em 1985, o congresso estadual da CUT da Paraíba aprovou a criação da Secretaria da Mulher Trabalhadora, proposta impulsionada pelas trabalhadoras rurais e as professoras. A expectativa de uma política para as trabalhadoras e de sua maior representação na CUT vinha germinando gradativamente.
Em entrevista concedida a mim, em 1995, Nalu Faria, militante feminista, lembrava que, em 1986, em São Paulo, na atividade do Dia Internacional da Mulher, 8 de Março, promovida pelo movimento feminista, o grupo de discussão sobre mulher e trabalho, no qual participaram sindicalistas, levantou a necessidade de se pensar uma iniciativa em relação ao congresso da CUT daquele ano, “porque as pessoas que estavam nos sindicatos já tinham esse desejo de que a CUT tivesse uma discussão mais organizada sobre a questão das mulheres”. Resultou daí uma rápida e eficiente articulação para formular uma proposta ao congresso, que foi fechada em um encontro em junho, em São Paulo, com sindicalistas urbanas (entre elas, químicas, coureiras, da indústria de plásticos, assistentes sociais, professoras, médicas e outras) e rurais de 10 estados. O encontro foi apoiado pela então secretária nacional de Formação da CUT, Ana Lúcia da Silva, a única mulher na direção executiva de 15 integrantes, e militantes feministas que apoiavam as lutas das trabalhadoras. Foi nesse encontro que me juntei ao projeto.
Elaboramos uma tese que argumentava por que a CUT tinha que organizar e representar as trabalhadoras e explicitava a relação intrínseca entre a luta das mulheres e a luta de classes; propunha a criação da Comissão da Questão da Mulher Trabalhadora (tanto em âmbito nacional quanto nos estados), vinculada à Secretaria de Política Sindical, e a reivindicação de creches como bandeira de luta. Por que uma comissão e não uma secretaria? Porque estamos falando de 40 anos atrás, do início da CUT e da nossa inserção organizada nela, de relações de poder: impossível conquistar naquele estágio uma secretaria nacional! Estar na secretaria de Política Sindical era um bom começo, pois estávamos propondo uma política sindical.
E por que a “questão” da mulher trabalhadora? Foi uma saída para evitar o que era comum em sindicatos: gerar um espaço de mulheres deslocado da política geral. Nossa reivindicação era de que a CUT inserisse a exploração do trabalho das mulheres no debate sobre os mundos do trabalho e na ação sindical, e que essa política fosse assumida pela CUT toda, não só pelas mulheres. Estávamos propondo uma política transversal (terminologia que não tínhamos na época). Caberia à Comissão coordenar a organização das trabalhadoras e infiltrar-se em todas as áreas/secretarias para levar a política de igualdade de gênero (terminologia que também não tínhamos na época) a toda a Central.
Quanto à creche, era uma bandeira de luta bem concreta: era reivindicação das trabalhadoras nos encontros e congressos de trabalhadoras e nos movimentos populares desde meados dos anos 1970. Propúnhamos que essa demanda fosse inserida nas pautas de reivindicações e negociações coletivas, e esperávamos que envolvesse os homens por tratar-se do cuidado de suas filhas e seus filhos.
Como estratégia para chegar ao 2° Concut, a prioridade era aprovar a tese nos congressos estaduais para que alcançasse o nacional. Fazer trabalho de convencimento, ganhar adesões de mulheres e homens nos estados. Conseguimos que fosse aprovada em alguns congressos. Mas, antes disso, solicitamos uma reunião com a direção executiva nacional para apresentar a proposta e buscar seu apoio. Ao contrário do que se possa pensar, conquistamos o apoio, o que mostrou que a CUT estava atenta às mobilizações das mulheres dentro e fora do sindicalismo. Houve, no entanto, uma ressalva: a proposição de que a CUT defendesse a legalização do aborto, que estava incluída no texto que formulamos, ia longe demais. Não nos surpreendeu naquele momento e a excluímos da redação final levada aos congressos. Mas não demoraríamos a voltar ao assunto. O 1° Encontro Nacional sobre a Questão da Mulher Trabalhadora, realizado em 1988, aprovou a necessidade do posicionamento da CUT favorável à legalização do aborto, cuja proibição penaliza as mulheres, sobretudo as mulheres pobres e negras. Foi um consenso construído com base numa discussão intensa entre as sindicalistas. O tema foi posto em discussão na Central e levado ao 4° Concut, em 1991, para deliberação. Defendi a proposta em plenário, que foi aprovada com algumas abstenções, mas sem votos contrários. Foi uma vitória contundente e uma experiência inesquecível. A partir de então, a CUT se incorporou à luta feminista pela descriminalização do aborto, feito inédito entre as centrais sindicais da época.
Na reunião com a direção executiva nacional, um dirigente levantou a dúvida que esperávamos: a organização das mulheres não iria dividir a classe trabalhadora? Era um argumento recorrente no pensamento de esquerda da época. Tínhamos a resposta na ponta da língua, além de ela estar na tese: “a organização das mulheres no movimento sindical, com a incorporação de suas lutas e reivindicações, deve ser assumida pelo conjunto da classe e representará não uma divisão, mas o fortalecimento e unificação da classe contra a dominação burguesa”. Ao final, a executiva da CUT estadual de São Paulo assumiu a tese, o que lhe deu mais peso político no congresso nacional.
Chegamos ao 2° Congresso Nacional da CUT com grandes expectativas. Uma de nossas companheiras teve a feliz ideia de fazermos um broche, que foi nosso “crachá” e, ao mesmo tempo, despertou curiosidade e conquistou adesões entre muitas delegadas. A tese precisava ser aprovada pelo menos em alguns grupos de trabalho para ser levada ao plenário: foi! Porém, um grupo de mulheres apresentou uma contraproposta que jogava para a frente a definição da forma de organização a ser adotada, sugerindo que a Comissão Nacional fosse implementada após encontros estaduais de trabalhadoras que elegeriam suas representantes, o que adiaria, portanto, a concretização da política. Não foi surpresa que a divergência tenha provocado os habituais comentários machistas do tipo “as mulheres não se entendem”, “as mulheres já começam brigando”. Para nós, defensoras da tese original, tal adiamento jogaria para as calendas a política da CUT, mas a decisão era, obviamente, do plenário. Houve defesa de uma e outra proposta. Venceu a nossa, defendida com brilho por Marlise Fernandes, trabalhadora rural do Rio Grande do Sul. Antes da votação, reivindicamos à coordenação da mesa que lesse a tese para o plenário, o que, embora contrariasse a rotina do congresso, foi aceito. Quisemos dar o máximo de visibilidade à decisão a ser tomada.
Após o congresso, o desafio era transformar a resolução em realidade. A vitória não significava que toda a direção nacional e as direções das CUTs estaduais estariam automaticamente comprometidas com colocá-la em prática. Ou que tivessem a mesma urgência que nós. Foi somente em março de 1987 que a Secretaria Nacional de Política Sindical convocou uma reunião para implementar a decisão congressual e instalar a Comissão. Participaram representantes de seis estados. Fiquei coordenadora entre dezembro de 1987 e março de 1993, sendo muito bem substituída por Sandra Cabral, presidenta da CUT Estadual de Goiás. Quando saí, estávamos em campanha pela adoção da cota mínima de 30% de mulheres nas direções, reivindicação que o 2° Encontro Nacional sobre a Questão da Mulher Trabalhadora, realizado em 1991, decidiu apresentar à CUT. Entre 1991 e 1993, fizemos campanha pela cota em todo o país, desencadeando um intenso debate sobre as relações de poder e a exclusão das mulheres dos espaços de decisão. Na 6ª. Plenária Nacional, em agosto de 1993, a cota foi aprovada. Foi outro pioneirismo da CUT. Em 2012, o 11° Concut aprovou a paridade entre mulheres e homens nas direções, proposta pela Secretaria Nacional da Mulher Trabalhadora, decisão também pioneira no sindicalismo brasileiro.
Referi-me no início a uma construção coletiva. Éramos sindicalistas da cidade e do campo e de várias regiões do país que decidimos atuar de forma unificada, construindo consensos quando tínhamos eventuais divergências na compreensão dos temas da pauta das mulheres e em função de nossa inserção em diferentes correntes políticas presentes na CUT. Todas estávamos convencidas da importância de implantar esta política na CUT. No âmbito nacional e nos estados, e cada uma em sua organização por ramo ou seu sindicato, atuamos com a energia, o tempo e a dedicação que pudemos dar à tarefa, muitas vezes sob condições adversas.
Com o apoio das aliadas feministas, fizemos as conexões entre a luta das mulheres trabalhadoras e a luta feminista, as intersecções entre gênero, classe e raça nas relações de dominação, entre mundo público e mundo privado. Entrou na CUT uma perspectiva que buscava integrar sindicalismo e feminismo.
Na Comissão Nacional, contamos com o impulso dado por organizações sindicais e não sindicais estrangeiras que apoiavam a CUT e já tinham incorporado a questão da mulher trabalhadora em suas agendas, fazendo pressão para a Central avançar na consolidação desta política. Entre elas, centrais sindicais de países como a Itália, a Dinamarca e o Canadá, a confederação precursora da Confederação Sindical Internacional (CSI) e organizações de cooperação internacional atuantes no Brasil, como a alemã Fundação Friedrich Ebert. A vitória no 2° Concut (assim como em conquistas posteriores) também teve o apoio de muitos homens, do contrário, não haveria maioria.
As relações de gênero são relações de poder: conflituosas, contraditórias, em permanente movimento, avançam e recuam, às vezes até simultaneamente. Nas interações sindicais cotidianas e em discussões sobre nossas pautas, naquela época, vivemos alianças e estranhamentos; apoios e recusas; somas e divisões. Seguimos construindo!
No 2° Concut, a disputa política sobre a concepção sindical e a estrutura da CUT dominou o clima do congresso. Na memória coletiva ou individual sobre ele, a decisão sobre a política de igualdade de gênero costuma estar invisibilizada. Obviamente, as sindicalistas que vivemos aquele período não o esquecemos. E a história da organização das mulheres e da política de gênero sempre foi resgatada e valorizada pelas dirigentes da Comissão Nacional e comissões estaduais e, mais tarde, da Secretaria Nacional e secretarias estaduais.
Em 40 anos, a organização das mulheres e a política de igualdade de gênero nunca foram interrompidas: dificuldades, contradições e crises ao longo do caminho jamais levaram à desistência. É uma trajetória de debates e mudanças relevantes nas relações de gênero internas, de atuação marcante em defesa dos direitos das mulheres trabalhadoras e de comprometimento com as lutas feministas na sociedade. Recordar o início desta história é motivo de orgulho para mim por ser parte dela. E por saber que ela continua movendo a luta das mulheres no presente.
Didice Delgado discursa na abertura do 1° Encontro Nacional da Questão da Mulher Trabalhadora em 1988. Ao seu lado, a sindicalista Marlise Fernandes e o então presidente da CUT, Jair Meneguelli.
PARA SABER MAIS
Bezerra de Lima, M.E. et al. Mulheres na CUT: uma história de muitas faces. CUT/Secretaria Nacional da Mulher Trabalhadora, São Paulo, 2006. Disponível em: https://cedoc.cut.org.br/cedoc/livros-e-folhetos/1152
Central Única dos Trabalhadores. Mulher trabalhadora. Não é blá, blá, blá… Cadernos da CUT. CUT/Comissão Nacional da Questão da Mulher Trabalhadora, São Paulo, 1988. Disponível em: https://cedoc.cut.org.br/cedoc/livros-e-folhetos/951.
Giulliani, P.C. “Silenciosas e combativas: as contribuições das mulheres na estrutura sindical no Nordeste 1976/1986”. In: Costa, A. de O. e Bruschini, C. (orgs.). Rebeldia e submissão. Estudos sobre condição feminina. Fundação Carlos Chagas/Vértice, São Paulo, 1989.
Godinho Delgado, M.B. “Mulheres na CUT: um novo olhar sobre o sindicalismo”. In: Borba, A., Faria, N. e Godinho, T. (orgs.). Mulher e política: gênero e feminismo no Partido dos Trabalhadores. Ed. Fundação Perseu Abramo, São Paulo, 1998. Disponível em: https://fpabramo.org.br/livro/mulher-e-politica-genero-e-feminismo-no-partido-dos-trabalhadores/
Godinho Delgado, M.B. A organização das mulheres na Central Única dos Trabalhadores. A Comissão Nacional sobre a Mulher Trabalhadora. Dissertação de mestrado em Serviço Social. PUC-São Paulo, 1996. Disponível em: https://tede2.pucsp.br/handle/handle/20244
Neves, M. de A. “Relações de gênero nos espaços público e privado: a experiência das trabalhadoras na CUT”. Revista Brasileira de Estudos de População, 10(1/2), 89–98, 1993. Disponível em: https://rebep.org.br/revista/article/view/494
Souza-Lobo, E. A classe operária tem dois sexos. Trabalho, dominação e resistência. Ed. Fundação Perseu Abramo, 2ª. ed., São Paulo, 2011 . https://fpabramo.org.br/livro/a-classe-operaria-tem-dois-sexos/
Crédito da imagem de capa: Trabalhadoras durante a greve geral convocada pela CUT em março de 1989″. Fonte: CEDOC/CUT.
Neste episódio de Livros de Classe, Lorena Telles, professora da Unifesp, apresenta o clássico “Quotidiano e poder em São Paulo no século XIX”, de Maria Odila Leite da Silva Dias. Na obra, Maria Odila analisa como as relações de dominação, resistência e controle se manifestam no cotidiano, a partir da experiência de mulheres pobres.
Livros de Classe
Os estudantes de graduação são desafiados constantemente a elaborar uma percepção analítica sobre os diversos campos da história. Nossa série Livros de Classe procura refletir justamente sobre esse processo de formação, trazendo obras que são emblemáticas para professores/as, pesquisadores/as e atores sociais ligados à história do trabalho. Em cada episódio, um/a especialista apresenta um livro de impacto em sua trajetória, assim como a importância da obra para a história social do trabalho. Em um formato dinâmico, com vídeos de curtíssima duração, procuramos conectar estudantes a pessoas que hoje são referências nos mais diversos temas, períodos e locais nos mundos do trabalho, construindo, junto com os convidados, um mosaico de clássicos do campo.
Está no ar o primeiro episódio da nova temporada do podcast Vale Mais, do LEHMT-UFRJ!
Nesta temporada, continuamos convidando pesquisadoras e pesquisadores para discutir projetos, livros e teses recentes que aprofundam debates interdisciplinares sobre os mundos do trabalho.
Neste episódio, conversamos com Marcelo Magalhães, professor da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO) e coordenador nacional do ProfHistória. Magalhães abordou as relações entre o Programa de Pós-Graduação em Ensino de História e os mundos do trabalho. Aponta como diferencial do programa a valorização da experiência profissional docente na Educação Básica, reconhecendo nessa experiência um saber constituído, que no diálogo com a universidade, enriquece-a e é enriquecido. O professor destaca também a capacidade do ProfHistória em mobilizar questões que são caras à escola e às regionalidades, vislumbrando unidade e diversidade no Ensino de História no país. Magalhães ainda debate o processo de precarização do trabalho docente atualmente. Para saber mais sobre esse assunto, ouça o episódio!
Não esqueça também de compartilhar nas redes sociais e acompanhar os próximos!
Entrevistadores: Isabelle Pires e Márcio Romerito Arcoverde Roteiro: Claudiane Torres e Luciana Pucu Wollmann Produção: Ana Clara Tavares e Larissa Farias Edição: Thompson Clímaco Diretor da série: Thompson Clímaco Coordenadora geral do Vale Mais: Larissa Farias
Vale Mais #38: “Queremos lutar para honrar o nosso trabalho”: gênero, legislação social e operários/as têxteis no Rio de Janeiro (1926-1944), por Isabelle Pires –
Vale Mais
Em 1934, operárias da Fábrica Bangu lideraram uma greve por melhores salários, enquanto a imprensa ainda recorria à imagem do “sexo frágil” para descrever sua atuação. A contradição revela uma questão central na história das relações de gênero: a participação das mulheres nos mundos do trabalho e nas lutas sociais não significou, necessariamente, o reconhecimento de sua autonomia e de seus direitos. Hoje, quando setores da extrema direita questionam a participação política das mulheres e até mesmo seu direito ao voto, encontramos novas expressões das disputas históricas em torno do lugar das mulheres na sociedade e do exercício pleno da cidadania.
Está no ar mais um episódio do Vale Mais, o podcast do LEHMT-UFRJ!
Nesta edição, conversamos com a historiadora Isabelle Cristina da Silva Pires sobre sua tese “Queremos lutar para honrar o nosso trabalho”: gênero, legislação social e operários/as têxteis no Rio de Janeiro (1926-1944), defendida na UFRJ em 2023.
A pesquisa mostra que as mulheres não foram espectadoras da conquista dos direitos trabalhistas. Elas lideraram greves, participaram de sindicatos e reivindicaram férias, melhores salários, igualdade salarial, licença-maternidade e creches. E enfrentaram, dentro e fora das fábricas, projetos que pretendiam restringi-las aos papéis de mães e donas de casa.
Num momento em que a autonomia e os direitos das mulheres voltam a ser atacados, essa história nos lembra que direitos não são favores de governantes ou patrões e sim conquistas construídas em meio a organização, conflitos e resistência.
Neste domingo, 25 de outubro, vamos às urnas com a memória dessas lutas. Vote pensando nos direitos que as mulheres tanto lutaram para conquistar e na importância de defendê-los.
Ouça e compartilhe o novo episódio do Vale Mais!
Entrevistadores: Ana Clara Tavares, Isabelle Pires, Josemberg Araújo, Larissa Farias e Thompson Clímaco
Roteiro: Ana Clara Tavares, Isabelle Pires, Josemberg Araújo, Larissa Farias e Thompson Clímaco
Produção: Ana Clara Tavares e Larissa Farias
Edição: Josemberg Araújo e Thompson Clímaco
Diretor da série: Thompson Clímaco
Coordenadora geral do Vale Mais: Larissa Farias