LdC #61: Cotidiano e poder, por Lorena Telles

Neste episódio de Livros de Classe, Lorena Telles, professora da Unifesp, apresenta o clássico “Quotidiano e poder em São Paulo no século XIX”, de Maria Odila Leite da Silva Dias. Na obra, Maria Odila analisa como as relações de dominação, resistência e controle se manifestam no cotidiano, a partir da experiência de mulheres pobres.

Livros de Classe

Os estudantes de graduação são desafiados constantemente a elaborar uma percepção analítica sobre os diversos campos da história. Nossa série Livros de Classe procura refletir justamente sobre esse processo de formação, trazendo obras que são emblemáticas para professores/as, pesquisadores/as e atores sociais ligados à história do trabalho. Em cada episódio, um/a especialista apresenta um livro de impacto em sua trajetória, assim como a importância da obra para a história social do trabalho. Em um formato dinâmico, com vídeos de curtíssima duração, procuramos conectar estudantes a pessoas que hoje são referências nos mais diversos temas, períodos e locais nos mundos do trabalho, construindo, junto com os convidados, um mosaico de clássicos do campo.

A seção Livros de Classe é coordenada por Ana Clara Tavares.

Vale Mais #36: ProfHistória, por Marcelo Magalhães




Está no ar o primeiro episódio da nova temporada do podcast Vale Mais, do LEHMT-UFRJ!

Nesta temporada, continuamos convidando pesquisadoras e pesquisadores para discutir projetos, livros e teses recentes que aprofundam debates interdisciplinares sobre os mundos do trabalho.

Neste episódio, conversamos com Marcelo Magalhães, professor da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO) e coordenador nacional do ProfHistória. Magalhães abordou as relações entre o Programa de Pós-Graduação em Ensino de História e os mundos do trabalho. Aponta como diferencial do programa a valorização da experiência profissional docente na Educação Básica, reconhecendo nessa experiência um saber constituído, que no diálogo com a universidade, enriquece-a e é enriquecido. O professor destaca também a capacidade do ProfHistória em mobilizar questões que são caras à escola e às regionalidades, vislumbrando unidade e diversidade no Ensino de História no país. Magalhães ainda debate o processo de precarização do trabalho docente atualmente. Para saber mais sobre esse assunto, ouça o episódio!

Não esqueça também de compartilhar nas redes sociais e acompanhar os próximos!

Entrevistadores: Isabelle Pires e Márcio Romerito Arcoverde
Roteiro: Claudiane Torres e Luciana Pucu Wollmann
Produção: Ana Clara Tavares e Larissa Farias
Edição: Thompson Clímaco
Diretor da série: Thompson Clímaco
Coordenadora geral do Vale Mais: Larissa Farias

Vale Mais #36: ProfHistória, por Marcelo Magalhães Vale Mais

Está no ar o primeiro episódio da nova temporada do podcast Vale Mais, do LEHMT-UFRJ! Nesta temporada, continuamos convidando pesquisadoras e pesquisadores para discutir projetos, livros e teses recentes que aprofundam debates interdisciplinares sobre os mundos do trabalho. Neste episódio, conversamos com Marcelo Magalhães, professor da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO) e coordenador nacional do ProfHistória. Magalhães abordou as relações entre o Programa de Pós-Graduação em Ensino de História e os mundos do trabalho. Aponta como diferencial do programa a valorização da experiência profissional docente na Educação Básica, reconhecendo nessa experiência um saber constituído, que no diálogo com a universidade, enriquece-a e é enriquecido. O professor destaca também a capacidade do ProfHistória em mobilizar questões que são caras à escola e às regionalidades, vislumbrando unidade e diversidade no Ensino de História no país. Magalhães ainda debate o processo de precarização do trabalho docente atualmente. Para saber mais sobre esse assunto, ouça o episódio! Não esqueça também de compartilhar nas redes sociais e acompanhar os próximos! Entrevistadores: Isabelle Pires e Márcio Romerito Arcoverde Roteiro: Claudiane Torres e Luciana Pucu Wollmann Produção: Ana Clara Tavares e Larissa Farias Edição: Thompson Clímaco Diretor da série: Thompson Clímaco Coordenadora geral do Vale Mais: Larissa Farias
  1. Vale Mais #36: ProfHistória, por Marcelo Magalhães
  2. Vale mais #35: Entre o socialismo e o corporativismo, por Aldrin Castellucci
  3. Vale Mais #34: À frente dos negócios: a atuação das viúvas na direção de comércios de secos e molhados na cidade do Rio de Janeiro, por Jéssica Santanna
  4. Vale Mais #33: Jogo, logo existo: Futebol, conflito social e sociabilidade na formação da classe trabalhadora em Rio Grande, por Felipe Bresolin
  5. Vale Mais #32: Breve dicionário analítico sobre a obra de Edward Palmer Thompson, por César Queirós e Marcos Braga

LdC #60: Travessias Revolucionárias, por Carlo Romani

Neste episódio de Livros de Classe, o professor Carlo Romani (UNIRIO) apresenta Travessias Revolucionárias: ideias e militantes sindicalistas em São Paulo e na Itália (1890–1945), de Edilene Toledo, uma obra pioneira da História do Trabalho no Brasil. A partir das trajetórias de três militantes, o livro analisa as conexões entre São Paulo e a Itália, revelando a circulação transnacional de pessoas, ideias e práticas do sindicalismo revolucionário e antecipando debates que se consolidariam na História Global do Trabalho.

Livros de Classe

Os estudantes de graduação são desafiados constantemente a elaborar uma percepção analítica sobre os diversos campos da história. Nossa série Livros de Classe procura refletir justamente sobre esse processo de formação, trazendo obras que são emblemáticas para professores/as, pesquisadores/as e atores sociais ligados à história do trabalho. Em cada episódio, um/a especialista apresenta um livro de impacto em sua trajetória, assim como a importância da obra para a história social do trabalho. Em um formato dinâmico, com vídeos de curtíssima duração, procuramos conectar estudantes a pessoas que hoje são referências nos mais diversos temas, períodos e locais nos mundos do trabalho, construindo, junto com os convidados, um mosaico de clássicos do campo.

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CE #41: O Primeiro Sindicato? A longa trajetória de organização das trabalhadoras domésticas no Brasil – Daniel Ferreira



O dia 5 de junho de 2026 marcou os 92 anos da fundação do Sindicato das Empregadas em Serviços Domésticos de Santos, um marco na história da luta das domésticas brasileiras por condições dignas de trabalho. Fundado por Laudelina de Campos Mello – trabalhadora doméstica e frequentadora assídua de associações negras – o sindicato de Santos foi uma das primeiras organizações dedicadas à defesa da profissão que mais empregava mulheres no país.

Essa efeméride pouco convencional, de 92 anos, merece uma explicação. Afinal, segundo muitos historiadores, estaríamos comemorando um aniversário mais redondo, de 90 anos do sindicato, no dia 8 de julho de 2026. A origem do mal-entendido está no final da década de 1980, quando Laudelina de Campos Mello concedeu uma longa e extraordinária entrevista à pesquisadora Elisabete Aparecida Pinto. Mais de 50 anos depois dos fatos, Laudelina dizia ter fundado o sindicato no dia 8 de julho de 1936. Mas parece ter havido um pequeno lapso em sua memória. Uma nota publicada na Gazeta Popular de Santos não deixa dúvida: o sindicato iniciou suas atividades em 5 de junho de 1934.

Durante a sua breve existência, o sindicato não chegou a negociar salários ou a planejar greves. Ele funcionava mais como uma sociedade de assistência mútua: cobrava de seus membros uma ínfima mensalidade de um mil- réis (algo como R$1 nos dias de hoje), e oferecia cursos de culinária e de economia doméstica; fornecia assistência às crianças, aos idosos e aos pobres; e promovia atividades recreativas como o teatro. Para arrecadar mais dinheiro, Laudelina organizava bailes e torneios de futebol aos domingos.

Pode parecer pouco, mas não era. Havia poucas profissões mais solitárias que a de doméstica, especialmente numa época em que dormir no emprego era a regra. Era de enorme importância para essas mulheres ter um espaço de convivência e de lazer nos seus poucos momentos de folga.

Entre os sindicatos de domésticas fundados antes de 1945, o de Santos é de longe o mais conhecido, e por um bom motivo. O sindicato liderado por Laudelina foi a primeira entidade que, por toda a sua breve existência (1934–1937), foi inteiramente comandado por uma trabalhadora doméstica.

Mas o sindicato de Santos está longe de ter sido a única entidade da categoria nessa época. No Rio de Janeiro, por exemplo, já atuava desde 1922 a Sociedade Beneficente União Doméstica. A Sociedade foi fundada por um policial negro chamado Joaquim Rufino dos Santos, um sujeito com muitos amigos em associações negras, no sindicalismo carioca, no mundo do Carnaval e, especialmente, entre os políticos. Rufino dos Santos trabalhou por anos como segurança na Câmara dos Deputados, posição que usou para promover os primeiros projetos de lei de proteção às domésticas. Algumas de suas propostas eram bem questionáveis, como a obrigação de uma carteira policial para a categoria. Já outras eram indiscutivelmente louváveis: aviso prévio, folgas semanais, férias anuais, aposentadoria e a possibilidade de usar a justiça para garantir o pagamento de salários. A Sociedade também organizava bailes de 13 de Maio para suas associadas, em sua maioria mulheres negras.

Poucos anos depois, Getúlio Vargas assumia o poder, trazendo consigo uma série de decretos que ampliaram significativamente as proteções trabalhistas no país. Nos anos 1930, nenhuma dessas medidas se aplicava às domésticas – a Lei de Sindicalização de 1931, inclusive, chegava a excluí-las explicitamente de seu alcance. Mas nesse momento, a legislação trabalhista ainda era uma obra em construção. Reinava um clima de possibilidades abertas, e nesse clima, uma parcela significativa da sociedade civil passou a ver o emprego doméstico como uma profissão que, como todas as outras, merecia seu próprio sindicato e regulamentação. E muita gente começou a trabalhar para transformar essa visão em realidade.

Em 1933, o jovem Dom Hélder Câmara organizou as domésticas de Fortaleza em torno de um movimento operário católico. De acordo com o Legionário, um dos jornais católicos da cidade, em uma publicação no dia 13 de Maio: “assim como os operários fabris e os artistas têm os seus sindicatos […], as lavadeiras, engomadeiras, domésticas etc. precisam também possuir o seu órgão de defesa que é, indiscutivelmente, o sindicato”. Apesar da resistência das patroas, o esforço foi relativamente bem-sucedido: em 1934, a organização de Dom Hélder já tinha dez filiais nos arredores da cidade. Além de negociar conflitos trabalhistas, também prestava assistência e oferecia alguns cursos às interessadas.

Em 1934, Manuela Lucas e uma dúzia de outras trabalhadoras domésticas fundaram no Rio de Janeiro uma organização “de empregadas domésticas para empregadas domésticas”. Essas mulheres costumavam se reunir todas as semanas para rezar, e durante esses encontros, decidiram arrecadar fundos para criar um centro comunitário e uma casa de férias para as domésticas. No entanto, após receber uma doação de uma benfeitora rica, a organização deixou de ser uma associação de trabalhadoras e se tornou uma instituição de caridade dominada por senhoras católicas.

A própria Frente Negra Brasileira, fundada em 1931, reunia centenas de domésticas – que constituíam, afinal, a principal ocupação das mulheres negras à época. Em São Paulo, a Frente Negra criticava a discriminação racial na contratação de domésticas, ajudava mulheres a encontrarem postos de trabalho e encorajava as domésticas negras a repelirem os insultos dos brancos. Não seria um exagero dizer que, na prática, a Frente Negra agia, entre outras coisas, como uma espécie de associação de trabalhadoras domésticas.

A líder das feministas brasileiras, Bertha Lutz, também trabalhou em prol da causa das domésticas. Embora a maioria das participantes da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino nas décadas de 1920 e 30 tivessem poucos vínculos com a classe trabalhadora, Bertha Lutz tinha plena consciência da importância dos direitos trabalhistas para o avanço das mulheres em geral. Ela incentivou as poucas operárias que militavam na organização, como Almerinda Farias Gama, a organizarem sindicatos. E quando assumiu uma cadeira na Câmara dos Deputados em 1937, escreveu o Estatuto da Mulher, um grande projeto de lei que tinha como objetivo definir “os direitos e obrigações constitucionais da cidadã”. Em relação às trabalhadoras domésticas, o projeto proibia o trabalho de menores, limitava a jornada de trabalho a oito horas e, para garantir que esses direitos pudessem ser colocados em prática, dava ao governo a autoridade para supervisionar o cumprimento dessas leis pelos patrões.

Foi neste clima de mobilização que Laudelina de Campos Mello fundou, em 1934, o Sindicato das Empregadas em Serviços Domésticos de Santos. Clima este que duraria até o golpe do Estado Novo, em novembro de 1937. Então, Vargas dissolveu o Congresso, que havia sido suscetível às pressões dos defensores das domésticas, e dissolveu diversas organizações políticas e sindicais, inclusive aquelas estavam reivindicando os direitos daquelas trabalhadoras.

O retorno à democracia em 1945 trouxe um novo impulso à sindicalização das trabalhadoras domésticas. Em meio à febre de sindicalização que tomava o país, houve interesse entre os comunistas na formação de sindicatos de domésticas. Nessa época, a própria Laudelina se filiou ao PCB. Em 1946, Laudelina se aproximou de Luiz Lobato, marxista negro militante no Partido Socialista Brasileiro, e de Geraldo Campos de Oliveira, o maior colaborador de Abdias Nascimento em São Paulo. Os três, junto com a doméstica Cilia Ambrósio, fundaram uma associação de domésticas na capital paulista. Mas a associação não prosperou. A despeito de muitas tentativas, não houve nenhuma entidade de domésticas muito duradoura nem no Rio nem em São Paulo durante as décadas de 1940 e 50.

Isso começou a mudar no começo da década de 60, outro período de atividade extraordinária no sindicalismo brasileiro. Começaram a surgir uma série de associações de domésticas a partir da militância católica, como em São Paulo e no Rio de Janeiro. Já em Santos, foi refundada a Associação de Domésticas em 1963, com o apoio dos comunistas locais.

Nesse período – mais precisamente, em maio de 1961 – Laudelina de Campos Mello fundou sua terceira e última entidade de classe: a Associação dos Empregados Domésticos de Campinas. Segundo ela, a primeira assembleia “fechou o trânsito em Campinas”, com mais de 1.200 mulheres. E nesses anos, Laudelina manteve uma capacidade extraordinária de alianças. Embora nunca tenha escondido que fosse comunista, Laudelina convivia muito bem com a Igreja – que cedia espaço para reuniões da Associação – e com todo tipo de corrente política. Em 1964, enquanto a primeira onda de repressão da ditadura militar varria o Brasil, o diretório campineiro da UDN permitiu que a Associação usasse a sede do partido, para que “ninguém mexesse” com a Associação. Nas próximas décadas, associações como a de Campinas contribuíram para a aprovação da Lei 5.859 de 1972, que estendeu às domésticas o direito a férias e à Previdência Social; e para a inclusão de direitos trabalhistas fundamentais para a categoria na Constituição de 1988.

A participação de Laudelina na Associação teve idas e vindas, mas em fins da década de 1980, ela se reconciliou com a organização que havia fundado. Depois de cinco décadas de luta, Laudelina de Campos Mello faleceu em Campinas no dia 12 de maio de 1991.

Baile da Sociedade Beneficente União Doméstica no Club Carioca (Beira-Mar, 1/7/1923)


FERREIRA, Daniel T. “The Regulators of Citizenship: The Labor Law Establishment and Domestic Workers in Brazil, 1922-1972”, Trabalho de Conclusão de Curso, Stanford University, 2022.

GETIRANA, Yasmin. Na casa e na causa: a organização sindical das trabalhadoras domésticas (Rio de Janeiro, 1961-1973). Rio de Janeiro: Telha, 2023.

MARQUES, Teresa Cristina Novaes. “Anatomia de uma injustiça secular: O Estado Novo e a regulação do serviço doméstico no Brasil”, Varia Historia, vol, 36, n. 70, pp. 183-216, 2020.

PINTO, Elisabete Aparecida. “Etnicidade, gênero e educação: a trajetória de vida de Da. Laudelina de Campos Mello (1904-1991)”, Dissertação de Mestrado, Faculdade de Educação, Universidade Estadual de Campinas, 1993.

SANTANA, Bianca, ed. Vozes insurgentes de mulheres negras. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2019.

SOTERO, Edilza Correia. “Representação política negra no Brasil pós-Estado Novo”, Tese de Doutorado, Universidade de São Paulo, 2015.


Crédito da imagem de capa: Abertura do 3° Congresso Nacional da Trabalhadora Doméstica na década de 1950. Laudelina de Campos Mello é a de blusa preta. Acervo Casa Laudelina

LdC #59: Novos e velhos sindicalismos, por Luciana Lombardo

Neste episódio de Livros de Classe, Luciana Lombardo, chefe de Divisão do Memórias Reveladas do Arquivo Nacional, apresenta o livro “Novos e velhos sindicalismos: Rio de Janeiro, 1955/1988”, de Marcelo Badaró Mattos. A obra é fruto da tese de doutorado do autor, defendida em 1996 e investiga as rupturas e continuidades no sindicalismo carioca entre a década de 1950 e o surgimento do novo sindicalismo.

Livros de Classe

Os estudantes de graduação são desafiados constantemente a elaborar uma percepção analítica sobre os diversos campos da história. Nossa série Livros de Classe procura refletir justamente sobre esse processo de formação, trazendo obras que são emblemáticas para professores/as, pesquisadores/as e atores sociais ligados à história do trabalho. Em cada episódio, um/a especialista apresenta um livro de impacto em sua trajetória, assim como a importância da obra para a história social do trabalho. Em um formato dinâmico, com vídeos de curtíssima duração, procuramos conectar estudantes a pessoas que hoje são referências nos mais diversos temas, períodos e locais nos mundos do trabalho, construindo, junto com os convidados, um mosaico de clássicos do campo.

A seção Livros de Classe é coordenada por Ana Clara Tavares.

LdC #58: Obras reunidas de Maria Célia Paoli, por José Sergio Leite Lopes (parte 2)

Neste episódio especial de Livros de Classe, José Sergio Leite Lopes (UFRJ) conduz uma homenagem à trajetória intelectual de Maria Célia Paoli, a partir da recente publicação da coleção Obras Reunidas de Maria Célia Paoli (2024), composta por dois volumes: Sujeitos políticos na formação social brasileira e Movimentos sociais e direitos. Reunindo textos produzidos ao longo de mais de três décadas, os livros apresentam ao público um conjunto fundamental da obra da autora, organizado em edição póstuma.

Com este episódio especial, dividido em duas partes, o LEHMT-UFRJ homenageia Maria Célia Paoli, que nos deixou há exatos 7 anos.

Livros de Classe

Os estudantes de graduação são desafiados constantemente a elaborar uma percepção analítica sobre os diversos campos da história. Nossa série Livros de Classe procura refletir justamente sobre esse processo de formação, trazendo obras que são emblemáticas para professores/as, pesquisadores/as e atores sociais ligados à história do trabalho. Em cada episódio, um/a especialista apresenta um livro de impacto em sua trajetória, assim como a importância da obra para a história social do trabalho. Em um formato dinâmico, com vídeos de curtíssima duração, procuramos conectar estudantes a pessoas que hoje são referências nos mais diversos temas, períodos e locais nos mundos do trabalho, construindo, junto com os convidados, um mosaico de clássicos do campo.

A seção Livros de Classe é coordenada por Ana Clara Tavares.

LdC #58: Obras reunidas de Maria Célia Paoli, por José Sergio Leite Lopes (parte 1)

Livros de Classe é uma série mensal do portal do LEHMT-UFRJ, na qual especialistas apresentam obras fundamentais para a História dos Mundos do Trabalho e para a formação intelectual dos pesquisadores da área.

Neste episódio especial, José Sergio Leite Lopes (UFRJ) conduz uma homenagem à trajetória intelectual de Maria Célia Paoli, a partir da recente publicação da coleção Obras Reunidas de Maria Célia Paoli (2024), composta por dois volumes: Sujeitos políticos na formação social brasileira e Movimentos sociais e direitos. Reunindo textos produzidos ao longo de mais de três décadas, os livros apresentam ao público um conjunto fundamental da obra da autora, organizado em edição póstuma.

Com este episódio especial, dividido em duas partes, o LEHMT-UFRJ homenageia Maria Célia Paoli, que nos deixou há exatos 7 anos.

Livros de Classe

Os estudantes de graduação são desafiados constantemente a elaborar uma percepção analítica sobre os diversos campos da história. Nossa série Livros de Classe procura refletir justamente sobre esse processo de formação, trazendo obras que são emblemáticas para professores/as, pesquisadores/as e atores sociais ligados à história do trabalho. Em cada episódio, um/a especialista apresenta um livro de impacto em sua trajetória, assim como a importância da obra para a história social do trabalho. Em um formato dinâmico, com vídeos de curtíssima duração, procuramos conectar estudantes a pessoas que hoje são referências nos mais diversos temas, períodos e locais nos mundos do trabalho, construindo, junto com os convidados, um mosaico de clássicos do campo.

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CE #40: “Para a união do proletariado brasileiro”: o Primeiro Congresso Operário Brasileiro (1906) – Edilene Toledo




Há exatos 120 anos, entre 15 e 20 de abril de 1906, na sede do Centro Galego, na rua da Constituição, nº 30 e 32, no centro do Rio de Janeiro, então Distrito Federal, ocorreu o Primeiro Congresso Operário Brasileiro. Os brasileiros e imigrantes nele reunidos eram herdeiros da longa tradição de luta por melhores condições de vida e de trabalho no nosso país e compartilhavam também as ideias e práticas sindicais que circulavam intensamente de um país a outro naquele início do século XX. Os delegados sindicais promoveram intensos debates sobre os problemas que afligiam a classe operária, entendida como o conjunto dos trabalhadores manuais urbanos, grupo em crescimento que englobava homens, mulheres, crianças, idosos, negros, brancos, indígenas, brasileiros e estrangeiros e sobre as formas de luta para melhorar suas condições de vida e de trabalho.

O Centro Galego, que dispunha de um teatro, vinha sendo há alguns anos um espaço para realizações de eventos, encontros e exibições de peças de teatro escritas por operários. A Rua da Constituição, uma das vias que ligam a Praça Tiradentes e a Praça da República, também abrigava uma livraria de um poeta anarquista, especializada em publicações libertárias, um sindicato, o Centro Internacional dos Pintores, e também foi o palco da breve experiência da Universidade Popular de Ensino Livre, que tinha sido realizada em 1904.

Este primeiro congresso foi um evento muito importante para o movimento operário, constituindo o primeiro esforço de luta coordenada dos trabalhadores de várias partes do país, visando construir diálogos e trocas mais intensos e uma primeira central sindical que unisse trabalhadores das diferentes regiões A iniciativa para realizar esse primeiro congresso nacional partiu da União Operária do Engenho de Dentro, localizada nesse bairro na zona norte da cidade do Rio de Janeiro. A união enviou uma circular, assinada por seu presidente, Antonio Pinto Machado, aos sindicatos. O congresso foi organizado por uma coalizão de sindicatos e militantes, especialmente da capital do país, que sediou o encontro. Nele foi evidente a influência do sindicalismo revolucionário, teoria e prática que caracterizou grande parte do movimento sindical em várias partes do mundo naquele momento, com a defesa entusiasta da ação direta e da autonomia dos trabalhadores e da democracia interna de seus sindicatos. Diversamente dos socialistas e anarquistas, os sindicalistas revolucionários acreditavam que o sindicato era o órgão mais importante da luta cotidiana por melhorias e seria o núcleo principal da sociedade futura que pretendiam construir. Embora muitos trabalhadores no Brasil apostassem na luta pela elaboração de leis trabalhistas e na mediação de políticos e jornalistas, a ação direta predominava no movimento operário de São Paulo, e tinha também forte influência no movimento do Rio de Janeiro e em outras partes do país, entre aqueles que acreditavam que a emancipação dos trabalhadores deveria ser obra dos próprios trabalhadores. Assim, lutavam por melhores condições de trabalho e de vida, por melhores salários, jornadas mais suportáveis e pelo direito à organização, enfrentando diretamente seus empregadores.

Os trabalhadores reunidos no congresso revelaram sentir-se parte de um movimento sindicalista internacional. O operariado francês, também em grande medida partidário da ação direta, foi apontado como modelo a ser seguido. Pode-se dizer que as resoluções do congresso foram muito mais sindicalistas que revolucionárias e se encontram nelas poucas ideias do anarquismo e do socialismo. As ideias, por exemplo, de destruição do Estado, ou da tomada dele, ou da construção de uma sociedade futura não foram discutidas, mas sim um conjunto vasto de questões muito práticas que evidenciavam as dificuldades encontradas pelos trabalhadores cotidianamente. A predominância das ideias do sindicalismo revolucionário no congresso não significa, porém, necessariamente que elas fossem a expressão do movimento operário em todo o Brasil. É possível que nos debates acesos do congresso, os grupos de sindicalistas revolucionários tenham feito prevalecer suas ideias sobre os vários delegados e sindicatos que defendiam uma ação reformista. Estiveram presentes 43 delegados de 28 sindicatos do Rio de Janeiro, São Paulo, Ceará, Pernambuco e Santa Catarina, das seguintes categorias: tecelões, ferroviários, gráficos, mineradores, marmoristas, correeiros, marceneiros, estivadores, chapeleiros, alfaiates, sapateiros, trabalhadores das indústrias de tabaco, de trapiche e café e da construção civil. Os sindicatos contaram com a contribuição voluntária dos trabalhadores para financiar os gastos do congresso e os deslocamentos.

Muito provavelmente pela distância e dificuldades no financiamento da viagem, predominaram os sindicatos e militantes do Rio de Janeiro e de São Paulo, 13 e 12 associações, respectivamente, sendo apenas uma do Ceará, uma de Pernambuco e uma de Santa Catarina. Muitos outros sindicatos participaram, porém, enviando sugestões. Devemos considerar também que Rio de Janeiro e São Paulo eram no período as duas maiores cidades do país e com maior número de indústrias e sindicatos, cidades que viviam mais intensamente as consequências dos fenômenos conectados, a industrialização, a urbanização e as migrações, embora eles também tenham ocorrido nos outros estados.

O congresso refletiu em alguma medida a diversidade racial e étnica dos mundos do trabalho naquele momento do pós-abolição e da grande presença de imigrantes no centro-sul do país. Sindicatos com forte presença de trabalhadores negros em sua base como a União dos Operários Estivadores do Rio de Janeiro e a Associação dos Trabalhadores em Trapiche e Café, do Rio de Janeiro, estiveram presentes, assim como é evidente a presença de imigrantes, especialmente italianos, vindos sobretudo de São Paulo. Os trabalhadores organizados buscavam superar as divisões étnicas, raciais e de gênero existentes na classe trabalhadora, enfatizando a importância da identidade de classe. A enorme presença de mulheres e crianças, especialmente nas indústrias têxteis, também apareceu nos debates como elemento de tensão, sendo elas consideradas concorrentes, visto que eram preferidas pelos empregadores que pagavam salários que correspondiam à metade e um quarto, respectivamente, em relação aos salários dos homens. A solução apontada foi estimular a organização das trabalhadoras.

Fizeram parte da comissão redatora das resoluções do congresso Mota Assunção, Alfredo Vasques, Camilo Soares, Sergio de Brito, Luigi Magrassi, Augusto S. Altro e Belisário de Sousa. O tema da neutralidade dos sindicatos foi o primeiro a ser discutido. As questões tinham sido preparadas e propostas com antecedência por várias organizações. Decidiu-se que, “considerando que o operariado estava profundamente dividido por suas opiniões políticas e religiosas e que os interesses econômicos comuns a toda a classe operária eram a única base sólida de acordo e de ação, o congresso deveria aconselhar os trabalhadores a se organizar em sociedades de resistência econômica e de ação direta, deixando fora do sindicato as rivalidades que resultariam da adoção de uma doutrina política ou religiosa”. Isso significava que os sindicatos deveriam manter o que chamavam de neutralidade política, não deveriam ser nem anarquistas, nem socialistas, nem católicos, de modo que todo trabalhador pudesse se reconhecer nele e assim superar os conflitos provocados pelas outras identidades. Além disso, os sindicatos deveriam organizar lutas estritamente trabalhistas, por melhorias salariais, diminuição da jornada, tratamento digno, mas também admitiam greves e manifestações de solidariedade a outras categorias. Entre outras  resoluções, decidiu-se também que: o Primeiro de Maio deveria ser um dia de protesto e não de festa; as caixas, isto é, o dinheiro arrecadado pelas organizações deveriam ter como objetivo a resistência; os sindicatos não poderiam admitir empregadores e contramestres; os meios de ação dos sindicatos deveriam ser a greve geral ou parcial, o boicote, a sabotagem e as manifestações públicas; os principais objetivos dos trabalhadores deveriam ser a redução das horas de trabalho, a fundação de bibliotecas e instituições de ensino e a atividade sindical; a propaganda do sindicalismo deveria ser feita através de jornais, folhetos, cartazes, manifestos, carimbos, conferências, excursões de propaganda, representações teatrais e criação de bibliotecas; os sindicatos deveriam realizar protestos contra as guerras e o militarismo; era necessária uma ampla campanha contra o alcoolismo; era necessário que as operárias se organizassem como companheiras de luta; dever-se-ia convidar os pais a não mandarem as crianças para as fábricas; o operariado em geral devia lutar para impedir o aumento dos aluguéis; deveriam promover a propaganda e organizar sindicatos também entre os trabalhadores das fazendas e fazer uma campanha ativa de denúncias contra os abusos sofridos pelos trabalhadores rurais.  Decidiu-se também defender por todos os meios o direito de reunião e associação, em caso de ação violenta do governo, visto que eram comuns as prisões arbitrárias, a ação violenta da polícia em caso de manifestações e greves, muitas vezes com mortos e feridos, e a invasão dos sindicatos e apreensão de seus móveis e livros. O Congresso se encerrou com os trabalhadores cantando o Hino da Internacional.

Várias dessas resoluções foram acolhidas pelas organizações operárias do país. O atendimento à chamada para a luta pelas oito horas foi espetacular, visto o movimento em cadeia realizado em várias partes do país no ano seguinte, quando várias categorias de trabalhadores, algumas ainda que provisoriamente, conseguiram obter a jornada de oito horas,  como na greve geral de 1907 em São Paulo.  O congresso lançou também as bases da Confederação Operária Brasileira, que passaria a funcionar em 1908, junto com seu jornal, A Voz do Trabalhador. Esse congresso constituiu um capítulo importante da luta dos trabalhadores no Brasil, por melhores condições de vida e de trabalho, mas também por democracia, de modo que as lutas e as organizações dos trabalhadores fossem reconhecidas como elementos legítimos na sociedade. Teve também papel central na consolidação de uma identidade de classe entre os trabalhadores e na sociedade como um todo.

O jornal A Voz do Trabalhador, um dos resultados do Primeiro Congresso Operário Brasileiro. A Voz do Trabalhador: Orgam da Confederação Operária Brazileira, edição facsimilar com 71 números, referente ao período de 1908 – 1915. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado: Secretaria do Estado da Cultura: Centro de Memória Sindical, 1985.


BARBOSA, José Fernando da Silva Barbosa. O ano que abalou o movimento operário brasileiro: O Correio da Manhã e o Congresso Operário de 1906. Dissertação de Mestrado. 2019.

OLIVEIRA, Tiago Bernardon de. Anarquismo, sindicatos e revolução no Brasil. Tese de Doutorado, Universidade Federal Fluminense, 2009.

PINHEIRO, Paulo Sérgio e HALL, Michael. A Classe Operária no Brasil. Documentos (1889 a 1930) Vol. 1 – O movimento operário. São Paulo: Alfa-Omega, 1979.

SOUZA, Felipe Azevedo e Souza e CASTELLUCCI, Aldrin. À margem dos grandes esquemas: o associativismo político-eleitoral dos trabalhadores de Pernambuco e da Bahia na Primeira República. Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 35, nº 75, p.6-25, Janeiro-Abril 2022.

TOLEDO, Edilene. Travessias Revolucionárias. Ideias e militantes sindicalistas entre São Paulo e a Itália (1890-1945). Campinas-SP: Editora da Unicamp. 2004.


Crédito da imagem de capa: Operários reunidos no Primeiro Congresso Operário Brasileiro, Rio de Janeiro, 1906. Fotografia de autor desconhecido publicado pelo jornal O Malho em 28 de abril de 1906. Arquivo Edgard Leuenroth, Unicamp.

LMT#143 O Ateneu Popular do Sindicato Único da Agulha, Montevidéu, Uruguai – Rodolfo Porrini





Entre os lugares de memória da classe trabalhadora no Uruguai existem exemplos interessantes de como organizações sociais construíram, mantiveram e transformaram os espaços materiais nos quais seus projetos políticos, sociais, intelectuais e culturais se desenvolveram.

Um dos espaços de referência do movimento operário no Uruguai e sua capital, Montevidéu, é o antigo local do Centro Internacional de Estudos Sociais (CIES). O CIES foi estabelecido no centro da cidade a partir do final de 1897 ou início de 1898, por um grupo de trabalhadores alfaiates de diversas nacionalidades – em sua maioria italianos, mas também espanhóis e locais. Além dos trabalhadores alfaiates, participou também um amplo grupo de intelectuais e artistas. Do ponto de vista ideológico, o CIES era plural. Ali transitavam socialistas, livres-pensadores e liberais radicais, embora predominasse um tom anarquista. Foi o espaço operário mais conhecido de Montevidéu e teve longa duração, chegando até 1924, sendo posteriormente continuado por outras experiências e múltiplas atividades.

Ali desde o início do século XX aconteciam debates, cursos e conferências, leituras individuais e “comentadas”, sustentadas por uma importante biblioteca e periódicos de todo o mundo. O espaço servia para o funcionamento de organizações sindicais e assembleias, centro de apoio a conflitos operários e sede de publicações sindicais e políticas, de caráter predominantemente libertário. Foi também cenário de multifacetadas veladas (noites) culturais e artísticas.

Desde o início, o CIES esteve vinculado aos alfaiates, reunidos desde 1901 na Sociedade de Resistência de Operários Alfaiates. Ali funcionavam ainda outras sociedades de resistência e iniciativas mais ambiciosas que buscaram construir instrumentos de luta e de cultura alternativa, operária e socialista. O amplo local ficava na rua Río Negro 274, que, após mudanças na numeração, em 1913, passou a ser 1180, endereço mantido até hoje.

O Centro Internacional foi palco de múltiplas assembleias operárias de sociedades de resistência – continuadoras das sociedades mutuais que antecederam os sindicatos – e onde se fundou, em agosto de 1905, a primeira organização federal com relevante continuidade no século XX: a Federação Operária Regional Uruguaia (FORU), de orientação anarquista. Dali partiam manifestações internacionalistas, como a que protestou contra o assassinato de Francisco Ferrer em 1909, ou em apoio à Primeira Greve Geral no Uruguai, em maio de 1911. Em suas instalações realizavam-se conferências e cursos, debates e “controvérsias” entre oradores de diversas ideias e nacionalidades, predominantemente anarquistas, mas também socialistas e livres-pensadores.

As noites artísticas eram um fator de sociabilidade e de arrecadação de recursos para sustentar a imprensa e as famílias dos “presos sociais”. Incluíam música, poesia, danças, cantos e representações teatrais, além de conferências sobre temas ideológicos, filosóficos ou internacionalistas. Em seu grupo “filodramático” atuou o célebre dramaturgo Florencio Sánchez, militante anarquista durante um período, tendo estreado ali peças de teatro social como Puertas adentro em 1899 e Ladrones em 1901.

Foi sede da redação de várias publicações, como o jornal El Trabajo, primeiro diário anarquista no Uruguai (setembro de 1901 – março de 1902), e o semanário Tribuna Libertaria (1900–1902), ambos órgãos do CIES.

A Revolução Russa de outubro de 1917 atuou como divisor de águas no movimento operário da época. Por volta de 1920, impulsionou no Partido Socialista, fundado em 1910, sua transformação em Partido Comunista (abril de 1921) e a reconstrução de um novo PS em 1922. Para o anarquismo, gerou tensões nos múltiplos círculos sociais, nas sociedades de resistência e na FORU. Entre 1921 e 1923 ocorreu a divisão da FORU, criando-se em outubro de 1923 a União Sindical Uruguaia (USU), definida como anarco-sindicalista, também com presença de uma minoria comunista.

Em 1920 foi formado o importante Sindicato de Artes Gráficas (SAG). Em 25 de novembro de 1921, categorias ocupacionais tradicionais do setor de confecção, como alfaiates, camiseiras, costureiras de coletes e calças e cortadores, fundaram o Sindicato Único da Agulha (SUA). Ambos foram importantes referências da USU, funcionando todos no local do CIES.


Em 1924 trabalhadores do setor criaram o Ateneu Popular do Sindicato Único da Agulha, com o objetivo de “contribuir para a elevação cultural da classe operária”. Pode-se considerá-lo uma continuação do Centro Internacional. Nessa iniciativa, além de anarquistas, participaram alguns socialistas.


Em dezembro, o Ateneu propôs comprar o antigo casarão. Organizaram-se atividades para arrecadar fundos e obteve-se o apoio financeiro do órgão legislativo municipal – com gestão de vereadores socialistas – concretizando-se a compra em 1925. O sindicato planejou ampliar e reformar o local, em um projeto que, após receber subsídio estatal, foi finalizado em 1928. O resultado foi um edifício em estilo art déco de três andares: no térreo havia um espaço para sala teatral, e nos outros dois andares, espaços para biblioteca e distintas atividades sociais e sindicais. Nesses anos, vários sindicatos funcionavam ali.

A partir dos anos 1940, a sociedade, as classes trabalhadoras e o sindicalismo passaram por importantes mudanças. No âmbito dessas transformações, formou-se a União Geral de Trabalhadores (UGT) em 1942. Militantes comunistas dirigiam a UGT, enquanto vários sindicatos permaneceram como “autônomos” e formaram coordenações próprias. Paralelamente, em 1951, criou-se a Confederação Sindical do Uruguai.

Em 1944, estabeleceu-se uma tensão entre um grupo oriundo da matriz inicial anarquista do Ateneu Popular e a direção do Sindicato Único da Agulha, vinculada à UGT comunista. Isso motivou um enfrentamento que resultou na permanência do local nas mãos de uma comissão do antigo Ateneu Popular e obrigou o SUA a se transferir. Período complexo para o Ateneu, para o próprio SUA e para o movimento sindical da época.

A partir do final dos anos 1950 e meados dos 1960, impulsionado pela crise econômica e estrutural do país, avançou no Uruguai o processo de unificação sindical, criando-se entre 1964 e 1966 a Convenção Nacional de Trabalhadores (CNT), unificando a maioria das correntes sindicais classistas do país. Vieram então tempos mais duros: o autoritarismo de Estado (1968–1973) e a instalação da ditadura civil-militar a partir de 27 de junho de 1973.

Por sua vez, após o fim da ditadura, o SUA continuou lutando para retornar ao que considerava seu local. Isso só se concretizou em 2004. Recuperado o espaço, o sindicato decidiu homenagear um de seus militantes, de orientação comunista, dando seu nome ao novo Ateneu Popular “Bernardo Groisman”, falecido em 2003.

Desde então, além de suas tarefas sindicais, o Sindicato se propôs a desenvolver atividades culturais, sociais e solidárias, retomando as motivações e práticas dos operários e intelectuais de suas origens. Foi sede de atos culturais, festas, lançamentos de livros e de veículos jornalísticos, e durante a pandemia realizou tarefas solidárias: confecção de máscaras e apoio a projetos de alimentação popular diante da difícil situação econômica e social.

Ainda hoje, apesar de certa precariedade do edifício, o SUA tem conseguido manter o prédio e realizar tarefas sindicais, solidárias e culturais. Sua existência constitui uma marca indelével do patrimônio cultural e material do movimento operário e social de Montevidéu e do Uruguai. Um espaço para a cultura alternativa.

Fachada do Ateneu da SUA Bernardo Groisman, antiga sede do Centro Internacional, na Rua Río Negro, 1180, Montevidéu, Uruguai. Fonte: fotografia tirada por Rodolfo Porrini, 9/10/2025.


MOREIRA, Ricardo, “El Sindicato Único de la Aguja y su Ateneo popular”, en Ana Frega (coordinación), Montevideo 300 años, Montevideo, Intendencia de Montevideo, 2024, pp.408-413.

MUÑOZ, Pascual, La primera huelga general en el Uruguay. 23 de mayo de 1911, Montevideo, La Turba Ediciones, 2011.

PORRINI, Rodolfo, Montevideo, ciudad obrera. El ‘tiempo libre desde las izquierdas (1920-1950), Montevideo, Ediciones Universitarias, 2023 [2019].

VIDAL, Daniel, “Centros de estudios Sociales. Conferencias y controversias”, en letra chica. Revista de ramos generales, número 3, diciembre 2009 (internet)

ZUBILLAGA, Carlos, BALBIS, Jorge, Historia del movimiento sindical uruguayo, tomos II, IV, Montevideo, Banda Oriental, 1986, 1992.


Crédito da imagem: Reunião de trabalhadores no saguão do Centro Internacional, 1901. Fonte: Carlos M. Rama, Obreros y anarquistas, Montevidéu, Editores Reunidos/Arca, 1969, p. 24.


Lugares de Memória dos Trabalhadores

As marcas das experiências dos trabalhadores e trabalhadoras brasileiros estão espalhadas por inúmeros lugares da cidade e do campo. Muitos desses locais não mais existem, outros estão esquecidos, pouquíssimos são celebrados. Na batalha de memórias, os mundos do trabalho e seus lugares também são negligenciados. Nossa série Lugares de Memória dos Trabalhadores procura justamente dar visibilidade para essa “geografia social do trabalho” procurando estimular uma reflexão sobre os espaços onde vivemos e como sua história e memória são tratadas. Mensalmente, um pequeno artigo com imagens, escrito por um(a) especialista, fará uma “biografia” de espaços relevantes da história dos trabalhadores de todo o Brasil. Nossa perspectiva é ampla. São lugares de atuação política e social, de lazer, de protestos, de repressão, de rituais e de criação de sociabilidades. Estátuas, praças, ruas, cemitérios, locais de trabalho, agências estatais, sedes de organizações, entre muitos outros. Todos eles, espaços que rotineiramente ou em alguns poucos episódios marcaram a história dos trabalhadores no Brasil, em alguma região ou mesmo em uma pequena comunidade.

A seção Lugares de Memória dos Trabalhadores é coordenada por Larissa Farias, Paulo Fontes, Vinicius Rosalvo e Yasmin Getirana.


LdC #57: Greve de massas e crise política: estudo da greve dos 300 mil em SP, por Fernando Sarti


Livros de Classe é uma série mensal do portal do LEHMT-UFRJ, na qual especialistas apresentam obras fundamentais para a História dos Mundos do Trabalho e para a formação intelectual dos pesquisadores da área.

Neste episódio, Fernando Sarti, pesquisador de pós-doutorado na Unicamp, apresenta o livro “Greve de massa e crise política: Estudo sobre a greve dos 300 mil em São Paulo (1953-54)”, de José Álvaro Moisés. A obra é resultado da pesquisa de mestrado realizada na Universidade de Essex, no Reino Unido, defendida em 1972, e tornou-se um dos estudos clássicos e dos mais controversos sobre a história do movimento operário brasileiro. Com esse episódio, o LEHMT-UFRJ homenageia José Álvaro Moisés, falecido recentemente de maneira trágica.

Livros de Classe

Os estudantes de graduação são desafiados constantemente a elaborar uma percepção analítica sobre os diversos campos da história. Nossa série Livros de Classe procura refletir justamente sobre esse processo de formação, trazendo obras que são emblemáticas para professores/as, pesquisadores/as e atores sociais ligados à história do trabalho. Em cada episódio, um/a especialista apresenta um livro de impacto em sua trajetória, assim como a importância da obra para a história social do trabalho. Em um formato dinâmico, com vídeos de curtíssima duração, procuramos conectar estudantes a pessoas que hoje são referências nos mais diversos temas, períodos e locais nos mundos do trabalho, construindo, junto com os convidados, um mosaico de clássicos do campo.

A seção Livros de Classe é coordenada por Ana Clara Tavares.